Seul pressiona por mudança antes da revisão de 2027
A Coreia do Sul está pedindo à Bloomberg que classifique seus títulos públicos como ativos de mercado desenvolvido, buscando acesso a um grupo mais amplo de investidores internacionais antes de uma revisão da classificação do país, prevista para o início de 2027. O possível benefício inclui compras adicionais estimadas em 4 trilhões de won pelo Fundo de Pensão do Governo da Noruega (GPFG), embora os investidores não tenham assumido esse compromisso.
Conteúdo
- Seul pressiona por mudança antes da revisão de 2027
- O que o governo quer que a Bloomberg mude
- Por que a situação econômica não encerrou a discussão
- Como a revisão evoluiu
- Por que o fundo da Noruega é importante
- O risco de vendas por fundos de mercados emergentes
- A experiência de Israel mostra por que o tamanho dos índices importa
- O que uma demanda maior pode significar para os custos de endividamento
- Seul quer que as reformas cheguem aos investidores
- Principais pontos
O vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças e da Economia, Lee Hyoung-il, apresentou o pedido a Bing Li, representante da Bloomberg para a região da Ásia-Pacífico, em 28 de outubro de 2026. O governo argumenta que a posição econômica da Coreia do Sul e as melhorias no acesso de investidores estrangeiros justificam uma mudança em relação à classificação de mercado emergente.
O cálculo financeiro funciona nos dois sentidos. A Coreia do Sul já tem presença expressiva nos índices de títulos de mercados emergentes da Bloomberg. Fundos que acompanham esses índices poderiam vender títulos coreanos após uma reclassificação, compensando as compras de investidores que passariam a ter autorização para adquiri-los. O ministério não publicou uma estimativa concreta do fluxo líquido de recursos, ou seja, do valor restante após contabilizar conjuntamente compras e vendas.
O que o governo quer que a Bloomberg mude
A Bloomberg inclui títulos públicos coreanos em seu Índice Global de Títulos Agregados desde 2002, mas classifica a Coreia do Sul como mercado emergente. Seul busca, portanto, uma mudança de classificação em uma relação já estabelecida com o índice, após a inclusão do país no Índice de Títulos Públicos Mundiais (WGBI).
Um índice de títulos é uma lista de ativos usada para medir o desempenho de investimentos. Muitos fundos acompanham de perto um índice, enquanto outros o usam como referência para decidir o que comprar. As classificações dos países podem afetar tanto a composição dessas listas quanto as regras de investimento aplicadas por grandes instituições.
Lee, ministro à frente do pedido do governo, disse a Li que o desenvolvimento econômico e do mercado coreano justificava uma nova análise:
Diante da maior relevância internacional da economia coreana, do crescimento do mercado de títulos públicos e da melhora na acessibilidade, é preciso rever a permanência da Coreia do Sul como mercado emergente no Índice Global de Títulos Agregados da Bloomberg.
O pedido do governo diz respeito à forma como investidores internacionais agrupam a dívida coreana. O Índice Global da Bloomberg, o WGBI da FTSE Russell e os índices de títulos públicos da J.P. Morgan são importantes referências para investimentos globais em títulos, e suas regras têm consequências para países que buscam compradores estrangeiros.
Por que a situação econômica não encerrou a discussão
A Coreia do Sul atende aos critérios do Banco Mundial para ser considerada uma economia de alta renda e aos critérios do Fundo Monetário Internacional para ser classificada como economia avançada. A Bloomberg reconheceu essas classificações ao avaliar se deveria mudar o tratamento dado aos títulos coreanos.
A análise da Bloomberg também considera o acesso de investidores estrangeiros, os controles de capital e outras condições do mercado. Portanto, o nível de renda de um país é apenas um dos fatores da decisão. Os investidores também precisam poder entrar no mercado, realizar operações e administrar seus recursos em condições consideradas adequadas pela provedora do índice.
Lee afirmou que a Coreia do Sul melhorou substancialmente o acesso ao mercado nos últimos anos. Ele pediu à Bloomberg que levasse em conta as mudanças nos sistemas de câmbio e de mercado de capitais, além do crescimento do mercado de títulos públicos e da relevância econômica internacional do país.
Ainda assim, a Bloomberg manteve a classificação da Coreia do Sul como mercado emergente em abril de 2026, após consultar participantes do mercado. República Tcheca, Israel e Taiwan também mantiveram suas classificações vigentes após o mesmo processo de análise.
Como a revisão evoluiu
A Bloomberg começou a avaliar uma possível reclassificação em 2024. A reunião de outubro renovou a iniciativa do governo após a decisão de manter o enquadramento vigente no início de 2026.
- 2002: os títulos públicos coreanos foram incluídos no Índice Global de Títulos Agregados da Bloomberg como ativos de mercado emergente.
- 2024: a Bloomberg começou a avaliar uma possível mudança na classificação da Coreia do Sul.
- Fevereiro de 2025: Coreia do Sul, República Tcheca, Israel e Taiwan foram identificados como países em análise.
- Abril de 2026: a Bloomberg manteve as classificações de mercado emergente vigentes após consultas.
- 28 de outubro de 2026: Lee se reuniu com Li e pediu uma nova avaliação da situação da Coreia do Sul.
- Início de 2027: a Bloomberg deve realizar sua próxima revisão periódica das classificações dos países.
A decisão de abril deixou aberta a possibilidade de uma mudança futura. A tarefa imediata de Seul é convencer a Bloomberg de que sua posição econômica e as reformas de mercado justificam um resultado diferente na próxima revisão.
Por que o fundo da Noruega é importante
O GPFG da Noruega mostra como a classificação de um índice pode afetar a demanda por títulos públicos coreanos. Em 2019, o fundo retirou os títulos públicos coreanos de seu índice de referência de renda fixa, seguindo uma política que exclui títulos de mercados emergentes. Um índice de referência é a carteira usada por um fundo para comparar seus investimentos e seu desempenho.
O fundo tinha 49 bilhões de coroas norueguesas em títulos públicos coreanos no fim de 2019, o equivalente a aproximadamente 7 trilhões de won. Suas posições caíram a zero no fim de 2024, antes de voltarem a 15,1 bilhões de coroas, aproximadamente 2,3 trilhões de won, no primeiro semestre de 2026.
O valor do primeiro semestre ficou cerca de 69% abaixo do registrado no fim de 2019, cálculo feito com base na queda de 49 bilhões para 15,1 bilhões de coroas. A recuperação a partir de zero também mostra que a exclusão do índice de referência e a carteira efetiva do fundo seguiram trajetórias diferentes.
As expectativas do mercado apontam para cerca de 4 trilhões de won em possíveis compras adicionais pelo GPFG após uma classificação como mercado desenvolvido. Esse valor representa uma possível oportunidade de investimento, não uma alocação anunciada pelo fundo norueguês. O montante efetivo dependeria das decisões de investimento do fundo e das regras aplicáveis à sua carteira.
O risco de vendas por fundos de mercados emergentes
A Coreia do Sul já representa uma parcela expressiva do universo de títulos de mercados emergentes. No fim de janeiro de 2026, correspondia a 9,66% do Índice de Títulos Públicos de Mercados Emergentes em Moeda Local da Bloomberg, a segunda maior participação, atrás apenas da China. Títulos em moeda local são dívidas emitidas na moeda do próprio país tomador, neste caso, o won.
Outro indicador, o Índice de Títulos Públicos de Mercados Emergentes da Bloomberg, atribuiu à Coreia do Sul uma ponderação de 8,66% em novembro de 2025. Esses percentuais se referem a índices e datas diferentes. Ambos mostram que os títulos coreanos representam uma parcela relevante das carteiras compostas por dívida de mercados emergentes.
Para um fundo que acompanhe exatamente o índice de moeda local, uma ponderação de 9,66% significa que aproximadamente 9,66 de cada 100 unidades investidas seriam alocadas em títulos públicos coreanos naquele momento. A retirada da Coreia do índice obrigaria esse fundo a redirecionar essa parcela.
A classificação de crédito soberano AA da Coreia do Sul também faz de seus títulos um componente de crédito relativamente sólido no grupo de mercados emergentes. Transferi-los para a categoria de mercado desenvolvido mudaria a composição das carteiras de investidores dos dois lados dessa fronteira de classificação.
A questão financeira central é quanto os investidores habilitados a comprar ativos de mercados desenvolvidos adquiririam em comparação com o volume que os investidores de mercados emergentes venderiam. Esses fluxos em sentidos opostos determinam se uma nova classificação se traduzirá em maior demanda pela dívida coreana.
A experiência de Israel mostra por que o tamanho dos índices importa
A entrada de Israel nos mercados de ações desenvolvidos da MSCI, em 2010, oferece um exemplo concreto dos cálculos envolvidos na mudança de grupo. Sua ponderação caiu de 3,17% no índice de mercados emergentes para 0,37% no índice de mercados desenvolvidos, acompanhada por saídas líquidas de investimento de aproximadamente US$ 1,9 bilhão.
Ações e títulos públicos atraem investidores diferentes e seguem regras distintas nos índices. A comparação relevante é a mudança de tamanho relativo: um país pode ocupar uma parcela grande de um grupo de investimentos e uma muito menor em outro. O volume de recursos que acompanha cada grupo ajuda, então, a determinar as compras e vendas.
A inclusão atual da Coreia do Sul no Índice Global da Bloomberg acrescenta outro fator. Investidores que acompanham esse índice amplo já têm acesso aos títulos coreanos por meio dele. A mudança de classificação proposta afetaria principalmente os agrupamentos de países e a elegibilidade para investimentos, e seu efeito financeiro seria diferente do de uma primeira inclusão em um índice de referência.
O ministério reconheceu que é difícil estimar os investimentos adicionais porque a Coreia já está representada no índice atual. Uma avaliação útil precisa, portanto, levar em conta tanto os investidores que já detêm os títulos quanto as instituições cujas regras poderiam se tornar menos restritivas.
O que uma demanda maior pode significar para os custos de endividamento
Kim Jung-sik, professor emérito de economia da Universidade Yonsei, afirmou que uma reclassificação poderia reduzir o retorno adicional exigido pelos investidores para manter títulos da dívida pública coreana:
A reclassificação poderia reduzir o prêmio de risco da dívida pública coreana, permitindo que o governo emitisse títulos a juros menores,
Prêmio de risco é o retorno adicional que os investidores exigem para assumir os riscos associados a um investimento. Se mais investidores disputarem a compra de títulos, os preços podem subir e os rendimentos, cair. Rendimentos menores sobre novas dívidas podem reduzir os custos de endividamento do governo.
Kim também apontou um possível benefício para a moeda e os mercados financeiros:
Maiores entradas de capital e mercados de capitais domésticos mais profundos também poderiam ajudar a estabilizar o won.
Kim disse que o envelhecimento da população e o crescimento econômico mais lento provavelmente ampliariam os déficits fiscais e aumentariam a necessidade de endividamento do governo. Há déficit fiscal quando os gastos do governo superam as receitas, exigindo empréstimos para cobrir a diferença. Uma base mais ampla de investidores poderia ajudar a absorver a dívida adicional à medida que essas pressões aumentam.
Seul quer que as reformas cheguem aos investidores
Lee também pediu à Bloomberg que apoiasse a comunicação entre o governo e os investidores globais por meio de seus serviços de informação financeira e canais de mídia. O pedido reflete uma preocupação prática: as instituições que decidem onde investir precisam compreender as mudanças nas regras do mercado.
Li concordou com a importância de manter a comunicação e a cooperação. Ele disse que a Bloomberg continuaria trabalhando para ampliar a compreensão dos investidores globais sobre o mercado financeiro da Coreia do Sul e aproximar os formuladores de políticas dos participantes do mercado.
O governo planeja manter as conversas para que suas reformas cambiais e do mercado de capitais sejam consideradas na próxima revisão. Para tomadores de empréstimos e investidores, os indicadores mais úteis de sucesso serão a demanda resultante por títulos coreanos, o saldo entre entradas e saídas de investimentos e os juros pagos pelo governo.
Principais pontos
- A Coreia do Sul pediu à Bloomberg uma classificação de mercado desenvolvido em reunião realizada em 28 de outubro de 2026, antes de uma revisão prevista para o início de 2027.
- Os títulos públicos coreanos integram o Índice Global da Bloomberg desde 2002, classificados como ativos de mercado emergente.
- As possíveis compras adicionais pelo GPFG da Noruega são estimadas em cerca de 4 trilhões de won, sem compromisso de investimento anunciado.
- As grandes ponderações da Coreia nos índices de mercados emergentes criam o risco de vendas por fundos que acompanham esses indicadores.
- O governo não publicou uma estimativa concreta das entradas líquidas após contabilizar compras e vendas.
- Uma demanda maior poderia ajudar a reduzir os custos de endividamento à medida que o envelhecimento da população e o crescimento mais lento aumentam a pressão sobre as contas públicas.






