A monocultura do milho na Tailândia: como a demanda global por carne está transformando paisagens, meios de vida e o meio ambiente

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Premium Photo | Maize plants are grown in thailand.

Introdução: o boom do milho e suas consequências

Nas montanhas enevoadas do norte da Tailândia, as encostas de Doi Inthanon, antes cobertas por florestas, foram transformadas. Onde os moradores costumavam colher cogumelos silvestres e criar búfalos, agora se estendem vastas plantações de milho pelos vales e colinas. Essa transformação não é exclusiva da Tailândia; ela se repete por toda a bacia do Mekong, do estado de Shan, em Mianmar, ao norte do Laos. No centro dessa mudança está um único e poderoso fator: o apetite global por carne e o milho necessário para alimentar os animais criados para produzi-la.

Conteúdo
  1. Introdução: o boom do milho e suas consequências
  2. Das florestas às plantações: a ascensão da monocultura do milho
  3. Impactos ambientais: fumaça tóxica, desmatamento e mudanças climáticas
  4. Fumaça transfronteiriça: uma crise regional
  5. Impactos socioeconômicos: agricultores presos em ciclos de dívida e dependência
  6. O papel do agronegócio: poder, lucros e compromissos
  7. Políticas governamentais: avanços e obstáculos
  8. Saúde e clima: o argumento a favor da diversificação de proteínas
  9. Fortalecimento de agricultores e comunidades: rumo a soluções sustentáveis
  10. Contexto regional e global: a relação entre milho e carne na Ásia
  11. Resumo

A Tailândia é a maior produtora de proteína do Sudeste Asiático e a principal exportadora mundial de frango processado. Mas a ascensão do país como potência da carne teve um alto custo para o meio ambiente, as comunidades rurais e a saúde pública. A história do milho na Tailândia é uma história de monocultura, agricultura industrial e da complexa rede de impactos econômicos, sociais e ambientais que se segue.

Das florestas às plantações: a ascensão da monocultura do milho

O milho é hoje a quarta cultura mais plantada na Tailândia, com mais de 7 milhões de rai (cerca de 1,1 milhão de hectares) dedicados ao cultivo, principalmente no norte e no nordeste do país. Essa expansão foi rápida e marcante. Segundo o Greenpeace, entre 2015 e 2023, 1,88 milhão de hectares de floresta na bacia do Mekong foram convertidos para o cultivo de milho, em grande parte na Tailândia, em Mianmar e no Laos. A grande maioria desse milho não se destina ao consumo humano, mas à alimentação animal, principalmente de frangos e porcos.

A transição para a monocultura do milho foi impulsionada por vários fatores:

  • O aumento da demanda global e regional por carne, especialmente aves e suínos
  • Políticas governamentais que promovem o milho como cultura comercial
  • A expansão de grandes empresas do agronegócio em busca de fontes confiáveis de ração
  • Programas de agricultura por contrato que vinculam pequenos produtores à cadeia de fornecimento do milho

Historicamente, essas áreas de altitude eram mosaicos de florestas, arrozais e diferentes culturas. Mas, à medida que o consumo de carne na Ásia disparou — com previsão de aumento de 78% até 2050 —, também cresceu a demanda por ração animal. Na Tailândia, o consumo de carne per capita quase dobrou desde 1990, e tendências semelhantes são observadas na China, no Vietnã e na Indonésia.

Com isso, o milho se tornou a base da pecuária da região. Mas essa transformação teve um custo: desmatamento, degradação do solo e perda dos meios de subsistência tradicionais.

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Impactos ambientais: fumaça tóxica, desmatamento e mudanças climáticas

Os impactos ambientais da monocultura do milho são graves e variados. A consequência mais visível — e mortal — é a crise anual de fumaça tóxica que encobre o norte da Tailândia e os países vizinhos de janeiro a abril. Essa fumaça é causada em grande parte pela queima dos restos da plantação após a colheita, uma prática que limpa os campos para o próximo plantio, mas libera enormes quantidades de partículas finas (PM2.5) no ar.

Segundo a Green Queen Media, a queima agrícola é a maior fonte de PM2.5 na Tailândia, fazendo com que os níveis de poluição do ar durante a temporada de queimadas cheguem a três vezes o limite nacional. O impacto sobre a saúde é enorme: estima-se que 34 mil mortes prematuras por ano estejam ligadas à poluição do ar provocada pela queima de lavouras; se as tendências atuais continuarem, esse número poderá chegar a 361 mil até 2050.

Mas a fumaça é apenas parte do problema. A conversão de florestas em plantações de milho levou a:

  • Perda de biodiversidade e de habitats de animais silvestres
  • Aumento do risco de enchentes e deslizamentos de terra, como mostram desastres recentes em Chiang Mai e Chiang Rai
  • Erosão do solo e queda da fertilidade, que reduzem a produtividade da terra ao longo do tempo
  • Liberação de gases de efeito estufa, que contribuem para as mudanças climáticas

Estudos científicos quantificaram esses impactos. Por exemplo, uma pesquisa publicada pela Springer constatou que a produção de milho na Tailândia emite, em média, 429 kg de CO2 equivalente por tonelada de grãos, com as emissões mais altas durante a estação seca. O uso de fertilizantes químicos e a queima de resíduos das lavouras agravam ainda mais as emissões e a degradação ambiental.

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Fumaça transfronteiriça: uma crise regional

O problema da fumaça não se restringe à Tailândia. Dados de satélite analisados pelo Greenpeace e por outras organizações mostram que mais de 40% da fumaça transfronteiriça na região do baixo Mekong vem de incêndios em plantações industriais de milho. Durante a crise de fumaça de 2023, a qualidade do ar em Chiang Mai esteve entre as piores do mundo, e milhares de pessoas foram hospitalizadas com problemas respiratórios. A fumaça atravessa fronteiras, afetando o Laos, Mianmar e até partes do sul da China.

Entre as medidas para enfrentar a crise estão acordos regionais e a criação de linhas telefônicas diretas entre Tailândia, Laos e Mianmar. No entanto, especialistas e ativistas argumentam que essas medidas não garantem responsabilização e não enfrentam as causas fundamentais do problema: o domínio das grandes empresas do agronegócio, a falta de rastreabilidade nas cadeias de fornecimento e as pressões econômicas que levam os agricultores a queimar os campos.

Impactos socioeconômicos: agricultores presos em ciclos de dívida e dependência

Embora o boom do milho tenha enriquecido grandes empresas do agronegócio, muitos pequenos produtores ficaram em situação precária. No norte da Tailândia, programas de agricultura por contrato frequentemente vinculam os agricultores a intermediários e grandes empresas, que fornecem sementes e insumos, mas também determinam preços e condições. Com a queda da fertilidade do solo e o aumento dos custos dos insumos, muitos agricultores se veem presos em ciclos de endividamento.

Estudos que utilizaram a ferramenta de Avaliação da Sustentabilidade dos Sistemas Agrícolas e Alimentares (SAFA, na sigla em inglês) da FAO concluíram que o sistema de agricultura por contrato na monocultura de milho em áreas de altitude é socialmente insustentável. Os agricultores relatam queda na renda, falta de poder de negociação e dependência crescente de insumos químicos. Segundo o Banco Mundial, 79% da população pobre da Tailândia vive em áreas rurais, e a renda agrícola vem caindo de forma persistente na última década.

Como disse um agricultor do distrito de Mae Chaem: “Não conseguimos imaginar os próximos cinco ou 10 anos, só este ano: como vamos sobreviver.”

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O papel do agronegócio: poder, lucros e compromissos

A indústria tailandesa de carne e ração animal é dominada por um pequeno grupo de conglomerados, entre eles o Charoen Pokphand (CP) Group, a Betagro e a Cargill. Essas empresas controlam a maior parte da produção de carne de frango e da fabricação de ração animal no país. O CP Group, sozinho, é o maior produtor de ração animal do mundo, com operações em 17 países.

Embora essas empresas tenham anunciado publicamente compromissos de obter milho de forma sustentável e evitar compras em áreas associadas ao desmatamento ou à queima, a fiscalização e a transparência continuam limitadas. Por exemplo, a CP Foods afirma usar tecnologia de satélite para monitorar queimadas e alertar agricultores, mas menos da metade de seu milho tem rastreabilidade completa. A Betagro informa ter rastreabilidade de 100% até os fornecedores e os países de origem, mas a cobertura das áreas de cultivo é apenas parcial.

Ativistas como Rattanasiri Kittikongnapang, do Greenpeace do Sudeste Asiático, argumentam que a responsabilização efetiva exige transparência total e acesso público aos dados das cadeias de fornecimento. Sem isso, os consumidores não têm como saber se os alimentos que compram estão associados a danos ambientais.

Políticas governamentais: avanços e obstáculos

O governo tailandês tomou algumas medidas para enfrentar a crise. Entre elas:

  • Estabelecer um preço mínimo para o milho, protegendo os agricultores das oscilações do mercado
  • Exigir que as fábricas de ração priorizem o milho produzido localmente
  • Promover culturas alternativas e práticas agrícolas sustentáveis em áreas propensas a queimadas
  • Propor a proibição de importações de milho proveniente de terras onde houve queimadas

No entanto, essas políticas muitas vezes emitem sinais contraditórios. Enquanto os mecanismos de sustentação de preços incentivam a continuidade do cultivo de milho, os esforços para promover a diversificação de culturas e reduzir as queimadas recebem poucos recursos e são aplicados de forma inconsistente. Um projeto de lei sobre ar limpo, que estabeleceria padrões de qualidade do ar e regulamentaria as fontes de poluição, ainda não foi aprovado.

Especialistas afirmam que são necessárias abordagens mais abrangentes, incluindo:

  • Apoiar a transição dos agricultores para culturas alternativas de alto valor, como café, macadâmia e abacate
  • Criar programas de pousio remunerado, que compensem os agricultores por deixar terras em descanso para recuperar a saúde do solo
  • Desenvolver um mercado de carbono para recompensar agricultores que reflorestem terras e capturem carbono
  • Fortalecer as relações diretas entre agricultores e empresas para garantir preços justos e apoio técnico
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Saúde e clima: o argumento a favor da diversificação de proteínas

Além dos impactos ambientais e sociais imediatos, a relação entre milho e carne tem profundas implicações para a saúde pública e as mudanças climáticas. A queima de plantações de milho é uma das principais fontes de poluição por PM2.5, que causa doenças respiratórias e cardiovasculares, asma e mortes prematuras. O norte da Tailândia tem as maiores taxas do país de câncer de pulmão e mortalidade relacionada à poluição do ar.

Em termos climáticos, a pecuária é uma grande fonte de emissões de gases de efeito estufa, tanto pela produção de ração quanto pela criação de animais. Estudos mostram que a produção de ração animal na Tailândia emite centenas de quilos de CO2 equivalente por tonelada, tendo o milho e o farelo de soja como principais responsáveis.

Pesquisas recentes da Madre Brava e da Asia Research Engagement indicam que a substituição de apenas 50% da produção de carne e frutos do mar por proteínas de origem vegetal até 2050 poderia:

  • Evitar mais de 100 mil mortes prematuras causadas pela poluição do ar
  • Criar 1,3 milhão de novos empregos e acrescentar US$ 37 bilhões em valor econômico
  • Reduzir em 79% as emissões nacionais de gases de efeito estufa
  • Poupar até 2,17 milhões de hectares de terras agrícolas, reduzindo a pressão sobre as florestas

Essa transição exigiria ações coordenadas de governos, empresas e consumidores, incluindo apoio financeiro aos agricultores, incentivos à produção de alimentos de origem vegetal e a oferta de refeições à base de plantas em escolas e hospitais por meio de compras públicas.

Fortalecimento de agricultores e comunidades: rumo a soluções sustentáveis

Muitos especialistas e ativistas argumentam que a solução para a crise do milho está em fortalecer os agricultores e devolver autonomia às comunidades. Isso significa ir além de medidas punitivas contra as queimadas e oferecer alternativas concretas e apoio. A rotação de culturas, os programas de pousio remunerado e a diversificação econômica liderada pelas comunidades — como a iniciativa OTOP da Tailândia (One Tambon One Product, ou “um produto por subdistrito”) — podem ajudar a reduzir a dependência da monocultura e melhorar as condições de vida no campo.

Movimentos de base e organizações da sociedade civil também estão conscientizando a população e defendendo mudanças. Por exemplo, a World Animal Protection Thailand lançou concursos de arte e campanhas públicas para destacar os custos ambientais do cultivo de milho para ração animal. Enquanto isso, pesquisadores da Universidade de Chiang Mai estudam formas de gerar renda com o sequestro de carbono por meio do reflorestamento, oferecendo aos agricultores uma nova fonte de renda e restaurando os ecossistemas.

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Contexto regional e global: a relação entre milho e carne na Ásia

A história do milho na Tailândia faz parte de uma tendência regional e global mais ampla. Em toda a Ásia, o aumento da renda e a urbanização impulsionaram a transição de dietas tradicionais para padrões de consumo com alto teor de carne. O milho, antes uma cultura secundária, agora é central para o sistema alimentar da região — não como alimento para as pessoas, mas como ração para os animais.

Segundo o USDA, o Sudeste Asiático é hoje a região que mais rapidamente aumenta as importações de ingredientes para ração, como farelo de soja e milho. Países como Vietnã, Indonésia e Malásia estão ampliando rapidamente as importações para atender às necessidades de seus setores pecuários em expansão. Isso tem implicações globais para o uso da terra, o comércio e a sustentabilidade ambiental.

Como observa a Aeon, a ascensão do milho na Ásia segue uma trajetória semelhante à que ocorreu no Ocidente, com todos os benefícios e riscos associados. O desafio agora é aprender com os erros do passado e traçar um caminho mais sustentável.

Resumo

  • A transformação da Tailândia em uma grande exportadora mundial de carne impulsionou uma enorme expansão da monocultura do milho, com graves consequências ambientais, sociais e para a saúde.
  • O cultivo de milho para ração animal é uma das principais causas de desmatamento, poluição por fumaça e emissões de gases de efeito estufa na região do Mekong.
  • Pequenos produtores muitas vezes ficam presos em ciclos de endividamento e dependência, enquanto grandes empresas do agronegócio ficam com os lucros.
  • A queima anual de plantações de milho causa poluição do ar mortal, com dezenas de milhares de mortes prematuras por ano.
  • As medidas adotadas pelo governo e pelo setor para enfrentar a crise têm sido limitadas e muitas vezes contraditórias; são necessárias ações mais firmes em transparência, fiscalização e apoio a alternativas sustentáveis.
  • A transição para proteínas de origem vegetal e o apoio à diversificação de culturas pelos agricultores podem trazer grandes benefícios para a saúde, a economia e o meio ambiente.
  • A cooperação regional e soluções abrangentes, lideradas pelas comunidades, são essenciais para romper o ciclo da monocultura e construir um futuro mais sustentável para a Tailândia e seus vizinhos.
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