Investigadora da ONU alerta que ataques de Mianmar contra civis são sustentados por armas e combustível estrangeiros

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UN Investigator Warns Myanmar's Attacks on Civilians Are Sustained by Foreign Arms and Fuel

Poder aéreo e abastecimento estrangeiro agravam crise entre civis

As Forças Armadas de Mianmar atacam deliberadamente civis para aterrorizá-los e forçá-los à submissão, alertou Kelley Currie, investigadora de direitos humanos das Nações Unidas. Aeronaves estrangeiras, combustível de aviação e financiamento militar ajudam a sustentar uma guerra que as forças armadas não conseguiram vencer.

Conteúdo
  1. Poder aéreo e abastecimento estrangeiro agravam crise entre civis
  2. O que aconteceu após a tomada do poder pelos militares?
  3. Rússia e China fornecem as aeronaves
  4. Combustível iraniano mantém as aeronaves em operação
  5. Ataque a um mercado evidencia o custo humano
  6. Peças de reposição, pagamentos e sanções
  7. Corrupção financia a guerra e reforça o controle
  8. Por que o diálogo diplomático preocupa a investigadora da ONU
  9. Decisão judicial pode aumentar o risco para os rohingyas
  10. Principais pontos

O Escritório de Direitos Humanos da ONU registrou pelo menos 982 civis mortos em ataques aéreos militares em 2025, incluindo 232 crianças. Quase uma em cada quatro vítimas era criança. O total foi mais de 50% superior ao de 2024, evidenciando o crescente custo humano de uma campanha que depende de equipamentos e suprimentos do exterior.

Currie, relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para Mianmar, afirmou que o aumento das compras de armas da China, da Rússia e de outros países alimenta uma situação catastrófica de direitos humanos. Ela também alertou que governos estão retomando o contato com as autoridades militares de Mianmar sem garantir a redução da violência, a libertação de presos políticos ou negociações que envolvam todas as partes.

O alerta aponta três pressões sobre a população civil: ataques aéreos, uma economia cada vez mais moldada pela corrupção e o risco de uma nova onda de violência contra minorias antes de uma possível decisão da Corte Internacional de Justiça sobre os rohingyas.

O que aconteceu após a tomada do poder pelos militares?

As Forças Armadas de Mianmar tomaram o poder do governo eleito de Aung San Suu Kyi em fevereiro de 2021. As forças de segurança reprimiram violentamente protestos em massa, e a resistência armada se expandiu, transformando-se em uma guerra civil em grande parte do país.

Os militares mantêm uma grande vantagem em armamentos e efetivo, incluindo aeronaves fornecidas pela Rússia e pela China. Ainda assim, o uso de força pesada não derrotou seus adversários. Currie estimou que as autoridades ainda controlam cerca de metade do território de Mianmar, onde também investiram em vigilância e policiamento.

O conflito e a resposta internacional avançaram por várias etapas importantes:

  • 2017: A repressão militar contra os rohingyas passou a ser objeto do processo por genocídio que tramita na Corte Internacional de Justiça.
  • Fevereiro de 2021: Os militares derrubaram o governo eleito, dando início a protestos e a um conflito armado em expansão.
  • Fevereiro de 2021 a dezembro de 2022: Mianmar importou US$ 406 milhões em armas e produtos relacionados da Rússia e US$ 267 milhões da China, segundo relatório de um relator especial da ONU publicado em 2023.
  • Agosto de 2023: Os Estados Unidos autorizaram sanções contra pessoas e empresas que atuam no setor de combustível de aviação de Mianmar.
  • Outubro de 2024 a dezembro de 2025: Nove remessas de combustível de aviação iraniano teriam entregado cerca de 175 mil toneladas aos militares de Mianmar.
  • 2025: O Escritório de Direitos Humanos da ONU registrou pelo menos 982 mortes de civis em ataques aéreos militares.
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Rússia e China fornecem as aeronaves

Mianmar não fabrica nenhuma de suas aeronaves de combate, o que torna os fornecedores estrangeiros fundamentais para sua campanha aérea. A Rússia fornece caças MiG-29, aeronaves leves de ataque Yak-130 e caças Su-30SME. Segundo relatos, Yak-130 e MiG-29 foram usados em ataques contra áreas residenciais.

Os dados da ONU para o período entre fevereiro de 2021 e dezembro de 2022 apontam um total combinado de US$ 673 milhões em exportações de armas e produtos relacionados da Rússia e da China. A Rússia respondeu por cerca de 60% desse total, com US$ 406 milhões, ante US$ 267 milhões da China. Grande parte dos equipamentos veio de empresas pertencentes aos dois países.

O Ministério das Relações Exteriores da China rejeitou o relatório da ONU, classificando-o como uma difamação do comércio normal de armas entre países soberanos. Mesmo assim, as entregas continuaram: em 2024, a Aviation Industry Corporation of China forneceu uma aeronave leve de ataque K-8, seis aeronaves leves de combate FTC-2000G e uma aeronave de transporte Y-8.

A FTC-2000G pode transportar até três toneladas de mísseis, foguetes ou bombas e custava US$ 8,5 milhões por unidade. O negociante de armas Dr. Naing Htut Aung, diretor da Gateways Hong Kong, intermediou a compra. Mianmar também encomendou 16 caças JF-17, fabricados em conjunto pela China e pelo Paquistão, em 2016, mas, segundo relatos, a maioria dos entregues acabou em solo por causa de rachaduras estruturais e outros defeitos.

Combustível iraniano mantém as aeronaves em operação

Mianmar também tem capacidade limitada para refinar combustível de aviação. Entre outubro de 2024 e dezembro de 2025, petroleiros da chamada frota paralela do Irã, embarcações usadas para transportar cargas por redes comerciais opacas, teriam fornecido cerca de 175 mil toneladas em nove remessas. Estima-se que esse comércio tenha rendido cerca de US$ 123 milhões ao Irã.

O combustível sustentou uma campanha de bombardeios que atingiu mais de mil locais civis ao longo desses 15 meses. O Irã também se tornou um importante fornecedor de ureia, fertilizante usado pelos militares de Mianmar na fabricação de munições.

Registros de importação vazados e analisados pelo grupo de pesquisa ativista Justice For Myanmar descrevem seis cargas, totalizando mais de 843 mil barris e avaliadas em US$ 109,5 milhões, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025. Não foi esclarecido quantas dessas cargas coincidem com as nove remessas noticiadas, portanto não há um total combinado disponível.

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Os registros identificaram a National Energy Prime Aviation Services, ou NEPAS, como compradora efetiva. A NEPAS é uma joint venture entre a empresa estatal Myanma Petrochemical Enterprise, controlada pelos militares, e o grupo privado Asia Sun. O acordo reúne uma empresa estatal e uma empresa privada na mesma cadeia de abastecimento de combustível de aviação.

Documentos de compras específicas descrevem combustível de aviação iraniano rotulado como diesel sul-africano. Um contrato assinado em maio de 2025 previa 202 mil barris e determinava o pagamento de US$ 26 milhões à conta da empresa tailandesa Tawan-Oil Trading no Siam Commercial Bank. Dados comerciais da ONU e informações sobre transporte marítimo não registraram comércio de diesel entre a África do Sul e Mianmar em 2025.

Ataque a um mercado evidencia o custo humano

Um ataque aéreo em 28 de setembro contra um mercado em Kyauktaw, reduto do Exército de Arakan no estado de Rakhine, matou 50 pessoas e feriu 58, segundo trabalhadores humanitários no local. O Exército de Arakan informou 49 mortes e o mesmo número de feridos, incluindo 22 pessoas em estado crítico.

O ataque ao mercado ilustra o perigo enfrentado por civis em áreas disputadas pelos militares e por grupos armados de oposição. Mercados reúnem comerciantes, consumidores e pessoas que transportam alimentos, colocando atividades econômicas cotidianas ao alcance da campanha aérea.

O Myanmar Witness analisou vídeos gravados sobre a região de Kyauktaw nos dias seguintes. Um especialista em armamentos identificou uma aeronave como compatível com um Yak-130 russo e outra como compatível com um JF-17. Com base no áudio, o especialista avaliou que cada uma lançou pelo menos uma munição. As imagens registraram esses voos posteriores; a análise não identificou as aeronaves responsáveis pelo ataque ao mercado em 28 de setembro.

Peças de reposição, pagamentos e sanções

As aeronaves precisam de manutenção, peças de reposição e financiamento, além de combustível. A Justice For Myanmar descobriu que a empresa malaia FJ Global havia solicitado orçamentos a fornecedores internacionais para componentes das aeronaves K-8W de Mianmar, dos drones Orlan-10E russos e de diversos tipos de helicóptero, entre eles o Kamov Ka-28, o Mi-17 e o Mi-2.

Em fevereiro de 2026, a FJ Global recebeu financiamento da Perbadanan Usahawan Nasional Berhad, uma empresa malaia apoiada pelo Estado e pertencente a uma fundação presidida pelo primeiro-ministro Anwar Ibrahim. A descoberta coloca uma instituição financeira malaia ao lado das redes comerciais de compras que atendem aos militares de Mianmar.

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Os Estados Unidos já têm autoridade para agir contra o comércio de combustível de aviação. Em agosto de 2023, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro emitiu uma determinação setorial que permite sancionar pessoas ou empresas que atuem no setor de combustível de aviação de Mianmar. Essa determinação oferece base legal para sanções; as designações individuais são as decisões que identificam alvos específicos.

Isso torna importantes para a resposta internacional as empresas que organizam cargas, pagamentos e entregas. Interrupções em qualquer uma dessas etapas podem afetar a chegada de combustível às aeronaves militares, enquanto o acesso contínuo ajuda a campanha aérea a prosseguir apesar da pressão sobre o governo.

Corrupção financia a guerra e reforça o controle

Currie afirmou que a economia legal de Mianmar encolheu desde a tomada do poder, enquanto os negócios ilícitos se expandiram. Segundo ela, oficiais militares dependem de redes de favorecimento, pagamentos ilegais e atividades que abrangem o comércio legal, transações pouco regulamentadas e mercados clandestinos.

Ao explicar como o governo militar afetou a gestão econômica, Currie afirmou:

Quando oficiais militares tentam administrar uma economia, em geral não fazem um bom trabalho", disse ela. "Em Mianmar, são espetacularmente ruins nisso.

Entre as práticas descritas por ela estão a arbitragem cambial, as exigências de participação em empresas e a cobrança de propinas de agricultores em diferentes etapas das cadeias de abastecimento de alimentos e produtos agrícolas. Arbitragem cambial significa lucrar com diferenças entre taxas de câmbio. Quando o acesso a taxas favoráveis é controlado, pessoas com conexões oficiais podem levar vantagem sobre empresas comuns.

Para agricultores e comerciantes, as exigências de pagamento retiram recursos de meios de vida já prejudicados pela guerra. Para as autoridades, disse Currie, os valores arrecadados ajudam a financiar as operações do governo, equipamentos militares e sistemas de monitoramento da população.

Currie também descreveu o uso desse dinheiro em áreas controladas pelas autoridades:

"Eles também usaram esses recursos para aprimorar sua capacidade de vigilância e de policiamento dentro do território que ainda controlam, cerca de metade do país", disse ela.

Por que o diálogo diplomático preocupa a investigadora da ONU

Integrantes da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) repreenderam os militares de Mianmar após a tomada do poder em 2021, mas alguns governos da região parecem mais receptivos, ultimamente, a relações mais amistosas. Currie afirmou que o diálogo está ocorrendo sem exigências de mudanças concretas na conduta do governo.

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As prioridades que ela propôs são específicas: reduzir a violência, libertar presos políticos e buscar negociações de paz que envolvam todas as partes. Essas medidas afetariam pessoas expostas a ataques aéreos, famílias à procura de parentes detidos e comunidades que vivem em áreas sob controle de diferentes forças.

A Associação de Assistência a Presos Políticos, organização independente de monitoramento, afirma que mais de 32 mil pessoas foram detidas desde a tomada do poder, entre elas Suu Kyi. Pelo menos 15 mil continuam presas. O primeiro número contabiliza as pessoas detidas ao longo do período; o segundo descreve a população carcerária atual.

A preocupação de Currie é que o contato diplomático avance enquanto os militares continuam tendo acesso a armas, dinheiro e instrumentos de controle interno. Seu apelo coloca as mudanças vividas pela população civil no centro de qualquer tentativa de restabelecer relações com as autoridades.

Decisão judicial pode aumentar o risco para os rohingyas

Currie alertou para a possibilidade de violência caso a Corte Internacional de Justiça decida que Mianmar cometeu genocídio ou não conseguiu impedi-lo durante a repressão militar de 2017 contra a minoria muçulmana rohingya. A Corte analisa a responsabilidade jurídica entre Estados, incluindo as obrigações previstas na Convenção sobre Genocídio.

Nick Koumjian, chefe do Mecanismo Independente de Investigação da ONU para Mianmar, disse ter visto informações de que os juízes pretendiam anunciar uma decisão naquele ano, com outubro citado como possibilidade. Ele esperava que a Corte avisasse com antecedência. Em suas declarações, não foi indicada uma data confirmada para a decisão.

Currie afirmou que grupos associados ao discurso de ódio e à incitação contra minorias estão se tornando mais ativos na internet e em espaços políticos controlados pelas autoridades. Ela apontou as comunidades não budistas e as pessoas que não pertencem à maioria étnica Bamar, incluindo os rohingyas, como possíveis alvos.

Currie descreveu a atividade que observou:

"Tenho visto alguns sinais no terreno em Mianmar de que os grupos responsáveis por discursos de ódio e por incitar a violência contra minorias não budistas e não Bamar, incluindo os rohingyas, estão se tornando muito mais ativos na internet", disse ela.

O alerta surge em meio a uma longa história de exclusão. A perda da documentação de cidadania dos rohingyas ajudou a privá-los do acesso à participação política, enquanto as restrições à documentação também afetam o acesso à educação, ao trabalho, à liberdade de circulação e aos cuidados médicos. Currie pediu a todos os países que acompanhem de perto a situação à medida que se aproxima a decisão da Corte.

Principais pontos

  • A investigadora da ONU Kelley Currie acusou os militares de Mianmar de atacarem deliberadamente civis para aterrorizá-los e forçá-los à submissão.
  • O Escritório de Direitos Humanos da ONU registrou pelo menos 982 civis mortos em ataques aéreos militares em 2025, incluindo 232 crianças.
  • Aeronaves russas e chinesas, combustível iraniano e redes internacionais de compras ajudam a sustentar a campanha aérea.
  • Currie afirmou que a corrupção financia compras militares, vigilância e policiamento em territórios controlados pelas autoridades.
  • Pelo menos 15 mil presos políticos continuam detidos, segundo a Associação de Assistência a Presos Políticos.
  • Currie alertou para possíveis atos de violência contra minorias antes de uma esperada decisão da Corte Internacional de Justiça sobre os rohingyas.
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