Milhões de retornos, com pressão que vai além da fronteira
O Paquistão registrou o retorno de 2.807.250 cidadãos afegãos ao Afeganistão desde o início da campanha de remoções, em 2023, segundo dados divulgados pelo Departamento do Interior de Punjab. A província respondeu por 143.474 dessas partidas, enquanto as autoridades locais registraram casos contra 803 pessoas acusadas de alugar imóveis a afegãos sem documentos válidos.
Conteúdo
- Milhões de retornos, com pressão que vai além da fronteira
- O que o número de 2,8 milhões contabiliza
- Como Punjab transfere detidos para o Afeganistão
- Proprietários e estudantes também enfrentam consequências
- Política de segurança diante de alertas sobre riscos pessoais
- Tribunal dos EUA suspende outra via de remoção
- Por que a autorização para permanecer no Paquistão é importante
- Como a campanha e a ação judicial se desenvolveram
- Principais pontos
Divulgados no início de novembro, os dados mostram uma campanha que chega a casas, mercados e salas de aula. As autoridades de Punjab afirmam ter realizado mais de 400 mil operações de busca e manter 39 centros de custódia, onde afegãos detidos são registrados antes de serem transferidos para a passagem de fronteira de Torkham.
O total nacional inclui diferentes tipos de partida. Embora os anúncios paquistaneses descrevam a campanha em termos de deportação e repatriação, agências das Nações Unidas para migração e refugiados também contabilizam pessoas que partem sem uma ordem formal de deportação. Muitas das pessoas que deixam o país dizem que o medo de serem presas motivou sua decisão.
O anúncio ocorre enquanto um tribunal dos Estados Unidos suspende temporariamente as remoções propostas de afegãos detidos para o Afeganistão ou via Paquistão. Para os afegãos que enfrentam a remoção dos Estados Unidos, a campanha em curso no Paquistão cria uma segunda preocupação: a possibilidade de que a chegada ao país seja seguida de transferência para o domínio do Talibã.
Autoridades paquistanesas apresentam a campanha como aplicação das regras de imigração e resposta a ameaças à segurança. Especialistas em direitos humanos da ONU instaram o Paquistão a parar de deportar pessoas que enfrentam perseguição, tortura ou outras violações graves no Afeganistão.
O que o número de 2,8 milhões contabiliza
O Departamento do Interior de Punjab informou o total nacional de 2.807.250 e o total provincial de 143.474. Sua Divisão de Segurança de Cidadãos Estrangeiros coordena e monitora a campanha em Punjab.
Uma atualização conjunta da Organização Internacional para as Migrações e da agência da ONU para refugiados, o ACNUR, contabilizou cerca de 2,74 milhões de retornos do Paquistão entre setembro de 2023 e 17 de outubro de 2026. A atualização registrou 3.883 retornos na semana encerrada em 17 de outubro.
A discriminação dos dados pelas agências ajuda a explicar como as pessoas estão partindo. Entre os retornos registrados desde abril de 2025, 13% envolveram deportação. As demais pessoas partiram sem uma ordem formal de deportação, e a maioria citou o medo de ser presa. Deportação significa que as autoridades removem formalmente uma pessoa; quem cruza a fronteira antes de receber uma ordem desse tipo se enquadra em outra categoria, mesmo quando a pressão da fiscalização influencia a decisão.
Portanto, o número de 2,8 milhões divulgado pelo governo descreve um movimento mais amplo do que apenas as expulsões formais. Para as famílias, a partida pode ocorrer após uma detenção, um alerta sobre documentos de imigração, a preocupação de perder a moradia ou o medo de que uma prisão seja iminente.
Punjab responde por cerca de 5,1% do total nacional, segundo o cálculo de 143.474 partidas em um total de 2.807.250. Consequentemente, a maioria dos retornos registrados no âmbito da campanha ocorreu fora da província.
Como Punjab transfere detidos para o Afeganistão
As autoridades de Punjab afirmam que suas operações seguem a política do governo federal, que exige que cidadãos afegãos tenham vistos válidos para permanecer no Paquistão. O Departamento do Interior descreveu a regra em seu comunicado:
De acordo com a política clara do Governo do Paquistão, a permanência de todos os cidadãos afegãos sem visto válido é ilegal.
Afegãos detidos sem documentos de imigração válidos são levados a centros de custódia. O departamento afirma que essas instalações oferecem acomodação temporária e registro antes da repatriação, e que os detidos são entregues às autoridades afegãs em Torkham após a conclusão das formalidades legais.
Os 39 centros em funcionamento em Punjab abrigavam 153 cidadãos afegãos no momento do anúncio. Isso equivale a cerca de quatro pessoas por centro, embora o departamento tenha informado um total combinado, sem apresentar a contagem de cada unidade.
A campanha inicialmente tinha como alvo migrantes sem documentos. Depois, foi ampliada para incluir afegãos que possuíam cartões de registro emitidos pelo governo e que anteriormente recebiam proteção contra deportação. Um cartão de registro documenta a situação de uma pessoa no âmbito de um acordo anterior; a política atual do governo exige um visto válido.
Para as famílias afetadas, a questão prática é quais documentos as autoridades aceitam agora. Pessoas que antes dependiam de cartões de registro podem enfrentar remoção à medida que o governo altera as condições para permanecer no país.
Proprietários e estudantes também enfrentam consequências
A fiscalização de Punjab atinge tanto os paquistaneses que oferecem moradia quanto os afegãos que vivem nela. As autoridades registraram 803 casos contra proprietários acusados de alugar imóveis a afegãos sem documentação válida. Proprietários em Lahore e em outras cidades foram alertados para verificar a situação migratória dos inquilinos e cumprir as exigências de registro policial.
O registro de um caso dá início a um processo legal; os números se referem a acusações, não a condenações. Para os inquilinos, a pressão sobre os proprietários pode dificultar encontrar ou manter uma moradia enquanto tentam regularizar sua situação.
O Departamento do Interior afirma que foram realizadas mais de 400 mil buscas em áreas residenciais e mercados. Também pediu aos moradores que denunciem permanências ilegais, documentos de identidade falsificados ou atividades suspeitas pelo telefone de emergência 15, garantindo confidencialidade aos informantes.
Estudantes afegãos de medicina enfrentaram outro tipo de pressão. O Tribunal Superior de Lahore proibiu as faculdades de medicina de expulsá-los, após o órgão regulador da área médica ordenar que voltassem para casa. A intervenção levou a campanha ao sistema educacional, onde a remoção pode interromper um curso de estudos e também deslocar uma família.
O total acumulado de partidas em Punjab cresceu mais lentamente nos últimos meses. A província registrou 140.468 deportações em agosto, ante 143.474 no anúncio mais recente. O aumento de 3.006 em cerca de três meses corresponde a aproximadamente 2,1% do total de agosto.
Política de segurança diante de alertas sobre riscos pessoais
O Paquistão lançou a campanha em 2023, após o aumento de ataques militantes mortais, incluindo atentados suicidas que Islamabad atribuiu, em parte, a cidadãos afegãos. Autoridades e líderes religiosos também associaram os ataques a redes militantes baseadas no Afeganistão.
O Paquistão afirma que acolhe refugiados afegãos há mais de quatro décadas, abrigando milhões em determinados períodos, e que não pode continuar arcando com esse ônus sem apoio internacional. As remoções se tornaram mais uma fonte de atrito com o governo Talibã do Afeganistão, em meio à piora das relações e a repetidos confrontos na fronteira.
Agências da ONU e grupos de defesa dos direitos humanos pediram proteção para pessoas cujas circunstâncias tornam o retorno particularmente perigoso. Entre elas estão mulheres, ativistas de direitos humanos e afegãos que aguardam reassentamento em países ocidentais. Especialistas em direitos humanos da ONU pediram o fim das deportações quando as pessoas enfrentam perseguição, tortura ou outras violações graves.
Savitri Arvey, diretora de políticas e direitos de refugiados e imigrantes da Human Rights First, alertou sobre os perigos enfrentados por afegãos enviados de volta à sua terra natal:
enfrentam perigos graves e sistemáticos
Arvey apontou detenções arbitrárias, execuções, açoites em público e violência retaliatória entre esses riscos. Para pessoas cujos parentes serviram ao lado das forças dos Estados Unidos, ou que têm identidades religiosas ou atividades públicas que as expõem a represálias, o destino de uma deportação pode determinar sua segurança pessoal.
O conflito central da política é concreto: o Paquistão está fiscalizando a autorização para permanecer no país, enquanto defensores da proteção pedem às autoridades que considerem o que acontecerá com pessoas específicas depois que cruzarem a fronteira.
Tribunal dos EUA suspende outra via de remoção
A juíza federal Valerie Caproni, de Nova York, suspendeu temporariamente as deportações planejadas de afegãos detidos para o Afeganistão ou via Paquistão. Documentos judiciais descreveram preparativos para voos da Louisiana ao Paquistão, de onde as pessoas removidas poderiam ser transferidas posteriormente para o Afeganistão.
Grupos de defesa dos direitos dos imigrantes disseram que mais de 80 afegãos detidos procuraram representantes após receberem avisos de que poderiam ser deportados via Paquistão. Entre os afetados estavam mulheres, minorias religiosas e pessoas com familiares que serviram nas Forças Armadas dos Estados Unidos.
Na terça-feira, o governo dos Estados Unidos informou ao tribunal que o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) não tinha voos fretados ou comerciais programados para deportar afegãos ao Afeganistão ou ao Paquistão antes do fim daquela semana. A ordem de Caproni exige que as autoridades mantenham esse compromisso e expira no sábado.
Shawn VanDiver, presidente da AfghanEvac, organização que apoia imigrantes afegãos, descreveu a proteção temporária:
Hoje é um bom dia. Mas quero ser sincero com vocês: isso é um alívio temporário, não uma solução. Não pusemos fim a essa luta para sempre. É apenas uma pausa.
A medida judicial vem após o voo de deportação proposto pelos EUA, descrito no fim de outubro, quando afegãos detidos foram informados de que poderiam ser enviados ao Paquistão. Parentes de ex-parceiros das forças militares americanas estavam entre os que receberam esses avisos.
Por que a autorização para permanecer no Paquistão é importante
O Paquistão tem servido como local de espera para afegãos que buscam vias de imigração para os Estados Unidos desde que o Talibã voltou ao poder, em agosto de 2021. Alguns chegaram com vistos temporários enquanto aguardavam admissão como refugiados, vistos especiais de imigrante, autorização humanitária de permanência temporária ou reunificação familiar. Cada via tem requisitos diferentes, mas todas podem envolver uma espera por uma decisão americana.
A AfghanEvac afirma que um entendimento firmado por autoridades dos Estados Unidos e do Paquistão no outono de 2023 pretendia proteger um grupo documentado que aguardava o processamento de pedidos pelos EUA. Washington processaria os casos, enquanto o Paquistão evitaria o assédio. A organização afirma que o acordo deixou de funcionar depois que o processamento de refugiados pelos EUA foi interrompido, em janeiro de 2025.
Pessoas que já aguardavam no Paquistão enfrentaram assédio, detenção e remoção para o Afeganistão. Para um afegão enviado para lá após ser detido nos Estados Unidos, a autorização de entrada seria apenas a primeira questão. Também seria importante ter autorização para permanecer no país enquanto o caso de imigração é analisado.
O comunicado mais recente do Paquistão não abordou as transferências propostas pelos Estados Unidos. Não foi divulgado publicamente se Islamabad concordou em receber essas pessoas deportadas nem quais proteções qualquer acordo incluiria.
O Ministério das Relações Exteriores do Afeganistão também se opôs a que outros governos façam acordos sobre cidadãos afegãos. O vice-porta-voz Zia Ahmad Takal declarou:
países terceiros não devem se envolver em negociações sobre o destino dos cidadãos de outra nação.
Como a campanha e a ação judicial se desenvolveram
A campanha paquistanesa e as transferências propostas pelos Estados Unidos começaram em momentos diferentes, mas agora convergem sobre o mesmo destino. As principais datas mostram como a fiscalização migratória em um país pode afetar a segurança de pessoas removidas por outro.
- Setembro de 2023: começa o período abrangido pelos números acumulados de retornos de Punjab.
- Outono de 2023: segundo a AfghanEvac, Washington e Islamabad chegam a um entendimento sobre afegãos que aguardam o processamento de pedidos de imigração pelos EUA.
- Janeiro de 2025: o processamento de refugiados pelos EUA é interrompido; depois disso, segundo a AfghanEvac, o acordo de proteção deixa de funcionar.
- Agosto de 2026: as deportações registradas em Punjab chegam a 140.468.
- 17 de outubro de 2026: encerra-se o período de apuração da OIM e do ACNUR, que registram cerca de 2,74 milhões de retornos do Paquistão desde setembro de 2023.
- Fim de outubro de 2026: afegãos detidos nos Estados Unidos recebem avisos sobre uma possível deportação via Paquistão.
- Início de novembro de 2026: Punjab anuncia 143.474 partidas na província e 2.807.250 no total nacional, enquanto uma ordem temporária de um tribunal dos EUA suspende remoções para o Afeganistão ou o Paquistão.
O próximo prazo legal informado é sábado, quando expira a ordem temporária de Caproni. Em Punjab, as autoridades afirmam que buscas, prisões e transferências por centros de custódia continuam sob a política federal de imigração.
Principais pontos
- O Departamento do Interior de Punjab afirma que 2.807.250 afegãos retornaram do Paquistão no âmbito da campanha, incluindo 143.474 vindos de Punjab.
- Agências da ONU contabilizam tanto deportações quanto partidas sem ordens formais de remoção; o medo de ser preso é um dos principais motivos alegados por quem parte.
- Punjab realizou mais de 400 mil buscas e registrou casos contra 803 pessoas acusadas de alugar imóveis a afegãos sem documentos válidos.
- Os 39 centros de custódia da província abrigavam 153 cidadãos afegãos que aguardavam repatriação no momento do anúncio.
- Especialistas em direitos humanos da ONU instaram o Paquistão a parar de deportar pessoas que enfrentam perseguição, tortura ou outras violações graves.
- Uma ordem temporária de um tribunal dos EUA impede a remoção de afegãos detidos para o Afeganistão ou via Paquistão até sábado.






