Voo previsto gera temor entre famílias afegãs
Afegãos detidos pela imigração nos Estados Unidos estão sendo informados de que poderão ser deportados para o Paquistão em um voo previsto para as próximas semanas. Entre eles estão parentes de pessoas que trabalharam com as forças americanas antes de o Talibã tomar Cabul, em agosto de 2021. Os planos, descritos em 26 de outubro de 2026, não foram anunciados publicamente.
Conteúdo
- Voo previsto gera temor entre famílias afegãs
- Por que o Paquistão é um destino precário
- Como funcionava o acordo de proteção
- Mudanças de política deixaram pessoas vulneráveis
- Islamabad também se tornou um centro de processamento
- Família de Connecticut enfrentou duas detenções
- Autoridades e defensores divergem sobre a abordagem de fiscalização
- Morte sob custódia intensificou a preocupação
- O que seria necessário para garantir proteção
- Pontos principais
Um funcionário do governo federal familiarizado com os preparativos, além de advogados e organizações de defesa que recebem relatos de clientes detidos, descreveram as remoções propostas. A AfghanEvac, organização que apoia afegãos que ajudaram as tropas americanas, afirmou que parentes de antigos colaboradores militares estão entre as pessoas que agentes de imigração orientaram a se preparar para o voo.
O número de pessoas envolvidas, a data de partida e as condições em que o Paquistão as receberia não foram divulgados. Para famílias cuja segurança dependia de sua ligação com os Estados Unidos, o destino traz outra preocupação: afegãos que já aguardam no Paquistão o processamento de pedidos de imigração para os EUA têm enfrentado assédio, detenção e deportação para o Afeganistão.
A AfghanEvac atribui esse risco ao colapso de um acordo pelo qual Washington processaria um grupo definido de solicitantes afegãos de imigração, enquanto Islamabad se comprometeria a não importuná-los. A organização afirma que o acordo deixou de funcionar depois que o processamento de refugiados pelos EUA foi suspenso em janeiro de 2025.
O voo proposto ligaria dois grupos afetados por mudanças nas políticas de imigração: afegãos detidos nos Estados Unidos e afegãos retidos no Paquistão enquanto tentam chegar ao país. As circunstâncias são diferentes, mas ambos enfrentam incerteza sobre onde poderão viver em segurança enquanto seus casos são resolvidos.
Por que o Paquistão é um destino precário
O Paquistão se tornou um importante local de espera para afegãos que buscavam proteção dos EUA após a retirada americana, em 2021. Muitos chegaram com vistos temporários, poucas economias e processos de imigração pendentes, sem um direito permanente de permanecer no país.
Em seu guia explicativo sobre a política do Paquistão, a AfghanEvac afirma que dezenas de milhares de pessoas se mudaram para lá depois de serem informadas de que o processamento de pedidos de refúgio pelos EUA exigia que estivessem fora do Afeganistão. O Paquistão era acessível, enquanto outros países impunham requisitos de entrada mais rigorosos.
A organização descreve vários grupos nessa situação incerta: pessoas encaminhadas ao Programa de Admissão de Refugiados dos EUA, solicitantes de vistos especiais de imigrante, pessoas que buscam autorização humanitária de permanência e famílias que tentam se reunir. Cada modalidade tem regras diferentes, mas os solicitantes muitas vezes enfrentavam o mesmo problema prático: precisavam de tempo para aguardar uma decisão americana sem ter uma autorização segura para permanecer no Paquistão.
A AfghanEvac afirma que a retomada da fiscalização paquistanesa expôs pessoas ligadas aos EUA a detenção e remoção para o Afeganistão sob controle do Talibã. Portanto, para alguém deportado dos Estados Unidos para o Paquistão, a preocupação imediata não se limitaria à chegada: incluiria também a autorização para permanecer no país e a proteção contra uma nova deportação.
Como funcionava o acordo de proteção
Autoridades dos EUA e do Paquistão chegaram a um entendimento prático no outono de 2023, após um período de intensa atuação diplomática e pressão de integrantes do Congresso, ex-embaixadores e líderes militares, segundo a AfghanEvac. A organização descreve compromissos recíprocos que abrangiam uma população documentada que aguardava o processamento de pedidos de imigração para os EUA.
Washington se comprometeu a processar esses casos. O Paquistão se comprometeu a não importunar as pessoas enquanto esse trabalho prosseguisse. O grupo incluía pessoas encaminhadas para reassentamento como refugiadas, solicitantes de vistos especiais de imigrante e pessoas que buscavam autorização humanitária de permanência.
Cartas da Embaixada dos EUA foram emitidas para as pessoas incluídas na lista. A AfghanEvac afirma que as autoridades paquistanesas respeitaram essas cartas enquanto o acordo funcionou, as prisões diminuíram e as deportações desaceleraram. O aumento da capacidade de processamento, inclusive com a criação de um Centro de Apoio ao Reassentamento, ajudou a viabilizar o compromisso ao permitir que os casos avançassem.
A proteção dependia fortemente da continuidade da cooperação entre os dois governos. A AfghanEvac afirma que muitos beneficiários ainda não tinham um status legal duradouro no Paquistão, o que deixava sua possibilidade de permanecer no país vinculada a um entendimento que poderia enfraquecer quando o processamento fosse interrompido.
Mudanças de política deixaram pessoas vulneráveis
A AfghanEvac aponta janeiro de 2025 como o momento em que o acordo desmoronou. Segundo a organização, a suspensão do processamento de refugiados pelo governo Trump encerrou a atividade americana que sustentava o entendimento, seguida quase imediatamente pela retomada do assédio, das detenções e das deportações de afegãos ligados aos EUA pelas autoridades paquistanesas.
Decisões sobre moradia já haviam aumentado a pressão sobre algumas famílias. Em 2023 e 2024, o Coordenador dos EUA para os Esforços de Reassentamento de Afegãos, conhecido pela sigla CARE, transferiu afegãos por terra para o Paquistão e os alojou em moradias financiadas pelo governo americano enquanto seus casos eram processados.
Alguns moradores venderam seus pertences e esgotaram suas economias na expectativa de seguir viagem para os Estados Unidos. Em novembro de 2024, a CARE começou a retirar certos moradores cujos casos eram considerados paralisados ou que já não se qualificavam para receber apoio habitacional. A AfghanEvac afirma que essas decisões diziam respeito à concessão de moradia, não à elegibilidade para imigração, e que algumas das pessoas afetadas receberam posteriormente aprovação ou autorização para prosseguir.
A sequência mostra como decisões sobre processamento e moradia alteraram as condições em que as famílias aguardavam:
- Agosto de 2021: O Talibã tomou Cabul, e muitos afegãos que buscavam proteção dos EUA se mudaram posteriormente para o Paquistão.
- 1º de outubro de 2022: O programa Enduring Welcome substituiu a Operação Allies Welcome e ampliou o acesso ao apoio para reassentamento de determinadas pessoas encaminhadas para refúgio que estavam dentro do Afeganistão.
- Outono de 2023: Washington e Islamabad chegaram a um entendimento que vinculava o processamento pelos EUA à contenção das autoridades paquistanesas.
- Novembro de 2024: A CARE começou a retirar alguns moradores das moradias financiadas no Paquistão.
- Janeiro de 2025: O processamento de refugiados pelos EUA foi suspenso, e a AfghanEvac afirma que o acordo de proteção desmoronou.
- 26 de outubro de 2026: Surgiram planos para um possível voo de deportação dos Estados Unidos para o Paquistão.
Islamabad também se tornou um centro de processamento
Após janeiro de 2025, o Departamento de Estado designou Islamabad como o principal posto de processamento para a maioria das categorias de visto para afegãos, pois não havia serviços consulares dos EUA no Afeganistão, segundo a AfghanEvac. A organização afirma que a decisão foi tomada sem coordenação prévia com o Paquistão.
A designação abrangia a maioria das categorias de vistos de família e outros vistos de imigrante e não imigrante. Os vistos especiais de imigrante para afegãos seguiam um marco legal e operacional separado e foram excluídos dessa designação.
Com isso, as famílias poderiam precisar permanecer no Paquistão para solicitar um visto e, ao mesmo tempo, enfrentar medidas de fiscalização no país. A AfghanEvac afirma que a decisão concentrou a demanda em Islamabad justamente quando a capacidade de processamento estava diminuindo. A admissão de refugiados e o processamento de vistos são vias diferentes, mas atrasos em qualquer uma delas podem deixar os solicitantes pagando por moradia e tentando manter a autorização para permanecer.
Família de Connecticut enfrentou duas detenções
Nos Estados Unidos, os casos de um ex-intérprete afegão identificado como Zia e de seu filho Rihan mostram como a fiscalização imigratória afetou famílias com vínculos com as Forças Armadas americanas. Seus advogados afirmam que a família entrou legalmente no país em 2024, por meio de autorização humanitária de permanência, após ameaças do Talibã.
A autorização humanitária de permanência permite que uma pessoa entre e permaneça temporariamente no país por motivos específicos. Ela é diferente da residência permanente, comumente chamada de green card, e as famílias podem solicitar outra categoria imigratória enquanto sua autorização temporária ainda estiver válida.
Zia foi preso do lado de fora de um prédio federal em Hartford depois de comparecer a um compromisso relacionado à solicitação de green card. Advogados do governo afirmaram que uma denúncia do FBI o identificou como risco à segurança nacional, embora os documentos judiciais descritos em seu caso não apresentassem provas nem explicações que sustentassem essa alegação. Ele passou quase três meses detido antes de ser solto em outubro.
Agentes de imigração prenderam Rihan em 6 de abril. No relato de sua prisão, ele foi identificado como tendo 19 anos; o ex-chefe de gabinete do ICE Jason Houser o descreveu como tendo 18 anos em uma discussão posterior sobre o caso. Um juiz inicialmente impediu sua transferência para fora de Connecticut, mas ele foi posteriormente levado a uma unidade prisional em Massachusetts.
Houser afirmou que os agentes alegaram inicialmente que a autorização de permanência de Rihan havia expirado e, em seguida, corrigiram os registros do governo para mostrar que ela permanecia válida até outubro de 2026. Segundo ele, um juiz federal ordenou a libertação de Rihan após mais de duas semanas. O pedido de asilo da família continuava pendente, e Rihan também havia solicitado um green card.
Autoridades e defensores divergem sobre a abordagem de fiscalização
O presidente da AfghanEvac, Shawn VanDiver, descreveu as prisões de Zia e Rihan como uma ação repetida contra a mesma família e parte de um padrão mais amplo que afeta imigrantes afegãos.
"Este não é um incidente isolado. Esta é a segunda vez que essa família é alvo", disse VanDiver.
O senador democrata por Connecticut Richard Blumenthal, que trabalha com a família, também condenou a prisão de Rihan e pediu sua libertação. Autoridades escolares e locais manifestaram preocupação com a interrupção da vida de um estudante cuja família aguardava decisões de imigração após apoiar as tropas americanas.
O Departamento de Segurança Interna defendeu a condução do caso de Rihan. Um porta-voz do departamento disse que suas alegações seriam ouvidas e que ele teria garantias legais.
"Todas as alegações dele serão ouvidas, e ele terá pleno direito ao devido processo legal", disse o porta-voz.
O DHS também argumentou que a verificação dos afegãos admitidos durante o governo Biden foi inadequada. O departamento alegou falhas nas consultas a antecedentes criminais, na análise de redes sociais e na comparação de informações entre registros.
Houser, que foi chefe de gabinete do ICE de 2022 a 2023, defende que a fiscalização avalie as circunstâncias de cada pessoa e qualquer ameaça específica. Ele pediu uma revisão dos afegãos com autorização de permanência e dos solicitantes de asilo, a verificação do serviço prestado durante a guerra e a libertação daqueles que não representem ameaça individual.
Morte sob custódia intensificou a preocupação
Mohammad Nazeer Paktiawal, ex-colaborador das Forças Especiais dos EUA e pai de seis filhos, morreu menos de 24 horas depois de agentes de imigração o prenderem em sua casa em Richardson, no Texas, em 13 de março, segundo Houser. O sobrenome também foi grafado como Paktyawal em reportagens sobre o caso.
O homem de 41 anos havia sido evacuado para os Estados Unidos em 2021 e tinha um pedido de asilo pendente. Segundo Houser, a certidão de óbito atribuiu a morte a uma reação alérgica a uma substância não identificada, que causou anafilaxia e agravou a asma. A anafilaxia é uma reação alérgica grave que pode comprometer rapidamente a respiração e a circulação.
Parentes disseram que os agentes recusaram o inalador que sua esposa tentou entregar. O governo citou prisões em 2025 envolvendo acusações de furto e fraude com benefícios de alimentação como justificativa para a detenção. Paktiawal não havia sido condenado por nenhuma das acusações.
A família buscava obter o laudo completo da autópsia e uma explicação sobre o que aconteceu sob custódia. Sua morte aumentou a urgência das cobranças de defensores por uma investigação das condições de detenção e das decisões envolvendo afegãos que trabalharam com as forças americanas.
O que seria necessário para garantir proteção
O voo proposto para o Paquistão ocorre em meio a uma ampliação mais abrangente das medidas de fiscalização que afetam afegãos. O governo anunciou planos para encerrar as proteções temporárias de cerca de 11.700 afegãos e instruiu o ICE a priorizar centenas de pessoas com ordens de remoção pendentes depois que um cidadão afegão matou a tiros um integrante da Guarda Nacional em Washington, em novembro.
O Status de Proteção Temporária, a autorização humanitária de permanência, o asilo e a residência permanente são categorias legais distintas. O Status de Proteção Temporária permite que pessoas elegíveis de um país designado vivam e trabalhem nos Estados Unidos por um período limitado. O asilo é uma proteção solicitada por pessoas que temem sofrer perseguição. Assim, a autorização de entrada de uma pessoa, um pedido pendente e um processo de remoção podem envolver decisões e prazos diferentes.
Para os afegãos que enfrentam transferência para o Paquistão, proteção prática significaria ter autorização para permanecer no país, acesso a qualquer processo imigratório que continue em andamento e garantias contra a remoção para o Afeganistão. A AfghanEvac pede a suspensão imediata das prisões, detenções e deportações de pessoas no Paquistão cuja participação em processos imigratórios nos EUA esteja documentada.
A organização também quer que cartas da Embaixada dos EUA ou documentos equivalentes sejam reconhecidos como justificativa para proteção temporária, além da retomada da diplomacia e do processamento legal dos casos. Esses pedidos buscam restabelecer o tipo de acordo que antes dava às famílias tempo para aguardar decisões.
Houser também pediu ao Congresso que cobre um levantamento das detenções e remoções de afegãos. Em conjunto, as reivindicações se concentram nas decisões que determinam o cotidiano das famílias: se continuarão detidas, onde poderão permanecer legalmente e se um pedido de proteção pendente poderá avançar.
Pontos principais
- Afegãos detidos nos EUA foram avisados sobre uma possível deportação para o Paquistão, incluindo parentes de antigos colaboradores militares americanos.
- O voo proposto não foi anunciado publicamente, e o número de passageiros e a data de partida não foram divulgados.
- A AfghanEvac afirma que um acordo de proteção entre os EUA e o Paquistão desmoronou após a suspensão do processamento de refugiados em janeiro de 2025.
- Afegãos que aguardam decisões dos EUA no Paquistão enfrentaram uma retomada do assédio, das detenções e das deportações para o Afeganistão.
- A detenção de Zia e de seu filho Rihan, assim como a morte de Paktiawal sob custódia, aumentaram os pedidos por análises individuais dos casos e fiscalização.
- Defensores pedem proteção temporária no Paquistão, retomada do processamento e um levantamento pelo Congresso das detenções e remoções de afegãos.






