6.800 trabalhadores dão o primeiro passo para além dos campos
A Tailândia afirma que 6.800 refugiados de Mianmar ingressaram no mercado de trabalho durante o primeiro ano de um programa iniciado em 1º de outubro de 2025, que abriu vagas fora de nove campos na fronteira após décadas de restrições. Para trabalhadores como Ray Boe, de 31 anos, a mudança significa ganhar 400 baht por dia em um canteiro de obras em Bangkok. Para outros, trouxe descontos inesperados, trabalho diferente do prometido e viagens caras de volta ao campo.
Conteúdo
- 6.800 trabalhadores dão o primeiro passo para além dos campos
- O que mudou e quem pode se candidatar?
- Qual é a dimensão da oportunidade?
- Por que os cortes na ajuda tornaram urgente a busca por renda
- Da oferta de emprego à autorização de trabalho
- O que uma colocação bem-sucedida pode oferecer
- Quando o trabalho oferecido acaba sendo outro
- Descontos podem consumir o dinheiro destinado às famílias
- Contratos, capacitação e separação familiar moldam os próximos passos
- Principais pontos
O governo aprovou a resolução em 26 de agosto de 2025, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o ACNUR. Inicialmente, a medida permitiu que refugiados registrados em idade ativa tivessem emprego legal por até um ano. Dois fatores levaram à decisão: cortes na ajuda externa reduziam o apoio alimentar e médico, enquanto a saída de trabalhadores migrantes cambojanos deixou empregadores tailandeses à procura de substitutos.
Ray Boe despeja concreto e monta andaimes para um edifício residencial planejado para ter 12 andares no centro de Bangkok. Antes de conseguir trabalho, ele e os pais pediam dinheiro emprestado aos vizinhos e reduziram as refeições à medida que a assistência desaparecia. Ele espera que em breve seu salário pague a comida e os cuidados médicos dos pais.
Ray Boe, trabalhador refugiado da construção civil que sustenta os pais, descreveu o que receber um salário significa para sua família:
Em comparação com a vida que levávamos antes no campo, será uma grande diferença ter minha própria renda e sustentar minha família por conta própria, sem precisar esperar que outras pessoas nos ajudem no dia a dia.
A abertura ao emprego legal na Tailândia criou um caminho da dependência de ajuda humanitária para o trabalho remunerado. O primeiro ano mostra como esse caminho depende do emprego oferecido, dos custos cobrados e da possibilidade de os trabalhadores obterem ajuda quando os acordos não são cumpridos.
O que mudou e quem pode se candidatar?
O relato do ACNUR sobre a política, publicado em 13 de fevereiro de 2026, afirma que a resolução abrange refugiados registrados em idade ativa que vivem nos nove campos. O emprego é permitido em 43 províncias e na maioria dos setores, exceto nas ocupações reservadas por lei a cidadãos tailandeses.
Os campos ficam nas províncias de Mae Hong Son, Tak, Ratchaburi e Kanchanaburi. Alguns moradores chegaram na década de 1980; outros passaram ali quase toda a vida. Thanakorn Khansai, vice-chefe distrital e responsável pelos assuntos administrativos no distrito de Tha Song Yang, disse que antes só era permitido sair por motivos específicos, como tratamento médico ou compromissos legais.
As principais datas mostram uma rápida mudança de política após décadas de restrições:
- 26 de agosto de 2025: O governo tailandês aprovou a resolução que permite aos moradores elegíveis dos campos trabalhar fora deles.
- 1º de outubro de 2025: O programa de emprego entrou em vigor, com autorizações válidas por até um ano.
- Novembro de 2025: Vários trabalhadores mencionados em relatos sobre o programa deixaram os campos para trabalhar na construção civil, em fábricas e na agricultura.
- 13 de fevereiro de 2026: O ACNUR publicou um relato dos primeiros participantes, incluindo um casal que trabalha no centro da Tailândia.
- Setembro de 2026: Relatos do primeiro ano descreveram tanto empregos mantidos ao longo do tempo quanto trabalhadores que voltaram ao campo após experiências difíceis.
A autorização inicial era temporária. Ainda não foram especificadas as condições para além do primeiro ano. Por isso, além dos salários e das condições de trabalho, empregadores e famílias enfrentam uma questão prática: por quanto tempo os trabalhadores poderão contar com a renda obtida fora dos campos.
Qual é a dimensão da oportunidade?
Pichit Thongphan, diretor-geral do Departamento de Emprego, afirmou no lançamento que 42.601 moradores de 18 a 59 anos estavam em idade ativa, 12 mil haviam manifestado interesse em trabalhar e empregadores buscavam 6.152 trabalhadores. A maior demanda era na construção civil, seguida pela fabricação ou venda de eletrônicos.
O número de 6.800 trabalhadores divulgado pelo governo para o primeiro ano equivale a cerca de 16% do grupo inicial de 42.601 pessoas. Cadastro, recrutamento e início efetivo de um emprego são etapas distintas, cada uma com decisões e documentação próprias.
As estimativas populacionais variam bastante: o ACNUR descreveu quase 80 mil pessoas afetadas pela crise de financiamento, enquanto estimativas mais abrangentes apontam que a população dos nove campos supera 100 mil. A elegibilidade depende do registro e das circunstâncias individuais, e não do número total de pessoas que vivem ao longo da fronteira.
Por que os cortes na ajuda tornaram urgente a busca por renda
Mae La, o maior campo, ilustra a pressão sobre as famílias. Mais de 80% de seus moradores já não recebem assistência alimentar, segundo o Consórcio da Fronteira, que coordena a ajuda na região. Seu diretor-executivo, Leon de Riedmatten, disse que a perda do apoio dos Estados Unidos deixou a organização em condições de ajudar apenas os mais vulneráveis.
O Comitê Internacional de Resgate também fechou seus centros de saúde nos campos após os cortes de financiamento. Por isso, as famílias que buscaram trabalho reagiam tanto à perda de refeições e serviços médicos quanto à possibilidade de obter uma renda melhor. Pessoas sem condições de trabalhar, incluindo alguns idosos e pessoas com deficiência, continuam precisando de assistência humanitária.
Ao mesmo tempo, a Tailândia enfrentava falta de mão de obra. Os combates por territórios disputados na fronteira com o Camboja levaram centenas de milhares de trabalhadores cambojanos a voltar para casa. A análise sobre direitos ao trabalho do Centro para o Desenvolvimento Global descreve mais de 780 mil partidas, que deixaram lacunas na agricultura, na indústria e na construção civil.
O governo abriu vagas em 18 províncias centrais, 17 províncias do norte e oito províncias do leste. Bangkok está incluída. O programa aproxima pessoas que precisam de renda de empregadores que precisam de mão de obra, mas a localização e a natureza desses empregos podem exigir uma grande adaptação de quem está acostumado à vida nos campos.
Da oferta de emprego à autorização de trabalho
Os empregadores têm papel central no recrutamento. Com autorização do governo, as empresas podem visitar os campos, selecionar trabalhadores interessados e enviar os nomes, os locais de trabalho e os períodos de emprego propostos ao órgão provincial de emprego competente.
O procedimento anunciado no lançamento tem seis etapas: selecionar os trabalhadores, informar as autoridades de emprego, obter permissão para sair do campo, apresentar-se no destino, fazer exames de saúde e contratar seguro, e solicitar autorizações de trabalho. Os trabalhadores devem se apresentar à autoridade designada dentro de 48 horas após a chegada. O seguro-saúde deve cobrir pelo menos o período solicitado de emprego.
A taxa inicial de solicitação anunciada era de 100 baht. As solicitações seguintes teriam uma taxa de autorização de 900 baht por ano, além de uma taxa de solicitação de 100 baht. Exames médicos, transporte e hospedagem podem gerar custos adicionais.
Saw Pwe Say, secretário do Comitê de Refugiados Karen, disse que os candidatos precisam do número de identificação do ministério, composto por 13 dígitos. Refugiados elegíveis também vêm recebendo cartões de Pessoas Deslocadas de Mianmar, que dão acesso a serviços como os bancários e de telecomunicações. Ter acesso a serviços bancários é importante porque muitos trabalhadores deixam dependentes para trás e precisam de uma forma confiável de enviar dinheiro para casa.
Kriwut Tantikanedi, especialista sênior em trabalho do Departamento Provincial de Emprego de Tak, disse que reuniões entre empregadores e refugiados permitem esclarecer dúvidas sobre salários, moradia e assistência médica antes do recrutamento. Ele também descreveu o trabalho com autoridades distritais, ministérios, organizações de ajuda humanitária e o ACNUR para elaborar um manual que explique as leis tailandesas, os direitos dos trabalhadores e a vida cotidiana fora dos campos.
O que uma colocação bem-sucedida pode oferecer
Ja Mar, de 33 anos, e No Zan, de 47, mostram os benefícios que uma colocação com apoio pode trazer. O ACNUR acompanhou o casal em um canteiro de obras no centro da Tailândia, onde eles estavam entre cerca de 60 funcionários refugiados que trabalhavam ao lado de quase 2 mil outros trabalhadores.
Ja Mar lidera uma equipe que desmonta andaimes, enquanto No Zan chefia uma equipe de limpeza. Cada um ganha 375 baht por dia. Antes do programa, a renda irregular dos dois, somada, às vezes chegava a apenas 150 baht por dia. O salário diário combinado atual, de 750 baht, é cinco vezes maior que aquele valor, e geralmente há trabalho seis dias por semana.
A empresa oferece alojamento, e o casal paga pela comida. Ja Mar disse que os gerentes explicaram as regras do local de trabalho e do alojamento, e que colegas tailandeses os ajudaram a aprender as tarefas. Segundo o ACNUR, eles têm os mesmos direitos trabalhistas que os demais trabalhadores em situação regular, incluindo salários, cobertura de saúde e proteções no local de trabalho.
Ja Mar, líder de uma equipe de construção e pai que trabalha longe dos filhos, explicou por que se candidatou:
A motivação para trabalhar é que temos uma família grande. Era difícil pagar as contas no campo. Nosso objetivo é sustentar a família e pagar os estudos dos nossos filhos.
Cinco dos filhos do casal continuam em Mae La, a mais de 600 quilômetros de distância. A filha deles, Ha Se Nar, de 19 anos, cuida dos irmãos mais novos e do próprio filho. A renda maior facilitou a compra de comida e material escolar, mas deixou sob responsabilidade dela boa parte dos cuidados diários da família.
Quando o trabalho oferecido acaba sendo outro
Akwah, pai de dois filhos, relatou uma experiência bem diferente. Em novembro de 2025, ele deixou o campo com outros 20 refugiados para o que entendiam ser um trabalho de colheita de cana-de-açúcar, por 250 baht por dia. Ao chegar, disse, o grupo foi designado para cortar eucaliptos por 200 baht ao dia.
Segundo ele, o salário oferecido havia caído 50 baht, ou 20%, enquanto o trabalho era mais duro e perigoso. O grupo dormia ao ar livre, sem eletricidade, e dependia de um lago próximo para obter água. Eles foram embora depois de três meses.
Akwah, ao explicar como o grupo contestou a mudança de trabalho, recordou a resposta do empregador:
Conversamos com o patrão, mas ele não se importou. Disse: 'Façam o trabalho, porque vocês já estão aqui'. Mas dissemos que não podíamos fazer aquilo.
Siwawong Sooktawee, coordenador do projeto na Tailândia da Coalizão Internacional contra a Detenção, e K'nyaw Paw, secretária-geral da Organização de Mulheres Karen, afirmam que alguns recrutados não recebem contrato de trabalho. Outros encontram tarefas, condições ou salários diferentes do que foi informado antes da partida. As duas organizações apoiam o emprego legal, mas defendem garantias mais fortes para o recrutamento.
Os ministérios das Relações Exteriores, do Trabalho e do Interior não responderam aos pedidos de comentário sobre essas denúncias. O ACNUR também reconheceu casos de maus-tratos por empregadores que levaram refugiados a voltar aos campos.
Descontos podem consumir o dinheiro destinado às famílias
Saw Htoo, de 40 anos, que usou um pseudônimo, voltou a Mae La depois de pouco mais de três meses em uma fábrica em Samut Prakan. Ele ganhava 370 baht por dia, mas disse que os descontos mensais de 4.500 a 5.000 baht para aluguel, eletricidade e água deixavam pouco para enviar para casa.
Esses descontos equivaliam a cerca de 12 a 14 dias do salário diário informado. Cortar, dobrar e soldar aço eram tarefas desconhecidas para ele, e disse que erros podiam levar à suspensão. Por fim, dividiu um ônibus de volta ao campo com outros 23 trabalhadores, cada um pagando 1.500 baht.
Siwawong e K'nyaw Paw dizem que alguns empregadores também recuperam os custos de exames médicos, autorizações e transporte por meio de descontos salariais. Assim, refugiados podem começar a trabalhar já devendo dinheiro, às vezes sem conhecer os valores cobrados de antemão. Depois, as famílias podem voltar a pedir dinheiro emprestado para pagar o retorno do trabalhador.
Mu Dah Hsit deixou o emprego depois de adoecer. Ela disse que o empregador se recusou a pagar o seguro-saúde que o programa deveria garantir. Com um pai doente e irmãos que dependem dela, ainda queria tentar outra colocação.
Mu Dah Hsit, trabalhadora refugiada que cuida de familiares, explicou a pressão para tentar de novo:
Tive uma experiência ruim, mas ainda quero tentar de novo, porque a comida no campo é um problema.
Contratos, capacitação e separação familiar moldam os próximos passos
Siwawong e K'nyaw Paw querem contratos detalhados, traduzidos quando necessário para birmanês, karen ou karenni; um processo claro para registrar e resolver reclamações; e a verificação de intermediários que recrutam dentro dos campos. Os trabalhadores recebem cartões com números de telefone para pedir ajuda, mas defensores dos direitos afirmam que também é necessário oferecer um caminho acessível para chegar a uma decisão quando surgem conflitos.
A capacitação é outra lacuna. O Ministério das Relações Exteriores afirma que a preparação profissional oferecida nos campos melhorou. A experiência de Saw Htoo aponta para a necessidade de cursos alinhados às vagas disponíveis: aulas de panificação ou de tailandês nos campos oferecem pouca preparação para um trabalho desconhecido com aço.
De Riedmatten diz que os custos de transporte reduziram a participação de campos menores e mais remotos. Ele defende uma variedade maior de empregos, inclusive na hotelaria, e processos de contratação mais simples para empregadores menores. O ACNUR está trabalhando com o Banco Mundial para medir os efeitos econômicos da entrada de refugiados no mercado de trabalho.
Os familiares não podem acompanhar os trabalhadores no âmbito da iniciativa. Ko Chit, de 29 anos, ganha 365 baht por dia embalando frango em uma sala mantida a 18 graus Celsius negativos em uma fábrica de aves em Lopburi. A esposa e os filhos, de cinco e três anos, continuam em Mae La. Assim como Ja Mar e No Zan, ele passou a ter renda, mas à custa de viver longe da família.
O primeiro ano tornou possível o emprego remunerado para milhares de pessoas que antes estavam confinadas aos campos. Agora, para que o programa seja confiável, são necessários acordos concretos: contratos compreensíveis, preparação adequada, custos informados, cobertura de saúde efetiva e ajuda quando uma colocação dá errado. A assistência contínua também é necessária para os moradores que não podem trabalhar.
Principais pontos
- A Tailândia afirma que 6.800 refugiados de Mianmar ingressaram no mercado de trabalho no primeiro ano do programa.
- A política entrou em vigor em 1º de outubro de 2025 e permite que moradores registrados e elegíveis dos campos trabalhem em 43 províncias.
- Trabalhadores relatam ganhos em segurança alimentar, gastos com educação e autonomia, além de longos períodos de separação da família.
- Entre as queixas estão mudanças nas tarefas, falta de contratos, descontos inesperados e falhas na cobertura de saúde.
- Organizações de defesa dos direitos pedem contratos traduzidos, melhor preparação profissional, recrutadores verificados e um processo claro para reclamações.
- Moradores que não podem trabalhar continuam dependendo de assistência humanitária, enquanto diminuem o apoio alimentar e médico.






