1.364 resgates e uma exigência para acabar com os abusos
O Ministério das Relações Exteriores de Bangladesh informou a uma comissão parlamentar que 1.364 trabalhadoras domésticas foram resgatadas e repatriadas da Arábia Saudita, onde cerca de 169 mil mulheres de Bangladesh trabalham. Os números dão dimensão concreta a um problema descrito há anos por mulheres que voltam para casa com salários atrasados, ferimentos graves e relatos de violência dentro das casas dos empregadores.
Conteúdo
- 1.364 resgates e uma exigência para acabar com os abusos
- Uma vaga prometida se transforma em fuga da violência
- O recrutamento cresceu mais rápido que a proteção
- Alertas se estendem de 2007 a 2025
- O que trabalhadoras quenianas relatam sobre as casas sauditas
- Por que telefone e passaporte são importantes
- Regras atualizadas mantêm trabalhadoras domésticas fora da legislação trabalhista
- Justiça e indenização podem levar anos
- As missões de Bangladesh enfrentam falta de capacidade
- Principais pontos
Em uma reunião parlamentar em 25 de outubro, o ministério estimou que de 1% a 2% das trabalhadoras de Bangladesh na Arábia Saudita sofrem abusos. Aplicada ao total citado, essa porcentagem corresponderia a aproximadamente 1.690 a 3.380 mulheres. O ministério não especificou o período abrangido pelo total de resgates nem explicou como calculou a estimativa de abusos, o que dificulta medir a dimensão e a frequência dos danos.
Jahrat Adib Chowdhury, presidente da Comissão Parlamentar Permanente de Relações Exteriores, rejeitou a ideia de que uma porcentagem pequena tornasse o problema aceitável.
"As pessoas podem considerar 1% a 2% uma proporção pequena, mas 1.364 trabalhadoras resgatadas é inaceitável", afirmou.
A comissão orientou o ministério a trabalhar para reduzir a zero os casos de abuso. As missões de Bangladesh já fazem verificações de bem-estar quando as trabalhadoras retiram passaportes, e o ministério afirma que organizações externas também realizam pesquisas. No entanto, relatos de sobreviventes de Bangladesh e investigações envolvendo outras nacionalidades mostram por que a ajuda precisa chegar a mulheres que não podem sair livremente de casa, usar o telefone ou procurar uma embaixada.
Uma vaga prometida se transforma em fuga da violência
A experiência de Dalia Akhter mostra como um contrato de trabalho no exterior pode se transformar em dependência de uma família abusiva. Ela deixou Bangladesh em julho de 2018, aos 25 anos, esperando cuidar de uma idosa saudita e ganhar 1.000 riais por mês. Deixou o marido e o filho pequeno em Daca.
Akhter descreveu a jornada que enfrentou:
"Eu tinha que trabalhar todos os dias, das 5h às 22h, sem pausa", contou.
Seu relato descreve uma jornada de 17 horas. O cuidado de crianças foi acrescentado às suas tarefas, enquanto o salário mensal prometido caiu de 1.000 para 800 riais, uma redução de 20%. Ela disse que apanhava por não entender árabe. Quando pediu ajuda à empresa de recrutamento em Daca, afirmou que a resposta a culpou por ter viajado sem estar preparada.
Akhter disse que sua primeira empregadora a transferiu para outra família após cinco meses. A violência continuou, e ela afirmou que a segunda empregadora quebrou sua perna com um pedaço de pau. Por fim, pulou de um prédio de dois andares para escapar da tortura e sofreu uma fratura em uma vértebra.
Em novembro de 2019, ela havia retornado a Bangladesh após passar nove meses sem receber salário e ficava 12 horas por dia na cama. Akhter descreveu o efeito duradouro sobre sua capacidade de trabalhar:
"Agora estou fraca demais para trabalhar", disse.
Sua experiência reúne várias falhas: um emprego que mudou depois de sua chegada, uma agência de recrutamento que não ofereceu ajuda efetiva, violência cometida por empregadores sucessivos e uma fuga que a deixou com outros ferimentos.
O recrutamento cresceu mais rápido que a proteção
Em 2015, a Arábia Saudita enviou a Daca uma equipe de 19 funcionários de recrutamento, encerrando uma longa proibição de contratação e abrindo uma nova via para mulheres de Bangladesh que buscavam trabalho. Para famílias com poucas fontes confiáveis de renda, o trabalho doméstico no exterior oferecia a possibilidade de ganhos regulares.
Cerca de 83 mil mulheres de Bangladesh foram trabalhar na Ásia Ocidental em 2017, quatro vezes o número registrado dois anos antes. Esse total abrange a região, não apenas a Arábia Saudita, mas mostra a rapidez com que o recrutamento cresceu após o acordo de 2015.
A BRAC, organização de desenvolvimento de Bangladesh, registrou cerca de 200 mulheres voltando da Arábia Saudita por mês no período mencionado em 2019. Muitas relatavam abusos, trabalho excessivo ou salários não pagos. Em 2018, apenas 318 mulheres receberam indenizações por meio do Departamento de Emprego e Treinamento de Mão de Obra de Bangladesh, com uma média de 9.200 takas para cada uma.
Para uma trabalhadora que volta ferida e sem receber salários de vários meses, os prejuízos financeiros continuam mesmo depois da chegada. O tratamento médico custa dinheiro, e uma lesão pode impedi-la de aceitar outro emprego. O relato de Akhter mostra como uma migração que deveria sustentar uma família pode, em vez disso, deixar essa família responsável por alguém que já não consegue trabalhar.
Alertas se estendem de 2007 a 2025
A Human Rights Watch documentou casos de violência letal contra trabalhadoras domésticas em sua declaração de agosto de 2007. Duas indonésias morreram após serem espancadas por integrantes da família de seus empregadores, enquanto outras duas sofreram ferimentos graves. As autoridades sauditas detiveram os empregadores.
A declaração descreveu trabalhadoras domésticas submetidas a jornadas longas, confinamento, baixos salários e abusos físicos ou sexuais. Também registrou obstáculos ao acesso à Justiça, entre eles falta de intérpretes, de assistência jurídica e demora na comunicação com missões diplomáticas. Quase duas décadas depois, uma pesquisa publicada em 2025 descreveu vários dos mesmos problemas.
Os principais acontecimentos atravessam anos de recrutamento e alertas reiterados:
- 2005: A trabalhadora doméstica indonésia Nour Miyati sofreu ferimentos graves e perdeu dedos por gangrena após abusos descritos pela Human Rights Watch.
- 17 de agosto de 2007: A Human Rights Watch pediu maior proteção após a morte de duas trabalhadoras domésticas indonésias.
- 2015: A Arábia Saudita enviou uma delegação de recrutamento a Daca, reabrindo uma rota de trabalho para mulheres de Bangladesh.
- Julho de 2018: Dalia Akhter viajou para a Arábia Saudita para trabalhar como doméstica, emprego que, segundo ela, se tornou abusivo.
- 2023: A Arábia Saudita publicou normas atualizadas para trabalhadoras domésticas.
- Maio de 2025: A Anistia Internacional publicou conclusões de entrevistas com mais de 70 quenianas que trabalharam em casas na Arábia Saudita.
A cronologia mostra que os resgates e as repatriações ocorreram paralelamente a uma luta muito mais longa para prevenir abusos e garantir reparações quando eles acontecem.
O que trabalhadoras quenianas relatam sobre as casas sauditas
As conclusões de maio de 2025 da Anistia Internacional documentam as experiências de mais de 70 quenianas que trabalharam como domésticas na Arábia Saudita. Seus relatos detalham as condições no mesmo setor em que trabalham mulheres de Bangladesh.
As mulheres relataram jornadas de pelo menos 16 horas por dia, muitas vezes mais longas, limpando, cozinhando e cuidando de crianças. O salário mensal médio informado foi de 900 riais sauditas, cerca de US$ 240. A Anistia calculou que os ganhos médios correspondiam a aproximadamente US$ 0,50 por hora, considerando as horas trabalhadas. Nenhuma das mulheres entrevistadas recebeu pagamento por horas extras.
Quase todas afirmaram não ter tido nenhum dia de folga durante o período em que ficaram no país, que chegou a dois anos para algumas. Às vezes, os empregadores atrasavam ou retinham salários, confiscavam passaportes e celulares e impediam as trabalhadoras de sair de casa.
As mulheres também relataram alimentação insuficiente, noites dormidas no chão ou em depósitos, abusos verbais e violência sexual, inclusive estupro. Algumas que reclamaram sofreram retaliações, foram acusadas de roubo ou perderam salários atrasados. A Anistia afirmou que muitos dos abusos documentados configuravam trabalho forçado ou tráfico de pessoas.
Trabalho forçado é aquele imposto por ameaças ou coerção, sem liberdade real de escolha. Nos relatos, o confinamento, a retenção de documentos e o medo de punição se combinavam e tornavam perigoso ou difícil sair.
Por que telefone e passaporte são importantes
O trabalho doméstico acontece em casas particulares, longe de colegas, entradas públicas e contatos rotineiros que podem facilitar a identificação de problemas em outros locais de trabalho. Uma mulher cujo empregador controla seu telefone pode ter dificuldade para falar com parentes, uma agência de recrutamento ou uma missão diplomática.
As entrevistas da Anistia também relataram insultos racistas e tratamento degradante dirigido a mulheres africanas, incluindo restrições ao uso dos utensílios domésticos usados pela família. Os depoimentos das quenianas documentam experiências específicas dessas mulheres e mostram como nacionalidade, raça, gênero e dependência do empregador podem se combinar no trabalho doméstico.
A avaliação de janeiro de 2025 da Walk Free descreveu trabalhadoras domésticas recorrendo às redes sociais como último recurso para pedir ajuda diante de abusos sexuais e maus-tratos. A organização alertou que trabalhadoras que fogem de empregadores abusivos podem acabar fora dos vínculos formais de emprego, expostas a novas formas de exploração ou à detenção migratória.
Essas condições afetam a capacidade de Bangladesh de detectar abusos. Perguntar sobre o bem-estar das trabalhadoras durante uma visita para retirada de passaporte cria uma oportunidade de ouvir aquelas que conseguem chegar a uma missão diplomática. Mulheres confinadas em casa precisam de outra forma de pedir ajuda. O total de resgates do ministério mostra que há intervenções, enquanto os relatos das sobreviventes demonstram a importância prática de poder solicitá-las.
Regras atualizadas mantêm trabalhadoras domésticas fora da legislação trabalhista
Em 2023, a Arábia Saudita publicou normas atualizadas para trabalhadoras domésticas com o objetivo declarado de melhorar as jornadas e as condições de trabalho. A avaliação de 2025 da Anistia afirmou que as trabalhadoras domésticas continuavam excluídas da legislação trabalhista geral do país e de boa parte da limitada reforma concedida a outros trabalhadores migrantes.
O sistema kafala vincula a situação migratória da pessoa migrante a um empregador patrocinador. Segundo a Anistia, na maioria dos casos as trabalhadoras domésticas ainda precisavam da autorização do empregador para mudar de emprego ou deixar o país. Para quem sofre violência, essa dependência pode dificultar a fuga e a busca por emprego legal em outro lugar.
Segundo a Walk Free, as autoridades sauditas rejeitaram as alegações de abusos generalizados e apontaram mudanças nas regras de patrocínio, medidas de proteção contra condições severas de trabalho no verão e disposições sobre seguro-saúde. A Anistia afirmou que as autoridades sauditas e quenianas não responderam aos pedidos de comentário ou de informações para sua investigação.
A Anistia apontou a fragilidade do monitoramento, da fiscalização e da aplicação das normas como problemas centrais. A organização afirmou que muitos dos atos documentados já violavam a legislação saudita, mas eram cometidos por empregadores sem punição. Defendeu proteção igualitária pela legislação trabalhista, fiscalização efetiva e o fim do controle dos empregadores exercido pelo sistema kafala.
Justiça e indenização podem levar anos
O caso de Nour Miyati ilustra os riscos que uma sobrevivente pode enfrentar depois de pedir ajuda. Segundo a Human Rights Watch, em 2005 sua empregadora a confinou, abusou dela e a privou de comida. Miyati sofreu ferimentos graves e perdeu dedos por gangrena.
Em seguida, foi acusada de fazer falsas acusações contra a empregadora e condenada a 79 chibatadas. Posteriormente, outro tribunal suspendeu a condenação e a pena. Quando a Human Rights Watch publicou sua declaração, em agosto de 2007, Miyati ainda aguardava uma indenização financeira definitiva e a possibilidade de voltar à Indonésia.
A Human Rights Watch também relatou casos de mulheres sem informações básicas sobre seus processos, sem intérpretes ou representação jurídica. A organização afirmou que as autoridades sauditas às vezes levavam meses ou anos para avisar missões estrangeiras sobre uma prisão ou hospitalização, atrasando o acesso à ajuda.
Nisha Varia, então pesquisadora sênior da Divisão dos Direitos das Mulheres da organização, pediu treinamento policial para investigar abusos dentro de casas particulares, onde pode haver poucas testemunhas, e a inclusão das trabalhadoras domésticas na legislação trabalhista. Essas exigências ligam a proteção antes de uma agressão à possibilidade de buscar salários, indenização e Justiça depois dela.
As missões de Bangladesh enfrentam falta de capacidade
O Ministério das Relações Exteriores de Bangladesh informou à comissão parlamentar que suas três missões na Arábia Saudita tinham dificuldade para atender cerca de 3,5 milhões de bangladeshianos. A embaixada em Riad tinha 14 funcionários subordinados ao embaixador, o consulado em Jidá contava com cerca de 22 funcionários, e a missão permanente junto à Organização para a Cooperação Islâmica tinha um funcionário subordinado ao representante.
Essas repartições têm funções diferentes. Além da assistência trabalhista, suas responsabilidades incluem passaportes, vistos, relações bilaterais, comércio e organização do Hajj. O ministério descreveu o quadro atual de funcionários como insuficiente para atender à população e à carga de trabalho.
A falta de pessoal afeta diretamente uma mulher que precisa de ajuda urgente. Entrar em contato com um empregador, providenciar alojamento seguro, ajudar com uma queixa legal e organizar a viagem de volta para casa pode exigir atenção contínua. Entre as recomendações da Anistia aos países que enviam trabalhadores ao exterior estão abrigos, apoio financeiro e assistência jurídica, além da regulamentação das agências de recrutamento.
A comissão de Bangladesh exigiu o fim dos abusos, mas o relato de sua reunião não apresentou prazo para alcançar esse objetivo nem cronograma para ampliar a capacidade das missões. As tarefas concretas já estão claras: tornar acessível a assistência de emergência, cobrar salários atrasados e indenizações e garantir que uma trabalhadora possa sair de uma situação de perigo sem ficar ainda mais vulnerável.
Principais pontos
- O Ministério das Relações Exteriores de Bangladesh afirma que 1.364 trabalhadoras domésticas foram resgatadas e repatriadas da Arábia Saudita.
- O ministério estima que de 1% a 2% das cerca de 169 mil mulheres de Bangladesh que trabalham no país sofrem abusos.
- Relatos de sobreviventes de Bangladesh descrevem jornadas excessivas, redução de salários, violência e ferimentos duradouros.
- A pesquisa de 2025 da Anistia sobre trabalhadoras domésticas quenianas documenta confinamento, salários retidos, violência sexual e jornadas de pelo menos 16 horas.
- A Arábia Saudita atualizou as normas para trabalhadoras domésticas em 2023, mas, segundo a Anistia, elas continuam excluídas da legislação trabalhista geral e sujeitas à fiscalização deficiente.
- As missões de Bangladesh relatam falta de funcionários, enquanto uma comissão parlamentar orientou o ministério a trabalhar para eliminar os abusos.






