Regras de viagem do Talibã tornam mulheres afegãs dependentes de parentes homens em trajetos mais longos

11 min de leitura
Taliban Travel Rules Make Afghan Women Dependent on Male Relatives for Longer Journeys

Limite de 72 quilômetros para viajar sem acompanhante

As autoridades do Talibã no Afeganistão disseram aos motoristas, em 26 de dezembro de 2021, que não transportassem mulheres em viagens superiores a 72 quilômetros sem que estivessem acompanhadas por um parente homem próximo. A orientação atribuiu aos prestadores de transporte a responsabilidade de restringir a circulação das mulheres, acrescentando mais uma barreira ao cotidiano quatro meses depois que o Talibã tomou Cabul, em 15 de agosto.

Conteúdo
  1. Limite de 72 quilômetros para viajar sem acompanhante
  2. O que os motoristas foram instruídos a fazer
  3. Uma profissional da saúde relata a perda de autonomia
  4. Por que um acompanhante da família pode não garantir segurança
  5. Mulheres em Cabul exigiram a retirada da restrição
  6. Restrições a viagens vieram após limites à educação, ao trabalho e à televisão
  7. Como as medidas foram implementadas
  8. Restrições foram impostas durante uma crise de fome
  9. Aplicação posterior das regras tornou as mesmas preocupações mais evidentes
  10. Principais pontos

O Ministério para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício também instruiu os motoristas a recusar mulheres que não atendessem às exigências de vestimenta islâmica, parar de tocar música, evitar usar ou transportar drogas e fazer uma parada em local adequado para as orações. A exigência de vestimenta se aplicava às mulheres que buscavam transporte, enquanto a exigência de acompanhante homem se referia a viagens com mais de 72 quilômetros, aproximadamente 45 milhas.

O porta-voz do ministério, Sadeq Akif Muhajir, disse que o acompanhante precisava ser homem e parente próximo. Sua explicação significava que encontrar outro passageiro para acompanhar uma mulher não atenderia à exigência.

O porta-voz do Talibã, Ahmadullah Wasiq, descreveu a orientação como uma recomendação, e não uma ordem. Ainda assim, as instruções do ministério diziam aos motoristas que negassem as viagens, tornando suas decisões fundamentais para determinar se as mulheres poderiam viajar.

Para mulheres que precisassem ir a outra cidade a trabalho, para receber atendimento médico ou obter apoio da família, a mudança prática era direta: o acesso a um veículo também dependeria da disponibilidade de um parente homem. A Human Rights Watch alertou que a restrição poderia impedir mulheres de escapar da violência em casa.

O que os motoristas foram instruídos a fazer

O ministério divulgou suas orientações entre os motoristas, e cópias circularam pelas redes sociais. Em vez de se dirigir apenas às mulheres, as instruções orientavam quem operava veículos de passageiros a controlar o acesso ao transporte.

Muhajir, porta-voz do ministério, descreveu a regra de distância e especificou que o parente acompanhante deveria ser homem:

Mulheres que viajarem por mais de 72 km (45 milhas) não devem receber carona se não estiverem acompanhadas por um parente próximo.

Publicidade

As instruções também exigiam vestimenta islâmica, ou hijab. Hijab pode se referir a diferentes formas de vestimenta, desde cobrir os cabelos até cobrir o rosto ou o corpo inteiro. A maioria das mulheres afegãs já usava lenços na cabeça, mas o ministério não especificou claramente qual tipo de cobertura os motoristas deveriam aceitar.

A restrição à música se aplicava aos veículos em geral. Ela foi apresentada junto às regras sobre orações e drogas, e não se limitava a viagens com passageiras. Em conjunto, as instruções colocavam vários aspectos do transporte público sob a supervisão do ministério.

Uma profissional da saúde relata a perda de autonomia

Fatima, parteira que vivia em Cabul, descreveu as orientações de viagem a partir das necessidades cotidianas de sua família. Sua preocupação era como conseguir ajuda se ela ou seu filho adoecesse quando o marido não estivesse disponível.

Fatima disse que o anúncio a fez sentir que não podia decidir por conta própria se sairia de casa:

Não posso sair sozinha. O que devo fazer se eu ou meu filho ficarmos doentes e meu marido não estiver disponível?

Sua reação mostrou como uma regra sobre transporte poderia afetar decisões tomadas antes mesmo do início de uma viagem. Uma mulher que planejasse um trajeto além do limite de distância teria de conciliar o horário de um parente com o transporte, mesmo quando o motivo da viagem fosse urgente.

Fatima também descreveu o custo emocional. Perder a capacidade de viajar por conta própria significava perder parte da autonomia que antes exercia. Para alguém cujo trabalho era cuidar de outras pessoas, a possibilidade de não conseguir providenciar cuidados para a própria família era especialmente imediata.

Por que um acompanhante da família pode não garantir segurança

As autoridades do Talibã defenderam as restrições ao trabalho e à educação das mulheres como medidas temporárias, destinadas a tornar seguros os locais de trabalho e de estudo. Mulheres que reagiram às orientações sobre transporte contestaram a ideia de que exigir a presença de um parente resolveria os perigos que enfrentavam.

Outra mulher afegã disse que algumas poderiam se sentir mais confortáveis com um acompanhante, mas argumentou que parentes não poderiam garantir proteção contra violência ou assédio. Ela mencionou um ataque em Paghman, que situou em 2015, no qual quatro mulheres foram sequestradas sob a mira de armas enquanto estavam com um grupo familiar e sofreram estupro.

A mulher pediu às autoridades que tornassem os espaços públicos seguros para as mulheres:

[O Talibã] precisa criar em todo o país um ambiente em que as mulheres se sintam seguras.

Publicidade

Heather Barr, diretora associada de direitos das mulheres da Human Rights Watch, destacou o perigo dentro de algumas casas. Ela alertou que a ordem restringia as possibilidades de circular livremente, viajar para outra cidade, trabalhar ou sair de um lar abusivo.

Barr descreveu em termos contundentes a direção da política:

Essa nova ordem essencialmente avança … na direção de transformar as mulheres em prisioneiras.

Uma mulher que tente sair de um lar abusivo talvez precise viajar sem envolver os parentes que estão ao seu redor. Exigir um acompanhante homem da família faz com que essa saída dependa de conseguir ajuda de alguém dentro da própria família.

Mulheres em Cabul exigiram a retirada da restrição

Mulheres se reuniram em Cabul em 27 de dezembro, um dia depois de as orientações se tornarem públicas, para protestar contra as restrições à circulação, o desemprego, a alta dos preços, a fome e a perda de oportunidades de estudo e trabalho. A Rede de Participação Política das Mulheres do Afeganistão ajudou a organizar o encontro.

As participantes divulgaram uma resolução com 10 reivindicações. O nono item pedia a remoção das restrições à circulação de mulheres em veículos urbanos de passageiros. As reivindicações iam além do limite de distância estipulado pelo ministério e apontavam o problema mais amplo do acesso ao transporte público.

As mulheres também exigiram a reabertura das escolas para meninas em todo o Afeganistão, o direito das mulheres de trabalhar e uma participação ativa delas no governo. A resolução defendia a liberdade de expressão e o direito de reivindicar publicamente as demandas da população.

As manifestantes relacionaram as restrições aos direitos à crise econômica. A resolução descreveu famílias que enfrentavam pobreza e fome, vendiam pertences domésticos e recorriam a medidas desesperadas, incluindo casamentos envolvendo crianças. Elas pediram a continuidade da assistência humanitária internacional e que pessoas qualificadas administrassem as instituições econômicas.

Restrições a viagens vieram após limites à educação, ao trabalho e à televisão

As orientações de dezembro sobre transporte foram divulgadas depois que o Talibã já havia impedido muitas mulheres empregadas em instituições públicas de voltar ao trabalho. A maioria das escolas secundárias continuava fechada para meninas, enquanto meninos e professores homens tinham sido autorizados a voltar.

Em 26 de dezembro, meninas acima da sexta série estavam sem poder frequentar a escola na maioria das províncias havia 100 dias. Esse marco deu um significado concreto para as famílias à descrição das restrições como temporárias pelas autoridades: meses de educação já haviam sido perdidos.

Em novembro, o ministério da virtude também havia instruído canais de televisão a parar de exibir dramas com atrizes e exigido que jornalistas e apresentadoras usassem lenços na cabeça na tela. As mulheres enfrentavam restrições em várias áreas interligadas da vida pública, incluindo ganhar a vida, estudar, aparecer na mídia e viajar.

Publicidade

O ministro do Ensino Superior, Abdul Baqi Haqqani, disse em 26 de dezembro que as autoridades discutiam a educação das mulheres e queriam separar os ambientes de estudo para mulheres e homens.

Haqqani explicou a posição do governo:

O Emirado Islâmico não é contra a educação das mulheres, mas é contra a coeducação.

Ele disse que o trabalho para criar um ambiente islâmico para as mulheres estudarem estava em andamento. Nenhuma data foi anunciada para a volta de meninas e mulheres às aulas em escolas e universidades no país.

Como as medidas foram implementadas

As orientações sobre transporte fizeram parte de uma sequência de restrições introduzidas após o colapso do governo anterior. As datas mostram a rapidez com que mudaram as condições que regiam a vida pública das mulheres.

  • 15 de agosto de 2021: O Talibã tomou Cabul e voltou ao poder.
  • Novembro de 2021: O ministério da virtude divulgou orientações para a televisão, excluindo atrizes de dramas e exigindo que apresentadoras usassem lenços na cabeça.
  • 26 de dezembro de 2021: As orientações do ministério para o transporte exigiram que mulheres em viagens superiores a 72 quilômetros estivessem acompanhadas por um parente homem próximo e estabeleceram regras de vestimenta e conduta para os veículos.
  • 27 de dezembro de 2021: Mulheres reunidas em Cabul exigiram o fim das restrições à circulação, a reabertura das escolas para meninas e o direito ao trabalho.

Durante seu governo anterior, na década de 1990, o Talibã havia imposto restrições ainda mais amplas. As mulheres eram proibidas de estudar e trabalhar, obrigadas a usar burca, que cobre o corpo e o rosto, e impedidas de sair de casa sem um acompanhante homem. As orientações de dezembro de 2021 sobre transporte estabeleceram um limite de distância, mas voltaram a condicionar a mobilidade das mulheres à presença de parentes homens.

Restrições foram impostas durante uma crise de fome

Em dezembro de 2021, as Nações Unidas estimaram que 22 milhões de pessoas no Afeganistão enfrentavam grave escassez de alimentos e alertaram para uma "avalanche de fome" durante o inverno. A grave escassez de alimentos significa que as pessoas não têm comida suficiente para atender às necessidades imediatas, o que põe em risco a saúde e a sobrevivência.

A crise econômica do Afeganistão se agravou após a retirada do apoio internacional, na esteira da tomada de poder pelo Talibã. Grandes doadores condicionaram repetidamente a retomada da assistência financeira ao respeito pelos direitos das mulheres, enquanto as autoridades buscavam renovar o apoio e obter reconhecimento internacional.

As mulheres que protestaram em Cabul pediram que a ajuda humanitária continuasse chegando à população. Suas reivindicações reuniam alimentação, renda e direitos: as mulheres precisavam de assistência durante a emergência e também buscavam o direito de trabalhar, estudar e circular pelo país.

Publicidade

Para uma família que já estivesse com dificuldades financeiras, encontrar um acompanhante homem poderia exigir conciliar o trabalho e as responsabilidades de outra pessoa. A regra de transporte acrescentava essa dependência em um momento em que muitas famílias lutavam para garantir o básico.

Aplicação posterior das regras tornou as mesmas preocupações mais evidentes

As consequências das regras sobre vestimenta e acompanhamento por homens continuaram depois do anúncio inicial. Em outubro de 2026, a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão descreveu detenções por descumprimento das regras de vestimenta envolvendo pelo menos 52 mulheres e uma menina em Cabul e Herat entre julho e setembro daquele ano. Entre as supostas violações estavam cabelos à mostra, lenços coloridos, maquiagem e aparições em público sem um tutor homem.

A missão disse que as mulheres foram libertadas após várias horas e alertou que o medo e o estigma social poderiam impedir que outros incidentes fossem denunciados. Essas constatações posteriores mostram como as exigências de vestimenta e acompanhamento passaram a ser aplicadas e afetaram a presença das mulheres em espaços públicos.

A preocupação com a possibilidade de escapar de abusos também persistiu. Uma investigação de agosto de 2026 sobre abusos letais contra mulheres documentou 231 assassinatos de mulheres e meninas em 10 províncias desde que o Talibã voltou ao poder. Foram documentadas prisões em 58 casos. Famílias relataram dificuldades para conseguir investigações e proteção, à medida que desapareciam instituições que antes ajudavam mulheres a escapar da violência.

As orientações de dezembro de 2021 colocaram os prestadores de transporte entre as mulheres e as viagens que precisavam fazer. As reações das mulheres, desde a preocupação de Fatima com o atendimento médico até as reivindicações das manifestantes de Cabul por trabalho e educação, explicaram a questão central em termos práticos: a mobilidade determina a quais serviços, oportunidades e fontes de ajuda uma pessoa consegue ter acesso.

Principais pontos

  • As orientações de 26 de dezembro de 2021 instruíram os motoristas a recusar mulheres que viajassem mais de 72 quilômetros sem um parente homem próximo.
  • Os motoristas também foram instruídos a exigir vestimenta islâmica, interromper a música, evitar drogas e parar para as orações.
  • Um porta-voz do Talibã chamou as orientações de recomendação, enquanto o ministério instruiu os motoristas a negar as viagens.
  • Mulheres e a Human Rights Watch alertaram para obstáculos ao atendimento médico, ao trabalho, às viagens independentes e à fuga da violência doméstica.
  • Mulheres que protestaram em Cabul em 27 de dezembro exigiram liberdade de circulação, educação, trabalho e participação no governo.
  • As restrições foram impostas quando a ONU estimava que 22 milhões de afegãos enfrentavam grave escassez de alimentos.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar