Uma decisão de US$ 25 milhões põe diplomas em risco
A recusa de uma verba de US$ 25 milhões dos Estados Unidos deixou estudantes da Universidade Americana do Afeganistão temendo que uma das poucas opções que ainda têm para obter um diploma possa desaparecer. Para as mulheres que estudam em segredo sob o regime do Talibã, a ameaça chega aos quartos onde as aulas são ouvidas por fones de ouvido e as colegas se conhecem apenas pela voz.
Conteúdo
- Uma decisão de US$ 25 milhões põe diplomas em risco
- Para Laila, mais uma educação interrompida
- Como uma universidade de Cabul continuou no exterior
- As decisões que levaram à incerteza atual
- Por que Washington questionou as finanças da universidade
- Um fundo de bolsas funciona de forma diferente de uma verba para a universidade
- O que perder um semestre significa para uma estudante
- As mulheres passaram a representar uma parcela maior da AUAF
- Principais pontos
No entanto, o próprio relato do governo dos EUA apresenta um quadro mais complexo. Um relatório do Departamento de Estado ao Congresso, publicado em junho de 2026, afirma que o financiamento americano apoia o ensino virtual de aproximadamente 1.100 estudantes da AUAF por meio do programa Supporting Student Success in Afghanistan. A maior parte das operações apoiadas pelo programa ocorre em Doha, no Catar.
O relatório ao Congresso do departamento diz que o arranjo não prevê financiamento dentro do Afeganistão nem recursos que possam chegar ao Talibã. Essa afirmação vem acompanhada da justificativa do departamento para recusar a verba de US$ 25 milhões, que mencionou preocupações com a prestação de contas financeiras. A relação entre a verba recusada e o apoio descrito no relatório ao Congresso, inclusive os períodos e valores de financiamento, continua pouco clara; não foi informada nenhuma data para o fechamento da universidade ou para uma próxima decisão sobre o financiamento.
A preocupação imediata dos estudantes é saber se poderão concluir os cursos. A universidade já sobreviveu a um ataque, à perda de seu campus em Cabul e à dispersão de estudantes e funcionários por vários países. Sua dependência do apoio americano a acompanhou no exílio.
Para Laila, mais uma educação interrompida
Laila, uma estudante de pouco mais de 20 anos cujo nome foi alterado por segurança, soube da notícia sobre o financiamento depois de acordar durante a noite para beber água e olhar o celular. Ela se sentou na cama, pensando nos anos que passou tentando concluir os estudos.
Ela cursa ciência política e relações internacionais na AUAF. Quando o Talibã voltou ao poder, em agosto de 2021, ela estudava em outra universidade de Cabul e faltavam dois exames para concluir o semestre. A proibição do ensino universitário para mulheres, imposta pelo Talibã em dezembro de 2022, deixou seu diploma inacabado.
Uma bolsa da AUAF permitiu que Laila recomeçasse. Ela contou como essa oportunidade era incomum para as mulheres ao seu redor.
"Nem toda garota teve essa oportunidade", disse ela.
Suas colegas costumam usar nomes falsos e manter as câmeras desligadas durante as aulas remotas. Laila contou a poucas pessoas fora da família que está estudando. Ela teme que as autoridades revistem seu celular e encontrem mensagens da universidade, e afirma que integrantes do Talibã já entraram várias vezes em sua casa para revistar seus pertences.
Depois de saber da decisão sobre o financiamento, ela disse que passou a ficar quase sempre no quarto, com as cortinas fechadas, e perdeu o apetite. Um diploma que antes parecia estar ao alcance voltou a ser incerto.
Como uma universidade de Cabul continuou no exterior
A AUAF foi criada como uma instituição privada afegã que oferece um modelo americano de educação em artes liberais. Uma verba da USAID lançou o projeto em 2005, e a universidade abriu em 2006. Seu nome e o apoio financeiro americano não davam a estudantes ou funcionários um caminho direto para a imigração aos EUA.
Victoria C. Fontan, reitora e vice-presidente de assuntos acadêmicos da universidade, descreveu uma transformação emergencial depois que o Talibã entrou em Cabul, em 15 de agosto de 2021. Funcionários destruíram registros e servidores para proteger pessoas cujas identidades poderiam colocá-las em risco. Uma funcionária da secretaria acadêmica que trabalhava do Canadá ajudou a reconstruir as informações necessárias para as listas de evacuação.
Mais de 400 estudantes da AUAF conseguiram vagas na Universidade Americana da Ásia Central, no Quirguistão, e na Universidade Americana do Iraque, em Suleimânia. O Bard College, nos Estados Unidos, também recebeu estudantes. Professores e administradores mantiveram as operações da universidade no exterior, enquanto estudantes que não conseguiram sair do Afeganistão assistiam às aulas pela internet.
Fontan disse que um acordo de dupla diplomação com o Bard, assinado em outubro de 2021, resolveu outro problema: o credenciamento da universidade pelo Ministério afegão estava prestes a expirar em fevereiro de 2023. O credenciamento é o reconhecimento oficial de que uma instituição atende aos requisitos educacionais. Manter uma via reconhecida para a conclusão do curso era importante para estudantes que buscavam emprego ou queriam continuar os estudos.
O Catar se tornou outra base. Segundo Fontan, o Fundo do Catar para o Desenvolvimento financiou alojamento e salas de aula para 200 estudantes no país, enquanto o apoio dos EUA ajudou a AUAF a oferecer assistência financeira integral.
As decisões que levaram à incerteza atual
As dificuldades de financiamento da universidade envolvem vários acontecimentos distintos. A longa dependência da ajuda dos EUA, as restrições do Talibã e as mudanças na política americana de assistência afetaram, cada uma à sua maneira, a possibilidade de os estudantes permanecerem matriculados.
- 2005 e 2006: Uma verba da USAID lançou a AUAF, que abriu as portas aos estudantes em Cabul em 2006.
- Agosto de 2016: Um ataque matou 17 pessoas e feriu mais de 50. A universidade fechou temporariamente e reabriu em março de 2017.
- 15 de agosto de 2021: O Talibã entrou em Cabul. A AUAF continuou suas atividades por meio de evacuações, parcerias internacionais e aulas remotas.
- Dezembro de 2022: O Talibã proibiu as mulheres de frequentar universidades.
- 4 de abril de 2025: Uma ordem presidencial citada pelo Departamento de Estado suspendeu a ajuda que pudesse chegar ao Talibã.
- 5 de abril de 2025: Um aviso de encerramento afetou o programa Women's Scholarship Endowment. Posteriormente, autoridades confirmaram que os programas pertinentes permaneceriam ativos até junho de 2025.
- Junho de 2026: O relatório do Departamento de Estado ao Congresso descreveu a continuidade do apoio a quatro programas de bolsas para afegãos, incluindo o ensino a distância da AUAF.
A reversão na decisão sobre as bolsas em abril de 2025 mostra como um anúncio de financiamento pode mudar até mesmo durante um semestre. Primeiro, os estudantes enfrentaram o encerramento do programa; depois, receberam a confirmação de que o apoio continuaria até junho, enquanto o financiamento para o outono seguinte permaneceu indefinido naquele momento.
Por que Washington questionou as finanças da universidade
O Departamento de Estado justificou a recusa da verba de US$ 25 milhões para a AUAF citando o histórico de gestão financeira da universidade. Seu gabinete de imprensa deu a seguinte explicação:
"histórico de reiterada falta de prestação de contas sobre milhões de dólares dos contribuintes americanos".
Inspetores dos EUA começaram a investigar as finanças da universidade em 2016. Em 2018, investigadores disseram que a contabilidade precária os impedia de determinar exatamente como os recursos da ajuda americana estavam sendo gastos. John Sopko, ex-inspetor federal que supervisionou a investigação, disse estar surpreso com a continuidade do financiamento.
Patrick Fine, ex-diretor da missão da USAID no Afeganistão, contestou a justificativa do departamento. Ele reconheceu que auditorias anteriores apontaram dificuldades para cumprir os extensos requisitos da USAID, mas defendeu o valor educacional da universidade.
"Ainda é um investimento útil, que vale a pena", disse Fine, "e o motivo é que ela é uma das poucas organizações que ainda alcançam as mulheres afegãs".
A exposição financeira é grande porque, segundo um relatório dos EUA citado na disputa sobre o financiamento, a assistência americana cobriu quase 90% dos custos da AUAF em 2018. Com esse nível de dependência, substituir uma verba importante exige muito mais do que encontrar algumas bolsas adicionais.
O Departamento de Estado disse que a AUAF poderia buscar outros financiadores e parceiros. O relatório ao Congresso também descreve equipes de monitoramento financeiro e conformidade regulatória como parte de sua abordagem para supervisionar a assistência. Para os estudantes, o resultado prático depende da disponibilidade de recursos para manter as aulas, a administração e o apoio acadêmico em funcionamento.
Um fundo de bolsas funciona de forma diferente de uma verba para a universidade
O Women's Scholarship Endowment é outra parte do quadro de financiamento. A USAID criou o fundo em 2018, com uma doação de US$ 50 milhões à Fundação da Universidade Texas A&M. O dinheiro foi investido, e os rendimentos dos investimentos pagavam as bolsas, enquanto o fundo original permanecia intacto, segundo um representante do programa.
Um fundo patrimonial se assemelha a uma reserva financeira: o principal é investido para gerar rendimentos ao longo do tempo. A capacidade de financiar bolsas ainda depende do retorno dos investimentos, das regras do programa e da autorização administrativa. Uma assistência separada da USAID pagava professores e outras despesas, conectando as bolsas individuais aos serviços universitários de que os estudantes precisavam.
Durante a interrupção de 2025, o programa apoiou 208 mulheres, incluindo estudantes que acompanhavam as aulas pela internet no Afeganistão. O financiamento havia permitido que 120 mulheres se mudassem para Omã e o Catar para estudar presencialmente, com despesas de subsistência cobertas. O programa se concentrava nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
O relatório do Departamento de Estado de junho de 2026 apresenta números posteriores: 136 estudantes atualmente apoiadas pelo fundo e 169 mulheres afegãs que receberam bolsas integrais no ano acadêmico anterior. As bolsas cobriam oito universidades em sete países.
Outras duas bolsas concedidas pelos EUA na Universidade Americana da Ásia Central apoiaram 70 estudantes afegãos, a maioria evacuada após 2021. Em conjunto, os programas mostram que o apoio americano funciona por meio de várias instituições e arranjos de financiamento, e não apenas da AUAF.
O que perder um semestre significa para uma estudante
R.K., uma bolsista afegã identificada pelas iniciais por segurança, começou a fazer cursos on-line da AUAF em 2024. Durante a interrupção do financiamento em 2025, ela havia concluído 49 dos 120 créditos exigidos para o diploma e esperava se formar em 2026.
Esses 49 créditos representavam cerca de 41% dos requisitos do curso. Perder o acesso naquele momento colocaria anos de trabalho em risco, especialmente se outra universidade não aceitasse todos os cursos já concluídos. Transferir créditos significa pedir a uma nova instituição que contabilize os estudos anteriores para a obtenção de seu próprio diploma.
R.K. descreveu o papel que a bolsa teve em sua vida após a queda de Cabul.
"Essa bolsa significava tudo para mim", disse ela. "Era como uma luz nos dias mais sombrios da minha vida. Depois da queda de Cabul, esse programa foi minha maior esperança para o futuro".
Laila enfrenta um fardo parecido, depois de já ter recomeçado os estudos uma vez. Ela esperava ter se formado anos antes, contribuir com seu trabalho e fazer mestrado no exterior. Outra interrupção adiaria ainda mais esses planos.
Sahar Fetrat, pesquisadora da Divisão dos Direitos das Mulheres da Human Rights Watch, descreveu a pequena brecha que esses programas abriram para mulheres que conseguiram concluir o ensino médio.
"Esses programas eram as últimas brechas que restavam para meninas e mulheres em busca de ensino superior".
As mulheres passaram a representar uma parcela maior da AUAF
O perfil do corpo discente da AUAF mudou à medida que o Talibã fechou outras vias de acesso à educação. Após a reabertura em março de 2017, a universidade tinha mais de 2.000 estudantes, aproximadamente metade deles mulheres, segundo a avaliação da ajuda ao Afeganistão de William Hammink, ex-funcionário da USAID, publicada pela Associação do Serviço Exterior Americano.
O relato sobre a recusa recente da verba descreveu aproximadamente 1.000 estudantes matriculados, três quartos deles mulheres. Comparando esses números, a proporção de mulheres subiu de cerca de 50% para aproximadamente 75%, um aumento de 25 pontos percentuais. O relatório posterior do Departamento de Estado ao Congresso estima o total de matrículas em aproximadamente 1.100.
A procura foi além dos cursos de graduação. Fontan disse que um programa on-line de preparação universitária para meninas afegãs começou com 350 estudantes em 2023 e recebeu mais de 10 mil inscrições em dois dias. Isso correspondeu a mais de 28 inscrições para cada vaga inicial.
Fontan também descreveu uma aliança educacional com 65 integrantes que alcançava cerca de 100 mil estudantes na época de seu relato. Portanto, a AUAF faz parte de uma rede mais ampla, mas seus cursos de graduação, assistência financeira e parcerias acadêmicas internacionais lhe conferem um papel específico para as mulheres que buscam uma qualificação reconhecida.
O objetivo imediato de Laila é mais modesto do que essas ambições institucionais: assistir à próxima aula e, por fim, concluir o curso. As decisões sobre o financiamento determinam se a universidade poderá manter esse caminho aberto, enquanto as restrições do Talibã continuam tornando perigoso acessá-lo.
Principais pontos
- A recusa de uma verba de US$ 25 milhões dos EUA gerou temores sobre a capacidade da AUAF de continuar atendendo estudantes afegãos.
- Um relatório do Departamento de Estado de junho de 2026 descreve o apoio dos EUA a aproximadamente 1.100 estudantes da AUAF por meio de um programa que opera principalmente em Doha.
- O Departamento de Estado citou preocupações com a prestação de contas financeiras; o ex-diretor da missão da USAID Patrick Fine defendeu o valor da universidade.
- O Talibã proibiu as mulheres de frequentar universidades em dezembro de 2022, tornando especialmente importantes os cursos remotos e as bolsas no exterior.
- O Women's Scholarship Endowment foi criado com US$ 50 milhões e apoia estudos em várias universidades, separadamente de outras formas de assistência para o funcionamento das instituições.
- Se os estudos forem interrompidos, as estudantes correm o risco de adiar ainda mais a formatura e enfrentar dificuldades para transferir os créditos já concluídos.






