Sete anos após o ajuizamento, uma decisão sobre a responsabilidade de Mianmar
A Corte Internacional de Justiça (CIJ) deve proferir sua decisão em 19 de novembro de 2026, às 10h, em Haia, para determinar se Mianmar violou a Convenção sobre Genocídio de 1948 ao tratar os rohingya. O caso, apresentado pela Gâmbia em novembro de 2019, diz respeito a uma campanha militar que expulsou mais de 700 mil pessoas do estado de Rakhine, em Mianmar, para Bangladesh.
Conteúdo
- Sete anos após o ajuizamento, uma decisão sobre a responsabilidade de Mianmar
- O que os juízes precisam decidir
- A campanha que forçou centenas de milhares a fugir
- Como o caso chegou a este ponto
- A defesa de Mianmar e as consequências para sua liderança
- Por que os processos na CIJ e no TPI são diferentes
- Para os refugiados, reconhecimento e retorno seguro estão ligados
- Uma decisão final com limites práticos
- Principais pontos
Onze países intervieram no processo, dando dimensão internacional a um caso apresentado por um pequeno país da África Ocidental contra um país do Sudeste Asiático. Após sete anos de tramitação, a decisão tratará da responsabilidade de Mianmar segundo um tratado destinado a prevenir e punir a destruição de grupos protegidos.
Para as famílias rohingya, a decisão tem um significado mais imediato: saber se um tribunal internacional reconhecerá formalmente como genocídio a violência infligida à comunidade. Mais de um milhão de rohingya deslocados vivem hoje em campos de refugiados superlotados em Bangladesh, muitos deles na região de Cox's Bazar, enquanto as perspectivas de retorno seguro permanecem incertas.
Mianmar nega ter cometido genocídio. Seus representantes argumentaram que as operações militares tinham como alvo insurgentes armados após ataques a postos policiais. A corte deverá avaliar as acusações e a resposta de Mianmar à luz dos requisitos da Convenção sobre Genocídio.
O que os juízes precisam decidir
A ação da Gâmbia invoca a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. Adotado em 1948, o tratado impõe aos países participantes o dever de prevenir e punir o genocídio. Também oferece um caminho para que disputas sobre essas obrigações cheguem à CIJ, principal órgão judicial das Nações Unidas.
Genocídio tem um significado jurídico específico. Envolve determinados atos, como matar integrantes de um grupo protegido ou causar-lhes danos graves à integridade física ou mental, cometidos com a intenção de destruir esse grupo, no todo ou em parte. A convenção protege grupos nacionais, étnicos, raciais e religiosos.
Os juízes devem, portanto, considerar tanto o que aconteceu com os rohingya quanto a intenção por trás das condutas em questão. A Gâmbia alega que a violência tinha como objetivo destruir a comunidade. Mianmar contesta essa acusação e apresenta as operações como uma resposta a uma insurgência.
O ministro da Justiça da Gâmbia, Dawda Jallow, afirmou perante a corte que os rohingya sofreram violência horrenda destinada a destruir sua comunidade. A possibilidade de a Gâmbia apresentar o caso reflete as obrigações compartilhadas previstas na convenção: um país participante pode pedir uma decisão sobre o cumprimento do tratado por outro país participante, mesmo quando as supostas atrocidades ocorreram em outro lugar.
A campanha que forçou centenas de milhares a fugir
As forças de segurança de Mianmar iniciaram, em agosto de 2017, a campanha que está no centro do caso, no norte do estado de Rakhine. A Human Rights Watch descreve massacres, estupros e incêndios criminosos que forçaram mais de 700 mil rohingya a fugir, principalmente para o vizinho Bangladesh.
A Ontario International Development Agency estimou que milhares de rohingya foram mortos pelas forças de segurança de Mianmar. O êxodo em massa levou sobreviventes a cruzar uma fronteira internacional e deixou Bangladesh abrigando uma enorme população sem condições de voltar para casa com segurança.
Os rohingya são uma minoria predominantemente muçulmana que enfrenta décadas de discriminação e deslocamento em Mianmar. Muitos são apátridas, ou seja, nenhum país os reconhece como cidadãos. Sem cidadania, atividades cotidianas como obter documentos de identidade, viajar, estudar ou conseguir trabalho podem se tornar muito mais difíceis.
O número de mais de 700 mil se refere às pessoas deslocadas durante a campanha de 2017. A população de mais de um milhão que vive hoje nos campos de Bangladesh também inclui pessoas deslocadas em períodos anteriores e crianças nascidas no exílio. Os dois números descrevem diferentes aspectos de uma crise que já dura anos.
Como o caso chegou a este ponto
O processo judicial começou mais de dois anos depois do deslocamento em massa. A Gâmbia apresentou sua petição em novembro de 2019, e a então líder de fato de Mianmar, Aung San Suu Kyi, defendeu pessoalmente a posição do país em audiências públicas naquele ano.
Posteriormente, a corte determinou a adoção de medidas de proteção e rejeitou as objeções de Mianmar à sua jurisdição, permitindo que o caso prosseguisse. As principais etapas são:
- Agosto de 2017: as forças de segurança de Mianmar iniciaram a campanha no norte do estado de Rakhine, que levou mais de 700 mil rohingya a fugir para Bangladesh.
- Novembro de 2019: a Gâmbia apresentou o caso com base na Convenção sobre Genocídio.
- 2019: Aung San Suu Kyi compareceu perante a CIJ para defender a posição de Mianmar.
- 2020: a CIJ determinou que Mianmar adotasse todas as medidas necessárias para prevenir o genocídio contra os rohingya.
- 2024: o procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional pediu um mandado de prisão contra o líder militar Min Aung Hlaing em um processo separado.
- 19 de novembro de 2026: a CIJ deve proferir sua decisão às 10h, em Haia.
A decisão de 2020 impôs obrigações enquanto o processo continuava. Essas medidas provisórias buscam proteger direitos sob risco antes que os juízes concluam a análise de um caso. A decisão de novembro tratará da disputa central sobre o cumprimento da convenção por Mianmar.
A defesa de Mianmar e as consequências para sua liderança
Os representantes de Mianmar têm rejeitado sistematicamente a acusação de que os militares buscaram deliberadamente destruir os rohingya. O argumento se concentra em operações de segurança contra grupos insurgentes após ataques a postos policiais, e o país contestou as provas que sustentam a acusação de genocídio.
A presença de Aung San Suu Kyi em 2019 transformou a defesa das ações de Mianmar em um momento marcante para sua imagem internacional. A tomada do poder pelos militares em 2021 mudou posteriormente a liderança do país, enquanto o processo contra Mianmar como Estado prosseguiu.
Min Aung Hlaing, que liderou os militares durante a repressão aos rohingya e o golpe que se seguiu, é alvo de escrutínio em vários processos judiciais. Uma decisão desfavorável da CIJ aumentaria a pressão diplomática sobre a liderança de Mianmar, que busca reconhecimento internacional e mantém relações com governos estrangeiros.
A resposta concreta dependerá das decisões de outros países e organismos internacionais. Governos poderão levar a decisão em conta ao avaliar relações diplomáticas ou econômicas. O resultado e eventuais medidas que a corte determine serão conhecidos quando a decisão for proferida.
Por que os processos na CIJ e no TPI são diferentes
O caso na CIJ trata da responsabilidade de Mianmar como Estado. A função da corte é decidir se o país violou suas obrigações segundo a Convenção sobre Genocídio. A Human Rights Watch destacou esse foco ao explicar o processo.
O Tribunal Penal Internacional, ou TPI, trata da responsabilidade criminal individual. Em 2024, seu procurador-chefe pediu um mandado de prisão contra Min Aung Hlaing por supostos crimes contra a humanidade envolvendo os rohingya. O pedido do procurador é uma etapa que solicita aos juízes autorização para uma prisão.
Os dois tribunais podem examinar acontecimentos relacionados, mas respondem a questões jurídicas diferentes. A CIJ considera as obrigações de Mianmar segundo um tratado internacional e as consequências de uma eventual violação. O TPI avalia se uma pessoa deve responder a um processo criminal por condutas dentro de sua jurisdição.
Um processo também está em andamento na Argentina com base no princípio da jurisdição universal. Esse princípio permite que tribunais nacionais, quando suas leis autorizam, processem determinados crimes internacionais graves cometidos fora de seu território. Em conjunto, os processos criam várias vias para que as acusações dos rohingya sejam examinadas judicialmente.
Para os refugiados, reconhecimento e retorno seguro estão ligados
Há anos, famílias rohingya em Bangladesh vivem em meio à superlotação, ao deslocamento e à incerteza sobre sua situação jurídica. Uma decisão pode reconhecer formalmente o que lhes aconteceu, mas as condições necessárias para um retorno seguro dependem da proteção e dos direitos garantidos dentro de Mianmar.
Maria Elena Vignoli, consultora sênior de justiça internacional da Human Rights Watch, descreveu a importância da decisão para os sobreviventes:
A decisão da Corte Internacional de Justiça sobre Mianmar marcará um momento crucial na busca dos rohingya por justiça.
Vignoli também pediu que países comprometidos com os direitos humanos apoiem a comunidade, busquem responsabilização e trabalhem por um retorno seguro e voluntário. Para os refugiados, retorno voluntário significa ter uma escolha real sobre voltar para casa, em vez de sofrer pressão para deixar o lugar onde encontraram refúgio.
A cidadania é central para essa questão. A exclusão dos rohingya por Mianmar se desenvolveu por meio de leis e práticas administrativas que restringiram seu reconhecimento e sua participação política. A perda dos documentos de cidadania durante um processo nacional de documentação em 1989 deixou muitas pessoas sem os documentos substitutos de que precisavam para exercer seus direitos.
Em 2014, cerca de 90% dos rohingya possuíam documentos temporários de identidade conhecidos como cartões brancos, segundo um relatório do governo australiano mencionado naquele relato anterior. Os cartões permitiram votar em 2010, mas não conferiam cidadania. Seu cancelamento em 2015 retirou um documento de identidade e uma base para a participação eleitoral. Essas experiências ajudam a explicar por que o retorno para casa exige atenção à situação jurídica, além da segurança física.
Uma decisão final com limites práticos
A decisão de 19 de novembro será definitiva e não poderá ser objeto de recurso, segundo a explicação da Human Rights Watch sobre o caso. As decisões da CIJ são vinculantes para as partes, conferindo força jurídica ao julgamento na disputa entre a Gâmbia e Mianmar.
A CIJ não tem uma força policial para executar suas decisões. O cumprimento depende da ação do Estado envolvido e da resposta de outros governos e instituições internacionais. Para as famílias deslocadas, portanto, o valor prático da decisão também dependerá de as conclusões jurídicas levarem a proteção, responsabilização e mudanças no tratamento dado à comunidade.
Os onze países que intervieram já transformaram o processo em uma questão de amplo envolvimento internacional. Uma decisão sobre a aplicação da Convenção sobre Genocídio aos rohingya também poderá orientar argumentos jurídicos em outros casos baseados no mesmo tratado, inclusive o processo da África do Sul sobre as ações de Israel em Gaza. Em cada caso, os juízes precisam examinar os fatos e as provas específicos.
O próximo marco tem data e hora definidas: 19 de novembro de 2026, às 10h, em Haia. As conclusões da corte responderão a uma questão em discussão desde 2019, enquanto as comunidades rohingya continuam buscando os direitos e a segurança necessários para reconstruir suas vidas.
Principais pontos
- A CIJ deve proferir sua decisão em 19 de novembro de 2026, às 10h, em Haia.
- A Gâmbia apresentou o caso em novembro de 2019, alegando que Mianmar violou a Convenção sobre Genocídio de 1948.
- Mais de 700 mil rohingya fugiram da campanha militar de agosto de 2017, principalmente para Bangladesh.
- Mianmar nega o genocídio e afirma que suas operações tinham como alvo insurgentes armados.
- O caso na CIJ trata da responsabilidade do Estado; processos separados buscam apurar a responsabilidade criminal individual.
- A decisão será definitiva, mas seu cumprimento e a proteção dos rohingya deslocados dependerão de ações além do tribunal.






