Expansão dos chips leva Coreia do Sul ao segundo lugar, atrás apenas da China
A Coreia do Sul registrou superávit em conta corrente de US$ 116,63 bilhões de abril a junho de 2026, superando pela primeira vez a soma dos superávits da Alemanha e do Japão em uma série comparável iniciada em 1996. A alta dos preços dos semicondutores e a demanda por chips usados em inteligência artificial ajudaram o país a alcançar o segundo lugar entre 36 grandes economias com dados disponíveis para o trimestre.
Conteúdo
- Expansão dos chips leva Coreia do Sul ao segundo lugar, atrás apenas da China
- Uma comparação histórica com Alemanha e Japão
- Julho e agosto ampliam a vantagem
- Chips de memória respondem pela maior parte do salto nas exportações
- FMI prevê participação recorde na produção nacional
- Banco central vê espaço para superávit ainda maior
- Preços e gastos com IA concentram os riscos
- FMI prevê redução do superávit nos próximos anos
- Força das exportações impulsiona crescimento, enquanto demanda interna também importa
- Principais pontos
Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) disponíveis no Sistema de Estatísticas Econômicas do Banco da Coreia colocam a China em primeiro lugar, com US$ 193,72 bilhões. A Alemanha ficou atrás da Coreia do Sul, com US$ 52,28 bilhões, enquanto o Japão registrou US$ 50,62 bilhões. A soma dos valores informados para Alemanha e Japão é de US$ 102,90 bilhões, deixando a Coreia do Sul à frente por US$ 13,73 bilhões.
Os números, divulgados em 25 de outubro, mostram a rapidez com que as receitas externas da Coreia do Sul cresceram. O superávit havia sido de US$ 28,39 bilhões no mesmo trimestre do ano anterior. O total mais recente foi cerca de 4,1 vezes maior, um aumento de US$ 88,24 bilhões. O superávit da Alemanha cresceu 11,9% no mesmo período, enquanto o do Japão aumentou 5%.
A conta corrente mede as transações de um país com o resto do mundo em bens, serviços, renda de investimentos e transferências. Há superávit quando o dinheiro recebido nessas transações supera o montante pago ao exterior. As exportações de semicondutores representam uma parcela importante das receitas da Coreia do Sul, embora a conta também inclua pagamentos como a renda de investimentos no exterior.
As exportações sul-coreanas de semicondutores chegaram a US$ 113,89 bilhões no segundo trimestre, alta de 181,6% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério de Dados e Estatísticas. A disparada se acelerou no terceiro trimestre, tornando a continuidade da expansão dos chips um fator central para as perspectivas econômicas do país.
Uma comparação histórica com Alemanha e Japão
A vantagem da Coreia do Sul sobre a Alemanha chegou a US$ 64,35 bilhões, a maior diferença desde o início da série comparável, em 1976. A vantagem de US$ 66,01 bilhões sobre o Japão foi a maior desde 1996, quando os dados dos três países passaram a estar disponíveis.
A comparação mudou bruscamente ao longo do ano. De janeiro a junho, a Coreia do Sul acumulou superávit de US$ 191,01 bilhões. A Alemanha registrou US$ 126,39 bilhões e o Japão, US$ 112,12 bilhões, de modo que a soma dos dois ainda superou o resultado sul-coreano no primeiro semestre completo. A Coreia do Sul ultrapassou o total combinado dos dois especificamente no segundo trimestre.
A China permaneceu à frente nos dois períodos, com superávit de US$ 378,03 bilhões no primeiro semestre. O superávit sul-coreano no segundo trimestre equivaleu a 60,2% do chinês, ante 22,7% um ano antes. Entre os trimestres em que os dois países registraram superávit, essa foi a maior proporção desde o último trimestre de 2019.
Julho e agosto ampliam a vantagem
A Coreia do Sul continuou a registrar superávit maior que o total combinado de Alemanha e Japão em julho e agosto. O total dos dois meses chegou a US$ 88,19 bilhões, ante US$ 36,85 bilhões da Alemanha e US$ 43,97 bilhões do Japão. A soma de US$ 80,82 bilhões dos dois países deixou a Coreia do Sul à frente por US$ 7,37 bilhões.
A sequência mostra que a expansão se estendeu para além de um único trimestre, embora a comparação internacional do terceiro trimestre cubra apenas julho e agosto. Os dados de exportação de semicondutores vão até setembro, portanto os dois conjuntos de números abrangem períodos diferentes.
- Abril a junho de 2026: o superávit em conta corrente da Coreia do Sul chegou a US$ 116,63 bilhões, superando o total combinado de Alemanha e Japão.
- Julho e agosto: a Coreia do Sul registrou mais US$ 88,19 bilhões de superávit, novamente acima do total combinado dos dois países.
- Julho a setembro: as exportações de semicondutores chegaram a US$ 148,02 bilhões, alta de 218,7% em relação ao ano anterior.
- Outubro de 2026: o FMI projetou superávit em conta corrente de US$ 421,946 bilhões para o ano inteiro.
O resultado de julho e agosto também elevou o superávit acumulado da Coreia do Sul nos primeiros oito meses para US$ 279,20 bilhões, calculados a partir do total de US$ 191,01 bilhões no primeiro semestre e dos US$ 88,19 bilhões registrados em seguida.
Chips de memória respondem pela maior parte do salto nas exportações
As exportações de semicondutores subiram de US$ 113,89 bilhões no segundo trimestre para US$ 148,02 bilhões no terceiro, um aumento de US$ 34,13 bilhões, ou cerca de 30%. Na comparação com os mesmos períodos do ano anterior, o crescimento acelerou de 181,6% para 218,7%.
Os chips de memória responderam por uma parcela especialmente grande das receitas. As exportações de memória no terceiro trimestre cresceram 311,6%, para US$ 130,7 bilhões. Isso representou cerca de 88,3% das exportações de semicondutores do trimestre, conforme o cálculo com base nos dois totais. Os chips de memória armazenam as informações de que os computadores precisam para executar tarefas, inclusive os cálculos complexos usados por sistemas de IA.
Somente em setembro, as exportações de semicondutores chegaram a US$ 60,33 bilhões, alta de 262,8% em relação ao ano anterior. O mês respondeu por cerca de 40,8% do valor das exportações de semicondutores no terceiro trimestre.
A alta dos preços é uma parte crucial da história. Uma empresa pode receber mais dinheiro pela mesma quantidade de chips quando o preço de cada unidade aumenta. Portanto, as receitas de exportação da Coreia do Sul dependem tanto do volume vendido quanto dos preços que os compradores estão dispostos a pagar.
FMI prevê participação recorde na produção nacional
O relatório Perspectivas da Economia Mundial de outubro do FMI projetou superávit em conta corrente de US$ 421,946 bilhões para a Coreia do Sul em 2026, o segundo maior entre 190 países e territórios com dados disponíveis. A China deveria permanecer em primeiro lugar, com US$ 863,205 bilhões. No ano anterior, a Coreia do Sul ocupou a quinta posição.
O FMI esperava que o superávit sul-coreano aumentasse US$ 298,892 bilhões, o maior avanço entre essas economias. O aumento projetado para a China era de US$ 138,803 bilhões, o que faria a alta sul-coreana ser cerca de 2,15 vezes maior.
Em relação ao produto interno bruto (PIB), o valor dos bens e serviços produzidos pela economia, o superávit projetado para a Coreia do Sul era de 18,8%. Essa seria a maior proporção nos dados do FMI, que começam em 1980, e quase o dobro dos 10,1% registrados em 1998, após a crise financeira asiática.
As projeções correspondentes eram de 4,0% para a China, 4,5% para a Alemanha e 4,6% para o Japão. Entre 22 economias com PIB superior a US$ 1 trilhão, a proporção projetada para a Coreia do Sul ficava em segundo lugar, atrás de Taiwan. Expressar o superávit como proporção do PIB ajuda a mostrar sua dimensão em relação ao tamanho de cada economia.
Banco central vê espaço para superávit ainda maior
A avaliação do Banco da Coreia foi mais otimista que a projeção anual do FMI. Em sua Avaliação das Condições Econômicas, divulgada em 22 de outubro, o banco central afirmou:
O superávit em conta corrente permanecerá em nível elevado, acima da previsão inicial (US$ 450 bilhões para o ano), impulsionado pelas fortes exportações de semicondutores.
A perspectiva do banco central indicava que o total anual poderia se aproximar de US$ 500 bilhões. Isso seria cerca de quatro vezes o recorde do ano anterior, de aproximadamente US$ 123,1 bilhões. A projeção de US$ 421,946 bilhões do FMI, a previsão inicial de US$ 450 bilhões do banco central e a possibilidade de um resultado próximo de US$ 500 bilhões são estimativas, não resultados anuais consolidados.
Instituições financeiras privadas também elevaram suas expectativas. No fim de setembro, a média das previsões de oito grandes bancos de investimento apontava superávit sul-coreano equivalente a 17,5% do PIB em 2026 e 17,4% em 2027, segundo dados compilados pelo Centro da Coreia para Finanças Internacionais. Essas estimativas haviam aumentado 1,5 e 2,4 pontos percentuais, respectivamente, em relação ao mês anterior.
Preços e gastos com IA concentram os riscos
Yang Jun-seok, professor de economia da Universidade Católica da Coreia, apontou os preços como a principal força por trás da expansão:
O superávit se deve fundamentalmente aos semicondutores — e aos preços, mais do que aos volumes.
Yang alertou que uma redução nos investimentos em IA ou uma concorrência maior entre fornecedores de memória poderia diminuir rapidamente essas receitas:
Se a expansão da IA perder força ou mais empresas produzirem memória para IA e a concorrência de preços se intensificar, o superávit em conta corrente cairá acentuadamente.
Kim Kwang-seok, chefe do escritório de pesquisa econômica do Instituto Coreano de Pesquisa Econômica e Industrial, apontou os concorrentes dos Estados Unidos e da China. Suas preocupações se concentraram na Micron e na chinesa ChangXin Memory Technologies, conhecida como CXMT, e no risco de os produtores sul-coreanos perderem participação de mercado à medida que essas empresas desenvolvem suas capacidades.
Para a Coreia do Sul, a demanda e a concorrência afetam a mesma fonte de receita por caminhos diferentes. Um ritmo mais lento de investimentos em infraestrutura de IA reduziria a demanda por chips. A expansão da oferta de concorrentes poderia pressionar os preços. Como a memória respondeu por quase nove décimos do valor das exportações de semicondutores no terceiro trimestre, mudanças nesse mercado teriam grande impacto.
FMI prevê redução do superávit nos próximos anos
O FMI projetou que o superávit em conta corrente da Coreia do Sul permanecerá acima de US$ 400 bilhões em 2027 e 2028, antes de cair para US$ 295,656 bilhões em 2029 e US$ 177,491 bilhões em 2031. A posição projetada no ranking internacional cairia para terceiro lugar em 2029 e quinto em 2031.
O valor previsto para 2031 é cerca de 58% inferior à projeção do FMI para 2026, de US$ 421,946 bilhões. As estimativas descrevem um recuo expressivo em relação ao pico atual, embora a Coreia do Sul ainda mantenha um superávit elevado.
Yang argumentou que o período de receitas fortes oferece uma oportunidade para reestruturar empresas em dificuldades antes que as condições piorem. Kim defendeu uma gestão mais rigorosa dos riscos financeiros, citando a persistência de juros altos e a possibilidade de uma forte reversão na taxa de câmbio.
Força das exportações impulsiona crescimento, enquanto demanda interna também importa
A expansão dos semicondutores já ajudou a melhorar as perspectivas mais amplas para a economia. A avaliação de outubro do FMI elevou de 2,6%, em julho, para 3,3% a previsão de crescimento da Coreia do Sul em 2026 e aumentou a projeção para 2027 de 2,5% para 2,8%.
A revisão para cima veio após as exportações recordes de setembro, de US$ 120,9 bilhões, incluindo embarques de semicondutores superiores a US$ 60 bilhões. A mesma concentração que eleva as receitas comerciais também ajuda a impulsionar as expectativas de crescimento econômico mais rápido.
O governo identificou o fortalecimento da demanda interna como fonte de apoio caso as exportações desacelerem. Entre as prioridades estão os investimentos em novos setores e o aumento da competitividade dos serviços. Para empresas e trabalhadores de fora do setor de chips, a questão prática é até que ponto as receitas de exportação se traduzirão em investimentos, empregos e gastos em toda a economia.
A Coreia do Sul agora recebe um volume excepcionalmente alto de renda de transações com o exterior. Para manter esse desempenho, serão decisivos a demanda por semicondutores, os preços recebidos pelos exportadores e a capacidade de outros setores e dos gastos internos de sustentar o crescimento quando o ciclo dos chips perder força.
Principais pontos
- O superávit sul-coreano em conta corrente no segundo trimestre chegou a US$ 116,63 bilhões, o segundo maior entre 36 grandes economias com dados disponíveis.
- O superávit superou pela primeira vez o total combinado de Alemanha e Japão em uma série comparável iniciada em 1996.
- As exportações de semicondutores no terceiro trimestre cresceram 218,7%, para US$ 148,02 bilhões, com a memória respondendo por cerca de 88,3% do total.
- O FMI projetou superávit de US$ 421,946 bilhões para 2026, equivalente a 18,8% do PIB.
- O Banco da Coreia esperava que o superávit anual superasse sua previsão inicial de US$ 450 bilhões.
- O FMI projetou superávits menores nos anos seguintes, enquanto economistas citados alertaram para a redução dos gastos com IA e o acirramento da concorrência no setor de chips.






