De torrentes barrentas a cascatas mais límpidas
A proporção de trechos de monitoramento da bacia do Rio Amarelo com boa qualidade da água subiu de 59,1% em 2016 para 93,2% em 2025, segundo a Comissão de Conservação do Rio Amarelo (YRCC, na sigla em inglês). Na Cachoeira de Hukou, no distrito de Jixian, província de Shanxi, o fotógrafo Lyu Guiming acompanha essa transformação mais ampla ganhar forma visível nas águas em cascata.
Conteúdo
- De torrentes barrentas a cascatas mais límpidas
- O que mostram os dados de qualidade da água
- Manter o solo no lugar
- Reservatórios administram água e sedimentos em conjunto
- A proteção contra enchentes continua sendo uma tarefa central
- Um rio que flui em uma região com pouca água
- Por que a distribuição importa para a produção de alimentos
- Áreas úmidas e turismo fazem parte da transformação
- Como se desenvolveu a gestão ao longo de oito décadas
- Principais pontos
Lyu fotografa a cachoeira desde 1999. A torrente barrenta retratada na quarta série de cédulas de 50 yuans da China vem dando lugar cada vez mais às cenas límpidas que hoje predominam em seu trabalho. Ao descrever a mudança, ele disse:
Na última década, as cascatas límpidas da cachoeira têm sido meu principal tema fotográfico. O contraste com as cenas antigas é impressionante.
A melhora ocorre enquanto a China marca 80 anos da criação, em 1946, de um órgão de gestão do Rio Amarelo sob a liderança do Partido Comunista. Em uma conferência realizada em Zhengzhou, província de Henan, em 2 de novembro de 2026, autoridades avaliaram os avanços e pediram maior coordenação na proteção contra enchentes, na conservação da água e na restauração ecológica.
O segundo rio mais longo da China percorre 5.464 quilômetros desde as terras altas de Qinghai, atravessa nove províncias e regiões autônomas e deságua no mar de Bohai, em Shandong. Mantê-lo fluindo, reduzir o volume de solo que carrega e melhorar a qualidade de sua água exige trabalho ao longo de todo esse percurso.
Os resultados vão além da cachoeira. A bacia do rio e as áreas irrigadas a jusante produzem cerca de 89,5 bilhões de quilos de grãos por ano, enquanto áreas úmidas restauradas perto da foz abrigam cerca de 400 espécies de aves. Como a água continua escassa, uma distribuição cuidadosa é tão importante quanto a melhora de sua qualidade.
O que mostram os dados de qualidade da água
Os dados da YRCC registram um aumento de 34,1 pontos percentuais na proporção de trechos de monitoramento classificados entre as classes I e III entre 2016 e 2025. Em termos simples, cerca de seis em cada 10 trechos atendiam a esses padrões em 2016, contra mais de nove em cada 10 em 2025.
A China utiliza classes de qualidade da água para descrever as condições medidas por meio de análises, sendo a classe I a categoria mais alta. Nos dados da bacia, as classes I a III são agrupadas como água de boa qualidade. Os resultados do monitoramento oferecem um panorama mais amplo do que a aparência da água em um único local.
O canal principal do Rio Amarelo alcançou pela primeira vez a classe II de qualidade da água em toda a sua extensão em 2022 e manteve essa classificação nos últimos anos. A medição do canal principal abrange o próprio rio, enquanto os dados da bacia incluem o monitoramento de sua rede mais ampla de cursos d'água.
O rio Fenhe, em Shanxi, segundo maior afluente do Rio Amarelo, é outro exemplo concreto. Em 2025, suas águas fluíram por todo o percurso de 716 quilômetros, e 95,2% das águas avaliadas em sua bacia foram classificadas como de boa qualidade. Melhorar um afluente importa a jusante porque a água que ele transporta acaba chegando ao Rio Amarelo.
Manter o solo no lugar
A YRCC afirma que ações de conservação recuperaram 290.500 quilômetros quadrados de terras afetadas pela erosão do solo e impediram que cerca de 24,7 bilhões de toneladas de sedimentos chegassem ao rio. Em toda a bacia, a área ainda afetada pela erosão diminuiu quase pela metade em comparação com a década de 1990.
Sedimentos são o solo, a areia e outros materiais transportados pela água em movimento. O Rio Amarelo atravessa extensas áreas de loess, onde o solo fino pode ser levado para os cursos d'água quando chove. Por isso, a conservação começa nas encostas e nas ravinas, antes que esse material chegue ao rio principal.
A vila de Gaoxigou, no norte de Shaanxi, ilustra essa abordagem. As medidas incluem terraços em encostas suaves, pequenas barragens em ravinas, reservatórios para irrigação e áreas arborizadas em terrenos mais altos. Os terraços reduzem o escoamento da água pelas terras agrícolas, enquanto as barragens retêm o solo que, de outra forma, seguiria rio abaixo.
Reduzir a erosão beneficia tanto o rio quanto quem trabalha a terra. O solo retido na encosta continua disponível para a vegetação e a agricultura, enquanto menos material chega aos reservatórios e aos leitos dos rios. A água mais límpida em Hukou é uma parte visível desse esforço mais amplo para administrar o fluxo da água pela paisagem.
Reservatórios administram água e sedimentos em conjunto
Os gestores do Rio Amarelo também usam reservatórios para controlar quando a água é armazenada e liberada. A tarefa envolve dois recursos em movimento: a água de que as comunidades precisam e os sedimentos que podem se acumular nos leitos e nos reservatórios.
Zhang Jinliang, cientista-chefe da Yellow River Engineering Consulting Co., Ltd., descreveu o método operacional desenvolvido ao longo de anos de pesquisa:
Após anos de pesquisa, desenvolvemos uma abordagem de operação de reservatórios que armazena água limpa enquanto libera sedimentos. A regulação precisa da água e dos sedimentos marca uma mudança da resposta passiva para a ação proativa na gestão do rio.
Na prática, os operadores dos reservatórios coordenam as liberações para transportar os sedimentos e reter água mais limpa para uso posterior. Isso conecta o controle da erosão a montante às obras de engenharia ao longo do rio: um reduz o volume de solo que chega, enquanto o outro administra o material que ainda é carregado.
Grandes reservatórios, como Longyangxia, Liujiaxia, Sanmenxia e Xiaolangdi, integram a rede que dá suporte ao controle de enchentes e à distribuição de água. Sua operação precisa levar em conta as condições além das fronteiras provinciais, pois uma liberação em determinado local altera a disponibilidade de água mais abaixo no curso do rio.
A proteção contra enchentes continua sendo uma tarefa central
Registros históricos apontam mais de 1.500 rompimentos e transbordamentos ao longo do baixo Rio Amarelo e 26 mudanças de curso durante os cerca de 2.500 anos anteriores à fundação da República Popular da China, em 1949. O controle de enchentes foi um dos principais motivos para a criação de um sistema coordenado de gestão.
Wei Xiangyang, engenheiro-chefe da YRCC, afirmou que os diques construídos para resistir a grandes enchentes se estendem hoje por 1.371 quilômetros ao longo do baixo curso. Quarenta reservatórios no rio e em seus afluentes oferecem, em conjunto, uma capacidade de controle de enchentes de 19 bilhões de metros cúbicos. Esse espaço de armazenamento pode ser usado para conter a água das cheias e administrar sua liberação.
Ao longo do canal principal, a rede mais ampla de infraestrutura inclui cerca de 3.000 quilômetros de diques e aproximadamente 2.300 quilômetros de obras de regularização do rio. Esses totais abrangem uma área geográfica maior que a dos diques do baixo curso.
Wei estimou que a infraestrutura de proteção contra enchentes ajudou a evitar perdas econômicas de 10,09 trilhões de yuans ao longo de oito décadas. O valor representa uma estimativa dos danos evitados graças às medidas de proteção, incluindo prejuízos a propriedades e atividades econômicas que poderiam ter sido afetadas pelas enchentes.
Em uma orientação transmitida durante a conferência de 2 de novembro, o presidente Xi Jinping atribuiu a oito décadas de gestão uma mudança fundamental na história de rompimentos frequentes do rio. Ele pediu a continuidade da proteção e da governança coordenada, junto com a proteção ecológica e o desenvolvimento da bacia.
Um rio que flui em uma região com pouca água
Segundo a YRCC, o Rio Amarelo flui sem interrupção há 27 anos consecutivos desde a implantação da gestão unificada da água, em 1999. O sistema coordena a distribuição de água entre todas as regiões de nível provincial ao longo do rio.
A oferta limitada de água na bacia torna essa coordenação essencial. Em uma reunião sobre políticas públicas realizada em setembro de 2019, Xi citou recursos hídricos por pessoa equivalentes a apenas 27% da média nacional da China. Fazendas, cidades, indústrias e ecossistemas dependem de um rio com relativamente pouca água para distribuir.
Na conferência de 2 de novembro, o vice-primeiro-ministro Liu Guozhong pediu mais conservação da água, uso mais eficiente e melhor coordenação da infraestrutura hídrica. Participaram da reunião autoridades de Qinghai, Gansu, Henan e Shandong, além de representantes da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma e do Ministério dos Recursos Hídricos. Não foi anunciada nenhuma nova meta quantificada de distribuição de água nem um prazo para sua implementação.
A negociação de direitos de uso da água é outra parte da resposta. Uma plataforma de negociação para a bacia está em operação, e Ningxia e Aba, em Sichuan, exploraram uma transação entre províncias. Essas negociações envolvem a autorização para usar uma quantidade determinada de água e permitem transferir essa autorização conforme regras acordadas.
Por que a distribuição importa para a produção de alimentos
As terras agrícolas irrigadas na bacia do Rio Amarelo se expandiram para 132 milhões de mu, o equivalente a 8,8 milhões de hectares, junto com melhorias na eficiência do uso da água. A bacia e as áreas irrigadas a jusante produzem cerca de 13,3% dos grãos da China, ou aproximadamente um quilo a cada oito produzidos no país.
O distrito de irrigação de Hetao, na Mongólia Interior, mostra como a gestão está se tornando mais precisa. Seu sistema de monitoramento registra os níveis e o fluxo da água em sete níveis de canais de irrigação e drenagem, ajudando os gestores a acompanhar o percurso da água dos canais principais até os campos.
O distrito dependia antes de desvios de água sem controle por comportas, o que dificultava obtê-la durante a seca e conter o fluxo quando havia água em abundância. O projeto de controle hídrico de Sanshenggong forneceu um sistema de desvio controlado, enquanto o monitoramento digital ajuda hoje os operadores a administrar a distribuição com mais precisão.
O distrito de Helan, em Ningxia, também adotou tecnologias de economia de água para aliviar a pressão entre o cultivo de arroz e a oferta limitada. Em conjunto, esses exemplos mostram por que as políticas de conservação se concentram tanto na forma como a água é distribuída e utilizada quanto na quantidade disponível no rio.
Áreas úmidas e turismo fazem parte da transformação
Na foz do rio, em Shandong, a Reserva Natural Nacional do Delta do Rio Amarelo investiu 1,56 bilhão de yuans em restauração ecológica. O trabalho acrescentou 74 mil mu de áreas úmidas de água doce, cerca de 4.933 hectares, desobstruiu 76 quilômetros de canais de maré e conectou 241 quilômetros de cursos d'água.
A reserva fica no cruzamento de duas das principais rotas usadas por aves migratórias. O número de espécies de aves registradas aumentou de 187, quando a reserva foi criada, para cerca de 400, mais que o dobro da contagem inicial. Os cursos d'água conectados e as áreas úmidas restauradas oferecem locais para as aves se alimentar, descansar, passar o inverno e se reproduzir.
Em 2024, a área do estuário do Rio Amarelo, em Dongying, foi incluída na ampliação do sítio Patrimônio Mundial da UNESCO Santuários de Aves Migratórias ao Longo da Costa do Mar Amarelo e do Golfo de Bohai, na China. O reconhecimento insere o estuário em uma rede mais ampla de habitats costeiros protegidos para aves.
Na Cachoeira de Hukou, a mudança ambiental também passou a fazer parte da economia turística local. As fotografias de Lyu, amplamente compartilhadas, ajudaram a chamar atenção para a paisagem do distrito de Jixian, onde o turismo se tornou uma atividade econômica fundamental após anos de pobreza.
Os dois locais mostram benefícios diferentes ao longo do mesmo rio. Em Hukou, as cascatas mais límpidas atraem visitantes. No estuário, canais e áreas úmidas restaurados sustentam a vida selvagem. Ambos dependem de decisões tomadas muito além de seus arredores imediatos.
Como se desenvolveu a gestão ao longo de oito décadas
O sistema atual teve origem em um órgão criado em Heze, Shandong, em 1946, sob a liderança do Partido Comunista. A YRCC transferiu sua sede para Zhengzhou em dezembro de 1953, estabelecendo-se em Henan, província repetidamente afetada por enchentes do Rio Amarelo.
As mudanças posteriores ampliaram o foco, que deixou de se limitar à engenharia contra enchentes e passou a incluir o uso coordenado da água, o controle da poluição e a restauração ecológica. Os principais marcos incluem:
- 1946: Um órgão de gestão do Rio Amarelo foi criado em Heze.
- Dezembro de 1953: A YRCC transferiu sua sede para Zhengzhou.
- 1999: Começou a gestão unificada da água entre as regiões ao longo do rio.
- Outubro de 2020: O Comitê Central do Partido Comunista e o Conselho de Estado divulgaram o plano diretor de proteção ecológica e desenvolvimento da bacia.
- 2022: Todo o canal principal alcançou pela primeira vez a classe II de qualidade da água.
- 1º de abril de 2023: Entrou em vigor a Lei de Proteção do Rio Amarelo.
- 2 de novembro de 2026: Uma conferência em Zhengzhou avaliou 80 anos de gestão e pediu a continuidade da proteção coordenada.
A Lei de Proteção do Rio Amarelo estabelece um marco jurídico nacional específico para a proteção da bacia. Além dela, Henan e Shandong criaram mecanismos de compensação ecológica que vinculam responsabilidades ao longo da fronteira que compartilham no rio. A orientação prática é clara: conservação a montante, proteção a jusante e distribuição de água precisam ser administradas em conjunto.
Principais pontos
- A proporção de trechos de monitoramento da bacia com água de boa qualidade subiu de 59,1% em 2016 para 93,2% em 2025.
- O canal principal alcançou pela primeira vez a classe II de qualidade da água em toda a sua extensão em 2022.
- Medidas de conservação impediram que cerca de 24,7 bilhões de toneladas de sedimentos chegassem ao rio.
- A distribuição unificada, implantada em 1999, contribuiu para 27 anos consecutivos de fluxo ininterrupto.
- A bacia e as áreas irrigadas a jusante produzem cerca de 13,3% dos grãos da China.
- A restauração na reserva do Delta do Rio Amarelo acrescentou 74 mil mu de áreas úmidas de água doce.
- A conferência de 2 de novembro de 2026 pediu a continuidade da proteção contra enchentes, da conservação da água e da governança coordenada.






