Retorno a Teerã após o colapso do acordo de junho
O chefe do Exército do Paquistão, marechal de campo Asim Munir, deve chegar a Teerã na terça-feira, 20 de outubro de 2026, para conversas destinadas a reavivar a diplomacia entre Irã e Estados Unidos, mais de três meses após o colapso de um acordo de paz mediado por Islamabad. A visita leva de volta ao centro de uma disputa sobre garantias de segurança e a passagem pelo Estreito de Ormuz o principal negociador militar do Paquistão.
Conteúdo
- Retorno a Teerã após o colapso do acordo de junho
- O que o memorando de Islamabad pretendia alcançar
- Como a iniciativa diplomática chegou a este ponto
- Por que o Estreito de Ormuz continua sendo central
- Paquistão e Catar mantêm canais indiretos abertos
- Visita de Lavrov acrescenta outro canal diplomático
- Compromissos de defesa com a Arábia Saudita complicam o papel do Paquistão
- Comércio fronteiriço dá à visita um interesse local imediato
- Principais pontos
Um funcionário paquistanês afirmou que Munir deveria fazer a viagem, também mencionada pela mídia iraniana na segunda-feira, 19 de outubro. O Paquistão não havia anunciado publicamente a visita. A agenda prevista inclui reuniões com autoridades iranianas sobre mediação, cooperação bilateral e segurança regional.
Munir ajudou a negociar o Memorando de Entendimento de Islamabad, em junho, que estabeleceu um marco para novas conversas entre Washington e Teerã. O acordo ruiu em julho. Os combates no Estreito de Ormuz e nas áreas próximas continuaram, enquanto as negociações permaneceram paralisadas.
A viagem ocorre em um momento difícil para Islamabad. O Paquistão tenta preservar o acesso à liderança iraniana enquanto cumpre compromissos de defesa com a Arábia Saudita, onde ataques do movimento Houthi, apoiado pelo Irã, mataram civis. O Paquistão também suspendeu recentemente o comércio por duas importantes passagens de fronteira com o Irã, acrescentando um problema econômico imediato à agenda diplomática.
As reuniões de terça-feira vêm após conversas realizadas no início do verão entre Munir e líderes iranianos sobre como evitar uma nova escalada, reabrir o estreito e encerrar o conflito mais cedo. As mesmas questões práticas agora estão diante da iniciativa de mediação: como reduzir os combates, restabelecer o acesso marítimo e fazer com que um novo acordo dure.
O que o memorando de Islamabad pretendia alcançar
O memorando de junho criou um marco para negociações, não um acordo definitivo. As discussões previstas abrangiam questões nucleares, sanções e mecanismos para administrar disputas, além das questões de segurança geradas pela guerra.
Um acordo-quadro define o que os governos negociarão e como pretendem conduzir o processo. O trabalho mais difícil é decidir quais obrigações detalhadas cada lado aceitará, em que ordem elas entrarão em vigor e o que acontecerá se um dos governos acusar o outro de descumprir suas promessas.
Washington e Teerã divergiram posteriormente sobre garantias de segurança e regras para a navegação pelo Estreito de Ormuz. Garantias de segurança são compromissos destinados a tranquilizar um governo de que aceitar um acordo o deixará mais seguro. As regras de navegação dizem respeito à possibilidade de os navios passarem, em que condições e com que proteção.
A iniciativa diplomática anterior do Paquistão já havia mostrado como era difícil transformar uma pausa nos combates em um acordo. Durante as conversas de abril em Islamabad, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, negociaram por 21 horas, nos dias 11 e 12 de abril, sem chegar a um acordo. O memorando de junho representou uma etapa posterior, seguida por outro colapso.
Como a iniciativa diplomática chegou a este ponto
O Paquistão permaneceu envolvido em sucessivas rodadas de diplomacia, em vez de entrar no processo apenas por causa da visita de terça-feira. A sequência também mostra como acontecimentos fora da mesa de negociação complicaram as tentativas de retomar as conversas.
- Fevereiro de 2026: Começou o conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã.
- 11 e 12 de abril: Representantes de alto escalão dos Estados Unidos e do Irã conversaram em Islamabad, mas terminaram sem acordo.
- Junho: Washington e Teerã assinaram o Memorando de Entendimento de Islamabad, mediado pelo Paquistão.
- Julho: O acordo provisório de paz ruiu, e as divergências sobre segurança e navegação continuaram.
- 5 de outubro: A Operação Amanhecer do Iêmen começou em meio aos combates entre o governo iemenita reconhecido internacionalmente e os Houthis.
- 19 de outubro: A visita planejada de Munir a Teerã foi noticiada enquanto o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, também se reunia na capital iraniana.
- 20 de outubro: Munir deve se reunir com autoridades iranianas.
As conversas do verão dão a indicação mais clara das prioridades imediatas: evitar um conflito mais amplo, reabrir o Estreito de Ormuz e encerrar as hostilidades mais cedo. A visita de terça-feira retoma esses objetivos ainda não alcançados.
Por que o Estreito de Ormuz continua sendo central
O Estreito de Ormuz conecta os exportadores de energia do Golfo às rotas marítimas internacionais. Cerca de um quinto do petróleo mundial normalmente passa pelo estreito canal entre o Irã e Omã, o que faz com que qualquer interrupção ali preocupe importadores de combustíveis muito além dos países em guerra.
As reuniões de Munir no início do verão trataram explicitamente da reabertura do estreito. A disputa em curso envolve tanto a segurança física das embarcações quanto as regras que regem sua passagem. Uma empresa de transporte marítimo precisa de uma rota que possa usar de forma confiável antes de comprometer suas tripulações e cargas com uma viagem.
Para quem está fora da região, a relação é direta: a interrupção do transporte de energia pode tornar o abastecimento de combustíveis menos previsível e pressionar os custos de transporte e produção. Para os governos envolvidos nas negociações, restabelecer a navegação também está ligado ao acordo mais amplo de segurança, pois a navegação continua exposta enquanto as hostilidades prosseguem.
Uma proposta sobre Ormuz e um período de sete dias está em discussão, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, recebeu a resposta de Washington no fim de setembro. Os termos da proposta, o possível papel de Munir na transmissão de uma nova resposta e qualquer data para a retomada das negociações não foram especificados publicamente.
Paquistão e Catar mantêm canais indiretos abertos
Munir é parte de uma iniciativa diplomática paquistanesa mais ampla. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif, o ministro das Relações Exteriores Ishaq Dar e o ministro do Interior Mohsin Naqvi também trocaram mensagens com a liderança iraniana em busca de uma paz duradoura.
O Paquistão tem trabalhado ao lado do Catar e de outros parceiros regionais para manter a comunicação entre Washington e Teerã. Autoridades iranianas descrevem o Paquistão como o principal mediador, e mensagens também são transmitidas pelo Catar.
A diplomacia indireta permite que governos se comuniquem por meio de outro país quando encontros diretos são difíceis. Um mediador leva propostas, busca esclarecimentos e transmite respostas. Esse trabalho pode continuar mesmo quando as negociações formais são interrompidas, oferecendo a cada lado uma maneira de explorar possíveis termos.
O envolvimento de Munir insere um militar de alto escalão nesse processo, ao lado dos canais diplomáticos civis. As conversas anteriores que teve com líderes iranianos dão continuidade, nas reuniões previstas para terça-feira, à iniciativa do verão.
Visita de Lavrov acrescenta outro canal diplomático
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, reuniu-se na segunda-feira com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, um dia antes da chegada prevista de Munir. A Presidência iraniana informou que Pezeshkian saudou iniciativas envolvendo países da região em prol da paz, da segurança e do desenvolvimento e defendeu que os problemas regionais fossem resolvidos por meio do diálogo, e não de ações militares.
Pezeshkian também atribuiu as tensões regionais à interferência e à presença militar dos Estados Unidos. Sua posição combina críticas a Washington com a disposição declarada de considerar iniciativas diplomáticas de países da região.
As visitas em dias consecutivos colocam autoridades russas e paquistanesas em Teerã num curto intervalo, cada uma com uma relação diferente com o conflito. A tarefa imediata do Paquistão continua sendo levar propostas entre o Irã e os Estados Unidos, enquanto discute sua própria relação de segurança com Teerã.
Compromissos de defesa com a Arábia Saudita complicam o papel do Paquistão
A iniciativa de mediação do Paquistão agora ocorre em paralelo a um compromisso cada vez mais urgente com a segurança saudita. Ataques de mísseis e drones dos Houthis tiveram como alvo instalações sauditas de energia e aviação durante outubro, enquanto os combates se intensificavam no Iêmen.
A Autoridade Geral de Aviação Civil da Arábia Saudita informou que o ataque de 10 de outubro ao Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, deixou 12 mortos e mais de 300 feridos; outro balanço divulgado apontou 13 mortos. Dar afirmou que seis cidadãos paquistaneses estavam entre os feridos.
O envio de tropas paquistanesas para a defesa saudita ocorre após um acordo bilateral de defesa assinado em setembro de 2025 e o Acordo Conjunto de Defesa de Meca, firmado com a Arábia Saudita e a Turquia em agosto de 2026. Em 5 de outubro, os três governos concordaram em mobilizar rapidamente forças e capacidades nos termos do último acordo.
Islamabad descreveu sua contribuição como defensiva, enquanto as forças sauditas conduzem operações de combate. Ao mesmo tempo, a coalizão que apoia o governo iemenita reconhecido internacionalmente forneceu apoio aéreo à Operação Amanhecer do Iêmen, que busca recuperar territórios controlados pelos Houthis.
Assim, o Paquistão tem duas tarefas exigentes ao mesmo tempo: ajudar a proteger um parceiro de defesa e manter uma relação funcional com o Irã, que apoia os Houthis. Esses compromissos fazem da segurança regional uma questão concreta na agenda de Munir em Teerã.
Comércio fronteiriço dá à visita um interesse local imediato
Paquistão e Irã também enfrentam problemas que afetam empresas e comunidades ao longo da fronteira compartilhada. A suspensão do comércio na fronteira entre Irã e Paquistão, determinada por Islamabad em 16 de outubro, interrompeu o fluxo comercial pelas passagens de Gabd-Rimdan e Taftan, enquanto a circulação de passageiros continuou em Gabd-Rimdan.
Segundo relatos, a rota interrompida transportava mais de 4 mil toneladas de gás liquefeito de petróleo por dia. Ayoub Miryani, ex-presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Quetta, afirmou que mais de 2 mil contêineres estavam retidos em Gabd-Rimdan. Os comerciantes enfrentavam atrasos nas entregas, capital imobilizado nas cargas e risco de perdas com produtos perecíveis.
Autoridades paquistanesas citaram questões de segurança, esforços para conter o contrabando e mudanças na administração da fronteira. Esmail Baqaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, mencionou problemas técnicos e medidas de precaução; autoridades dos dois países estavam em consulta para restabelecer as operações normais.
A cooperação bilateral está na agenda prevista de Munir, junto com preocupações compartilhadas sobre a estabilidade do Afeganistão, o terrorismo e as conexões energéticas regionais. Para as comunidades fronteiriças, o avanço nas relações tem significado imediato: viagens mais seguras, passagens em funcionamento e circulação de alimentos e combustíveis.
Principais pontos
- O marechal de campo Asim Munir deve chegar a Teerã em 20 de outubro para conversar sobre a mediação do Paquistão entre o Irã e os Estados Unidos.
- O memorando de Islamabad de junho criou um marco para as negociações, mas o acordo de paz ruiu em julho.
- As garantias de segurança e a navegação pelo Estreito de Ormuz continuam sendo pontos centrais de divergência.
- Paquistão e Catar continuam transmitindo mensagens entre Washington e Teerã.
- Os compromissos de defesa do Paquistão com a Arábia Saudita e a suspensão do comércio fronteiriço com o Irã aumentam a pressão sobre a relação bilateral.






