Exército australiano perdeu o controle do SAS no Afeganistão, conclui revisão sobre comando

10 min de leitura
Australian Army Lost Control of SAS in Afghanistan, Command Review Finds

Uma falha que foi além das patrulhas

Comandantes do Exército australiano permitiram que a autoridade sobre o Regimento do Serviço Aéreo Especial (SAS) no Afeganistão se deslocasse para sargentos e cabos, segundo um resumo recém-publicado de uma investigação oficial. O documento de 22 páginas descreve uma "inversão de autoridade", na qual comandantes de patrulha ganharam poder enquanto alguns oficiais se tornaram relutantes ou incapazes de liderá-los.

Conteúdo
  1. Uma falha que foi além das patrulhas
  2. O que a investigação anterior concluiu
  3. Como a autoridade desceu na hierarquia
  4. Os sinais de alerta que os comandantes não perceberam
  5. Prisioneiros, armas plantadas e relatos falsos
  6. O que a responsabilidade significa para os altos oficiais
  7. Dois soldados respondem a processos criminais
  8. Como as investigações se desenrolaram
  9. Principais pontos

A revisão do Inspetor-Geral da Força de Defesa Australiana amplia o escrutínio das falhas de liderança relacionadas a supostos assassinatos ilegais. O documento descreve um grupo de graduados influentes como uma "gangue de motoqueiros" e afirma que o alto comando não agiu de forma eficaz diante de sinais de alerta, entre eles o aumento no número de afegãos mortos sem uma elevação correspondente nas baixas australianas.

O resumo não cita nomes. Sua principal conclusão diz respeito à forma como a organização era conduzida: oficiais confundiram limites profissionais, a supervisão se enfraqueceu e pequenas equipes passaram a ter liberdade para escolher e executar missões com pouca supervisão efetiva.

A revisão descreve a perda de controle como um processo gradual:

A ruptura no comando ocorreu de forma gradual, ao longo de um período prolongado.

O documento também identifica falhas acima do nível das patrulhas:

Os sinais de um declínio mais amplo parecem ter sido perceptíveis para alguns integrantes do alto comando. A ausência de uma intervenção eficaz e a continuidade desse declínio sugerem falta de liderança efetiva em vários níveis.

Para as famílias afegãs que buscam respostas e os militares australianos sob escrutínio, as conclusões colocam lado a lado duas formas de responsabilização: processos criminais por mortes específicas e a responsabilidade institucional por permitir que práticas perigosas continuassem.

O que a investigação anterior concluiu

O Ministério da Defesa encomendou a investigação original sobre o Afeganistão em 2016, após rumores e denúncias de possíveis violações do Direito dos Conflitos Armados. Essas regras regem a conduta durante guerras, incluindo a proteção de civis e de pessoas capturadas.

Publicidade

A página da investigação sobre o Afeganistão do Ministério da Defesa afirma que a apuração abrangeu a atuação do Grupo de Operações Especiais entre 2005 e 2016. Ela foi conduzida de forma independente da cadeia de comando da Força de Defesa Australiana e do governo. O comandante da Força de Defesa recebeu o relatório em 6 de novembro de 2020 e anunciou as conclusões em 19 de novembro.

Liderada pelo major-general Paul Brereton, a investigação encontrou informações confiáveis que implicavam 25 militares da ativa ou da reserva em crimes graves, inclusive por suposta participação como cúmplices. Recomendou que a polícia investigasse 19 soldados pelo suposto assassinato de 39 prisioneiros e civis e pelos maus-tratos cruéis a outras duas pessoas. Também recomendou encaminhar 36 incidentes à Polícia Federal Australiana.

As 25 pessoas identificadas e os 19 militares cuja investigação policial foi recomendada representam grupos diferentes nas conclusões da apuração. As conclusões indicaram informações confiáveis que justificavam investigações adicionais; a decisão sobre acusações criminais cabe a um processo jurídico separado.

Os investigadores entrevistaram 423 testemunhas e analisaram mais de 20 mil documentos e mais de 25 mil imagens durante uma apuração que durou quatro anos e meio.

Como a autoridade desceu na hierarquia

Os comandantes das patrulhas do SAS geralmente eram sargentos que lideravam equipes de quatro a seis soldados. Graduados, incluindo sargentos e cabos, oferecem liderança experiente dentro das unidades militares, enquanto oficiais comissionados têm responsabilidades formais de comando.

A nova revisão afirma que essa relação se inverteu. A descrição dos oficiais subalternos é contundente:

Isso fez com que os oficiais subalternos ficassem, na prática, subordinados aos graduados e ocupassem uma posição que pode ser mais bem descrita como 'desamparo aprendido'.

Alguns oficiais subalternos buscavam aceitação por meio do "camaradismo" e de uma familiaridade excessiva com os soldados que deveriam comandar. Beber juntos, usar o primeiro nome e permitir acesso irrestrito ao álcool enfraqueciam os limites hierárquicos. Alguns oficiais também percebiam falta de apoio por parte do alto comando.

Os comandantes de patrulha ganharam margem para escolher e executar suas próprias missões. A revisão afirma que as avaliações de inteligência não eram objetivas e que os advogados militares eram favoráveis às equipes. Também descreve a influência excessiva das forças especiais americanas e britânicas e de outras agências governamentais, incluindo serviços de inteligência.

Publicidade

Os sinais de alerta que os comandantes não perceberam

Os combates se intensificaram a partir de cerca de 2009, e as equipes do SAS passaram a se concentrar cada vez mais na busca por líderes do Talibã, que tinham autorização para matar caso não fosse possível capturá-los. O Talibã também realizava assassinatos, muitas vezes tendo como alvo civis que trabalhavam para o governo afegão.

O alto comando dispunha de dados que mostravam o aumento do número de pessoas registradas como combatentes inimigos mortos, incluindo picos repentinos. A revisão também aponta como padrões que exigiam atenção a ausência de insurgentes feridos e a falta de baixas australianas.

Alguns comandantes perceberam os números e ouviram rumores de irregularidades. Outros, não. A revisão afirma que não havia indícios de que os comandantes que sabiam dos rumores fossem cúmplices, mas descreve como extraordinária a falta de medidas eficazes.

O resumo também menciona uma "aparente ausência de manifestação do CA" sobre soldados do SAS autorizados a voltar ao Afeganistão sem passar pelas avaliações obrigatórias de saúde mental. CA significa comandante do Exército. O tenente-general Ken Gillespie ocupou esse cargo de 2008 a 2011, embora o resumo não cite nomes.

Em conjunto, as conclusões descrevem falhas em vários pontos nos quais deveria haver supervisão: decidir quem estava apto a ser enviado, aprovar operações, verificar informações de inteligência e examinar padrões nas mortes.

Prisioneiros, armas plantadas e relatos falsos

A investigação de Brereton encontrou informações confiáveis de que alguns soldados subalternos receberam ordens dos comandantes de patrulha para matar prisioneiros a fim de obter sua primeira morte, prática conhecida como "batismo de sangue". Também examinou o uso de armas, rádios e outros equipamentos colocados ao lado dos corpos para fazer parecer que os mortos eram alvos legítimos.

Brereton explicou como o uso desses itens evoluiu:

Mas passou a ser usado para ocultar assassinatos deliberados e ilegais.

A investigação também constatou interpretações amplas dos critérios para considerar alguém como participante direto das hostilidades e, portanto, um alvo. No caso de civis, essa classificação pode determinar se um soldado considera legal o uso de força letal.

Brereton afirmou que os casos identificados para possível investigação criminal envolviam pessoas cujo status de proteção deveria ser evidente:

Os casos em que se concluiu haver informações confiáveis sobre um crime de guerra são aqueles em que era, ou deveria ter sido, evidente que a pessoa morta era um não combatente.

Publicidade

A investigação descreveu uma comunidade de forças especiais muito unida, na qual o sigilo e a lealdade dificultavam a obtenção de depoimentos verdadeiros. Relatos falsos e equipamentos plantados também obstruíam as verificações que deveriam ocorrer após uma morte.

O que a responsabilidade significa para os altos oficiais

A nova revisão veio depois da investigação de Brereton e aborda uma lacuna central no debate público: como os oficiais podiam manter o comando formal enquanto os líderes das patrulhas exerciam tanto controle na prática.

A investigação anterior não atribuiu aos oficiais culpa direta pelos supostos assassinatos, mas identificou responsabilidade indireta pela cultura que os cercava. Brereton mencionou a responsabilidade de integrantes do regimento que promoveram uma cultura guerreira e dos graduados influentes que a disseminaram.

O resumo mais recente apresenta um relato mais completo das falhas de comando, incluindo supervisão deficiente, relações hierárquicas confusas e ausência de intervenção eficaz. Ele coloca a responsabilidade pela condução da organização ao lado da investigação de atos individuais.

O general Angus Campbell, comandante da Força de Defesa na época em que as conclusões de 2020 foram divulgadas, pediu desculpas pelas irregularidades cometidas por soldados australianos. Ele descreveu as denúncias de forma direta:

Alega-se que algumas patrulhas fizeram justiça com as próprias mãos, as regras foram violadas, histórias foram inventadas, mentiras foram contadas e prisioneiros foram mortos.

Campbell anunciou que o 2º Esquadrão do SAS seria retirado da ordem de batalha do Exército, a lista formal de unidades militares. Ele disse que o comandante do Exército criaria um esquadrão substituto, com novo nome e nova cultura. A investigação de Brereton também recomendou que o governo indenizasse as famílias das vítimas antes da conclusão dos processos judiciais.

Dois soldados respondem a processos criminais

Oliver Schulz e Ben Roberts-Smith foram acusados de crimes de guerra. Ambos negam as acusações.

Schulz será julgado por assassinato em um processo previsto para começar em fevereiro. Seus advogados indicaram que ele pretende argumentar que agia sob ordens. Roberts-Smith é acusado de executar ou ordenar a execução de cinco prisioneiros e afirmou que seguiu seu treinamento e as regras aplicáveis aos soldados australianos no Afeganistão.

Publicidade

O ano previsto para o julgamento de Schulz, em fevereiro, e a data de publicação da nova revisão do comando não foram especificados no relato que anunciou as conclusões.

Os processos criminais examinarão acusações individuais. A revisão do comando trata do contexto mais amplo em que os soldados foram enviados e atuaram, incluindo as instruções, a supervisão e o escrutínio a que foram submetidos.

Como as investigações se desenrolaram

A análise da conduta das forças especiais australianas abrange operações de guerra, uma investigação independente e o escrutínio posterior da liderança. As principais datas mostram há quanto tempo a conduta e a resposta a ela vêm sendo examinadas:

  • De 2005 a 2016: período abrangido pela investigação original sobre a atuação do Grupo de Operações Especiais no Afeganistão.
  • A partir de cerca de 2009: os combates se intensificaram e as operações do SAS passaram a se concentrar cada vez mais nos líderes do Talibã, segundo a revisão do comando.
  • 2016: o Ministério da Defesa encomendou a investigação independente do Inspetor-Geral da Força de Defesa Australiana sobre o Afeganistão.
  • 6 de novembro de 2020: o comandante da Força de Defesa recebeu o relatório da investigação.
  • 19 de novembro de 2020: as conclusões da investigação foram anunciadas publicamente.
  • Após a investigação de Brereton: o Ministério da Defesa encomendou uma análise adicional das falhas de comando, agora descrita em um resumo público.

Para as famílias dos afegãos supostamente mortos, a recomendação de indenização da investigação ofereceu uma resposta que poderia avançar antes do fim dos processos criminais. Para o Exército, as novas conclusões voltam a atenção para deveres cotidianos de comando: conferir os relatos de operações, questionar padrões incomuns de baixas e garantir que soldados experientes continuem respondendo a seus oficiais.

Principais pontos

  • Um resumo de 22 páginas do Inspetor-Geral da Força de Defesa Australiana afirma que líderes do Exército permitiram que o controle efetivo das operações do SAS passasse para comandantes de patrulha influentes.
  • A revisão identifica supervisão deficiente, limites hierárquicos confusos e falhas em agir diante de dados sobre baixas e rumores.
  • A investigação de Brereton encontrou informações confiáveis sobre o suposto assassinato de 39 pessoas e recomendou que a polícia investigasse 19 soldados.
  • A investigação original abrangeu o período de 2005 a 2016 e examinou depoimentos de 423 testemunhas.
  • Oliver Schulz e Ben Roberts-Smith respondem a acusações de crimes de guerra. Ambos negam as acusações.
  • As conclusões ampliam o escrutínio, que passa dos supostos crimes individuais aos oficiais e ao alto comando responsáveis pela liderança.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar