Custos de saúde anulam avanços no combate à pobreza
Mais de 10,8 milhões de pessoas em Bangladesh foram empurradas para abaixo da linha da pobreza por causa de pagamentos médicos em 2022, segundo um estudo da Unidade de Economia da Saúde apresentado em Dhaka em 28 de outubro de 2026. Isso correspondeu a 6,4% da população, em comparação com 5,6 milhões de pessoas, ou 3,9%, em 2005. Uma análise acadêmica da mesma edição da pesquisa nacional estimou um impacto menor: 6,13 milhões de pessoas, ou 3,7%.
Conteúdo
- Custos de saúde anulam avanços no combate à pobreza
- O que significam as diferentes medidas
- Como o estudo acadêmico calculou a pobreza causada por despesas médicas
- Gastos médicos cresceram acima da inflação
- Famílias mais pobres enfrentam maior pressão
- Famílias rurais e Barishal enfrentam encargos maiores
- Medicamentos e mudanças nos padrões de atendimento
- Financiamento público beneficia os mais pobres com menos eficácia
- Dados domiciliares mais recentes mostram pouca margem para outra conta
- Principais pontos
O estudo do governo, Risco financeiro associado a pagamentos diretos por serviços de saúde e incidência dos benefícios em Bangladesh, foi realizado com o apoio da Organização Mundial da Saúde e da Embaixada da Suécia. Foram analisadas quatro edições da Pesquisa de Renda e Despesas das Famílias, conhecida como HIES, referentes a 2005, 2010, 2016 e 2022.
A taxa nacional de pobreza de Bangladesh caiu de 40% em 2005 para 18,7% em 2022. Ainda assim, o número de pessoas levadas à pobreza por despesas com saúde quase dobrou nesse período. O resultado revela uma fragilidade nesse avanço: uma família pode ganhar o suficiente para cobrir as necessidades do dia a dia e, ainda assim, perder sua estabilidade financeira quando alguém adoece.
A Unidade de Economia da Saúde também constatou que 41,7% das pessoas enfrentaram dificuldades financeiras devido aos gastos com saúde em 2022, ante 28,2% em 2005. O índice de 2022 superou em 15,7 pontos percentuais a estimativa global de 26%.
Medicamentos, exames diagnósticos, internações e consultas foram alguns dos principais fatores. Para famílias com pouco dinheiro sobrando depois de pagar por alimentação, moradia e outras necessidades, arcar com o tratamento significava ter menos recursos disponíveis para essas mesmas necessidades básicas.
O que significam as diferentes medidas
Pagamentos diretos são despesas que as pessoas pagam do próprio bolso pelos serviços de saúde, em vez de serem cobertas pelo governo, por um seguro ou por outro pagador. Incluem gastos com medicamentos, consultas e exames.
A Unidade de Economia da Saúde considerou que havia dificuldade financeira quando os pagamentos médicos ultrapassavam 40% do dinheiro restante depois de atendidas as necessidades básicas. Também mediu os gastos catastróficos com saúde usando outro limite: despesas médicas acima de 10% do consumo total da família. Consumo significa os bens e serviços usados por uma família, medidos por meio de suas despesas.
Segundo essa segunda medida, o estudo do governo constatou que os gastos catastróficos aumentaram de 12,5% em 2005 para 32,1% em 2022. A análise acadêmica estimou que 17,72% das famílias ultrapassaram o mesmo limite de 10%. As estimativas foram de 7,07% para o limite de 25% do consumo total e de 9,46% para o limite de 40% das despesas excluindo a alimentação.
Cada limite responde a uma pergunta diferente sobre o orçamento familiar. Medir os gastos depois de cobrir as necessidades básicas permite avaliar quanto dinheiro sobra para outros fins. Medir uma parcela do consumo total compara os custos médicos com o orçamento inteiro. Já as estimativas de pobreza verificam se os recursos restantes após o pagamento das despesas médicas ficam abaixo do mínimo necessário para o dia a dia.
Como o estudo acadêmico calculou a pobreza causada por despesas médicas
Os pesquisadores Abdur Razzaque Sarker, Rasedul Islam e An Tran-Duy analisaram 14.395 famílias em seu estudo publicado na BMJ Open, Gastos catastróficos com saúde e empobrecimento por despesas médicas em Bangladesh: evidências da Pesquisa de Renda e Despesas das Famílias. A análise utilizou a HIES 2022 e uma linha de pobreza de Tk 3.832 por pessoa por mês.
Os pesquisadores compararam o consumo das famílias antes e depois de descontar os pagamentos médicos. A proporção estimada de pessoas na pobreza subiu de 19,01% para 22,71%, um aumento de 3,70 pontos percentuais. Eles estimaram que cerca de 1,35 milhão de famílias cruzaram a linha da pobreza após o desconto dos custos de saúde.
O estudo converteu os dados das famílias em estimativas para a população usando pesos amostrais e o tamanho das famílias, com uma população nacional estimada em 166,9 milhões. Para tratamentos sem pernoite no hospital, os gastos considerados foram os dos 30 dias anteriores. Para internações, foram os dos 12 meses anteriores.
Os resultados aqui descritos não explicam publicamente os motivos exatos da diferença entre as estimativas do governo e as acadêmicas. Para isso, é preciso comparar diretamente as metodologias usadas nos cálculos de pobreza, despesas e recursos familiares.
Os pesquisadores acadêmicos também apontaram uma lacuna no que as pesquisas de gastos conseguem captar: a análise de despesas catastróficas excluiu pessoas que precisavam de atendimento, mas não tinham condições de procurá-lo. O período de recordação das despesas pelas famílias e a forma como elas as relataram também podem afetar os custos registrados.
Gastos médicos cresceram acima da inflação
Os pagamentos mensais médios das famílias subiram de Tk 1.241 em 2005 para Tk 3.238 em 2022, segundo o estudo da Unidade de Economia da Saúde. Os valores foram corrigidos pela inflação, ou seja, o aumento reflete um peso financeiro maior, já considerada a variação no valor do dinheiro.
O aumento foi de Tk 1.997 por mês, ou cerca de 161%. No mesmo período, a proporção de famílias que relataram algum pagamento médico direto subiu de 52,5% para 92,7%, um avanço de 40,2 pontos percentuais. As despesas com saúde passaram a fazer parte do orçamento de quase todas as famílias.
O estudo acadêmico registrou gastos mensais médios de Tk 1.904 considerando todas as famílias e de Tk 3.454 entre aquelas que tiveram despesas médicas. Essas médias se referem a grupos diferentes: incluir famílias que não registraram gastos reduz o valor médio.
A página de pesquisa do BIDS sobre desigualdade nos custos médicos em áreas urbanas e rurais cita uma estimativa do Banco Mundial segundo a qual as famílias pagam diretamente quase 74% dos custos de saúde de Bangladesh. O projeto do Instituto de Estudos de Desenvolvimento de Bangladesh é coordenado por Sarker, pesquisador associado, e informa que recebeu financiamento do REF e do BIDS.
O BIDS também cita que cerca de 18% das famílias enfrentam gastos catastróficos e menciona a estimativa acadêmica de empobrecimento por despesas médicas. Sua agenda de pesquisa se concentra em quem precisa de atendimento, quem paga e como o peso dos custos varia entre famílias rurais e urbanas.
Famílias mais pobres enfrentam maior pressão
Segundo a Unidade de Economia da Saúde, 90,8% das pessoas no quinto mais pobre da população, segundo o consumo, enfrentaram dificuldades financeiras em 2022. Entre as pessoas no quinto mais rico, o índice foi de 13,6%. A diferença é de 77,2 pontos percentuais.
Subrata Paul, responsável pela área de Cobertura Universal de Saúde e Contas Nacionais de Saúde da unidade, descreveu a desigualdade desse peso durante a apresentação.
"As famílias mais pobres foram as que mais sofreram", afirmou.
Uma pequena conta médica pode consumir uma parcela grande do dinheiro que sobra no orçamento de uma família pobre. Famílias mais ricas podem gastar mais em takas e ainda manter recursos suficientes para alimentação, moradia e outras necessidades essenciais. A medida de dificuldade financeira capta essa diferença na capacidade de pagar.
O estudo acadêmico identificou maior exposição a gastos catastróficos entre famílias numerosas, famílias com idosos, pessoas em tratamento de doenças crônicas e pessoas que recorrem a serviços hospitalares. O tratamento recorrente pesa porque a despesa volta a cada mês, enquanto uma internação pode gerar uma conta alta de uma só vez.
Os estudos descrevem famílias cobrindo despesas médicas com empréstimos, poupança, ajuda de parentes ou venda e hipoteca de bens. Essas decisões podem prolongar a pressão para além do período da doença: o dinheiro usado no tratamento deixa de estar disponível para outra emergência, e os empréstimos precisam ser pagos.
Famílias rurais e Barishal enfrentam encargos maiores
Em 2022, a taxa de dificuldades financeiras entre moradores rurais foi de 47,9%, contra 28,2% nas áreas urbanas, segundo o estudo do governo. O índice rural foi 19,7 pontos percentuais maior.
Barishal registrou a reversão mais acentuada destacada pelos resultados. Em 2005, sua taxa de dificuldades financeiras era de 22,5%, a mais baixa entre as divisões de Bangladesh. Em 2022, chegou a 59,1%, a mais alta.
O aumento de 36,6 pontos percentuais em Barishal foi muito maior que a alta nacional de 13,5 pontos percentuais. Esses números dão aos formuladores de políticas públicas motivos para investigar onde a proteção financeira é mais fraca, em vez de se basear apenas na média nacional.
Pesquisas anteriores também documentaram a desigualdade de exposição, embora tenham medido gastos catastróficos, e não o indicador mais recente de dificuldade financeira. Um estudo baseado na HIES 2010 constatou gastos catastróficos em 16,5% das famílias mais pobres e em 9,2% das mais ricas. No limite de 10%, a estimativa nacional foi de 14,2%, e o estudo calculou que pagamentos médicos levaram 5,1 milhões de pessoas à pobreza.
A sequência de resultados abrange vários anos de pesquisa:
- 2005: A Unidade de Economia da Saúde estimou que pagamentos médicos empurraram 5,6 milhões de pessoas para a pobreza.
- 2010: Uma análise acadêmica estimou que 14,2% das famílias enfrentaram gastos catastróficos no limite de 10%.
- 2016: Unidades públicas prestaram 61,3% dos atendimentos hospitalares, enquanto farmácias responderam por 32,5% dos atendimentos ambulatoriais.
- 2022: O estudo do governo registrou mais dificuldades financeiras e maior dependência de farmácias e de serviços hospitalares privados.
- 28 de outubro de 2026: Os resultados da Unidade de Economia da Saúde foram apresentados em Dhaka.
Medicamentos e mudanças nos padrões de atendimento
Os medicamentos corresponderam a 64,6% dos gastos médicos diretos nos dados de despesas citados pelo artigo da BMJ Open. Os exames laboratoriais representaram 11,7% e as consultas, 10,8%. Juntas, essas três categorias somaram 87,1%.
Os custos dos medicamentos, portanto, estão no centro do problema de acessibilidade financeira. O estudo do governo recomendou acesso gratuito e confiável a medicamentos essenciais e serviços de diagnóstico, além de atendimento contínuo e acessível para doenças crônicas.
As farmácias também se tornaram uma fonte muito mais importante de atendimento ambulatorial. Sua participação subiu de 32,5% em 2016 para 55,4% em 2022, um aumento de 22,9 pontos percentuais. Em 2022, elas respondiam por mais da metade desse tipo de atendimento nos resultados do governo.
Os serviços públicos continuaram sendo os principais prestadores de atendimento hospitalar, mas sua participação caiu de 61,3% para 56% entre 2016 e 2022. A participação dos prestadores privados aumentou de 36,9% para 42,5%.
Para as famílias, essas mudanças aumentam o peso dos custos dos medicamentos e das taxas cobradas nos locais onde recebem tratamento. Para os serviços públicos, uma tarefa prática é garantir o fornecimento contínuo de produtos essenciais para que os pacientes recebam o tratamento que esses serviços devem oferecer.
Financiamento público beneficia os mais pobres com menos eficácia
A Unidade de Economia da Saúde constatou que, em comparação com 2016, a distribuição dos benefícios dos gastos públicos com saúde se tornou menos favorável às famílias mais pobres. Sua avaliação do atendimento hospitalar levantou dúvidas sobre se os recursos públicos estavam chegando às pessoas com maiores necessidades de saúde e financeiras.
Os gastos públicos podem proteger uma família quando pagam por um tratamento que, de outra forma, sairia do orçamento doméstico. A distribuição desse benefício é importante, assim como o valor gasto: famílias mais pobres têm menos condições de comprar por conta própria um medicamento que falta ou pagar por um exame diagnóstico em um serviço privado.
O estudo recomendou aumentar o financiamento público, melhorar a eficiência e a equidade dos gastos e restabelecer uma distribuição mais favorável dos benefícios dos serviços públicos de saúde para as pessoas mais pobres. Os pesquisadores acadêmicos propuseram mecanismos de pré-pagamento, incluindo um seguro-saúde nacional, para proteger as famílias de contas elevadas.
Pré-pagamento significa contribuir para um fundo comum antes que uma doença ocorra, por meio de mecanismos como impostos ou seguros. O fundo ajuda a pagar pelo atendimento quando alguém precisa dele, distribuindo os custos entre várias pessoas e ao longo do tempo, em vez de deixar uma família responsável por quitar a conta imediatamente.
O ministro de Estado da Saúde, MA Muhit, manifestou preocupação durante a apresentação e afirmou que o governo estava comprometido, no mais alto nível, com o combate a irregularidades e à corrupção no setor de saúde. Ele também responsabilizou as condições existentes durante o governo da Liga Awami. As recomendações dizem respeito ao financiamento, ao acesso e à distribuição dos serviços, além da administração dos recursos.
Dados domiciliares mais recentes mostram pouca margem para outra conta
Pesquisas domiciliares mais recentes em Bangladesh mostram como a reserva financeira das famílias ficou pequena. Uma pesquisa do Centro de Pesquisa sobre Poder e Participação com 8.067 famílias, realizada em maio de 2025, constatou renda mensal média de Tk 32.685 e despesas de Tk 32.615, deixando apenas Tk 70.
Na apresentação desses resultados, em 17 de outubro de 2026, as contas médicas foram apontadas como causa de 67,4% das crises financeiras. Os resultados sobre a fragilidade financeira das famílias também estimaram que cerca de 31 milhões de pessoas faziam parte de um grupo vulnerável, em risco de cair na pobreza após uma doença, perda de renda ou outro choque.
Os 40% mais pobres gastaram mais do que ganharam, enquanto apenas 27,5% das famílias classificadas como vulneráveis, mas não pobres, receberam apoio da rede de proteção social. Essa combinação torna concreta a proteção proposta: medicamentos acessíveis, atendimento público confiável e ajuda para despesas recorrentes poderiam deixar mais dinheiro disponível para alimentação e outras necessidades.
Os dados sobre gastos com saúde de 2022 e a pesquisa domiciliar mais recente descrevem famílias com pouca capacidade de absorver os custos de uma doença. O desafio para as políticas públicas é reduzir as despesas no momento do atendimento e direcionar recursos públicos às pessoas com menos condições de pagar.
Principais pontos
- A Unidade de Economia da Saúde estimou que pagamentos médicos empurraram mais de 10,8 milhões de bengaleses para a pobreza em 2022; uma análise acadêmica estimou 6,13 milhões.
- O estudo do governo constatou que 41,7% das pessoas enfrentaram dificuldades financeiras, ante 28,2% em 2005.
- As dificuldades financeiras afetaram 90,8% do grupo com menor consumo e 47,9% dos moradores rurais.
- Os medicamentos foram a maior categoria de gastos nos dados de despesas citados pelo estudo acadêmico.
- As recomendações incluem mais financiamento público, acesso confiável a medicamentos essenciais e serviços de diagnóstico, atendimento acessível para doenças crônicas e mecanismos de financiamento compartilhado.






