Espaços de coliving exclusivos para mulheres florescem na China, oferecendo segurança e comunidade
A crescente demanda por comunidades exclusivas para mulheres reflete mudanças nas atitudes sociais e a busca delas por segurança, independência e apoio.
Na província de Zhejiang, no leste da China, uma nova tendência está ganhando força: mulheres estão se reunindo em espaços rurais de coliving projetados exclusivamente para elas. Essas comunidades, como o Keke's Imaginative Space, perto de Hangzhou, tornaram-se refúgios onde mulheres podem escapar das pressões sociais, do assédio no trabalho e das expectativas dos papéis familiares tradicionais. O crescimento desses ambientes exclusivos para mulheres marca uma mudança significativa na sociedade chinesa, à medida que cada vez mais mulheres buscam espaços onde possam se sentir seguras, acolhidas e livres para serem quem são.
Conteúdo
- Espaços de coliving exclusivos para mulheres florescem na China, oferecendo segurança e comunidade
- A crescente demanda por comunidades exclusivas para mulheres reflete mudanças nas atitudes sociais e a busca delas por segurança, independência e apoio.
- Por que estão surgindo espaços exclusivos para mulheres na China?
- Dentro das comunidades: rotina e atividades
- O papel das redes sociais e da independência econômica
- Enfrentando críticas e equívocos
- Impacto social mais amplo e perspectivas futuras
- Principais pontos
No Keke's Imaginative Space, risadas e conversas preenchem o ambiente enquanto as mulheres preparam pães cozidos no vapor juntas em uma cozinha com vista para as montanhas. Por uma modesta diária — cerca de 30 yuans (aproximadamente US$ 4,17) —, as participantes desfrutam não apenas de hospedagem, mas também de um sentimento de pertencimento e alívio do julgamento alheio. A fundadora, Chen Yani, conhecida como Keke, criou o espaço depois de sofrer assédio de homens no trabalho, o que a impedia de trabalhar com tranquilidade. Sua ideia era construir um ambiente descontraído e seguro, onde mulheres pudessem trabalhar, descansar e se conectar sem receio.
Essas comunidades não são casos isolados. Em toda a China, cresce a procura por espaços separados por gênero, que vão de bares e academias a hostels e espaços de coworking. As mulheres estão usando sua crescente independência econômica e as oportunidades de educação para priorizar o próprio bem-estar e explorar estilos de vida alternativos. As redes sociais, em particular o Xiaohongshu (também conhecido como Rednote), têm desempenhado um papel fundamental ao conectar mulheres a essas novas possibilidades e ajudá-las a encontrar comunidades com interesses semelhantes.
Por que estão surgindo espaços exclusivos para mulheres na China?
O surgimento de espaços de coliving exclusivos para mulheres na China tem raízes em uma complexa combinação de fatores sociais, econômicos e culturais. Muitas mulheres enfrentam desafios persistentes, como discriminação no trabalho, assédio sexual e o peso das expectativas familiares tradicionais. No âmbito familiar, muitas vezes espera-se que as mulheres cuidem dos filhos e dos avós e administrem as tarefas domésticas, enquanto mantêm suas responsabilidades profissionais. Essas pressões podem fazer com que se sintam isoladas e sobrecarregadas.
Para Chen Yani, o impulso veio de uma experiência pessoal. Ela disse a jornalistas:
Sofri assédio de homens em diferentes graus, a ponto de muitas vezes não conseguir trabalhar normalmente. Comecei a pensar em como seria um ambiente de trabalho seguro e descontraído — um lugar onde eu não me sentisse apreensiva.
Sua solução foi reformar uma casa em Lin'an, nos arredores de Hangzhou, e convidar mulheres para ficar com ela durante o feriado do Ano-Novo Chinês. Doze mulheres compareceram em busca de tranquilidade, convivência e liberdade das expectativas sociais. Algumas queriam mudar de ares, enquanto outras esperavam escapar das perguntas invasivas de parentes sobre casamento e filhos.
A participante Zhang Wenjing, de 43 anos, descreveu o que torna esses espaços atraentes:
Um ambiente só de mulheres me faz sentir segura. Entre mulheres, conversamos com mais facilidade sobre certos assuntos.
Outra participante, Chen Fangyan, de 28 anos, destacou a sensação de conforto físico:
Não ser obrigada a usar sutiã já é uma forma de liberdade.
Esses comentários refletem um desejo mais amplo entre as mulheres chinesas por ambientes onde possam relaxar, falar abertamente e deixar de lado os papéis impostos pela família e pela sociedade.
Dentro das comunidades: rotina e atividades
Os espaços de coliving exclusivos para mulheres na China são projetados para promover o senso de comunidade e o apoio mútuo. No Keke's Imaginative Space, o ambiente é animado e acolhedor. As mulheres jogam jogos de tabuleiro, tomam café e compartilham refeições. Os móveis rústicos e a caligrafia nas paredes dão ao imóvel o clima de um hotel boutique, enquanto a natureza ao redor oferece um refúgio tranquilo longe da vida urbana.
As participantes pagam uma diária, que aumenta depois de vários dias para incentivar estadias curtas e manter a comunidade dinâmica. Alguns espaços, como o Her Space, na vila de Xiuxi, exigem uma taxa de adesão de 3.980 yuans (cerca de US$ 550). Mais de 120 mulheres já se inscreveram, atraídas pela promessa de um refúgio espiritual e de um lugar a que recorrer em momentos difíceis.
Yang Yun, fundadora do Her Space, explicou sua motivação:
A ideia era garantir que as mulheres sempre tivessem um lugar para ir. Se uma mulher perder o emprego ou os pais, brigar com o marido ou se sentir esgotada pela vida na cidade, ela sabe que pode vir para cá e encontrar um pouco de acolhimento.
Essas comunidades não se limitam à segurança física. Elas oferecem apoio emocional, oportunidades de crescimento pessoal e a chance de redescobrir a conexão com a natureza. As atividades muitas vezes incluem cozinhar em grupo, fazer trilhas e participar de oficinas criativas. A ausência de homens permite que as participantes conversem livremente sobre assuntos íntimos e apoiem umas às outras com base em experiências compartilhadas.
O papel das redes sociais e da independência econômica
As redes sociais têm desempenhado um papel decisivo no crescimento dos espaços exclusivos para mulheres na China. Plataformas como o Xiaohongshu (Rednote) permitem que elas compartilhem experiências, descubram estilos de vida alternativos e se conectem com outras mulheres em busca de comunidades semelhantes. Essas redes online facilitaram a organização de eventos, a atração de novas integrantes e a divulgação de espaços seguros.
A crescente independência econômica das mulheres é outro fator que impulsiona essa tendência. À medida que mais mulheres buscam ensino superior e carreiras profissionais, elas passam a ter mais recursos financeiros e autonomia para escolher onde morar. Essa mudança ampliou as opções disponíveis e permite que priorizem as próprias necessidades e o bem-estar.
Yuan Xiaoqian, de 29 anos, participante de uma dessas comunidades, observou:
A crescente independência econômica das mulheres, assim como as oportunidades de educação, amplia o leque de opções. Elas podem se concentrar mais em si mesmas e em novas necessidades.
Essa nova independência se reflete na crescente procura por espaços de convivência separados por gênero, não apenas em áreas rurais, mas também nos centros urbanos. Em Pequim, Lilith Jiang fundou o Half the Sky, um espaço cultural exclusivo para mulheres que buscam um estilo de vida não tradicional. Jiang acredita que esses locais preenchem uma lacuna social, oferecendo às mulheres oportunidades de conviver e apoiar umas às outras fora das estruturas familiares tradicionais.
Enfrentando críticas e equívocos
O crescimento das comunidades exclusivas para mulheres na China não ocorreu sem controvérsias. Críticos argumentam que espaços separados por gênero fomentam a hostilidade entre homens e mulheres e podem contribuir para a divisão social. Alguns homens acusaram essas comunidades de promover "ódio aos homens", enquanto outros questionam se elas são necessárias em uma sociedade moderna.
Organizadoras e participantes rejeitam veementemente essas acusações. Chen Yani ressaltou que o objetivo não é excluir os homens nem incentivar a hostilidade, mas criar ambientes onde as mulheres possam se sentir seguras e compreendidas. Ela explicou:
As mulheres constituem um grupo social com trajetórias de vida e problemas em comum. Muitas vezes, é mais fácil que se compreendam e demonstrem empatia umas pelas outras.
Da mesma forma, Yang Yun, do Her Space, destacou a importância de oferecer um lugar onde mulheres possam encontrar apoio, independentemente das circunstâncias. A existência dessas comunidades, argumentou, dá às mulheres força mental e uma sensação de segurança.
Lilith Jiang, fundadora do Half the Sky, observou que os homens têm muitas oportunidades de socializar, seja bebendo, praticando esportes ou participando de outras atividades. As mulheres, por outro lado, muitas vezes não dispõem de espaços semelhantes. Ela sugeriu que formas não tradicionais de moradia poderiam oferecer uma solução para mulheres solteiras preocupadas em envelhecer sozinhas:
As mulheres ouvem o tempo todo: se você não se casar, o que será de você quando ficar mais velha? Mas espaços de coliving compartilhados e exclusivos para mulheres, onde elas possam envelhecer juntas, poderiam ser uma solução a longo prazo.
Essas perspectivas destacam as intenções positivas por trás das comunidades exclusivas para mulheres e seu papel no atendimento de necessidades sociais não contempladas.
Impacto social mais amplo e perspectivas futuras
A expansão dos espaços de coliving exclusivos para mulheres na China reflete mudanças mais amplas na sociedade chinesa. À medida que conquistam mais poder econômico e acesso à educação, as mulheres desafiam os papéis tradicionais de gênero e buscam novas formas de viver e se conectar. A popularidade dessas comunidades indica um reconhecimento crescente dos direitos das mulheres à segurança, à autonomia e à livre expressão.
Embora a maioria desses espaços ainda não seja lucrativa, fundadoras como Chen Yani estão otimistas quanto ao futuro. A demanda por ambientes seguros e acolhedores é grande, e o senso de comunidade que oferecem é valioso para muitas mulheres. Com a evolução contínua das atitudes sociais, é provável que mais mulheres procurem ou criem espaços semelhantes, tanto na China quanto em outras partes do mundo.
Observadores internacionais destacaram a importância dessa tendência. Na África do Sul, por exemplo, comentaristas sugeriram que espaços de moradia exclusivos para mulheres poderiam oferecer benefícios semelhantes, servindo de refúgio em uma sociedade dominada por homens e promovendo o apoio mútuo entre mulheres. A experiência chinesa mostra que, quando têm recursos e liberdade para escolher onde morar, as mulheres podem criar comunidades que atendem às suas necessidades e aspirações específicas.
Principais pontos
- Espaços de coliving exclusivos para mulheres estão se tornando mais populares em toda a China, especialmente na província de Zhejiang e em grandes cidades como Pequim.
- Essas comunidades oferecem segurança, apoio mútuo e alívio das pressões sociais e do assédio no trabalho.
- A fundadora Chen Yani criou o Keke's Imaginative Space após sofrer assédio, com o objetivo de oferecer às mulheres um ambiente seguro e descontraído.
- Redes sociais como o Xiaohongshu (Rednote) ajudaram mulheres a descobrir essas comunidades e a se juntar a elas.
- Críticos argumentam que esses espaços causam divisão, mas as organizadoras afirmam que eles promovem empatia e compreensão e atendem às necessidades das mulheres.
- A crescente independência econômica e as oportunidades de educação para as mulheres são fatores fundamentais por trás dessa tendência.
- Espaços exclusivos para mulheres são vistos como possíveis soluções para mulheres solteiras preocupadas em envelhecer sozinhas, oferecendo comunidade e apoio a longo prazo.






