De uma queda recorde a uma recuperação irregular
O peso filipino caiu para além de 64 por dólar e fechou em uma cotação recorde de 64,17 em 27 de outubro de 2026, prolongando uma desvalorização que o havia levado a 63,80 durante as primeiras negociações do dia anterior. Em 4 de novembro, a moeda havia se recuperado para 63,535, embora outra queda diária mostrasse que a pressão não havia desaparecido.
Conteúdo
- De uma queda recorde a uma recuperação irregular
- A trajetória do câmbio
- Peso estava entre as moedas mais fracas da Ásia
- Por que os juros dos EUA e o petróleo importavam
- O que famílias e empresas enfrentam
- Quem recebe remessas ganha mais pesos, mas há limites
- Por que o BSP separa inflação de defesa da moeda
- Reservas internacionais oferecem proteção
- Para construir confiança, não basta elevar os juros
- Principais pontos
O movimento tem consequências que vão muito além do mercado de câmbio. Um peso mais fraco eleva o custo local da compra de dólares para pagar por combustíveis importados, ingredientes alimentícios e máquinas. Famílias que recebem dinheiro em dólares podem obter mais pesos, enquanto empresas e devedores com obrigações em dólares enfrentam despesas maiores.
O Bangko Sentral ng Pilipinas (BSP) já havia elevado sua taxa básica de juros em 50 pontos-base, ou meio ponto percentual, para 5,5% em 22 de outubro. Foi o quarto aumento consecutivo. Ainda assim, o peso continuou se desvalorizando enquanto investidores avaliavam a política monetária dos EUA, a força do dólar e as tensões envolvendo o Irã, que elevaram os preços do petróleo.
O presidente do BSP, Eli Remolona Jr., explicou diretamente o objetivo do aumento ao falar com jornalistas:
"Não estamos elevando a taxa básica de juros para defender o peso",
A explicação coloca a inflação no centro da resposta. Juros mais altos podem reduzir os gastos e o crédito, ajudando a conter os aumentos de preços. Segundo Diwa C. Guinigundo, ex-vice-presidente do BSP, apoiar a moeda exige uma resposta mais ampla, que inclua exportações mais fortes, investimentos produtivos e maior confiança nas instituições públicas.
A trajetória do câmbio
Na segunda-feira, 26 de outubro, o peso abriu a 63,535 por dólar e se desvalorizou para 63,80 às 9h33, segundo dados da Bankers Association of the Philippines (BAP). A cotação superou o recorde anterior, de 63,62; outro registro intradiário apontou a mínima do peso em 63,81 em 26 de outubro.
O pregão seguinte trouxe uma queda mais acentuada. O peso abriu a 63,95, chegou a se fortalecer brevemente para 63,90 e depois atingiu 64,20 por dólar durante as negociações. Fechou a 64,17, ante 63,95 no fechamento anterior, registrando a sexta mínima recorde consecutiva no fechamento.
As principais datas mostram tanto a queda quanto a recuperação posterior:
- 22 de outubro: O BSP elevou a taxa básica de juros em meio ponto percentual, para 5,5%.
- 26 de outubro: O peso se desvalorizou para cerca de 63,80 por dólar durante as negociações da manhã.
- 27 de outubro: A moeda chegou a 64,20 durante o pregão e fechou no recorde de 64,17.
- 27 e 28 de outubro: Estava prevista uma reunião do Federal Reserve dos EUA, e os mercados esperavam que as taxas de juros permanecessem inalteradas antes da decisão.
- 3 de novembro: O peso fechou a 63,47 por dólar.
- 4 de novembro: Fechou a 63,535, com desvalorização de 6,5 centavos após quatro dias de ganhos.
Com o fechamento de 4 de novembro, comprar US$ 1.000 custava 63.535 pesos antes das tarifas, ante 64.170 pesos pela cotação de fechamento de 27 de outubro. A diferença foi de 635 pesos, ilustrando como até uma recuperação parcial da moeda altera o custo de um pagamento em dólares.
Peso estava entre as moedas mais fracas da Ásia
Um retrato do mercado em 26 de outubro, às 02h11 GMT, mostrou o peso cotado a 63,788 por dólar, em queda de 0,36% em relação aos 63,561 do pregão anterior. A rupia indonésia recuava 0,26%, para 18.087 por dólar. Naquela comparação, ambas caíram mais do que as outras moedas asiáticas.
Os mesmos dados mostraram que o peso havia perdido 7,82% de seu valor em dólares desde o fim de 2025, quando o câmbio estava em 58,800. A rupia indonésia havia recuado praticamente o mesmo, 7,83%, ante 16.670 por dólar.
As moedas asiáticas seguiram direções diferentes ao longo do ano. O baht tailandês caiu 6,90%, enquanto o won sul-coreano subiu 8,82% e o yuan chinês avançou 4,77%. Essas diferenças mostram que a pressão sobre o peso fazia parte de um contexto mais amplo do mercado, mas que as condições econômicas de cada país também influenciaram o desempenho de suas moedas.
O câmbio fica mais fácil de entender quando expresso em uma compra. Com a cotação de 58,800, uma nota de US$ 100 custava 5.880 pesos. Pela cotação de compra de 63,788 em 26 de outubro, custava 6.378,80 pesos, um aumento de 498,80 pesos antes das tarifas. O custo dos dólares em pesos subiu cerca de 8,5%; a queda informada de 7,82% mede a variação do valor do peso em dólares.
Por que os juros dos EUA e o petróleo importavam
A reunião do Federal Reserve, em 27 e 28 de outubro, esteve no foco dos operadores durante a queda inicial até a cotação recorde. Os mercados esperavam amplamente que o Federal Open Market Committee, responsável por definir a política monetária dos EUA, mantivesse os juros inalterados.
As taxas de juros dos EUA influenciam os rendimentos que investidores podem obter com ativos em dólares. As expectativas sobre esses rendimentos podem alterar a demanda pela moeda americana e afetar o valor das demais moedas. Os investidores também avaliam se uma moeda pode perder valor enquanto estiverem com ela, em vez de comparar apenas as taxas de juros.
O petróleo acrescentou outra fonte de pressão. O petróleo Brent chegou a US$ 117 por barril durante um período de escalada das tensões envolvendo o Irã, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, aventou a possibilidade de uma nova ação militar. A incerteza também estimulou a procura pelo dólar como forma de manter recursos durante momentos de turbulência no mercado.
As Filipinas importam grande parte da energia de que necessitam. O petróleo mais caro aumenta a conta em dólares dessas compras. Um peso mais fraco eleva, então, o custo local desse pagamento, expondo os importadores tanto ao preço do petróleo quanto ao câmbio.
O que famílias e empresas enfrentam
Importadores que compram combustíveis, ingredientes alimentícios, matérias-primas e máquinas precisam de mais pesos quando vencem seus pagamentos em dólares. As empresas podem absorver parte do aumento com lucros menores ou repassá-lo parcialmente aos clientes por meio de preços mais altos.
Os custos dos combustíveis podem se espalhar pela economia, já que as mercadorias precisam ser transportadas e as fábricas consomem energia. O tamanho e o momento de eventuais aumentos de preços dependem dos contratos de compra, dos estoques, da concorrência e da capacidade de absorção de cada empresa.
A inflação foi registrada em 7,2%, o nível mais alto em três anos, aumentando a urgência da resposta do banco central. A inflação mede a velocidade com que os preços ao consumidor sobem. Para uma família cuja renda não muda, preços em alta significam que o mesmo orçamento compra menos.
Empresas e governo também enfrentam custos mais altos em pesos para pagar dívidas denominadas em dólares, a menos que recebam receitas nessa moeda ou contem com mecanismos de proteção contra variações cambiais. Compras de máquinas e outros planos de investimento podem ficar mais caros pelo mesmo motivo.
Quem recebe remessas ganha mais pesos, mas há limites
Famílias que recebem dólares de parentes no exterior podem se beneficiar de um peso mais fraco. Uma transferência de US$ 100 convertida pela cotação de 63,788 renderia 6.378,80 pesos antes das tarifas, ante 5.880 pesos pela cotação do fim de 2025.
O valor recebido por uma família depende da taxa de câmbio do provedor, das tarifas de transferência e da quantia enviada. Os preços locais mais altos também podem consumir parte dos pesos extras, sobretudo quando os gastos domésticos incluem produtos afetados pelo combustível ou por ingredientes importados.
Exportadores que recebem em dólares podem obter mais pesos ao converter suas receitas. Os ganhos dependem, em parte, dos custos que enfrentam: um exportador que compra materiais importados ou paga dívidas em dólares também arca com despesas maiores em pesos. Assim, as oscilações cambiais afetam as empresas de maneiras distintas, mesmo dentro do mesmo setor.
Por que o BSP separa inflação de defesa da moeda
Remolona afirmou que o BSP intervém no mercado de câmbio principalmente para limitar oscilações que possam alimentar a inflação. A intervenção pode envolver a venda de dólares das reservas, aumentando a oferta disponível aos compradores.
O presidente do banco explicou a preocupação por trás dessa abordagem:
"Nos preocupamos com grandes oscilações do câmbio, porque, se forem grandes o suficiente, elas se tornam inflacionárias. E nosso mandato continua sendo combater a inflação",
Remolona se recusou a revelar o limite usado pelo BSP para avaliar quando a desvalorização se torna inflacionária, afirmando que a divulgação poderia ajudar especuladores a decidir quando negociar. A abordagem declarada pelo banco se concentra em movimentos desestabilizadores, em vez de manter uma cotação do peso definida publicamente.
Emilio Neri Jr., economista-chefe do Bank of the Philippine Islands, afirmou que o BSP poderia considerar um aumento dos juros fora do calendário regular de reuniões caso a queda da moeda se acelerasse demais. Essa medida anteciparia uma decisão de política monetária, em vez de aguardar a próxima revisão prevista.
Guinigundo, atualmente analista do país na GlobalSource Partners, argumentou que as decisões sobre juros precisam levar em conta a inflação e as condições econômicas mais amplas. Juros mais altos podem tornar os investimentos em pesos mais atraentes, mas também elevam os custos de empréstimos para famílias e empresas.
Reservas internacionais oferecem proteção
As reservas internacionais brutas do BSP somavam US$ 99,997 bilhões em setembro, descritas como o menor nível em três anos. Outro relato mencionou reservas de US$ 99,5 bilhões, sem especificar a data da medição, ante o recorde de US$ 113,264 bilhões registrado em fevereiro.
Com base no número de setembro, a queda em relação a fevereiro foi de US$ 13,267 bilhões, ou cerca de 11,7%. As reservas são ativos estrangeiros mantidos pelo banco central que ajudam a cobrir necessidades financeiras externas e a responder à pressão do mercado.
O BSP afirmou que não usa as reservas exclusivamente para conter a desvalorização do peso. Remolona também alertou que uma intervenção agressiva contra um dólar que se fortalece de forma generalizada pode esgotar as reservas enquanto a pressão externa persiste.
Neri defendeu a preservação de uma reserva suficiente, já que a duração do conflito no Oriente Médio era incerta. Uma interrupção prolongada manteria em evidência a capacidade do país de financiar importações e outros pagamentos ao exterior.
Para construir confiança, não basta elevar os juros
A resposta proposta por Guinigundo começa por fazer as Filipinas gerarem mais divisas. Ele defendeu o fortalecimento da agricultura e da indústria, exportações mais competitivas, custos menores de energia e transporte e investimentos públicos com retornos econômicos e sociais mensuráveis.
Maior produção nacional pode reduzir a necessidade de alguns produtos importados. Exportações mais fortes geram divisas que ajudam a pagar compras no exterior. Investimentos produtivos podem ampliar essa capacidade de geração de receitas ao longo do tempo.
Guinigundo também propôs avaliar incentivos para que trabalhadores filipinos no exterior e empresas de terceirização de processos de negócios mantenham e invistam internamente uma parcela maior de suas receitas em moeda estrangeira, desde que os mecanismos ofereçam retornos comerciais atraentes e garantias confiáveis.
Os gastos públicos e a confiança nas instituições foram centrais em seu argumento. Ele defendeu auditorias independentes, processos de contratação transparentes, responsabilização e políticas previsíveis, afirmando que os investidores avaliam a proteção de seus investimentos, além dos retornos esperados.
Guinigundo, ex-vice-presidente do BSP, resumiu sua visão sobre como sustentar uma moeda mais forte:
"Ela precisa ser conquistada com fundamentos econômicos mais sólidos, receitas sustentáveis em divisas, investimentos produtivos e credibilidade institucional",
A recuperação para 63,535 em 4 de novembro reduziu o custo em pesos dos dólares em relação ao recorde de outubro. Famílias, empresas e autoridades ainda enfrentavam o mesmo desafio prático: administrar a pressão imediata sobre os preços e, ao mesmo tempo, ampliar a capacidade da economia de produzir bens, atrair investimentos e gerar divisas.
Principais pontos
- O peso chegou a 64,20 por dólar durante as negociações e fechou no recorde de 64,17 em 27 de outubro.
- A moeda se recuperou para 63,535 até 4 de novembro, embora tenha se desvalorizado naquele dia após quatro pregões de ganhos.
- O BSP elevou a taxa básica de juros para 5,5% em 22 de outubro e afirmou que sua prioridade era a inflação, não defender uma cotação específica.
- A força do dólar, a incerteza sobre a política monetária dos EUA e a volatilidade do preço do petróleo pressionaram a moeda.
- Um peso mais fraco eleva os custos de importações e de dívidas em dólares, ao mesmo tempo que aumenta o valor em pesos das remessas e das receitas de exportação em dólares.
- Guinigundo defendeu o fortalecimento da produção, das exportações, dos investimentos produtivos e da credibilidade institucional para sustentar uma recuperação duradoura.






