Proibição da carne de cachorro na Coreia do Sul: o destino de meio milhão de cães e os desafios pela frente

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South Korean puppy farms under pressure

Proibição histórica da carne de cachorro na Coreia do Sul: um ponto de virada para o bem-estar animal

Em janeiro de 2024, a Assembleia Nacional da Coreia do Sul aprovou por unanimidade uma lei histórica que proíbe a criação, o abate, a venda e a distribuição de cães para consumo humano. A proibição, que entrará plenamente em vigor em fevereiro de 2027, após um período de transição de três anos, marca uma mudança drástica na relação do país com os cães e reflete a evolução dos valores da sociedade. Embora amplamente comemorada por defensores do bem-estar animal, a medida também desencadeou uma série complexa de desafios, sobretudo em relação ao destino incerto dos cerca de meio milhão de cães atualmente criados para consumo e ao sustento das pessoas que dependem do setor.

Conteúdo
  1. Proibição histórica da carne de cachorro na Coreia do Sul: um ponto de virada para o bem-estar animal
  2. Por que a Coreia do Sul proibiu a carne de cachorro?
  3. A dimensão do desafio: o que acontecerá com os cães?
  4. Criadores em situação incerta: impactos econômicos e sociais
  5. Fiscalização e o risco de comércio ilegal
  6. Mudanças culturais e implicações internacionais
  7. Esforços de resgate e o papel da adoção internacional
  8. O que esperar: a proibição será bem-sucedida?
  9. Em resumo

Enquanto o mundo acompanha a transição da Coreia do Sul para longe de uma prática secular, ainda há dúvidas sobre como o país cuidará do bem-estar desses animais, apoiará os criadores afetados e fará cumprir a nova lei. Este artigo explora as origens da proibição, os dilemas logísticos e éticos que ela criou e suas implicações mais amplas para a sociedade coreana e o bem-estar animal no mundo todo.

Por que a Coreia do Sul proibiu a carne de cachorro?

O consumo de carne de cachorro na Coreia do Sul há muito é motivo de debate interno e controvérsia internacional. Historicamente, a carne de cachorro nunca foi um alimento básico da dieta coreana, mas ganhou popularidade no século 20, sobretudo nos meses de verão, quando se acreditava que pratos como Bosintang (sopa de carne de cachorro) aumentavam a disposição. No entanto, com a modernização da Coreia do Sul e o aumento expressivo do número de pessoas que têm animais de estimação — cerca de um quarto dos domicílios tem cães atualmente —, as atitudes do público mudaram radicalmente.

Na década de 2020, pesquisas mostravam que a grande maioria dos sul-coreanos nunca havia comido carne de cachorro e que apenas uma pequena minoria ainda mantinha o hábito. Uma pesquisa do governo realizada em 2024 constatou que apenas 8% dos entrevistados haviam consumido carne de cachorro no ano anterior, ante 27% em 2015. A queda foi especialmente acentuada entre as gerações mais jovens, que cada vez mais veem os cães como membros da família, e não como animais de criação.

Campanhas de defesa do bem-estar animal, tanto no país quanto no exterior, tiveram papel importante na mudança de percepção. Imagens explícitas de criadouros e matadouros de cães circularam amplamente nas redes sociais, provocando indignação e apelos por reformas. O governo respondeu com medidas graduais, como a proibição do abate em público e o fechamento de grandes mercados de carne de cachorro, antes de finalmente aprovar uma proibição abrangente em 2024.

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A dimensão do desafio: o que acontecerá com os cães?

Embora a proibição seja uma vitória para os direitos dos animais, ela criou um desafio logístico sem precedentes: o que fazer com os cerca de 500 mil cães criados para consumo em mais de 1.500 propriedades rurais pelo país. O governo prometeu encontrar novos lares para o maior número possível de animais, oferecendo incentivos financeiros de até 600 mil won (cerca de US$ 450) por cão entregue e destinando aproximadamente 100 bilhões de won (US$ 75 milhões) para apoiar a transição.

Park Beom-su, vice-ministro da Agricultura da Coreia do Sul, destacou o compromisso do governo com o bem-estar animal:

Embora muitos temam que os cães restantes sejam sacrificados ou que muitos deles possam ser abatidos para consumo nos próximos três anos, posso afirmar com certeza que esse não é o nosso plano.

No entanto, organizações de defesa do bem-estar animal e representantes do setor expressaram preocupação com a viabilidade de encontrar novos lares para um número tão grande de animais. Os abrigos de animais da Coreia do Sul já estão superlotados, e há um estigma social associado à adoção de cães de criadouros destinados ao consumo, especialmente de raças maiores, como o tosa inu, classificadas como "perigosas" e sujeitas à exigência de licenças especiais.

Lee Sangkyung, gerente de campanhas da Humane World for Animals Korea, destaca o dilema:

Não há como os abrigos de animais acolherem um número tão grande de cães.

Como resultado, muitos cães enfrentam um futuro incerto, com o risco de eutanásia caso não sejam encontrados lares para eles. Algumas organizações de resgate começaram a enviar cães para outros países, como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, onde as taxas de adoção são mais altas e o estigma é menos acentuado. Em uma operação recente, 50 cães resgatados de uma propriedade rural sul-coreana chegaram aos Estados Unidos para começar uma nova vida, um exemplo da dimensão internacional dos esforços de resgate.

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Criadores em situação incerta: impactos econômicos e sociais

A proibição também mudou a vida de milhares de pessoas que dependiam do setor de carne de cachorro para seu sustento. Muitos criadores, açougueiros e donos de restaurantes se sentem abandonados pelo governo. Eles argumentam que a indenização oferecida é insuficiente e que o período de transição é curto demais para encontrar outras fontes de renda.

O reverendo Joo Yeong-bong, presidente da Associação Coreana de Cães para Consumo, descreve a situação:

As pessoas estão sofrendo. Estamos afundados em dívidas, não conseguimos pagá-las e alguns nem sequer conseguem... encontrar um novo trabalho. É uma situação sem saída.

Alguns criadores ameaçaram resistir à proibição e exigem uma indenização maior — de até 2 milhões de won (US$ 1.500) por cão — e um período de transição mais longo. Outros temem que o comércio passe a operar clandestinamente, dificultando a fiscalização e podendo levar a condições ainda piores para os animais.

O governo respondeu oferecendo não apenas pagamentos diretos pelos cães entregues, mas também empréstimos com juros baixos e programas de requalificação profissional para quem estiver disposto a migrar para outras atividades agrícolas. Mas o processo está cercado de incertezas, e muitos no setor continuam céticos quanto à suficiência do apoio.

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Fiscalização e o risco de comércio ilegal

Fazer cumprir a proibição traz seus próprios desafios. Embora a lei preveja penas rigorosas — até três anos de prisão ou multas de até 30 milhões de won (US$ 22 mil) para quem a violar —, há receio de que alguns criadores tentem reproduzir mais cães no curto prazo para maximizar a indenização ou de que matadouros clandestinos continuem funcionando em segredo.

Os governos locais são encarregados de fiscalizar as propriedades rurais, desmantelar as instalações e garantir o cumprimento da lei, mas os laços estreitos entre autoridades locais e empresários podem dificultar a fiscalização. Grupos de defesa do bem-estar animal pedem supervisão rigorosa e transparência para evitar abusos e garantir que a transição seja humanitária tanto para os animais quanto para as pessoas.

Também há a questão do que acontecerá com os cães se o sistema ficar sobrecarregado. Cho Hee-kyung, presidente da Associação Coreana de Bem-Estar Animal, reconheceu a dura realidade:

Se os cães restantes se tornarem 'animais perdidos e abandonados', será de partir o coração, mas eles serão submetidos à eutanásia.

O governo insiste que a eutanásia não faz parte de seus planos, mas, sem recursos suficientes e disposição do público para adotar, o risco permanece.

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Mudanças culturais e implicações internacionais

A proibição da carne de cachorro não é apenas uma questão legal ou logística: ela reflete mudanças culturais mais profundas na Coreia do Sul. Durante décadas, alguns defenderam o hábito de comer carne de cachorro como parte da tradição e da identidade nacional, sobretudo diante de críticas estrangeiras. No entanto, o crescimento da "cultura dos animais de estimação", as mudanças entre gerações e a influência dos movimentos globais de defesa do bem-estar animal transformaram a opinião pública.

A primeira-dama Kim Keon Hee, conhecida por seu amor pelos animais, tem sido uma defensora proeminente da proibição, e o governo do presidente Yoon Suk Yeol tornou o bem-estar animal uma prioridade política. A medida também foi bem recebida por organizações internacionais, que a veem como um modelo para outros países onde a carne de cachorro ainda é consumida.

A proibição, porém, tem críticos. Alguns argumentam que ela restringe escolhas alimentares pessoais e atinge uma prática minoritária, enquanto ignora o sofrimento de outros animais criados em fazendas. Outros temem um possível aumento do comércio ilegal ou que a demanda seja deslocada para outras carnes, como a de cabra-preta, cujo preço já subiu.

Esforços de resgate e o papel da adoção internacional

Diante da dimensão do desafio, organizações internacionais de resgate têm ajudado. Grupos como a Humane World for Animals e a Humane Society International trabalharam com autoridades coreanas para fechar criadouros e transportar cães resgatados para outros países. Desde 2015, mais de 2.700 cães encontraram novos lares por meio desses esforços, muitos deles com novas famílias na América do Norte e na Europa.

Esses resgates não apenas salvam animais, mas também ajudam a mudar a percepção sobre os cães que sobreviveram a criadouros de animais para consumo, que muitas vezes enfrentam estigma na Coreia do Sul. Daniel Henney, ator coreano-americano e ativista, participou de um resgate recente e adotou uma golden retriever chamada Juliette, usando sua visibilidade para promover a adoção e a compaixão.

Especialistas, porém, alertam que a adoção internacional não é uma solução que possa ser ampliada para atender às centenas de milhares de cães afetados. Segundo eles, o foco deve continuar sendo o desenvolvimento da capacidade interna de resgate, reabilitação e adoção, além da prevenção da reprodução excessiva no futuro.

O que esperar: a proibição será bem-sucedida?

À medida que se aproxima o prazo de 2027, o sucesso da proibição da carne de cachorro na Coreia do Sul dependerá de vários fatores:

  • Fiscalização eficaz da lei e prevenção do comércio ilegal
  • Apoio financeiro e logístico suficiente para criadores e empresas que estão deixando o setor
  • Ampliação da capacidade dos abrigos e disposição do público para adotar cães de antigos criadouros destinados ao consumo
  • Continuidade da educação pública para reduzir o estigma e promover o bem-estar animal
  • Cooperação internacional para apoiar os esforços de resgate e acolhimento em novos lares

O governo criou um comitê dedicado ao tema, com representantes de todas as partes interessadas, para supervisionar a transição e enfrentar os desafios que surgirem. Os próximos anos serão decisivos para determinar se a proibição conseguirá cumprir sua promessa de pôr fim ao comércio de carne de cachorro de forma humanitária e sustentável.

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Em resumo

  • A proibição da carne de cachorro aprovada pela Coreia do Sul em 2024, que entrará em vigor em 2027, representa uma grande mudança na política de bem-estar animal e nas atitudes do público.
  • O destino dos cerca de 500 mil cães criados para consumo continua incerto, e encontrar novos lares para eles, diante da capacidade limitada dos abrigos, é um desafio significativo.
  • Criadores e trabalhadores do setor enfrentam dificuldades econômicas e reivindicam indenizações maiores e apoio para fazer a transição para novas formas de sustento.
  • O governo prometeu incentivos financeiros, requalificação profissional e fiscalização rigorosa, mas persistem preocupações com o comércio ilegal e o risco de eutanásia para os cães que não forem adotados.
  • Esforços internacionais de resgate ajudaram alguns cães a encontrar novos lares no exterior, mas é necessária uma solução interna e sustentável.
  • A proibição reflete mudanças culturais mais amplas na Coreia do Sul e pode influenciar debates sobre bem-estar animal em outros países.
  • Os próximos anos testarão a capacidade do governo de equilibrar a compaixão, a fiscalização e o apoio a todos os afetados pelo fim do comércio de carne de cachorro.
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