Alerta militar ocorre em meio a novos confrontos na fronteira
As Forças Armadas do Paquistão afirmam que podem interceptar drones lançados do Afeganistão e impor um alto custo militar às autoridades talibãs, enquanto novos confrontos ao longo da fronteira vêm acompanhados de mais relatos de mortes de civis. O tenente-general Ahmed Sharif Chaudhry, diretor-geral das Relações Públicas Interserviços, disse em entrevista em 30 de outubro de 2026 que o Paquistão estava à frente tanto do Talibã afegão quanto da Índia em termos de prontidão operacional.
Conteúdo
- Alerta militar ocorre em meio a novos confrontos na fronteira
- O que o Paquistão diz que pode fazer contra drones
- Como a guerra a distância está mudando o planejamento militar
- A disputa sobre abrigo a militantes por trás das ameaças
- Acusações contra a Índia ampliam o confronto
- Uma cronologia da escalada
- Civis enfrentam riscos dos dois lados
- Negociações continuam sem acordo
- Diálogo acompanhado de ameaça de uso da força
- Principais pontos
Dois dias depois, a polícia talibã na província de Paktika, no leste do Afeganistão, afirmou que disparos de foguetes paquistaneses mataram um jovem e feriram outros dois civis. O comando policial disse que casas na vila de Sordagh, no distrito de Shkin, foram atingidas por volta das 15h de 1º de novembro e que várias residências foram danificadas. Autoridades paquistanesas ainda não haviam comentado o incidente.
As declarações de Chaudhry conectam três aspectos da posição de segurança do Paquistão: confiança na capacidade de combater drones, acusações de que militantes recebem abrigo e apoio no Afeganistão e um alerta de que Islamabad responderá militarmente quando considerar essas ameaças intoleráveis. Ele também defendeu a continuidade do diálogo com Cabul, em vez do isolamento do Afeganistão.
As autoridades talibãs rejeitam a acusação do Paquistão de que o território afegão serve de base para ataques contra o país vizinho. Negociações com a participação de potências regionais ainda não resolveram essa divergência central, enquanto os tiroteios continuam nas comunidades dos dois lados da fronteira.
O Ministério da Informação do Paquistão descreveu a falta de ação do governo talibã contra o terrorismo como o principal obstáculo à normalização das relações. Para os moradores das áreas próximas à fronteira, as consequências imediatas incluem mortes, feridos e danos a residências, enquanto os dois governos discordam sobre quem é responsável pela violência.
O que o Paquistão diz que pode fazer contra drones
Chaudhry baseou sua confiança, em parte, na experiência do Paquistão durante o conflito com a Índia em maio de 2025. Ele afirmou que as forças paquistanesas derrubaram dezenas de drones indianos sofisticados enviados através da fronteira oriental e que melhoraram sua prontidão desde então.
O porta-voz militar disse que o Paquistão considera possíveis ataques de drones do Talibã parte de um conjunto mais amplo de ameaças militares. Questionado sobre a capacidade do país de combater essas aeronaves, ele fez um alerta direto:
Eles podem enviar o que quiserem; podem tentar. Temos capacidade para enfrentá-los,
Chaudhry também disse que as autoridades talibãs não teriam capacidade para suportar a retaliação que o Paquistão poderia impor. Seu argumento combina interceptação, ou seja, deter aeronaves que se aproximam, com dissuasão, isto é, tentar desestimular um ataque ameaçando uma resposta custosa.
Chaudhry alegou que o Afeganistão não tem uma indústria nacional de drones nem a tecnologia necessária e que seus equipamentos vêm de patrocinadores externos, especialmente da Índia. Essas acusações fazem parte da alegação mais ampla do Paquistão de que a Índia apoia grupos armados que atuam contra o país. Não houve resposta indiana às declarações mais recentes.
Como a guerra a distância está mudando o planejamento militar
Segundo Chaudhry, o Exército do Paquistão está se adaptando a drones, operações cibernéticas e armas capazes de atingir alvos a longas distâncias. Ele descreveu esses avanços como mudanças tanto no combate convencional quanto na guerra sem contato, em que os ataques são realizados sem que forças adversárias se enfrentem diretamente em um campo de batalha.
Os drones são um exemplo dessa mudança: um operador pode direcionar uma aeronave a um alvo a distância. Já as operações cibernéticas envolvem sistemas e redes de computadores. Chaudhry afirmou que a disseminação dessas capacidades entre grupos armados exige que os países reavaliem suas medidas de segurança.
O porta-voz citou o Talibã afegão e os houthis como exemplos de atores que não integram forças armadas nacionais convencionais, mas possuem capacidade para realizar ataques a distância. Sua preocupação é que os países agora precisem se preparar para ameaças que antes exigiam recursos mais comumente associados a exércitos regulares.
Chaudhry também foi questionado se o Paquistão usa inteligência artificial para identificar alvos no Afeganistão. Ele não quis detalhar aplicações específicas de IA, tecnologia quântica ou capacidades cibernéticas, mas afirmou que o Exército está adotando as tecnologias que considera necessárias para a guerra moderna.
O porta-voz militar descreveu a abordagem do Exército nestes termos:
Estamos usando todo tipo de tecnologia. Somos um Exército familiarizado com tecnologia,
A inteligência artificial pode ajudar sistemas computacionais a identificar padrões em grandes volumes de informação. Chaudhry não explicou que papel ela desempenha nas decisões de seleção de alvos do Paquistão, deixando sem esclarecimento os métodos e a supervisão humana de qualquer processo desse tipo.
A disputa sobre abrigo a militantes por trás das ameaças
A principal exigência do Paquistão continua sendo uma ação contra o Tehreek-i-Taliban Pakistan, ou TTP, grupo proibido que luta contra o Estado paquistanês. O Talibã afegão, que governa o Afeganistão, e o TTP são organizações distintas. Islamabad acusa as autoridades de Cabul de abrigar líderes do TTP e permitir que combatentes organizem ataques através da fronteira.
Chaudhry citou o líder do TTP, Noor Wali Mehsud, o comandante do Exército de Libertação do Baluchistão, Bashir Zeb, e Gul Bahadur como figuras militantes abrigadas no Afeganistão. Ele afirmou que grupos armados entram no Paquistão vindos do território afegão e recebem ali armas, instruções e apoio logístico.
O porta-voz também alegou que cidadãos afegãos e integrantes do governo talibã foram encontrados entre grupos envolvidos em ataques contra o Paquistão. Autoridades de segurança paquistanesas estimaram que até 70% dos militantes que entram no país clandestinamente e se enquadram na categoria que as autoridades chamam de Fitna al-Khawarij eram de origem afegã. Essa estimativa se refere aos infiltrados identificados por essas autoridades, e não a uma contagem de todos os militantes que atuam no Paquistão.
Em 24 de outubro, Islamabad já havia apresentado sua exigência de medidas verificáveis contra os militantes. O Ministério da Informação do Paquistão pediu que Cabul impedisse o TTP, o BLA e seus afiliados de usar o território afegão para planejar, preparar ou lançar ataques. O porta-voz talibã Zabihullah Mujahid rejeitou as acusações e disse que o Afeganistão não tinha interesse nem capacidade para criar insegurança no Paquistão.
Acusações contra a Índia ampliam o confronto
Chaudhry acusou a Índia de ser a principal patrocinadora do terrorismo dirigido contra o Paquistão e descreveu o TTP e o BLA como seus grupos subordinados. Um grupo subordinado é acusado de agir com o apoio de outra potência para promover os objetivos desta. Ele incluiu o governo talibã afegão nessa mesma suposta rede.
Chaudhry também citou o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, o Movimento Islâmico do Uzbequistão, o Jaish al-Adl, a Al Qaeda e o Estado Islâmico da Província de Khorasan entre os grupos que, segundo ele, estão presentes no Afeganistão. Ele afirmou que relatórios das Nações Unidas e avaliações de inteligência dos Estados Unidos e de outros países confirmavam a presença de organizações militantes no país.
O Ministério da Informação do Paquistão já havia apontado avaliações específicas que fundamentam sua posição: o 16º relatório da equipe de monitoramento de sanções do Conselho de Segurança da ONU, S/2025/796, publicado em 2025, e o relatório do inspetor-geral líder dos Estados Unidos sobre a Operação Enduring Sentinel, referente ao período de janeiro a março de 2026. O ministério atribuiu à avaliação dos EUA a estimativa de que havia entre 4 mil e 6 mil combatentes do TTP no Afeganistão.
Autoridades paquistanesas também alegaram que armas deixadas para trás pelas forças dos Estados Unidos e da Otan chegaram a grupos militantes. Assim, o relato de Chaudhry descreve um suposto sistema de apoio que envolve abrigo, armas, deslocamento e patrocínio externo, e não apenas uma disputa sobre tecnologia de drones.
As autoridades talibãs, por sua vez, acusaram o Paquistão de abrigar ou coordenar integrantes do antigo governo afegão e outros opositores de seu regime. Chaudhry rejeitou essa acusação e acusou Cabul de recorrer a milícias, mercenários e outros grupos armados para alcançar seus objetivos.
Uma cronologia da escalada
Paquistão e Afeganistão passaram por sucessivas rodadas de acusações, ações militares e negociações sem sucesso. A entrevista mais recente ocorreu após confrontos em setembro e outubro e pouco antes de outra morte de civil em Paktika.
- Maio de 2025: Paquistão e Índia travaram um conflito durante o qual, segundo Chaudhry, as forças paquistanesas interceptaram dezenas de drones indianos sofisticados.
- Setembro de 2026: O Paquistão realizou ataques aéreos na região da fronteira após ataques em Khyber Pakhtunkhwa. Também afirmou ter interceptado drones que cruzavam a fronteira e realizado novos ataques retaliatórios.
- 10 de outubro de 2026: As Forças Armadas do Paquistão disseram que 12 integrantes do TTP e membros do Talibã afegão foram mortos durante uma tentativa de infiltração em Kurram. Um soldado paquistanês também morreu.
- 24 de outubro de 2026: O Paquistão renovou sua exigência de medidas verificáveis contra grupos militantes que atuam a partir do Afeganistão.
- 30 de outubro de 2026: Chaudhry falou sobre ameaças de drones, tecnologia militar e abrigo a militantes em uma entrevista.
- 1º de novembro de 2026: As autoridades talibãs relataram a morte de um civil e ferimentos em outros dois em Paktika, enquanto novos confrontos eram registrados perto de Torkham.
Os confrontos de outubro em Kurram ilustraram como o Paquistão vincula a infiltração de militantes à atuação das forças talibãs na fronteira. As Forças Armadas paquistanesas alegaram que postos afegãos abriram fogo para apoiar a tentativa de travessia. Cabul continua rejeitando as acusações mais amplas de Islamabad sobre apoio a ataques.
Civis enfrentam riscos dos dois lados
As vítimas relatadas em Paktika fazem parte de um padrão mais amplo de danos ao longo da fronteira. As autoridades talibãs disseram que duas crianças morreram durante um confronto anterior perto de Torkham, passagem entre o Paquistão e a província afegã de Nangarhar.
Do lado paquistanês, disparos em Angoor Adda, no Baixo Waziristão do Sul, teriam matado um morador local e ferido cinco integrantes de uma família. Autoridades distritais disseram depois que os disparos de posições afegãs continuaram e que as forças paquistanesas responderam atacando postos de fronteira, posições de morteiros e pontos defensivos.
O vice-comissário distrital do Baixo Waziristão do Sul disse que não havia relatos de vítimas paquistanesas naquele confronto posterior. O serviço de relações públicas das Forças Armadas não havia comentado esse incidente específico quando o relato distrital foi divulgado.
A Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão documentou mais de 1.700 mortes e ferimentos de civis decorrentes da violência na fronteira dentro do Afeganistão entre outubro de 2025 e setembro de 2026. As autoridades paquistanesas, por sua vez, disseram que atos de terrorismo que atribuem ao território afegão mataram 1.327 paquistaneses e feriram 2.484 em 2026, totalizando 3.811 pessoas.
O número da missão da ONU abrange danos a civis dentro do Afeganistão durante um período específico de 12 meses. Os dados do Paquistão incluem mortes e ferimentos que o país atribui ao terrorismo vindo do outro lado da fronteira durante 2026. Cada conjunto retrata uma parte diferente do custo humano que alimenta o confronto.
Negociações continuam sem acordo
Catar e Turquia facilitaram várias rodadas de negociações, com a participação posterior da China, mas as conversas não produziram avanços. A Rússia se ofereceu para ajudar a organizar um acordo, caso os dois lados solicitem. A Arábia Saudita também participou dos esforços de mediação.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que Washington tomou conhecimento das preocupações do Paquistão sobre o terrorismo que o país atribui ao Afeganistão e está disposto a desempenhar um papel construtivo caso surja uma oportunidade. Não foi anunciada uma data para uma nova rodada de negociações nem para um acordo.
O Paquistão exige medidas verificáveis contra abrigos e redes de apoio a militantes. Cabul rejeita a acusação de permitir ataques contra países vizinhos e se opõe às operações militares paquistanesas dentro do Afeganistão. Com isso, as negociações precisam tratar tanto dos grupos armados quanto da atuação das próprias forças dos dois lados.
Diálogo acompanhado de ameaça de uso da força
Chaudhry disse que o Paquistão não quer que o Afeganistão seja isolado e não tem interesse em decidir como os afegãos devem governar o próprio país. Em vez disso, pediu que países da região e a comunidade internacional em geral pressionem as autoridades talibãs a agir como um Estado e impedir ataques originados em territórios sob seu controle.
O porta-voz militar expressou diretamente a exigência do Paquistão:
Só pedimos que não apoiem o terrorismo dentro do Paquistão. Parem de abrigar os líderes terroristas,
Chaudhry também pediu o fim do cultivo e da produção de drogas, descrevendo o terrorismo e as drogas como as principais exportações do Afeganistão. Suas declarações ampliaram o apelo do Paquistão para além de suas próprias preocupações de segurança, abrangendo ameaças que, segundo ele, afetam toda a região.
A posição do Paquistão combina a continuidade do diálogo diplomático com a ameaça de retaliação militar. Chaudhry disse que Islamabad tem tanto capacidade quanto estratégia para impor um custo por ataques. Na fronteira, novos tiroteios já colocam essa abordagem ao lado da necessidade imediata de proteger civis e chegar a um acordo que interrompa os combates.
Principais pontos
- As Forças Armadas do Paquistão dizem estar preparadas para interceptar drones talibãs e responder a ameaças originadas no Afeganistão.
- Chaudhry citou a alegação de que o Paquistão interceptou dezenas de drones indianos durante o conflito de maio de 2025.
- Islamabad acusa Cabul de abrigar o TTP e outros militantes; as autoridades talibãs rejeitam a acusação.
- A polícia talibã disse que disparos de foguetes paquistaneses mataram um civil e feriram outros dois em Paktika, em 1º de novembro. O Paquistão ainda não havia comentado.
- A missão da ONU documentou mais de 1.700 mortes e ferimentos de civis no Afeganistão causados pela violência na fronteira entre outubro de 2025 e setembro de 2026.
- A mediação regional não produziu um acordo, e não foi anunciada uma data para outra rodada de negociações.






