Missão com foco em ajuda e acesso
A secretária de Relações Exteriores das Filipinas, Maria Theresa Lazaro, visitará a capital de Mianmar, Naypyidaw, nos dias 28 e 29 de outubro como enviada especial da ASEAN. A agenda inclui assistência humanitária, mas ainda não há autorização confirmada para que ela se reúna com Aung San Suu Kyi, ex-líder civil detida. A visita ocorre poucos dias depois de Suu Kyi falar com o filho pela primeira vez em mais de cinco anos.
Conteúdo
- Missão com foco em ajuda e acesso
- O que Lazaro vai discutir
- Os cinco compromissos que orientam a visita
- Mianmar contesta a estrutura da ASEAN
- Por que uma reunião com Suu Kyi é importante
- Uma rara ligação tranquiliza parcialmente o filho
- Pedidos de roupas e residência não revelada
- A abertura diplomática antes de Manila
- Como os acontecimentos se encaixam
- Principais pontos
O ministro das Relações Exteriores da Tailândia, Sihasak Phuangketkeow, anunciou a viagem na terça-feira, em Bangkok, e disse que os preparativos ainda estavam em andamento. Espera-se que Lazaro discuta ajuda humanitária com autoridades de alto escalão e apresente um relatório aos ministros das Relações Exteriores da ASEAN em Manila, antes do encontro dos líderes do bloco.
As Filipinas, que ocuparão a presidência rotativa da ASEAN em 2026, vêm tentando repetidamente obter acesso a Suu Kyi, sem sucesso. A detenção dela coloca uma questão concreta no centro da missão: o plano de paz da ASEAN prevê que seu enviado se reúna com todas as partes envolvidas, enquanto as autoridades de Mianmar continuam controlando o contato com a líder deposta no golpe de fevereiro de 2021.
O que Lazaro vai discutir
Em julho, Lazaro afirmou que pretendia visitar Mianmar ainda este ano para ampliar o acesso à assistência humanitária. Portanto, as conversas previstas tratam de uma tarefa prática: garantir condições para que a ajuda chegue às pessoas afetadas pela guerra civil que se seguiu à tomada do poder pelos militares.
Sihasak, que falou ao lado de seu homólogo malaio, descreveu a visita como uma oportunidade de levar resultados ao bloco regional. Ele disse:
Ela vai para lá como enviada especial da ASEAN, e esperamos que haja bons avanços e algum progresso para que ela possa relatar quando os ministros das Relações Exteriores da ASEAN se reunirem em Manila, antes da Cúpula da ASEAN.
A ASEAN, Associação das Nações do Sudeste Asiático, condicionou a participação de Mianmar em suas reuniões de mais alto nível a avanços para encerrar a crise. Lazaro viaja como representante do bloco, o que confere às conversas um objetivo regional que vai além das discussões habituais entre Filipinas e Mianmar.
Os cinco compromissos que orientam a visita
Os líderes da ASEAN adotaram o Consenso de Cinco Pontos em abril de 2021, dois meses após o golpe. O plano vincula o fim da violência a conversas políticas, mediação e assistência humanitária. Seus cinco compromissos são:
- Fim imediato da violência, com todas as partes agindo com moderação.
- Diálogo construtivo entre todas as partes envolvidas para buscar uma solução pacífica.
- Mediação conduzida por um enviado especial da presidência da ASEAN, com a assistência do secretário-geral da entidade.
- Assistência humanitária por meio do Centro AHA, órgão regional da ASEAN para coordenação de desastres.
- Visita do enviado especial e de uma delegação para se reunir com todas as partes envolvidas.
Esses compromissos fazem da questão sobre quem Lazaro poderá encontrar parte da própria missão. Conversas com autoridades do governo atendem a uma parte do processo; o plano também prevê contato com diferentes grupos envolvidos nas divisões políticas do conflito.
A liderança militar de Mianmar pouco avançou nas principais exigências do acordo, levando a ASEAN a excluir seus representantes das reuniões de alto nível. Em julho, Lazaro afirmou que o retorno deles ainda estava distante e que a ASEAN pretendia elaborar parâmetros, ou seja, critérios específicos para avaliar a implementação do plano.
Mianmar contesta a estrutura da ASEAN
O Parlamento de Mianmar, dominado por apoiadores dos militares, aprovou em julho uma moção que rejeita o Consenso de Cinco Pontos, classificando-o como interferência nos assuntos internos. O texto argumentou que o plano não correspondia à atual situação política do país.
O Ministério das Relações Exteriores de Mianmar também contestou a forma como o acordo foi divulgado. Segundo o ministério, o documento foi anexado a um comunicado da presidência da ASEAN sem aviso prévio nem envio de um rascunho a Mianmar, e foi chamado de Declaração de Cinco Pontos. O ministério afirmou que o ministro das Relações Exteriores, Tin Maung Swe, apresentou a posição do governo em uma reunião informal da ASEAN em Bangkok, no dia 12 de julho.
Lazaro continuou a apontar o consenso como documento fundamental da ASEAN para as conversas com Mianmar. A divergência deixa a enviada tentando obter avanços por meio de uma estrutura que as autoridades do país contestaram publicamente. Por isso, acordos concretos sobre ajuda e contato com figuras políticas serão importantes quando os ministros avaliarem a visita.
Por que uma reunião com Suu Kyi é importante
Suu Kyi, de 81 anos, está detida desde que soldados depuseram seu governo da Liga Nacional pela Democracia em 1º de fevereiro de 2021. Um representante do partido afirmou que ela cumpre uma pena de 18 anos, reduzida em relação à condenação original, que somava 33 anos. Seus apoiadores rejeitam as condenações e dizem que têm motivação política.
As Filipinas já haviam pedido acesso breve para sua enviada, mas as autoridades de Mianmar recusaram. Depois que Suu Kyi se reuniu com um representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em agosto, em seu primeiro encontro divulgado com um funcionário estrangeiro desde o golpe, Manila renovou o pedido e defendeu sua libertação completa e incondicional.
Uma reunião permitiria a Lazaro ouvir diretamente uma figura política central que tem sido praticamente isolada do contato externo. O mandato mais amplo da enviada também abrange outras partes envolvidas no conflito, fazendo da situação de Suu Kyi uma parte de uma demanda maior por conversas inclusivas.
Win Myint, presidente detido junto com ela em 2021, foi libertado da prisão em 17 de abril, em uma anistia concedida por ocasião do Ano-Novo de Mianmar. Desde então, ele permanece sob vigilância rigorosa, ilustrando como as restrições a ex-líderes civis podem continuar mesmo após a saída da prisão.
Uma rara ligação tranquiliza parcialmente o filho
Kim Aris falou com a mãe em 22 de outubro, por telefone, em uma chamada organizada na embaixada de Mianmar em Londres. Radicado no Reino Unido, ele não falava com ela havia mais de cinco anos. Ele disse que ela parecia estar razoavelmente bem de saúde, embora continue preocupado com o bem-estar dela.
Aris descreveu sua impressão sobre as condições físicas e mentais da mãe após a conversa:
Ela ainda parece estar, certamente, plenamente lúcida, e fisicamente parece forte.
O filho também descreveu um isolamento severo. Disse acreditar que ela tem pouco ou nenhum contato com pessoas de fora das forças armadas ou da polícia e não tem acesso a jornais, rádio ou televisão. Ele comemorou a conversa, mas afirmou que o convite fazia parte de uma campanha de relações públicas dos líderes de Mianmar.
Aris disse que não terá acesso regular à família. Seu relato dá uma dimensão pessoal ao debate diplomático: uma única conversa telefônica após mais de cinco anos sem falar com a mãe. Preocupações anteriores com o isolamento e a saúde dela incluíam a impossibilidade de a família visitá-la ou verificar suas condições.
Pedidos de roupas e residência não revelada
Suu Kyi teria pedido 20 roupas que estão em sua casa, no número 54 da University Avenue, em Yangon. Um representante da Liga Nacional pela Democracia, que falou sob condição de anonimato, relatou o pedido, enquanto uma pessoa próxima à prisão de Naypyidaw disse que antigos funcionários dela foram encarregados de enviar os pertences solicitados.
A casa de Yangon tem um significado particular porque Suu Kyi passou cerca de 15 anos ali em prisão domiciliar, durante períodos anteriores de governo militar. O pedido atual diz respeito a roupas que serão enviadas do imóvel para Naypyidaw.
O local exato e as condições da detenção dela continuam incertos. A informação de que ela teria sido transferida para prisão domiciliar em 30 de abril não foi verificada de forma independente. Aris acredita que ela está em uma residência em local não divulgado de Naypyidaw, mas disse que ela não está na prisão nem em prisão domiciliar e não vive em sua própria casa.
As autoridades de Mianmar divulgaram em 19 de outubro fotografias de funcionários entregando livros e correspondências do rei Charles III, do Reino Unido. A entrega dos livros da realeza ocorreu após a visita da Cruz Vermelha em agosto. Aris criticou essas aparições controladas e pediu contato contínuo e a libertação da mãe.
A abertura diplomática antes de Manila
A liderança de Mianmar busca maior aceitação regional enquanto Min Aung Hlaing, chefe militar que liderou o golpe, se apresenta como presidente civil. Os membros da ASEAN mantiveram algum contato direto, mas continuam restringindo a participação do país nas reuniões de mais alto nível.
A Tailândia ajudou a organizar a reunião de 12 de julho, em Bangkok, com o ministro das Relações Exteriores de Mianmar. A Malásia também recebeu Min Aung Hlaing nos dias 7 e 8 de outubro, quando o primeiro-ministro Anwar Ibrahim apoiou os esforços para ampliar a participação de Mianmar na ASEAN.
Essas conversas na Malásia combinaram diplomacia com negociações sobre o retorno de cidadãos de Mianmar. A Malásia informou que havia repatriado 10.493 pessoas naquele ano até 8 de outubro. Grupos de defesa dos direitos humanos alertaram que os repatriados poderiam enfrentar perseguição, recrutamento militar forçado ou outros abusos.
A missão de Lazaro integra esse engajamento mais amplo, mas as condições declaradas pela ASEAN continuam vinculadas ao plano de paz. Os parâmetros propostos por ela dariam aos ministros critérios específicos para avaliar os avanços, em vez de depender apenas de visitas, reuniões ou garantias.
Como os acontecimentos se encaixam
A visita de outubro ocorre após meses de contato limitado com Suu Kyi e de disputas diplomáticas sobre o lugar de Mianmar na ASEAN. Os principais acontecimentos são:
- 1º de fevereiro de 2021: Os militares tomam o poder e detêm Suu Kyi e outros líderes civis.
- Abril de 2021: Os líderes da ASEAN adotam o Consenso de Cinco Pontos.
- 12 de julho de 2026: O ministro das Relações Exteriores de Mianmar participa de conversas informais com seus homólogos da ASEAN em Bangkok.
- Julho de 2026: Lazaro anuncia planos de visitar Mianmar e discute parâmetros para implementar o consenso.
- Agosto de 2026: Suu Kyi se reúne com um representante da Cruz Vermelha.
- 19 de outubro de 2026: Mianmar divulga fotografias da entrega de livros e correspondências do rei Charles.
- 22 de outubro de 2026: Aris fala com a mãe pela primeira vez em mais de cinco anos.
- 28 e 29 de outubro de 2026: Lazaro tem visita prevista a Naypyidaw antes de apresentar um relatório aos ministros em Manila.
O próximo passo regional será o relatório de Lazaro aos ministros das Relações Exteriores da ASEAN, antes da cúpula de líderes. Para quem precisa de assistência, o resultado concreto será saber se a visita abrirá caminho para a chegada de ajuda. Para as figuras políticas detidas e suas famílias, o acesso à enviada e a manutenção do contato externo continuam sendo preocupações imediatas.
Principais pontos
- A enviada da ASEAN, Maria Theresa Lazaro, tem visita prevista a Naypyidaw nos dias 28 e 29 de outubro para discutir assistência humanitária.
- Não há reunião confirmada com Aung San Suu Kyi, após autoridades rejeitarem repetidos pedidos das Filipinas.
- O Consenso de Cinco Pontos da ASEAN prevê o fim da violência, diálogo inclusivo, ajuda e acesso do enviado a todas as partes envolvidas.
- As autoridades de Mianmar contestaram o consenso, enquanto a ASEAN busca parâmetros para medir o cumprimento do acordo.
- O filho de Suu Kyi falou com ela em 22 de outubro e disse que ela parecia forte, mas continuava profundamente isolada.
- Espera-se que Lazaro apresente um relatório sobre a visita aos ministros das Relações Exteriores da ASEAN em Manila, antes da cúpula de líderes.






