Uma safra menor no Afeganistão, uma economia de fronteira em expansão
O Afeganistão tinha uma área estimada de 10.200 hectares plantada com papoula de ópio em 2025, abaixo dos 232.000 hectares em 2022, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Do outro lado da fronteira, no Paquistão, avaliações por satélite identificaram mais de 9.000 hectares apenas no Baluchistão, segundo David Mansfield, pesquisador britânico que estuda a economia das drogas ilícitas no Afeganistão.
Conteúdo
- Uma safra menor no Afeganistão, uma economia de fronteira em expansão
- O que mostram os números oficiais do Afeganistão
- Por que o Baluchistão se tornou um centro de cultivo
- Investimentos afegãos encontram agricultores sob pressão
- Declarações sobre erradicação no Paquistão são questionadas
- Campos no Irã revelam investimentos em áreas maiores
- Agricultores afegãos voltam a testar a proibição
- O que o mercado regional está indicando
- Renda das drogas e insegurança se reforçam
- Principais pontos
Os números se referem a anos e áreas de levantamento diferentes, mas retratam uma grande mudança: a proibição de narcóticos imposta pelo Talibã em abril de 2022 reduziu drasticamente o cultivo no Afeganistão, enquanto agricultores, investimentos e conhecimentos especializados migraram para o vizinho Paquistão e para o Irã. Imagens de satélite de 2026 e relatos de agricultores indicam que partes da região de fronteira estão se tornando centros de cultivo comercial de papoula.
Mansfield aponta o Baluchistão, no Paquistão, e o Sistão-Baluchistão, no Irã, como áreas onde a insegurança, a fiscalização fraca e a busca por renda estimularam a expansão. Agricultores afegãos arrendam terras, instalam sistemas de irrigação e dividem os lucros com proprietários locais. Alguns campos são inteiramente dedicados à papoula, em vez de abrigarem uma mistura de culturas.
Ópio é a substância extraída das cápsulas das sementes da papoula e processada para virar heroína. Portanto, mudanças nos locais de cultivo da planta afetam muito mais do que a agricultura: influenciam as rotas de tráfico, a renda de grupos armados e a oferta de drogas que chega a mercados distantes.
A preocupação imediata é a temporada de cultivo de 2027. Mansfield afirma que os investimentos e as decisões de plantio feitos em 2026 apontam para uma expansão ainda maior no Paquistão e no Irã, além de uma possível retomada no Afeganistão. A área total cultivada no Paquistão e no Irã continua incerta, pois faltam levantamentos nacionais abrangentes.
O que mostram os números oficiais do Afeganistão
A avaliação de novembro de 2025 do UNODC estima a produção de ópio do Afeganistão em 296 toneladas, uma queda de 32% em relação a 2024. A área cultivada caiu de 12.800 hectares para 10.200 hectares, uma redução de cerca de 20%.
Em comparação com os 232.000 hectares registrados em 2022, a área de 2025 foi aproximadamente 96% menor. Portanto, a proibição provocou uma forte contração, embora o cultivo continue em várias províncias.
A renda dos agricultores com a venda de ópio caiu mais rapidamente do que a área cultivada. O UNODC estima que a receita recuou 48%, de US$ 260 milhões em 2024 para US$ 134 milhões em 2025. O preço do ópio seco, segundo o indicador da agência, caiu 27%, de US$ 780 para US$ 570, mas continuou cinco vezes acima da média anterior à proibição.
As famílias afegãs tiveram poucas alternativas para substituir essa renda. O UNODC afirma que muitos agricultores passaram a cultivar cereais e outras culturas, mas a seca e a baixa precipitação deixaram mais de 40% das terras agrícolas improdutivas. Cerca de quatro milhões de afegãos que retornaram de países vizinhos aumentaram a concorrência por trabalho e recursos, enquanto a ajuda humanitária diminuiu.
Os principais acontecimentos se estenderam por vários anos:
- Abril de 2022: O Talibã impôs a proibição do cultivo de papoula.
- 2023: Os números oficiais de erradicação em dois países próximos ao Afeganistão subiram para 13.200 hectares, ante 5.868 hectares em 2022.
- 2025: A área cultivada no Afeganistão caiu para 10.200 hectares, enquanto as autoridades do Baluchistão anunciaram uma ampla campanha de erradicação.
- 2026: Avaliações por satélite e relatos de agricultores indicaram expansão do cultivo em partes do Paquistão e do Irã, além de alguma retomada no Afeganistão.
- 2027: Mansfield prevê risco de nova expansão em consequência das decisões de plantio e dos investimentos feitos em 2026.
Por que o Baluchistão se tornou um centro de cultivo
O Baluchistão, a maior e mais pobre província do Paquistão, combina acesso ao Afeganistão com uma economia agrícola sob pressão. Secas, enchentes repentinas e insegurança prejudicaram a agricultura tradicional, enquanto se intensificou uma insurgência envolvendo separatistas balúchis e outros militantes.
Uma análise de imagens de satélite feita pela empresa britânica Alcis localiza boa parte do cultivo de papoula identificado nos distritos de Loralai e Killa Abdullah. Mansfield afirma que as avaliações encontraram mais de 9.000 hectares em toda a província e que muitos agricultores dobraram a área cultivada em 2026.
Um artigo da Observer Research Foundation, de outubro de 2026, escrito por Ayjaz Wani, cita registros oficiais segundo os quais o cultivo no Baluchistão aumentou de 27 hectares em 2020 para 380 hectares em 2023, cerca de 14 vezes mais. Esses números administrativos anteriores abrangem um período diferente da avaliação posterior por satélite.
Wani também aponta Gulistan, no distrito de Killa Abdullah, perto de Spin Boldak, no Afeganistão, como um local onde o ópio era comercializado abertamente. Sua localização conecta a produção agrícola a rotas consolidadas que cruzam a fronteira.
Investimentos afegãos encontram agricultores sob pressão
Lala Jan Kakar, agricultor no Baluchistão, resistiu durante anos ao plantio de papoula. A insegurança, a seca e as enchentes repentinas acabaram comprometendo sua produção de frutas. Segundo ele, a papoula agora atrai mais demanda e gera mais renda do que as frutas.
De acordo com Kakar, produtores afegãos que chegam de Kandahar e Helmand trazem dinheiro e conhecimento prático. Eles investem milhões de rúpias paquistanesas em poços abastecidos por energia solar e negociam acordos para dividir os lucros com os proprietários das terras.
Segundo um funcionário provincial que conhece esses acordos, alguns investidores afegãos também oferecem pagamentos substanciais pelo uso da terra e adiantamentos vinculados à colheita prevista. Para um agricultor endividado ou com um pomar perdido, receber dinheiro antes da colheita pode ser especialmente tentador.
Os produtores dizem que a papoula oferece retorno financeiro mais rápido do que as culturas convencionais, com a possibilidade de duas colheitas por ano em algumas áreas. O acesso a compradores aumenta essa atratividade. Os agricultores ainda precisam de água, mas investidores capazes de financiar poços podem viabilizar o cultivo em terras cujos proprietários locais não têm recursos para isso.
A migração através da fronteira leva consigo todo um modelo de negócios: financiamento, técnicas de cultivo, equipamentos de irrigação e contatos com compradores. Isso ajuda a explicar por que a expansão pode avançar rapidamente assim que os proprietários aceitam participar.
Declarações sobre erradicação no Paquistão são questionadas
Sarfraz Bugti, ministro-chefe do Baluchistão, disse à assembleia provincial que as autoridades destruíram plantações de papoula em 36.109 jeribs nos primeiros oito meses de 2025. Jerib é uma unidade local de medida de área. Ele não informou a área total identificada como cultivada naquele período.
Os números anteriores apresentados por Bugti eram bem menores. Em 2022, as autoridades identificaram 628 jeribs e destruíram plantações em 328; em 2024, identificaram 1.275 jeribs e destruíram plantações em 715. Suas declarações reconheceram um forte aumento do cultivo e prometeram medidas para combatê-lo.
As autoridades também descreveram ações de fiscalização fora dos distritos imediatamente próximos à fronteira. Identificaram cerca de 4.500 jeribs em Loralai, Bori e Mekhtar e emitiram alertas a 800 proprietários de terras. Em Kohlu, anunciaram 55 prisões, incluindo 53 afegãos; em Duki, anunciaram 75 prisões, incluindo 62 afegãos.
Uma ordem provincial de 1º de outubro de 2025 proibiu o transporte e a venda de sementes de papoula com base na Seção 144. O governo também prometeu aprovar uma lei para punir quem cedesse terras para o cultivo e permitir o confisco dessas áreas. O anúncio descreveu uma medida proposta, não uma lei já aprovada.
A posição nacional do Paquistão tem sido a de que não há cultivo ou de que as plantações encontradas foram erradicadas. Em Killa Abdullah, o principal funcionário administrativo, Monawar Hussain, afirmou que o cultivo havia diminuído após uma campanha de erradicação no ano anterior. Mansfield diz que imagens da Alcis de 2026 não mostraram evidências claras dessa erradicação.
Abdul Qahar Wadan, ex-integrante da Assembleia Nacional que representou Killa Abdullah, alegou que altos funcionários militares e figuras locais alinhadas ao governo apoiavam o cultivo e recebiam comissões. Hussain rejeitou a acusação. Um agricultor que pediu anonimato também alegou que pagamentos chegavam a funcionários por meio de intermediários influentes. O Ministério do Interior do Paquistão e o governo provincial não responderam aos pedidos de comentário sobre as descobertas recentes.
Campos no Irã revelam investimentos em áreas maiores
O Irã está passando por um movimento semelhante de produtores afegãos, que usam vínculos familiares e contatos locais para trabalhar como arrendatários ou meeiros. A meação consiste em cultivar a terra de outra pessoa em troca de uma parcela acordada da colheita ou da renda obtida com ela.
O Sistão-Baluchistão continua sendo a principal região iraniana apontada como produtora de ópio. Também há relatos de cultivo em Razavi Khorasan, no leste, Kermanshah e Lorestan, no oeste, e Fars, no sul.
Imagens de satélite de 2026 parecem mostrar extensos campos de papoula em partes do Sistão-Baluchistão, incluindo grandes áreas dedicadas exclusivamente à cultura. Algumas fazendas parecem usar irrigação por gotejamento, que leva água por tubulações próximas às raízes das plantas.
Mansfield interpreta esses investimentos como um sinal de que os agricultores que plantaram no fim de 2025 esperavam baixo risco de destruição das lavouras. Instalar um sistema de irrigação custa dinheiro antes que a colheita gere qualquer receita, por isso a confiança de que será possível completar a temporada é um fator importante na decisão.
As autoridades iranianas enfrentam pressões concorrentes desde o início, no fim de fevereiro de 2026, da guerra com os Estados Unidos e Israel. Na avaliação de Mansfield, o conflito, as dificuldades econômicas e a intensificação da insurgência no Sistão-Baluchistão abriram mais espaço para o cultivo. As comunidades balúchis da província também enfrentam há muito tempo discriminação e violência por parte das autoridades.
A mudança na agricultura vai além da geografia. Mansfield descreve uma passagem de cultivos mistos para grandes áreas dedicadas exclusivamente à papoula. Isso concentra terras, investimentos e renda familiar em uma única cultura ilícita.
Agricultores afegãos voltam a testar a proibição
Estima-se que Badakhshan, no nordeste do Afeganistão, responda por cerca de metade da produção de ópio do país. Mansfield afirma que o cultivo continuou disseminado na região em 2026, tanto em terras dependentes da chuva quanto em áreas irrigadas.
Agricultores de Badakhshan e Helmand protestaram e resistiram à erradicação à medida que a seca, as dívidas e as dificuldades econômicas se agravaram. Às vezes, a fiscalização do Talibã foi coercitiva, levando as autoridades a entrar em conflito com comunidades rurais.
No sudoeste do Afeganistão, Mansfield afirma que o cultivo quase dobrou entre 2025 e 2026, embora a área tenha continuado limitada. Os agricultores plantaram em locais remotos, esconderam papoulas entre as plantações de trigo e aproveitaram a proteção dos muros que cercam as casas.
Uma diretriz do Talibã que exige uma ordem judicial antes que as autoridades possam revistar casas à procura de papoula ou ópio tornou-se um fator importante nessa decisão. Mansfield alerta que os agricultores podem interpretar a restrição como sinal de maior tolerância e ampliar o plantio para além dos terrenos cercados na próxima temporada.
A diretoria de combate aos narcóticos do Ministério do Interior do Talibã apresenta a redução do cultivo como uma grande conquista e afirma que imagens de satélite confirmam uma erradicação generalizada. Em comentários incluídos no levantamento do UNODC, também contestou partes dos cálculos da agência sobre rendimento e renda e apontou o aumento do cultivo em países vizinhos como uma das razões para a queda dos preços do ópio.
O que o mercado regional está indicando
O Levantamento do Ópio no Afeganistão de 2025, do UNODC, descreve indícios de que a produção está se deslocando para fora do Afeganistão. A área oficialmente erradicada em dois países próximos subiu de 5.868 hectares em 2022 para 13.200 hectares em 2023, um aumento de cerca de 125%. O levantamento não identifica esses países nesse trecho.
As estatísticas de erradicação medem as plantações que as autoridades dizem ter destruído. Para estimar o cultivo total, também é preciso medir os campos que sobreviveram ou não foram detectados. O UNODC continua classificando a produção do Paquistão como marginal, embora reconheça a escassez de dados e indícios de deslocamento do cultivo nas proximidades do Afeganistão.
A agência também aponta a queda dos preços do ópio e as apreensões de opiáceos, apesar da redução da produção afegã e de uma demanda relativamente estável. Uma possível oferta proveniente de outros lugares é uma das explicações consideradas, e a agência defende o reforço do monitoramento em toda a região.
Mesmo assim, consumidores na Europa enfrentavam uma oferta mais restrita de heroína. Em 2024, o preço ajustado pelo grau de pureza havia dobrado em relação aos níveis de 2022 na maioria dos mercados europeus com dados disponíveis. Ajustar pelo grau de pureza significa comparar o custo da heroína efetivamente presente em uma amostra, e não o peso total de uma mistura que contém outras substâncias.
Mianmar oferece outra medida da mudança geográfica. O artigo de Wani indica que havia 53.100 hectares cultivados com papoula de ópio no país em 2025, 17% a mais do que os 45.200 hectares em 2024. Naquele ano, a área cultivada em Mianmar foi mais de cinco vezes maior do que os 10.200 hectares do Afeganistão.
Renda das drogas e insegurança se reforçam
Grupos armados na região de fronteira podem ganhar dinheiro cobrando taxas sobre a produção, cobrando pela passagem ou controlando rotas comerciais. Mansfield afirma que eles disputam receitas provenientes das drogas, do contrabando de pessoas e do comércio de combustível, minerais e outros bens.
A violência pode enfraquecer a fiscalização das lavouras, enquanto a renda das drogas oferece outra fonte de recursos para grupos armados. O artigo de Wani examina supostos vínculos entre redes de narcóticos, organizações militantes e órgãos de segurança paquistaneses. Sua análise se concentra no financiamento e nas falhas de fiscalização; as acusações locais de proteção por autoridades continuam contestadas.
As drogas sintéticas representam um desafio paralelo. O UNODC afirma que as apreensões no Afeganistão e em seus arredores foram cerca de 50% mais frequentes no fim de 2024 do que no terceiro trimestre de 2023, com destaque para a preocupação com a metanfetamina. A produção pode ocorrer sem os campos e as temporadas de cultivo exigidos pela papoula, o que faz da fiscalização agrícola apenas uma parte da resposta.
O UNODC recomenda monitoramento regional, compartilhamento oportuno de informações e cooperação entre autoridades de fronteira, polícia e órgãos de desenvolvimento. Sua estratégia também inclui meios de subsistência alternativos, prevenção e tratamento, para atender tanto os agricultores que abastecem mercados ilícitos quanto as pessoas prejudicadas pelo uso de drogas.
Georgette Gagnon, representante especial adjunta do secretário-geral da ONU para o Afeganistão e chefe interina da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão, afirmou que é necessária uma resposta que vá além de um único país:
O problema das drogas no Afeganistão não se limita às suas fronteiras. As dinâmicas de oferta, demanda e tráfico envolvem atores afegãos e internacionais.
Gagnon apontou o Grupo de Trabalho de Combate aos Narcóticos do Processo de Doha como uma plataforma de cooperação entre as autoridades do Talibã e a comunidade internacional. Para os agricultores que decidem o que plantar na próxima temporada, a questão concreta é se culturas legais, compradores confiáveis e outras oportunidades de trabalho podem gerar renda suficiente para competir com o cultivo de papoula.
Principais pontos
- O UNODC estimou em 10.200 hectares o cultivo de papoula no Afeganistão em 2025, cerca de 96% abaixo do nível de 2022.
- Mansfield afirma que avaliações por satélite identificaram mais de 9.000 hectares no Baluchistão, no Paquistão, e que a expansão continuou em 2026.
- Produtores afegãos estão levando investimentos, sistemas de irrigação e conhecimentos de cultivo para fazendas no Paquistão e no Irã.
- As autoridades do Baluchistão anunciaram uma ampla erradicação, enquanto autoridades locais contestaram acusações de proteção e corrupção.
- O Sistão-Baluchistão, no Irã, e Badakhshan, no Afeganistão, continuam sendo importantes regiões de cultivo.
- Uma nova expansão em 2027 pode aumentar a oferta de heroína e a renda de grupos armados, tornando o monitoramento regional e as fontes alternativas de renda elementos centrais da resposta.






