Uma ampla reforma jurídica para reduzir os atrasos enfrentados por investidores
O governo do Nepal propôs alterar 494 dispositivos de 59 leis, reunindo aprovações mais rápidas para empresas, prazos tributários menores, novas opções de financiamento e mudanças na aquisição de terras em um único pacote de reformas para investimentos e infraestrutura.
Conteúdo
- Uma ampla reforma jurídica para reduzir os atrasos enfrentados por investidores
- Como o pacote foi elaborado
- O que significariam os prazos de aprovação propostos
- Um processo online, com menos repetição de documentos
- Restituições tributárias, financiamento estrangeiro e empreendedoras
- Terrenos e pagamentos por obras também terão prazos definidos
- Abertura das redes elétricas e proteção às decisões de autoridades
- Empresas nacionais querem participar dos grandes projetos
- O caminho da proposta à implementação
- Principais pontos
A proposta, elaborada pelo Gabinete do Primeiro-Ministro e do Conselho de Ministros, alteraria 326 dispositivos existentes e acrescentaria 168 novos. Seu aspecto mais concreto é um conjunto de prazos legais para 190 procedimentos governamentais, desde a correção de erros no registro de empresas em até três dias até a conclusão de contratos de compra de energia em até 90 dias.
Sudip Dhakal, assessor do primeiro-ministro para políticas, administração e boa governança, apresentou o pacote em uma entrevista coletiva em Katmandu, antes da planejada Conferência de Infraestrutura do Nepal. Ele afirmou que a proposta foi elaborada após consultas a empresas, ministérios do governo e outras partes interessadas.
As medidas ainda são propostas em tramitação legislativa no governo. Sovita Gautam, ministra da Lei, Justiça e Assuntos Parlamentares, disse que o governo poderia recorrer a um decreto caso o Parlamento não estivesse reunido e, depois, encaminhar um projeto de lei substitutivo às duas casas. Um decreto permite ao governo introduzir legislação durante o recesso parlamentar, sujeito ao processo constitucional.
Sunil Lamsal, ministro do Desenvolvimento da Infraestrutura, afirmou que a conferência se concentraria em demonstrar as proteções legais para investimentos, trabalhadores e mercados, em vez de apenas exibir grandes projetos e coletar promessas de investimento. Os objetivos de seu ministério vão além das aprovações e incluem proteger projetos contra obstruções depois que o governo os autorizar.
Para as empresas, o pacote aborda várias etapas de um mesmo investimento: registrar uma empresa, garantir um terreno, obter autorização, organizar o financiamento, construir infraestrutura e receber pagamentos. Seu valor prático dependerá do funcionamento integrado dessas etapas, para que uma decisão mais rápida em um órgão não seja seguida por uma longa espera em outro.
Como o pacote foi elaborado
Dhakal afirmou que o setor privado apresentou 987 sugestões relacionadas a 66 leis. Em seguida, foram realizados workshops de consulta, uma semana de elaboração de políticas e discussões nos ministérios. Sob a coordenação da Comissão Nacional de Planejamento, autoridades analisaram então 664 recomendações organizadas em 440 tópicos para preparar a versão final da proposta.
O pacote resultante abrange 59 leis. Dhakal descreveu o esforço como uma tentativa de ir além dos repetidos pequenos ajustes em leis antigas, incluindo normas do período Panchayat e outras que remontam a 2010 no calendário Bikram Sambat do Nepal.
O ministro das Finanças, Swarnim Wagle, situou o pacote em um programa legislativo mais amplo. Ele afirmou que o governo trabalhava em 166 leis, das quais essas 59 estavam sendo encaminhadas em conjunto. Wagle comparou esse volume às 35 leis aprovadas nos três anos e meio anteriores.
Esses números se referem a etapas diferentes do processo legislativo: as 166 leis estão sendo analisadas pelo governo, enquanto as 35 anteriores foram aprovadas. Gautam afirmou separadamente que mais de 54 projetos de lei avançaram no Conselho de Ministros desde o início de Shrawan, um mês do calendário nepalês, e que as autoridades continuariam trabalhando durante os feriados de Tihar e Chhath.
O que significariam os prazos de aprovação propostos
A proposta estabeleceria prazos específicos para que órgãos do governo analisem solicitações. Um erro no registro de uma empresa teria de ser corrigido em até três dias. As autoridades teriam de cinco a sete dias para solicitar, de uma só vez, os documentos faltantes, reduzindo pedidos repetidos que obrigam os solicitantes a voltar ao mesmo órgão.
Licenças industriais e aprovações aceleradas para edifícios avaliados como de baixo risco teriam prazo de 15 dias. Mudanças no uso do solo e autorizações para o corte de árvores teriam de ser decididas em até 30 dias. Isenções dos limites de propriedade de terras e consultas fiscais antecipadas teriam prazo de 60 dias.
Contratos de compra de energia e licenças para serviços de pagamento teriam de ser concluídos em até 90 dias. Um contrato de compra de energia define as condições para que um comprador adquira a eletricidade de um produtor. Uma consulta fiscal antecipada dá a uma empresa uma resposta oficial sobre a aplicação das regras tributárias antes que ela realize uma transação.
Dhakal afirmou que a análise mais rápida ainda exigiria o exame das solicitações e o cumprimento das obrigações ambientais e legais. A proposta manteria os requisitos de análise, em vez de introduzir a aprovação automática quando um órgão ultrapassasse o prazo.
Um processo online, com menos repetição de documentos
O governo propõe um portal online único que reúna o registro de solicitações, aprovações e reclamações. Os órgãos públicos também seriam proibidos de pedir aos solicitantes documentos que já constem dos registros do governo.
Assim, uma empresa poderia dar andamento ao processo usando um registro já existente no governo, sem precisar obter e entregar repetidamente a mesma documentação. Incluir as reclamações no mesmo sistema permitiria vincular uma solicitação à tentativa do requerente de contestar um atraso ou resolver um problema.
A proposta também simplificaria a expansão industrial. Empresas que aumentassem o capital ou a capacidade de produção notificariam as autoridades em até 30 dias, substituindo a exigência atual de obter aprovação prévia.
Para uma fábrica em operação, isso mudaria o momento em que o governo participa do processo. A empresa deixaria de esperar autorização para se expandir e passaria a informar a mudança dentro de um prazo definido. As demais obrigações legais relacionadas à atividade continuariam valendo.
Restituições tributárias, financiamento estrangeiro e empreendedoras
As mudanças tributárias propostas combinam períodos de apuração mais curtos com prazos para devolver dinheiro às empresas. O período de apuração tributária cairia de quatro para dois anos, uma redução pela metade.
Exportadores receberiam restituições do imposto sobre valor agregado em até 15 dias, enquanto os demais contribuintes elegíveis as receberiam em até quatro meses. A restituição do IVA devolve impostos elegíveis já pagos. Para uma empresa que aguarda esse dinheiro, a data do pagamento afeta o caixa disponível para salários, insumos e novos pedidos.
Empréstimos estrangeiros poderiam ser convertidos diretamente em participação acionária, sem que o dinheiro precisasse primeiro sair do país. Em termos simples, um credor estrangeiro poderia trocar a dívida devida por uma empresa nepalesa por uma participação societária, evitando uma remessa ao exterior seguida de uma nova transferência de investimento.
A proposta também permitiria que credores estrangeiros aceitassem imóveis como garantia hipotecária. A garantia dá ao credor direito sobre um imóvel especificado nos termos do contrato de empréstimo. Em novas cidades designadas, nepaleses não residentes e estrangeiros poderiam possuir imóveis residenciais dentro dos limites estabelecidos.
Novas pequenas empresas com participação de 51 por cento pertencente a mulheres receberiam uma redução de 50 por cento no imposto de renda durante os três primeiros anos. A medida contempla tanto uma participação societária definida quanto o período inicial de consolidação de uma empresa.
Terrenos e pagamentos por obras também terão prazos definidos
Projetos aprovados de indústria, infraestrutura e novas cidades receberiam, em até 60 dias, uma decisão sobre a isenção dos limites de propriedade de terras. Esse limite restringe a quantidade de terras que pode ser possuída; a isenção permite que um projeto elegível ultrapasse esse limite.
A proposta também incorpora a avaliação das terras à preparação dos projetos. A indenização teria de ser definida em até 60 dias, seguida do pagamento em até 30 dias. Para os proprietários afetados, a proposta vincula a decisão sobre o valor a um prazo separado para o pagamento, em vez de deixar indefinido o momento em que o dinheiro será recebido após a fixação da indenização.
Contratos de infraestrutura pública teriam de cumprir uma exigência de prontidão. As autoridades não poderiam abrir licitações antes da conclusão da aquisição de terras, do projeto detalhado e da aprovação ambiental. Isso anteciparia as etapas essenciais à disputa para selecionar uma empreiteira.
Obras concluídas também teriam prazo para pagamento. A inspeção e o pagamento teriam de ser concluídos em até 30 dias após a conclusão da obra e a apresentação da fatura. Assim, as empreiteiras teriam um prazo definido tanto para a verificação do trabalho quanto para a quitação do valor devido.
Em conjunto, as disposições sobre terras, licitações e pagamentos abordam três momentos distintos em que uma obra pode parar: antes de o terreno estar disponível, antes de o projeto estar pronto para ser construído e depois de a empreiteira concluir o trabalho, mas ainda aguardar o pagamento.
Abertura das redes elétricas e proteção às decisões de autoridades
As propostas para o setor de energia abririam as redes de transmissão e distribuição a um acesso mais amplo e criariam caminhos para a participação privada no comércio de eletricidade e no armazenamento de energia. A transmissão transporta eletricidade por redes de maior porte, enquanto a distribuição a entrega aos consumidores.
O acesso a essas redes é importante porque produzir eletricidade e levá-la até um comprador são atividades distintas. A estrutura proposta permitiria que empresas privadas assumissem um papel mais amplo no mercado de eletricidade, inclusive armazenando energia para uso posterior.
A geração solar ou eólica para consumo próprio seria permitida sem licença até uma capacidade especificada. Projetos maiores e outras atividades continuariam sujeitos aos requisitos de autorização aplicáveis.
Autoridades do governo receberiam proteção por decisões tomadas dentro de suas atribuições, de boa-fé e com documentação comprobatória, caso posteriormente fossem consideradas tecnicamente equivocadas. Dhakal afirmou que suborno, conluio e fraude continuariam sob a jurisdição da Comissão de Investigação de Abuso de Autoridade.
A proposta associa maior responsabilidade por decisões tomadas no prazo à proteção de julgamentos honestos e documentados. O objetivo declarado é reduzir o receio das autoridades de tomar decisões, mantendo as investigações sobre corrupção.
Empresas nacionais querem participar dos grandes projetos
Anjan Shrestha, presidente da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria do Nepal, manifestou apoio à iniciativa de reforma legal, mas argumentou que atrair capital estrangeiro começa pela melhoria das condições para os próprios investidores do Nepal.
Shrestha apontou a lentidão no desembaraço aduaneiro e os longos tempos de transporte pelo país como obstáculos práticos à competitividade. Ele descreveu o problema nestes termos, em tradução do nepalês:
Nossa logística e eficiência são fracas. Leva muito tempo para liberar mercadorias na alfândega e transportá-las do leste ao oeste.
Shrestha também defendeu que empresas nacionais de construção sejam parceiras obrigatórias em joint ventures para grandes projetos financiados por investimentos estrangeiros. Uma joint venture reúne empresas para executar um projeto, com responsabilidades compartilhadas segundo um acordo.
Ele destacou a experiência adquirida por engenheiros e técnicos locais no metrô de Delhi e no projeto do túnel de Nagdhunga, no Nepal. Sua proposta daria a empresas nepalesas participação direta em grandes contratos de construção e oportunidades de aprender ao lado de suas parceiras.
Lamsal afirmou que, antes de Dashain, o governo já havia emitido uma diretriz para priorizar produtos nepaleses e empresas nacionais nas compras públicas. Ele disse que, após a retomada do Parlamento, o governo pretendia estender a preferência por produtos nacionais às construções realizadas por empreendedores públicos e privados.
Wagle relacionou o pacote jurídico aos planos de avançar simultaneamente com oito a dez grandes projetos de infraestrutura, aumentar o investimento privado e implementar formas alternativas de financiamento do desenvolvimento. Segundo ele, o governo quer deixar de esperar que o Estado seja o único responsável por financiar e executar todos os projetos de desenvolvimento.
O caminho da proposta à implementação
Gautam afirmou que as propostas de alteração haviam chegado ao Ministério da Lei e estavam sendo finalizadas. Lamsal disse que elas foram encaminhadas ao gabinete do primeiro-ministro para tramitação nos ministérios competentes e no Ministério da Lei.
Os ministros apresentaram uma sequência acelerada, vinculada à conferência, às festividades e aos primeiros meses após a aprovação:
- Antes de Dashain: Lamsal afirmou que havia sido emitida uma diretriz para priorizar produtos nacionais nas compras públicas.
- Durante Tihar e Chhath: Gautam disse que o Ministério da Lei e as autoridades do governo continuariam preparando a legislação.
- Após Tihar: Lamsal afirmou que o governo pretendia formalizar as mudanças e publicá-las no Diário Oficial do Nepal.
- Antes da conferência planejada: os ministros pretendiam concluir o pacote jurídico e preparar os regulamentos, procedimentos, normas e diretrizes relacionados.
- Nos primeiros 100 dias após a aprovação: o roteiro de implementação prevê a elaboração de normas, o desenvolvimento de sistemas e a implementação em caráter experimental.
O cronograma combina o esforço para preparar as normas complementares antes da conferência com a continuidade do trabalho de implementação após a aprovação. Gautam afirmou que, se um decreto fosse usado, depois seria apresentado um projeto de lei substitutivo para aprovação pelas duas casas do Parlamento.
Os anúncios não especificaram a data da conferência, o texto final das leis, os limites permitidos para a propriedade de imóveis residenciais nem o limite de capacidade para a geração solar ou eólica. Esses detalhes determinarão o alcance exato de vários benefícios propostos.
Empresas e famílias encontrariam as reformas em transações específicas: um exportador recebendo uma restituição, um proprietário recebendo uma indenização, uma empreiteira recebendo um pagamento ou um empreendedor obtendo uma licença. Prestar esses serviços dentro dos prazos propostos é a tarefa concreta por trás dos objetivos do governo para a conferência.
Principais pontos
- O Nepal propõe alterar 326 dispositivos e acrescentar 168 em 59 leis.
- O pacote estabelece prazos legais para 190 procedimentos, incluindo licenças, decisões sobre terras e contratos de compra de energia.
- As mudanças propostas incluem restituições de IVA mais rápidas, expansão empresarial simplificada e conversão direta de empréstimos estrangeiros em participação acionária.
- A indenização por terras, a preparação para obras e os pagamentos a empreiteiras teriam requisitos e prazos específicos.
- Novas pequenas empresas com participação de 51 por cento pertencente a mulheres receberiam uma redução de 50 por cento no imposto de renda durante três anos.
- Os ministros pretendem concluir as reformas antes da conferência de infraestrutura, com a possibilidade de um decreto caso o Parlamento não esteja reunido.
- O roteiro de implementação prevê normas, sistemas digitais e testes durante os primeiros 100 dias após a aprovação.






