Exportações recordes impulsionam segunda revisão para cima
O Fundo Monetário Internacional elevou sua previsão de crescimento econômico da Coreia do Sul em 2026 para 3,3%, ante 2,6% em julho, pois a demanda por semicondutores ajuda a compensar os danos econômicos causados pela guerra no Oriente Médio. A revisão ocorre após um recorde de exportações de US$ 120,9 bilhões em setembro, alta de 83,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, com os embarques de semicondutores superando US$ 60 bilhões pela primeira vez.
Conteúdo
- Exportações recordes impulsionam segunda revisão para cima
- Como a previsão mudou ao longo de 2026
- O que os dados mostram sobre o boom dos semicondutores
- Como a previsão do FMI se compara às de outras instituições
- Crescimento acima da média global, com Taiwan ainda mais à frente
- Projeções do PIB em dólares apontam novos marcos
- Previsão global mais forte esconde impactos desiguais da guerra
- Por que a produção mais forte pode não aliviar a pressão sobre as famílias
- Investimento em IA traz riscos financeiros além do crescimento
- Principais pontos
O relatório Perspectivas da Economia Mundial de outubro também elevou a previsão de crescimento da Coreia do Sul em 2027 de 2,5% para 2,8%. As novas projeções colocam a expansão deste ano acima da previsão global de 3,1% do FMI e da projeção de 2,1% para o grupo de 41 economias avançadas. O crescimento estimado da Coreia do Sul em 2025 foi de 1,1%, o que representa uma aceleração projetada de 2,2 pontos percentuais neste ano.
O FMI atribuiu a perspectiva mais favorável à demanda por chips usados em infraestrutura de inteligência artificial. A avaliação aponta a Coreia do Sul e Taiwan como participantes centrais desse comércio, respondendo juntas por 62% do saldo líquido do comércio de hardware de computação para IA. Esse número se refere a uma medida de saldo comercial, não à participação dos dois países em todas as vendas ou na produção de hardware.
O Ministério da Fazenda e Economia da Coreia do Sul comemorou a perspectiva mais favorável, mas alertou que a alta dos preços e dos juros, além da guerra prolongada, continua pesando sobre as famílias. Esse contraste aparece nas avaliações do FMI: o investimento em tecnologia impulsiona a produção, mas a dependência desse investimento cria riscos caso os retornos esperados não se concretizem.
Como a previsão mudou ao longo de 2026
A revisão de outubro é a segunda consecutiva do FMI para cima para a Coreia do Sul. A previsão subiu 1,4 ponto percentual desde abril, de 1,9% para 3,3%. A mudança é muito maior do que o aumento mais recente, de 0,1 ponto percentual, na previsão global.
A sequência mostra como as expectativas melhoraram à medida que o boom das exportações se desenvolveu:
- Janeiro e abril de 2026: o FMI projetava crescimento de 1,9% para a Coreia do Sul.
- Julho de 2026: elevou a previsão para 2,6%, enquanto projetava crescimento de 2,5% em 2027.
- Setembro de 2026: as exportações chegaram a US$ 120,9 bilhões, e a OCDE elevou sua previsão de crescimento para 3,7%.
- Outubro de 2026: o FMI elevou suas previsões para 3,3% em 2026 e 2,8% em 2027.
Há divergências nos relatos sobre a data de divulgação. A maioria indica que a publicação das perspectivas de outubro ocorreu em 13 de outubro, enquanto uma fonte aponta 12 de outubro, no horário local. A avaliação coincidiu com as reuniões anuais do FMI e do Grupo Banco Mundial em Bangkok, descritas como realizadas de segunda-feira a domingo.
A revisão mais recente para a Coreia do Sul, de 0,7 ponto percentual, superou o aumento de 0,4 ponto percentual para o grupo de economias avançadas. Também foi apontada como a maior entre as economias avançadas, à frente da revisão de 0,6 ponto percentual para cima da Alemanha.
O que os dados mostram sobre o boom dos semicondutores
As exportações de semicondutores acima de US$ 60 bilhões em setembro representaram mais de 49,6% do total de US$ 120,9 bilhões exportados no mês. Os números mostram o quanto o recorde de exportações dependeu dos chips, em vez de refletir uma expansão distribuída de maneira uniforme entre todos os setores.
A disparada já era visível em agosto, quando as exportações de produtos de tecnologia da informação cresceram 162% em relação ao mesmo período do ano anterior. As exportações totais superaram US$ 100 bilhões por três meses consecutivos. O investimento em IA impulsiona a demanda por equipamentos de computação e chips de memória, abrindo aos produtores sul-coreanos um caminho direto para participar dos gastos com a nova infraestrutura digital.
Dados do balanço de pagamentos do Banco da Coreia apontam que o superávit acumulado em conta corrente até agosto foi de US$ 279,2 bilhões, em valor preliminar, ante US$ 69,67 bilhões no mesmo período de 2025. Isso equivale a cerca de quatro vezes o valor anterior. A conta corrente mede o comércio de bens e serviços, além de rendas e transferências entre uma economia e o resto do mundo, portanto é mais abrangente do que o total de exportações de mercadorias.
O FMI projeta que o superávit em conta corrente da Coreia do Sul chegará a 18,8% do PIB em 2026, ante 6,5% em 2025, antes de recuar para 16,1% em 2027. Essas previsões indicam que as receitas externas robustas devem persistir, mesmo com a desaceleração do crescimento econômico no próximo ano.
Como a previsão do FMI se compara às de outras instituições
A projeção de 3,3% do FMI coincide com as do Banco da Coreia e do Escritório de Pesquisa Macroeconômica da ASEAN+3 (AMRO). Ela fica acima da previsão oficial de 3,0% do governo e das projeções de 3,2% tanto do Instituto de Desenvolvimento da Coreia (KDI) quanto do Banco Asiático de Desenvolvimento.
Outras instituições estão mais otimistas. A OCDE prevê crescimento de 3,7%, após elevar sua projeção de 2,6%. A Moody's projeta 3,5%, em linha com a média de setembro de oito bancos de investimento estrangeiros. Essa média subiu de 2,4% em abril e incluiu a projeção de 4,0% do JPMorgan.
O AMRO também revisou sua avaliação repetidas vezes, passando de 1,9% em abril para 3,1% em julho e, depois, para 3,3%. O Banco Asiático de Desenvolvimento elevou sua previsão de 2,6% em julho para 3,2% em setembro. Essas mudanças mostram uma ampla guinada para expectativas de crescimento mais forte, embora as projeções publicadas ainda variem de 3,0% a 4,0%.
Para 2027, a previsão de 2,8% do FMI supera as projeções de 2,2% do governo e do KDI, de 2,3% do Banco Asiático de Desenvolvimento e de 2,6% da OCDE. Ela fica pouco abaixo dos 2,9% previstos pelo Banco da Coreia. O FMI espera que o crescimento desacelere 0,5 ponto percentual no próximo ano, em vez de tratar o atual salto das exportações como uma expansão que continuará se acelerando.
Crescimento acima da média global, com Taiwan ainda mais à frente
Com 3,3%, a Coreia do Sul cresceria 0,2 ponto percentual mais rápido que a economia mundial e 1 ponto percentual mais rápido que os Estados Unidos, cuja previsão permanece em 2,3%. Se confirmada, seria a primeira vez desde 2022 que o crescimento da Coreia do Sul superaria o dos Estados Unidos.
O vice-primeiro-ministro e ministro da Fazenda e Economia, Lee Hyoung-il, afirmou que superar o crescimento global seria o primeiro resultado desse tipo desde 2010, excluindo 2020. Essa ressalva é importante: a economia sul-coreana encolheu 0,7% em 2020, mas ainda teve desempenho melhor do que a contração de 2,7% no mundo. Portanto, a previsão atual representaria o primeiro desempenho acima da média global desde 2020 e, fora daquele ano de pandemia, o primeiro em 16 anos.
Taiwan, a outra economia destacada por seu comércio de hardware para IA, tem uma previsão de crescimento muito maior para 2026, de 10,7%. A diferença em relação à Coreia do Sul é de 7,4 pontos percentuais. Em 2027, a previsão de Taiwan cai para 4,3%, reduzindo a diferença para 1,5 ponto percentual.
As duas economias também diferem em preços e saldos externos. O FMI projeta inflação de 2,0% em Taiwan neste ano e de 1,8% no próximo, abaixo dos 2,7% e 2,3% da Coreia do Sul. A previsão é que o superávit em conta corrente de Taiwan suba de 22,0% do PIB em 2026 para 23,1% em 2027, enquanto o da Coreia do Sul deve cair. Participar do mesmo comércio de tecnologia não produz resultados econômicos idênticos.
Projeções do PIB em dólares apontam novos marcos
As projeções que acompanham o relatório do FMI colocam o PIB nominal da Coreia do Sul em US$ 2,2458 trilhões em 2026, o que marcaria sua primeira superação da barreira de US$ 2 trilhões. A previsão de PIB nominal per capita é de US$ 43.512, também acima do limite de US$ 40 mil pela primeira vez.
O valor per capita se compara à estimativa de US$ 36.408 em 2025, um aumento de US$ 7.104, ou 19,5%. Isso é muito mais do que a taxa projetada de crescimento econômico real, de 3,3%, pois as medidas respondem a perguntas diferentes. O crescimento real ajusta a produção pelas variações de preços; o PIB nominal em dólares também reflete os preços, a conversão cambial e, no caso da medida per capita, a população.
O PIB per capita não corresponde à renda média disponível para as famílias e não mostra como a renda é distribuída. Esse indicador pode subir ao mesmo tempo que as famílias enfrentam dificuldades financeiras, sobretudo quando o crescimento se concentra nos setores exportadores.
O FMI projeta um PIB per capita de US$ 49.277 em 2027 e de US$ 59.919 em 2031. A previsão é que o PIB nominal alcance US$ 2,5395 trilhões no próximo ano e US$ 3,0693 trilhões em 2031. Esses valores são projeções, não marcos já alcançados.
Para 2026, o PIB per capita projetado para a Coreia do Sul fica US$ 439 abaixo dos US$ 43.951 de Taiwan. O FMI espera que a Coreia do Sul ultrapasse Taiwan em 2027, antes que Taiwan volte a alcançar o país em 2030. Também se projeta que a Coreia do Sul supere o Japão em US$ 8.112 per capita neste ano e continue à frente até 2031.
Previsão global mais forte esconde impactos desiguais da guerra
O FMI elevou sua previsão de crescimento global em 2026 de 3,0% para 3,1%, mantendo a de 2027 em 3,4%. O investimento em tecnologia ajudou a sustentar a atividade, mas o Fundo alertou que as trajetórias de crescimento de cada país dependem de sua exposição à guerra no Oriente Médio e de sua participação na produção e no comércio de IA.
Em seu relatório Perspectivas da Economia Mundial, o FMI descreveu uma economia global resiliente, mas desigual:
A economia global está mostrando resiliência mais uma vez, mas continua desequilibrada e o espaço para ajustes no curto prazo está se estreitando rapidamente.
A previsão para a zona do euro subiu de 0,9% para 1,1%, com a forte atividade na Irlanda e o crescimento contínuo na Espanha contribuindo para a revisão. A previsão para o Japão aumentou de 0,6% para 0,7%. A da China foi reduzida em 0,1 ponto percentual, para 4,5%.
Há uma contração projetada de 0,3% para o Oriente Médio e a Ásia Central em 2026, seguida de crescimento de 6,3% em 2027. O FMI associa esse padrão à interrupção da produção e do transporte de energia e à recuperação esperada quando essas atividades se normalizarem. Relatos descrevem a revisão para baixo neste ano para a região como de 1,0 ponto percentual em relação a julho e de 2,2 pontos percentuais em relação a abril, comparações com diferentes rodadas de projeções.
O crescimento do volume do comércio global deve chegar a 4,6% neste ano, abaixo dos 5,0% de 2025, e a 4,7% em 2027. O FMI prevê inflação global de 4,7% em 2026 e de 4,1% no próximo ano. Um ciclo mais longo de investimento em IA e mudanças nas cadeias de suprimento de energia podem sustentar a atividade, enquanto novas interrupções no fornecimento de energia podem prejudicá-la.
Por que a produção mais forte pode não aliviar a pressão sobre as famílias
A queda da inflação projetada para a Coreia do Sul, de 2,7% em 2026 para 2,3% em 2027, significaria que os preços subiriam mais devagar, não que voltariam aos níveis anteriores. O Ministério da Fazenda alertou que a guerra, os preços mais altos e os juros continuam pesando sobre as condições de vida, apesar da perspectiva de crescimento mais favorável.
A avaliação de outubro do KDI sobre as tendências econômicas também apontou pressões sobre os preços que não aparecem nos números gerais. A inflação excluindo o efeito das tarifas de telecomunicações subiu para 3,1%, ante 2,7% no mês anterior. O KDI atribuiu a aceleração da inflação subjacente à intensificação das pressões do lado da oferta.
O Ministério afirmou que priorizaria três áreas de política social: moradia, emprego e serviços financeiros para a população. Também apontou as disparidades econômicas e a desaceleração do crescimento potencial, isto é, do ritmo sustentável de expansão da economia, como problemas persistentes. Exportações robustas de chips, por si só, não demonstram que essas dificuldades diminuíram.
O FMI recomendou que o apoio aos custos de energia e alimentos seja temporário e direcionado a quem precisa, evitando medidas que distorçam os preços de mercado. Sua avaliação mais ampla da política monetária alertou que economias beneficiadas pela demanda por tecnologia ainda podem enfrentar pressões inflacionárias, sobretudo quando também importam energia. Essa foi uma avaliação geral, não um anúncio de decisão sobre juros na Coreia do Sul.
Investimento em IA traz riscos financeiros além do crescimento
O Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global do FMI identificou três grandes ameaças: queda nos preços dos ativos caso os retornos dos investimentos em IA enfraqueçam, alta dos rendimentos dos títulos públicos e expansão dos ataques cibernéticos à medida que as finanças se tornam mais digitais. Os gastos com tecnologia que sustentam a perspectiva de exportações da Coreia do Sul também podem ser um canal de choques financeiros.
Se os investidores reduzirem suas expectativas de lucro e de ganhos de produtividade com a IA, os investimentos podem recuar. O FMI descreveu possíveis efeitos, entre eles a queda da demanda por bens e serviços de tecnologia, a redução dos fluxos de capital para economias ligadas à produção de IA e perdas em investimentos internacionais.
O Fundo também analisou um choque combinado de queda nos preços de ativos de IA, alta dos rendimentos dos títulos e interrupção no fornecimento de energia. Nesse cenário, o índice de capital principal dos bancos globais poderia cair 1,5 ponto percentual, para 11,5%. Esse índice mede a principal reserva de capital de um banco em relação a seus ativos ajustados pelo risco. A parcela dos ativos bancários mantida por instituições vulneráveis, com índices de capital abaixo de 7%, poderia subir de 18% para 22%. Esses são resultados de cenários de estresse, não previsões de que as perdas ocorrerão.
As condições fiscais são outra fonte de vulnerabilidade. O FMI projeta um déficit combinado de 5,2% do PIB para 41 economias avançadas, o maior desde 2021. A projeção para os Estados Unidos, incluindo governos estaduais e locais, é de 8,5%, e a da China supera 8%. O rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA com vencimento em 10 anos chegou a 5,24% em 9 de outubro, ante cerca de 4,2% no início do ano.
Questionado sobre o uso de cerca de 5 trilhões de wons em receita tributária adicional da Coreia do Sul para pagar títulos públicos, Athanasios Vamvakidis, vice-diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI, recomendou poupar nos períodos favoráveis para permitir gastos nos períodos difíceis. Esse conselho liga a previsão de crescimento mais forte ao apelo do Fundo para reconstruir a capacidade de resposta a choques futuros.
As principais questões ainda sem resposta são por quanto tempo os gastos com IA e a demanda por semicondutores continuarão fortes, como a guerra no Oriente Médio afetará os custos de energia e se os ganhos com as exportações melhorarão as condições das famílias. A perspectiva não define uma data para resolver essas incertezas. As previsões para 2027 pressupõem crescimento contínuo, mas em ritmo mais lento na Coreia do Sul.
Principais pontos
- O FMI elevou a previsão de crescimento da Coreia do Sul em 2026 de 2,6% para 3,3% e a de 2027 de 2,5% para 2,8%.
- As exportações de setembro alcançaram o recorde de US$ 120,9 bilhões, com os embarques de semicondutores superando US$ 60 bilhões.
- A Coreia do Sul e Taiwan respondem por 62% do saldo líquido do comércio de hardware de computação para IA.
- A previsão para a Coreia do Sul supera o crescimento global de 3,1% e coincide com a projeção do Banco da Coreia.
- O PIB per capita deve chegar a US$ 43.512, mas esse indicador não corresponde à renda das famílias.
- Inflação, impactos da guerra e uma possível reversão dos investimentos em IA continuam sendo riscos, apesar da perspectiva mais favorável.






