Japão apoia um desafiante ao principal cargo do futebol
Kozo Tashima, presidente honorário da Associação Japonesa de Futebol, planeja desafiar Gianni Infantino pela presidência da Fifa em uma eleição marcada para 18 de março de 2027, em Rabat, no Marrocos. Os 14 integrantes do conselho da JFA apoiaram o ex-meio-campista da seleção japonesa, dando a ele uma base unida em seu país antes do prazo de 18 de novembro para obter indicações.
Conteúdo
- Japão apoia um desafiante ao principal cargo do futebol
- O que Tashima quer que a Fifa mude
- Como funciona o processo eleitoral
- Por que o Japão rompeu com a liderança da AFC
- O plano de investimento privado que foi retirado
- Decisões sobre a Copa do Mundo acirram a disputa
- Limite de mandatos de Infantino é questionado
- De meio-campista do Japão a dirigente internacional
- As datas que marcam a campanha
- Principais pontos
Tashima, de 68 anos, anunciou sua intenção após uma reunião do conselho da JFA em Tóquio na quinta-feira, 5 de novembro. Ele seria o primeiro candidato japonês à presidência do órgão que governa o futebol mundial, composto por 211 associações-membro.
A disputa reúne vários desentendimentos sobre a liderança de Infantino: uma proposta retirada para atrair investidores privados às operações comerciais da Fifa, decisões disciplinares controversas envolvendo jogadores da Copa do Mundo e uma divisão no futebol asiático sobre apoiar ou não o atual presidente.
Tashima, que comandou a JFA de 2016 a 2024 e integra o conselho da Fifa desde 2015, apresentou sua decisão como uma questão de valores esportivos, e não de ambição pessoal.
"Não se trata de ganhar ou perder. O que importa é compartilhar com o mundo a integridade que o futebol japonês construiu ao longo dos anos", disse Tashima a jornalistas.
Sua tarefa imediata é transformar o apoio do Japão em uma candidatura internacional válida. Ele precisa do apoio formal de pelo menos cinco associações nacionais e deve passar por uma verificação de elegibilidade antes de poder aparecer na cédula de votação. A decisão unânime da JFA lhe dá um ponto de partida, enquanto as demais indicações mostrarão até que ponto a insatisfação com Infantino se traduz em apoio a um adversário.
O que Tashima quer que a Fifa mude
Tashima colocou a integridade, a boa gestão e elevados padrões morais no centro de sua candidatura. Seu argumento é que os interesses comerciais do futebol devem permanecer subordinados aos valores e às regras do esporte.
O ex-presidente da JFA descreveu a continuidade da liderança de Infantino sem disputa como o resultado que mais gostaria de evitar. Ao falar sobre a capacidade da Fifa de resolver problemas dentro da própria organização, Tashima afirmou:
Sinto que este é um teste para saber se a Fifa tem capacidade de se purificar.
Para as associações nacionais, uma eleição disputada ofereceria uma escolha entre manter a atual liderança e apoiar alguém que contestou publicamente suas decisões. A candidatura de Tashima também levaria essas divergências para uma campanha formal, na qual as federações teriam de decidir em quem votar e a quem indicar.
Até agora, suas declarações se concentram em princípios e controvérsias específicas. Ele não apresentou um programa detalhado sobre as finanças da Fifa, os procedimentos disciplinares ou a organização de torneios futuros. Essas propostas práticas dariam aos eleitores uma visão mais clara de como sua presidência seria diferente da de Infantino.
Como funciona o processo eleitoral
A disputa pela presidência da Fifa tem duas etapas antes da votação: os candidatos precisam reunir as indicações exigidas até 18 de novembro e, em seguida, passar por uma avaliação de elegibilidade feita por um painel de três pessoas nomeadas pela Fifa. Posteriormente, é possível contestar a decisão do painel na Corte Arbitral do Esporte, tribunal que julga disputas esportivas internacionais.
As cinco indicações exigidas representam cerca de 2,4% das 211 associações-membro da Fifa. Esse requisito relativamente baixo permite que um desafiante chegue à cédula sem antes reunir uma maioria. Conquistar apoio entre os demais membros é uma tarefa muito maior.
A Uefa, confederação europeia de futebol, tem 55 associações-membro, enquanto a Confederação Asiática de Futebol tem 46. Juntas, somam 101, menos da metade das 211 associações-membro da Fifa. Cada associação nacional vota de forma independente, portanto o apoio do presidente de uma confederação não determina automaticamente o voto de todos os seus membros.
Para Tashima, isso significa que conversas com dirigentes europeus e a oposição dentro da Ásia podem ajudar a construir uma campanha, mas ele ainda precisaria estabelecer relações para além dessas duas regiões. Infantino mantém apoio considerável na Ásia, na África e na América do Sul.
Por que o Japão rompeu com a liderança da AFC
A decisão do Japão vem após uma mudança na posição da AFC em relação a Infantino. A entidade asiática criticou a liderança da Fifa em agosto, depois da controvérsia sobre investimentos privados nas receitas dos torneios. Em um congresso extraordinário da AFC em Tóquio, em 23 de outubro, o presidente da entidade, Salman bin Ibrahim Al Khalifa, declarou apoio à reeleição de Infantino.
Depois, Tashima disse a Salman que não poderia apoiar o atual presidente. O presidente da JFA, Tsuneyasu Miyamoto, afirmou em 5 de novembro que o Japão não havia apoiado Infantino formalmente, esclarecendo a posição da associação depois de anteriormente descrever a cooperação com a AFC como sua abordagem básica.
A divergência também chegou à liderança do próprio Japão. Takeshi Okada, que treinou a seleção japonesa nas Copas do Mundo de 1998 e 2010, renunciou ao cargo de vice-presidente da JFA em 24 de outubro. A associação anunciou sua saída em 28 de outubro. A decisão esteve ligada a preocupações com a maneira como a Fifa lidou com questões da Copa do Mundo e com a política em torno do apoio a Infantino.
A Jordânia também contestou a ideia de uma posição asiática unificada. O presidente de sua associação de futebol, o príncipe Ali bin Al Hussein, se opôs ao apoio e disse que a Jordânia decidiria seu próprio voto. A AFC rejeitou as acusações dele sobre a condução do congresso.
A indicação do Japão, portanto, transforma uma divergência interna em um desafio eleitoral direto. Em vez de apenas negar apoio, a JFA está respaldando um candidato alternativo com experiência no mais alto órgão decisório da Fifa.
O plano de investimento privado que foi retirado
O projeto FIFA Forward Enterprise proposto por Infantino se tornou uma importante fonte de oposição em julho. O plano previa a criação de uma entidade comercial e a venda a investidores privados de participações ligadas à exploração comercial de competições da Fifa, incluindo a Copa do Mundo.
A proposta envolvia bilhões de dólares e os lucros de torneios futuros. Na prática, os investidores colocariam dinheiro no negócio em troca de um interesse financeiro vinculado às receitas comerciais do futebol. Com esse tipo de acordo, as decisões sobre receitas futuras se tornariam centrais na relação entre a Fifa e seus investidores.
Tashima se opôs à proposta. Também houve resistência de dirigentes do futebol na Europa, na Ásia e na América do Norte, além de funcionários da Fifa. Infantino retirou a proposta poucos dias após a reação contrária.
A retirada encerrou aquela proposta, mas deixou uma disputa política sobre como decisões importantes estavam sendo elaboradas e apresentadas. Em outubro, a Uefa já pedia publicamente mudanças na alta liderança da Fifa, enquanto a direção da AFC havia voltado a apoiar Infantino. O desafio de Tashima surge dessa reação dividida.
Decisões sobre a Copa do Mundo acirram a disputa
Tashima também questionou a decisão da Fifa de suspender uma punição que envolvia o atacante da seleção dos Estados Unidos Folarin Balogun na Copa do Mundo de 2026. Ele relacionou sua preocupação à intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em geral, uma suspensão impede um jogador de participar de determinadas partidas após uma infração disciplinar. Decisões de cancelar ou alterar uma suspensão podem afetar a escalação das equipes e o equilíbrio de uma competição. A objeção de Tashima coloca a independência do processo disciplinar do futebol no centro de sua campanha.
A Fifa tem sido alvo de escrutínio mais amplo por decisões disciplinares envolvendo o português Cristiano Ronaldo e o goleiro congolês Lionel Mpasi. O caso de Balogun é o que Tashima destacou especificamente junto com o papel da intervenção política.
O dirigente japonês também mencionou as restrições de viagem impostas pelos Estados Unidos à seleção iraniana para a Copa do Mundo. Para uma seleção participante, ter permissão para entrar no país-sede é um requisito básico para competir. As preocupações dele relacionam o tratamento dado aos jogadores em campo ao tratamento das equipes que buscam acesso ao torneio.
As críticas de Tashima apresentam questões concretas aos eleitores da Fifa: como a entidade aplica suas regras, como reage a figuras políticas poderosas e como protege a participação de suas associações-membro. Esses temas dão substância ao apelo mais amplo dele por integridade.
Limite de mandatos de Infantino é questionado
Infantino se tornou presidente da Fifa em 2016, completando o mandato inacabado de Sepp Blatter. Uma vitória em março o manteria no cargo até 2031, elevando seu tempo total como presidente a cerca de 15 anos.
Os estatutos da Fifa limitam os presidentes a três mandatos completos e 12 anos. Uma consulta jurídica feita à Fifa em 2022 considerou o período inicial de Infantino, de 2016 a 2019, como a conclusão do mandato de Blatter, e não como um mandato completo próprio.
Segundo essa interpretação, os três primeiros anos são excluídos do cálculo do limite de mandatos. Assim, Infantino pode buscar outro mandato, embora seu tempo total no cargo ultrapasse 12 anos corridos. A diferença entre o tempo efetivamente passado no cargo e a contagem de mandatos completos explica por que uma nova candidatura é possível.
A Uefa vem buscando um desafiante antes do prazo de indicação. Tashima se reuniu com dirigentes do futebol europeu em Tóquio, em outubro, mas a Uefa ainda não confirmou formalmente seu apoio a ele.
A insatisfação europeia já havia se tornado pública em setembro, quando o presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, criticou a liderança de Infantino. Ceferin, cuja organização liderou os esforços para encontrar um adversário, disse:
O futebol não precisa de imperadores.
De meio-campista do Japão a dirigente internacional
A experiência de Tashima abrange a carreira como jogador e treinador, o trabalho de desenvolvimento e a administração. Nascido no sul da província de Kumamoto, foi capitão da equipe de sua escola no campeonato nacional japonês de ensino médio e, mais tarde, jogou pela seleção principal enquanto cursava a universidade.
O Japão não tinha uma liga profissional de futebol durante os primeiros anos de sua carreira como jogador. Inicialmente, ele pretendia ser professor de educação física, entrou em um clube amador depois de se formar e, mais tarde, encerrou a carreira como jogador para estudar treinamento na Universidade Alemã do Esporte de Colônia.
Tashima descreveu a experiência na Alemanha como uma grande mudança em sua compreensão do futebol. Ao recordar os métodos de treinamento que encontrou, afirmou:
Mesmo em 1980, o treinamento na Alemanha era extremamente científico e sistemático.
Ao voltar ao Japão, treinou equipes universitárias antes de entrar para a JFA. Seu trabalho incluiu programas de desenvolvimento e o treinamento de seleções nacionais de base. Mais tarde, integrou o comitê executivo da AFC e o Conselho da Fifa, antes de se tornar presidente da JFA em 2016.
Seus oito anos à frente da associação japonesa incluíram uma decisão difícil pouco antes da Copa do Mundo de 2018: demitir o técnico da seleção, Vahid Halilhodzic, faltando dois meses para o torneio. Akira Nishino assumiu o cargo, e o Japão chegou às oitavas de final, antes de perder para a Bélgica.
Tashima usou esse episódio para explicar sua visão sobre a responsabilidade de um presidente. Ao recordar sugestões de que poderia evitar a culpa por não ter contratado Halilhodzic, disse:
Mas, como presidente, toda a responsabilidade era minha.
As datas que marcam a campanha
O anúncio de Tashima vem após vários meses em que a oposição à liderança da Fifa se manifestou em renúncias, apoios concorrentes e preparativos para uma eleição. Agora, o calendário imediato gira em torno da obtenção de indicações antes do prazo de novembro.
- Julho de 2026: a proposta de investimento privado de Infantino enfrenta oposição e é retirada poucos dias depois.
- Agosto de 2026: a AFC se une às críticas à liderança da Fifa.
- 23 de outubro de 2026: o presidente da AFC, Salman, apoia Infantino no congresso extraordinário em Tóquio.
- 24 de outubro de 2026: Takeshi Okada renuncia ao cargo de vice-presidente da JFA. Sua saída é anunciada em 28 de outubro.
- 5 de novembro de 2026: Tashima anuncia a intenção de concorrer, com o apoio unânime do conselho da JFA.
- 18 de novembro de 2026: prazo para as candidaturas à presidência, incluindo o apoio exigido de associações nacionais.
- 18 de março de 2027: votação para a presidência está marcada para Rabat, no Marrocos.
O próximo indicador concreto da campanha de Tashima será saber se ele conseguirá as indicações necessárias e passará pelo processo de elegibilidade. O Japão apresentou um candidato e um apoio unificado; a eleição exigirá que ele convença associações nacionais com prioridades diferentes e vínculos já estabelecidos com o atual presidente.
Principais pontos
- Kozo Tashima planeja desafiar Gianni Infantino pela presidência da Fifa em março de 2027.
- Os 14 integrantes do conselho da JFA apoiaram o ex-presidente da associação.
- Os candidatos precisam do apoio de cinco associações nacionais até 18 de novembro e devem passar por uma verificação de elegibilidade.
- Tashima criticou a proposta de investimento retirada pela Fifa, a decisão sobre a suspensão de Balogun e as restrições de viagem que afetam a seleção iraniana.
- A decisão do Japão expõe divergências dentro da Ásia após o presidente da AFC apoiar Infantino.
- A Uefa buscou um desafiante, mas ainda não confirmou formalmente apoio a Tashima.
- A elegibilidade de Infantino para um novo mandato depende de excluir seu mandato inicial, de 2016 a 2019, do cálculo de mandatos completos.






