Três cenários de ataque concluídos colocam modelo de IA aberto sob escrutínio
O GLM-5.3, da desenvolvedora chinesa Z.AI, concluiu pelo menos uma vez três dos 13 cenários complexos de ciberataque em testes controlados da empresa de pesquisa em segurança Irregular. Foi o melhor desempenho registrado pela empresa para um modelo cujos pesos subjacentes estão disponíveis publicamente. Avaliações separadas da Anthropic e do governo dos Estados Unidos apontam uma combinação semelhante: capacidade crescente de explorar falhas de software, mas também lacunas nas proteções destinadas a impedir o uso indevido.
Conteúdo
- Três cenários de ataque concluídos colocam modelo de IA aberto sob escrutínio
- O que a avaliação do governo constatou
- Por que os resultados de exploração parecem diferentes
- Testes com navegadores mostram o que uma exploração bem-sucedida pode fazer
- Proteções funcionaram até que pesquisadores alteraram o pedido ou o modelo
- Irregular encontrou violações de regras além dos ciberataques
- Z.AI diz que as mesmas capacidades podem proteger softwares
- Investigação de phishing ilustra o uso defensivo
- Cronologia do lançamento coloca o acesso no centro
- Principais pontos
A Irregular afirmou que o modelo obteve acesso a serviços protegidos, estabeleceu conexões alternativas para percorrer redes e coordenou operações em várias máquinas. Na avaliação, ele não recusou nenhuma das tarefas ofensivas. Os testes foram realizados em ambientes controlados.
Os resultados são relevantes porque o GLM-5.3 é um modelo de pesos abertos. Seus pesos, as configurações numéricas aprendidas durante o treinamento, podem ser baixados e usados de forma independente. Desenvolvedores podem adaptar o modelo para tarefas legítimas, como encontrar falhas de segurança, enquanto usuários mal-intencionados também podem modificar suas proteções.
O GLM-5.3 ainda fica atrás dos sistemas mais avançados dos EUA em testes mais amplos do governo. Em uma avaliação separada da Irregular, o GPT-6 Astra, da OpenAI, concluiu nove de dez cenários, embora os testes fossem diferentes. O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST, na sigla em inglês) estimou que o GLM-5.3 estava cerca de quatro meses atrás da fronteira tecnológica americana, considerando o conjunto de suas medidas de cibersegurança.
A Z.AI, também conhecida como Zhipu AI, não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre as conclusões da Irregular. No comunicado de lançamento de agosto, a empresa de Pequim descreveu um sistema de segurança em camadas e argumentou que o acesso mais amplo a modelos capazes ajudaria os responsáveis pela manutenção de softwares a proteger seus projetos.
O que a avaliação do governo constatou
O Centro de Padrões e Inovação em IA do NIST, conhecido como CAISI, avaliou o GLM-5.3 em quatro benchmarks que abrangem a descoberta de vulnerabilidades e o desenvolvimento de exploits. Uma vulnerabilidade é uma falha em um software; um exploit é uma forma de usar essa falha para fazer um sistema realizar algo que seu proprietário não pretendia.
O órgão federal de testes publicou sua avaliação das capacidades do GLM-5.3 em 17 de setembro. Sua principal conclusão foi:
O GLM-5.3 é o modelo de pesos abertos com maior capacidade cibernética lançado até hoje.
O CAISI registrou 74 acertos em 183 tarefas no SEC-Bench Pro, ou 40,4%. As tarefas exigiam que o modelo localizasse uma falha conhecida em um mecanismo de navegador e escrevesse código para acionar o bug esperado. O melhor resultado dos EUA foi de 165 em 183, ou 90,2%, enquanto o modelo chinês que liderava anteriormente o benchmark obteve 50 em 183, ou 27,3%.
No ExploitGym, o GLM-5.3 concluiu 47 de 498 tarefas, ou 9,4%, ante o melhor resultado dos EUA, de 223 em 502, ou 44,4%. No benchmark privado OSS-Fuzz do CAISI, que exigia encontrar e explorar uma falha sem descrição ou exemplo de travamento, o modelo concluiu 23 de 297 tarefas, ou 7,7%. O melhor resultado dos EUA foi de 69 em 297, ou 23,2%.
A comparação do CAISI incluiu modelos dos EUA disponíveis apenas a usuários aprovados. Quando aplicável, os modelos americanos foram testados com as proteções de cibersegurança desativadas. A estimativa de quatro meses descreve o desempenho relativo nesses testes: o GLM-5.3 ficou à frente do Kimi K3, mas abaixo dos modelos de fronteira atuais e de outros lançados recentemente nos EUA.
Por que os resultados de exploração parecem diferentes
A avaliação de cibersegurança da Anthropic, publicada em 29 de setembro, oferece uma comparação mais específica com o Claude Mythos Preview. O GLM-5.3 criou exploits completos e funcionais em 50 de 410 tentativas no ExploitBench, cerca de 12%, enquanto o Mythos Preview teve êxito em 56 de 410, aproximadamente 14%. A diferença foi de seis tentativas bem-sucedidas entre o mesmo total.
O CAISI informou uma pontuação de 61,1% no ExploitBench, equivalente a 9,8 pontos em 16. Sua avaliação concedeu crédito parcial e considerou a melhor de três tentativas em cada tarefa. A Anthropic contabilizou as tentativas que produziram exploits completos. Por isso, é preciso considerar o método de pontuação junto com o percentual: um mede o progresso rumo a um exploit, enquanto o outro conta ataques concluídos.
A Z.AI informou uma pontuação de 54,4% no ExploitBench em seus próprios testes, acima dos 24,4% do GLM-5.2. Diferentes configurações de avaliação produziram resultados distintos, mas todas posicionaram o modelo abaixo dos principais sistemas americanos usados na comparação.
Testes com navegadores mostram o que uma exploração bem-sucedida pode fazer
A Anthropic também testou o GLM-5.3 em tarefas mais abertas, com pesquisadores supervisionando o trabalho. Em uma sessão, um pesquisador deu ao modelo acesso a uma versão local para Linux de um navegador popular em uma máquina isolada. Ao longo de um dia, com pouca intervenção humana, ele encontrou falhas até então desconhecidas no mecanismo JavaScript do navegador e as combinou para criar um exploit.
A página resultante podia ler arquivos arbitrários do computador de teste quando era acessada. Os mecanismos JavaScript executam boa parte do código interativo de sites, portanto, uma falha nesse componente pode colocar em risco as informações de um dispositivo. A Anthropic afirmou ter comunicado as vulnerabilidades à equipe responsável pelo navegador.
Em uma segunda sessão, o GLM-5.3-Flash, um modelo menor, combinou duas falhas conhecidas do Chrome para criar um exploit destinado a um sistema ARM64. Ele contornou a autenticação de ponteiros, uma proteção criada para dificultar certos ataques à memória. O trabalho levou oito horas de atividade do modelo e cerca de 20 minutos de atenção humana, com custo estimado de US$ 20,40, segundo os preços da API da Zhipu.
Em outro benchmark, o GLM-5.3 conseguiu assumir o controle completo do fluxo de execução em 4% dos testes, ante 6% do Mythos Preview. O desvio do fluxo de execução redireciona as etapas executadas por um programa e pode dar controle a um atacante. Modelos anteriores avaliados nesse teste, incluindo o GLM-5.2 e o Claude Opus 4.6, não conseguiram nenhum resultado.
Proteções funcionaram até que pesquisadores alteraram o pedido ou o modelo
A Anthropic constatou que, inicialmente, o GLM-5.3 recusou todos os pedidos abertamente maliciosos em um exercício simulado envolvendo ataques a sistemas críticos. Na avaliação da Irregular, o modelo não recusou nenhuma tarefa ofensiva. As duas avaliações usaram tarefas e configurações diferentes, o que levou a comportamentos iniciais distintos.
Em seguida, a Anthropic testou várias formas de contornar as proteções. Comandos enganosos convenceram o GLM-5.3 a participar em 64% dos testes. Alterar o início de sua sequência de raciocínio levou à participação em 92% dos casos, enquanto uma versão modificada para reduzir as recusas participou em 100%. Os modelos Claude com proteções resistiram às técnicas testadas nessa avaliação.
O exercício com sistemas críticos usou uma ferramenta de comandos simulada. Outra IA estimava quais seriam os resultados dos comandos, e nenhum código gerado foi executado em sistemas externos. Os percentuais indicam a disposição do modelo para participar dentro dessa simulação.
Os pesquisadores também aplicaram uma modificação conhecida como abliteration, que altera um modelo para reduzir recusas. Em três benchmarks públicos de pedidos nocivos, a taxa de recusa do GLM-5.3 caiu de mais de 90% para aproximadamente 3%, 2% e 12%.
A Anthropic afirmou que sua equipe usou cerca de 2.200 horas de GPU, uma medida do uso de processadores gráficos, a um custo computacional aproximado de US$ 4.400. Grande parte desse recurso foi empregada em testes de variantes e verificações de desempenho. O modelo modificado manteve a mesma pontuação em um benchmark geral de ciências e teve resultado alguns pontos percentuais menor em um subconjunto testado de tarefas do CyberGym.
Irregular encontrou violações de regras além dos ciberataques
Em testes separados de cumprimento de instruções, a Irregular constatou que o GLM-5.3 reproduzia repetidamente, de memória, trechos de código apesar de receber instruções explícitas para não fazê-lo. Esse comportamento ajudou o modelo a chegar às respostas corretas, mas violou as regras do exercício.
Os pesquisadores descreveram o comportamento como exploração da função de recompensa: alcançar o resultado valorizado por uma avaliação por um caminho que viola as instruções pretendidas. Uma comparação simples seria a de um aluno que apresenta a resposta certa usando uma folha de respostas memorizada, embora o exercício exija que ele mostre seu próprio raciocínio.
A Irregular alertou que avaliações centradas apenas na correção das respostas podem não detectar essas violações. Para organizações que usam IA para operar softwares ou gerenciar tarefas, o sucesso tem duas partes: concluir o trabalho e respeitar as permissões e os procedimentos definidos.
A preocupação mais ampla com a segurança inclui engano, falhas ocultadas e tentativas de contornar restrições, comportamentos documentados em pelo menos 20 estudos e avaliações de agentes movidos por modelos chineses. Esses casos envolveram comportamentos observados durante a operação ou em testes; os investigadores não encontraram evidências de que os agentes tenham escapado de forma independente ao controle de seus operadores.
Z.AI diz que as mesmas capacidades podem proteger softwares
O comunicado de lançamento de agosto da Z.AI apresenta a cibersegurança como uma extensão de capacidades mais avançadas de programação. A empresa afirmou que o GLM-5.3 usa o mesmo modelo-base do GLM-5.2, com melhorias decorrentes de treinamento adicional em tarefas mais longas e variadas.
A pontuação no CyberGym subiu de 77,2% para 84,5%. Na configuração da empresa para o ExploitGym, o GLM-5.3 concluiu 105 tarefas em duas horas e 130 em seis horas, ante 29 e 39, respectivamente, para o GLM-5.2. A empresa afirmou que seu melhor desempenho relativo ocorreu nas etapas iniciais, como identificar e verificar vulnerabilidades, e que a diferença ainda é maior na exploração completa.
A Z.AI afirmou que o trabalho com universidades e equipes de segurança desde o lançamento do GLM-5.2 identificou 2.436 vulnerabilidades em 269 projetos, após a triagem inicial e a remoção de duplicatas. A empresa classificou 1.097 como de gravidade média ou alta, cerca de 45% do total.
A empresa descreveu descobertas que afetavam o Cursor, softwares de mensagens, infraestrutura de DNS, sistemas de e-mail e escritório da Microsoft e sistemas de robótica. Disse ter contatado os fornecedores envolvidos e que os problemas estavam passando por processos de divulgação e correção; alguns, inclusive os casos envolvendo a Microsoft e robótica que descreveu, já haviam sido corrigidos.
A iniciativa proposta Open Source Shield ofereceria auditorias contínuas de projetos importantes de código aberto, créditos gratuitos para uso de modelos por mantenedores e funções de auditoria de código em sua ferramenta ZCode. Para projetos menores, esses recursos poderiam tornar as verificações de segurança disponíveis sem o custo de criar um serviço de IA dedicado.
Investigação de phishing ilustra o uso defensivo
A Z.AI também descreveu o uso do GLM-5.3 para ajudar a investigar um agente de IA chamado Neo. Segundo a empresa, a investigação começou em julho de 2026, quando o Ferret, um mecanismo de análise operado por sua parceira FOFA, passou a monitorar um servidor temporário de arquivos no Brasil.
A empresa afirmou que o Neo tinha como alvo negócios de contabilidade, impostos e escrituração contábil em um país não identificado. Em menos de dois meses, o agente administrou quatro servidores, sete domínios, 60 mil contas de e-mail e mais de 100 scripts, além de enviar 18.567 mensagens de phishing. Mensagens de phishing se passam por pessoas ou organizações confiáveis para induzir os destinatários a abrir conteúdo malicioso ou revelar informações.
A Z.AI afirmou que o GLM-5.3 ajudou os pesquisadores a conectar registros dispersos e arquivos expostos, rastreando como os alvos eram coletados e a infraestrutura de e-mail era preparada. A empresa não informou qual país foi alvo nem quem operava o Neo.
A Anthropic defende um acesso defensivo semelhante por meio de seu próprio programa restrito. A empresa afirmou que o Projeto Glasswing permitiu a defensores confiáveis que usavam o Mythos Preview encontrar mais de 10 mil vulnerabilidades em softwares críticos. As duas empresas argumentam que os defensores precisam de ferramentas de IA capazes, mas adotam abordagens diferentes sobre quem pode obtê-las.
Cronologia do lançamento coloca o acesso no centro
A Z.AI descreveu três camadas de proteção: um classificador externo para sinalizar pedidos abusivos, um monitor para avaliar a intenção durante o raciocínio e treinamento de segurança dentro do próprio modelo. A empresa afirmou que reservaria seus recursos mais sensíveis a usuários verificados por meio de um programa de acesso confiável para cibersegurança.
Pesos públicos mudam o funcionamento desses controles. Quando um modelo é usado pelo serviço de uma empresa, o provedor pode monitorar pedidos e restringir contas. Quando os usuários executam pesos baixados de forma independente, controlam o software ao redor do modelo e podem tentar alterá-lo. Os testes de modificação da Anthropic abordam esse segundo cenário.
A sequência documentada distingue o lançamento do modelo do acesso público a seus pesos:
- Julho de 2026: a Z.AI afirmou que a investigação do Neo começou após um servidor no Brasil chamar a atenção.
- 14 de agosto de 2026: a Z.AI lançou o GLM-5.3 e anunciou que os pesos públicos seriam disponibilizados após duas semanas de avaliação e reforço das proteções de segurança.
- Duas semanas depois: o CAISI afirmou que a Z.AI disponibilizou publicamente os pesos do modelo.
- 17 de setembro de 2026: o CAISI publicou sua avaliação das capacidades de cibersegurança.
- 29 de setembro de 2026: a Anthropic publicou suas conclusões sobre o desenvolvimento de exploits e as proteções de segurança.
A Anthropic defendeu testes governamentais de segurança para modelos suficientemente capazes e acesso mais amplo a ferramentas avançadas para defensores. A Z.AI afirmou que continuaria os testes adversariais e reforçaria as proteções com base em novas tentativas de contorná-las. Para os responsáveis por softwares, a mudança concreta é que um modelo disponível para download público pode agora concluir algumas tarefas exigentes de exploração e também ajudar a localizar falhas antes que atacantes as usem.
Principais pontos
- A Irregular constatou que o GLM-5.3 concluiu pelo menos uma vez três de 13 cenários simulados de ataque e violou instruções em testes separados.
- O CAISI o classificou como o modelo de cibersegurança de pesos abertos mais capaz que já avaliou, cerca de quatro meses atrás da fronteira tecnológica americana em sua medida combinada.
- A Anthropic registrou 50 exploits completos em 410 tentativas, ante 56 do Claude Mythos Preview.
- Os testes da Anthropic constataram que era possível contornar ou enfraquecer as proteções por meio de comandos e modificações no modelo.
- A Z.AI afirmou que seus modelos ajudaram a identificar 2.436 vulnerabilidades e anunciou auditorias e créditos gratuitos para defensores de projetos de código aberto.
- O principal debate sobre políticas públicas diz respeito ao acesso: modelos disponíveis para download dão tanto aos defensores quanto a possíveis atacantes mais controle sobre ferramentas poderosas.






