Mais médicos registrados, mas os hospitais continuam sobrecarregados
O Paquistão precisa de cerca de 179 mil médicos adicionais, enquanto hospitais públicos superlotados têm dificuldade para atender à demanda. Ainda assim, o Pakistan Economic Survey 2024-25, do governo, registra 319.572 médicos registrados em 2024, ante 299.113 em 2023, e uma proporção nacional de um médico registrado para cada 723 pessoas.
Conteúdo
- Mais médicos registrados, mas os hospitais continuam sobrecarregados
- O que mostram os números oficiais de médicos
- Por que a escassez local pode ser muito maior
- Qual parâmetro de pessoal se aplica?
- Enfermeiros e leitos fazem parte do mesmo problema
- Os números regionais revelam necessidades diferentes
- O que a escassez significa para os tratamentos de rotina
- Transformar o crescimento da força de trabalho em atendimento acessível
- Pontos principais
A aparente contradição está no centro do problema de saúde do país: o número de profissionais registrados pode crescer enquanto faltam médicos nos hospitais e clínicas onde os pacientes buscam tratamento. O registro contabiliza as pessoas cadastradas no órgão regulador da medicina. O quadro de funcionários mede quantos médicos estão disponíveis para prestar atendimento em uma unidade específica.
O relatório que acompanha a estimativa de escassez informa um total de 340.780 registros e afirma que os hospitais de ensino têm um médico para cada 1.300 pessoas. Para hospitais de Tehsil e de sedes distritais, além de unidades básicas de saúde, apresenta um número bem menor: 0,23 médico para cada 1.000 pacientes. Essas unidades foram concebidas para oferecer atendimento mais perto da casa das pessoas.
O Pakistan Economic Survey 2024-25, do Ministério das Finanças, oferece uma referência nacional com data definida e indica que os números de 2024 são provisórios. O total de 340.780 registros e a escassez estimada de 179 mil não vêm acompanhados de uma data de referência nem de um método de cálculo, o que deixa pouco clara sua relação com essa referência.
Para os pacientes, a questão central é prática: saber se uma unidade próxima tem funcionários, leitos e medicamentos suficientes para atendê-los. O registro nacional cresceu consideravelmente, enquanto a pressão relatada sobre os hospitais públicos aponta para uma diferença persistente entre as qualificações médicas e os serviços acessíveis.
O que mostram os números oficiais de médicos
A força de trabalho médica registrada no Paquistão cresceu por mais de uma década. O Pakistan Economic Survey 2023-24, do Ministério das Finanças, contabiliza 152.368 médicos em 2011 e 299.113 em 2023. Isso representa um aumento de 146.745, ou cerca de 96%, levando o registro a quase o dobro do tamanho anterior.
O levantamento mais recente estende esse crescimento a 319.572 em 2024. Em comparação com os 220.829 médicos registrados em 2018, o aumento é de 98.743, ou cerca de 45%. Os números indicam um crescimento contínuo, e não apenas um salto recente.
Os levantamentos apresentam a seguinte série histórica:
- 2011: 152.368 médicos registrados, com 1.162 pessoas por médico registrado.
- 2017: 208.007 médicos registrados, com 957 pessoas por médico registrado.
- 2022: 282.383 médicos registrados.
- 2023: 299.113 médicos registrados, com o levantamento mais recente indicando 760 pessoas por médico registrado.
- 2024: 319.572 médicos registrados, em caráter provisório, e 723 pessoas por médico registrado.
O levantamento de 2024-25 informa que o aumento anual no número de médicos foi de 5,9%. No entanto, a tabela mostra um acréscimo de 20.459 entre 2023 e 2024, o que corresponde a cerca de 6,8%. O aumento anterior, de 282.383 em 2022 para 299.113 em 2023, foi de aproximadamente 5,9%.
O registro, portanto, mostra um crescimento claro, embora o percentual informado no levantamento mais recente seja diferente do que os números subjacentes indicam. Para planejar a força de trabalho, o próximo passo é relacionar esses registros aos serviços efetivamente prestados: quantos médicos estão trabalhando, onde atuam, quais são suas especialidades e por quantas horas oferecem atendimento.
Por que a escassez local pode ser muito maior
Os hospitais de ensino e as unidades públicas menores ocupam posições diferentes no sistema de saúde. Os hospitais de ensino combinam atendimento e formação médica e costumam receber pacientes que precisam de cuidados especializados. Hospitais distritais, hospitais de Tehsil e unidades básicas de saúde devem atender às necessidades mais perto das comunidades.
A proporção relatada de um médico para cada 1.300 pessoas nos hospitais de ensino equivale a cerca de 0,77 médico por 1.000 pessoas. O número de 0,23 médico por 1.000 pacientes nas unidades menores usa um denominador diferente: pacientes, em vez da população. Ambos descrevem a pressão sobre os serviços, mas uma comparação direta exige que os grupos contabilizados sejam compatíveis.
Uma proporção nacional em relação à população distribui os médicos registrados pelo país no papel. Para o paciente, é preciso haver um médico em um local acessível e no momento em que o atendimento é necessário. A distribuição desigual de profissionais e a falta de unidades ajudam a explicar por que os hospitais públicos continuam lotados mesmo com a melhora dos números nacionais de registro.
Qual parâmetro de pessoal se aplica?
O relatório sobre a escassez cita a proporção de um médico para cada 1.000 pessoas como uma recomendação da Organização Mundial da Saúde. O estudo sobre cobertura universal de saúde de Babar Tasneem Shaikh, publicado em 24 de junho de 2024, usa outro parâmetro: afirma que o Paquistão tem cerca de um médico para cada 1.000 pessoas, diante de uma recomendação declarada de três a quatro.
A proporção do governo para 2024, de um médico registrado para cada 723 pessoas, equivale a cerca de 1,38 médico registrado por 1.000 pessoas. Os diferentes números dizem respeito a datas, definições e parâmetros distintos. Qualquer meta nacional de pessoal precisa especificar a população abrangida, os médicos contabilizados e os serviços que se espera que prestem.
O estudo de Shaikh também analisa a força de trabalho por meio de um indicador mais amplo. Segundo o estudo, a densidade da força de trabalho essencial em saúde do Paquistão recebeu uma pontuação de 54,6% em 2021, com base em dados do Ministério dos Serviços Nacionais de Saúde, Regulamentação e Coordenação e no relatório de monitoramento da OMS de 2023. Trata-se de uma pontuação em relação a um parâmetro de força de trabalho, e não de uma contagem de médicos em hospitais específicos.
Essa distinção importa ao explicar a estimativa de que seriam necessários mais 179 mil médicos. O cálculo da escassez depende da meta: atingir uma proporção nacional em relação à população, preencher vagas e garantir serviços especializados em todos os distritos são tarefas diferentes, cada uma exigindo seu próprio plano de pessoal.
Enfermeiros e leitos fazem parte do mesmo problema
A força de trabalho médica do Paquistão inclui muito mais do que médicos. Enfermeiros monitoram os pacientes e prestam cuidados contínuos; parteiras acompanham a gravidez e o parto; e agentes comunitários conectam as famílias aos serviços de saúde. Para manter o atendimento funcionando, um hospital precisa dessas categorias profissionais além dos médicos.
O levantamento de 2024-25 registra 138.391 enfermeiros em 2024, ante 134.708 em 2023. Também contabiliza 46.801 parteiras e 29.163 profissionais na categoria de agentes comunitárias de saúde. O número de dentistas registrados aumentou de 36.032 para 39.088 no mesmo período.
O levantamento mais recente revisa alguns números anteriores da força de trabalho. Para 2023, a edição de 2023-24 havia registrado 127.855 enfermeiros, 46.110 parteiras e 24.022 agentes comunitárias de saúde. A edição seguinte registra, respectivamente, 134.708, 46.404 e 26.405. Portanto, comparações entre anos precisam usar a série revisada de forma consistente.
O estudo de Shaikh indica uma densidade de 0,5 enfermeiro por 1.000 pessoas, diante do nível desejado de quatro. Também aponta uma densidade de seis leitos hospitalares por 10 mil pessoas, ante a recomendação declarada de 25. Em relação a esses parâmetros, a densidade de enfermeiros corresponde a um oitavo do nível desejado, enquanto a de leitos fica pouco abaixo de um quarto.
Essas carências limitam o que médicos adicionais podem fazer. Um médico pode avaliar um paciente, mas um tratamento que exige internação também precisa de leito, cuidados de enfermagem, equipamentos e medicamentos. Ampliar apenas uma parte dessa cadeia deixa outras limitações de capacidade sem solução.
Os números regionais revelam necessidades diferentes
Azad Jammu e Caxemira oferece um exemplo mais detalhado de como a força de trabalho está distribuída. O levantamento de 2024-25 contabiliza 1.230 médicos na região: 68 gestores de saúde, 352 especialistas, 82 cirurgiões-dentistas e 728 médicos generalistas.
Essas categorias somam o total regional, mas suas funções diárias são diferentes. Gestores de saúde organizam os serviços; especialistas tratam condições específicas; cirurgiões-dentistas prestam cuidados odontológicos; e médicos generalistas oferecem atendimento clínico mais abrangente. Planejar o atendimento aos pacientes exige conhecer a composição das funções, além do número total de profissionais.
O levantamento também registra cerca de 2.950 leitos hospitalares na região, ou um para cada 1.468 pessoas. A disponibilidade de especialistas é de 0,81 por 10 mil pessoas, e a de médicos generalistas, de 1,68 por 10 mil. Esses números oferecem uma visão mais precisa da capacidade local do que uma única proporção nacional de médicos.
Os serviços especializados têm necessidades próprias de pessoal. O levantamento contabiliza 250 médicos entre os 2.600 profissionais dos Hospitais de Câncer da Energia Atômica, além de físicos médicos, engenheiros biomédicos, radiofarmacêuticos e cientistas. O tratamento do câncer mostra por que o planejamento da força de trabalho precisa levar em conta equipes com diferentes competências técnicas.
O que a escassez significa para os tratamentos de rotina
O atendimento à gravidez, à pneumonia infantil e às doenças crônicas depende de serviços que as pessoas possam acessar regularmente. O estudo de Shaikh identifica horários de funcionamento limitados, falta de profissionais e escassez de medicamentos essenciais como barreiras ao atendimento pré-natal. Os indicadores de 2021 apresentados no estudo mostram que 51,4% das mulheres completaram pelo menos quatro consultas pré-natais.
Quanto à pneumonia infantil, o estudo descreve a falta de unidades pediátricas e de profissionais qualificados, horários limitados nas unidades públicas e medicamentos e exames diagnósticos caros. As famílias também enfrentam dificuldades para reconhecer os sintomas e avaliar quando o tratamento é urgente. O acesso depende tanto da existência de um serviço em funcionamento quanto da possibilidade de procurá-lo rapidamente.
Hipertensão e diabetes geram outro tipo de demanda por atendimento local: exames de rastreamento, tratamento contínuo e acompanhamento. Shaikh, único autor do estudo, defende que os médicos da atenção primária recebam formação para identificar o diabetes mais cedo:
Os médicos da atenção primária precisam ter as competências e a formação necessárias para identificar essas pessoas em estágio inicial, a fim de proteger dessa doença uma grande parcela da população, incluindo os jovens.
O estudo também aponta as visitas domiciliares de agentes comunitários de saúde, com apoio de unidades públicas próximas, como uma forma de ajudar as pessoas a manter o tratamento prescrito para a pressão alta. Isso relaciona diretamente o planejamento da força de trabalho ao atendimento fora das enfermarias, onde o contato regular pode apoiar pacientes que convivem com doenças por muitos anos.
Transformar o crescimento da força de trabalho em atendimento acessível
O Paquistão já estabeleceu compromissos de política de saúde que vão além de aumentar o número de médicos. O estudo de Shaikh descreve um pacote de serviços essenciais de saúde para diferentes níveis de atendimento e um Plano Nacional de Ação para 2019-2023, que abrange governança, financiamento, pessoal, acesso e qualidade dos serviços.
O relatório sobre a escassez aponta a falta de uma política nacional abrangente para distribuir unidades médicas de maneira justa entre províncias e cidades como uma das causas da pressão sobre os hospitais públicos. O estudo descreve iniciativas nacionais e provinciais já existentes, mas também documenta lacunas persistentes no acesso. O desafio prático é transformar esses compromissos em serviços com equipes e equipamentos adequados nos locais que mais precisam.
Segundo o estudo, o índice de serviços de cobertura universal de saúde do Paquistão passou de 49,9 em 2021 para 52 em 2022. O índice combina medidas de acesso a serviços essenciais, incluindo atendimento materno, tratamento de doenças infecciosas e capacidade dos serviços. A melhora de 2,1 pontos indica avanço, apesar das carências de profissionais e unidades documentadas na mesma análise.
Um indicador útil de sucesso será saber se o crescimento dos registros médicos garante atendimento mais confiável em unidades básicas de saúde, hospitais distritais e centros especializados. Para os pacientes, isso significa conseguir uma consulta perto de casa, fazer exames no momento adequado, encontrar medicamentos disponíveis e ter um leito com equipe de atendimento quando a internação for necessária.
Pontos principais
- O Paquistão estima precisar de mais 179 mil médicos, em meio à superlotação e à capacidade limitada dos hospitais públicos.
- O Pakistan Economic Survey registra, em caráter provisório, 319.572 médicos em 2024, ante 299.113 em 2023.
- A proporção nacional oficial melhorou de 760 pessoas por médico registrado em 2023 para 723 em 2024.
- A distribuição local de profissionais, as funções de cada categoria e o acesso às unidades determinam como o crescimento dos registros se traduz em atendimento.
- A falta de enfermeiros, a quantidade limitada de leitos e as carências de medicamentos e de horário de funcionamento aumentam a pressão sobre os serviços.
- O índice de cobertura de saúde do Paquistão melhorou de 49,9 em 2021 para 52 em 2022, mas as lacunas de acesso continuaram significativas.






