Uma professora de vilarejo volta a encontrar uma sala de aula
Bùi Thị Mỹ, uma ex-professora de 74 anos da comunidade étnica Mường, no Vietnã, dá aulas gratuitas de matemática na cozinha de sua casa, no vilarejo de Xuân Tiến, comuna de Xuân Du, província de Thanh Hóa. Seu quadro é um tampo de madeira colocado na vertical. Seu filho caçula a grava com o celular. Alguns vídeos atraíram centenas de milhares de visualizações, e um deles ultrapassou 3 milhões.
Conteúdo
- Uma professora de vilarejo volta a encontrar uma sala de aula
- Um celular apoiado em uma caixa de plástico
- O que ela ensina, passo a passo
- O público cresce, e surge uma preocupação
- Da formação de professores à sala de aula
- Por que ela precisou deixar a docência
- As crianças do vilarejo nunca deixaram de procurá-la
- Reconhecimento em meio a dificuldades persistentes
- Principais pontos
As aulas duram 45 minutos completos, como um período escolar. Mỹ escreve com giz, explica cada etapa e imagina os alunos sentados diante do celular. Mais de três décadas depois de deixar o ensino formal, em 1990, porque a família não conseguia se manter financeiramente, ela encontrou outra maneira de ficar à frente de uma turma.
Seu filho, Bùi Văn Dũng, nascido em 1995, publica as gravações em uma conta do Facebook chamada "Bùi Mỹ". O projeto começou como uma forma de preservar as aulas da mãe e compartilhá-las com pessoas conhecidas. Quase dois meses após o início das gravações, o público já havia crescido muito além do vilarejo.
Mỹ não usa redes sociais. Ela usa o telefone para fazer e receber chamadas, deixando a gravação e as publicações a cargo de Dũng. O motivo para voltar a ensinar é mais simples do que os números de visualizações sugerem: ela sente falta do trabalho, das crianças e do ritmo familiar de explicar um problema até que faça sentido.
Um celular apoiado em uma caixa de plástico
O equipamento de gravação de Dũng consiste em um celular apoiado em uma caixa de plástico. Ele coloca o velho tampo de madeira na vertical, em um canto da cozinha, onde a mãe pode escrever. Um pequeno alto-falante fica por perto, enquanto a lenha divide espaço com a sala de aula improvisada.
Ao explicar como a cozinha se tornou um espaço de ensino, Mỹ descreveu a solução do filho:
Não temos quadro-negro em casa, então meu filho colocou um tampo de madeira na vertical e o deixou no canto da cozinha para eu escrever com giz e dar aula.
Mỹ geralmente começa por volta das 8h, dependendo de sua saúde e das tarefas domésticas. Às vezes, dá aula descalça. Não há fileiras de carteiras nem alunos esperando para levantar a mão, mas ela segue a rotina de sala de aula de que se lembra.
De início, Dũng gravava as aulas por diversão e como lembrança. No começo, só um pequeno círculo de pessoas assistia. À medida que as gravações se espalharam, uma atividade familiar e privada se transformou em uma volta pública ao ensino, com Mỹ compartilhando seus conhecimentos e o filho cuidando da tecnologia.
O que ela ensina, passo a passo
As aulas de Mỹ abordam adição e subtração de frações, subtração de números decimais, resolução de equações lineares com uma incógnita e identidades algébricas conhecidas. Uma equação linear com uma incógnita é um problema em que o aluno calcula o valor de um número desconhecido. Identidades algébricas são regras que mostram que duas expressões têm o mesmo valor.
Uma gravação bastante assistida trata da adição de frações por meio da busca de um denominador comum, conteúdo ensinado no 6º ano. O denominador é o número que fica abaixo do traço da fração. Igualar os denominadores permite que o aluno some quantidades expressas em partes do mesmo tamanho.
Mỹ escreve as transformações antes de concluir a adição. Sua sequência habitual é apresentar um exemplo, retomar conhecimentos anteriores e, em seguida, passar ao novo conteúdo. A aula se desenvolve por meio da resolução, em vez de ir direto à resposta.
Ao explicar por que dedica a cada aula o tempo de um período escolar completo, Mỹ resumiu sua abordagem:
Se você fizer isso sem cuidado, os alunos não vão entender a aula.
Seu ensino também se apoia na memória. Ela diz que os conhecimentos ficaram tão bem guardados que, ao ficar diante do quadro, consegue recuperá-los sem um plano de aula escrito. Para quem assiste, o encanto está tanto na explicação matemática quanto na imagem familiar de uma professora que escreve e fala com paciência ao mesmo tempo.
O público cresce, e surge uma preocupação
Mỹ e Dũng se surpreenderam com a repercussão. Vídeos que começaram sendo assistidos por algumas pessoas conhecidas chegaram a centenas de milhares de visualizações, e um deles ultrapassou 3 milhões. O crescimento do público também os deixou apreensivos quanto à adequação dos conhecimentos aprendidos décadas atrás às escolas de hoje.
Dũng, que grava e publica os vídeos, explicou a preocupação deles com as mudanças no currículo:
Minha mãe e eu estamos preocupados. A educação mudou, e não sabemos se as aulas dela ainda são adequadas e corretas para o currículo atual.
Mỹ também disse aos espectadores que está revisando os conhecimentos que aprendeu e ensinou no passado. Seu objetivo é recordar sua vida profissional e voltar a sentir prazer em dar aulas. A família não definiu um cronograma fixo para as próximas gravações; as aulas dependem da saúde dela e das tarefas em casa.
Bùi Thị Tuyết, chefe do vilarejo de Xuân Tiến e uma das ex-alunas de Mỹ, diz que as crianças ainda consideram úteis as explicações dela, mesmo quando sua abordagem difere das aulas atuais. Sua avaliação se baseia em anos vendo crianças do vilarejo recorrerem à antiga professora em busca de ajuda, muito antes de os vídeos atraírem um público amplo.
Da formação de professores à sala de aula
Mỹ nasceu em 1952. Seu pai morreu quando ela era pequena, e sua mãe a criou e apoiou seus estudos. Depois de concluir o 7º ano, ela ingressou, em 1972, na escola de formação de professores Ngọc Lặc 7+3, com especialização em matemática e física.
O nome do programa descrevia sua estrutura: alunos que haviam concluído o 7º ano recebiam mais três anos de ensino das disciplinas e de formação para dar aulas. Mỹ se formou em 1975 e foi designada para a escola de ensino fundamental II de Cát Vân, no antigo distrito de Như Xuân. Mais tarde, foi transferida para a escola de ensino fundamental II de Xuân Du.
Mỹ descreve sua carreira em sala de aula como tendo durado 15 anos, período compatível com o intervalo entre sua formatura, em 1975, e sua saída, em 1990. Também se diz que seu trabalho em Xuân Du durou 18 anos, o que deixa incerta a duração exata dessa passagem.
As principais etapas de sua trajetória são:
- 1952: Mỹ nasceu e, após a morte do pai, cresceu com a mãe.
- 1972: Ingressou na formação de professores em Ngọc Lặc, após concluir o 7º ano.
- 1975: Formou-se em matemática e física e começou a dar aulas em Như Xuân.
- 1990: Deixou o ensino formal e recebeu em parcela única o pagamento de desligamento, devido às dificuldades financeiras da família.
- Mais de três décadas depois: Ela e Dũng começaram a gravar aulas em casa; o projeto estava em andamento havia quase dois meses quando atraiu ampla repercussão.
Por que ela precisou deixar a docência
O salário mensal de Mỹ como professora, durante o período de racionamento e subsídios estatais no Vietnã, era de 45 đồng. Ela precisava caminhar até a cidade de Yên Cát para buscar arroz e cupons de racionamento, usados para obter itens básicos.
Seu marido, ex-soldado, adoecia com frequência. A família é descrita como tendo sete filhos, embora Mỹ tenha se lembrado de ter cinco filhos quando deixou o ensino em 1990. Alimentar e cuidar da família exigia trabalho além de suas tarefas na escola.
Às vezes, Mỹ levava uma faca ao ir para a escola, para poder juntar lenha na floresta depois das aulas. Em casa, amarrava a lenha em feixes, cozinhava e preparava os planos de aula, às vezes ficando acordada até as 22h ou meia-noite. Levava a lenha ao mercado para trocá-la por arroz, batata-doce e milho.
Em 1990, as necessidades da família já eram difíceis demais para serem atendidas com seu salário. Ela pediu para sair e receber seus benefícios de desligamento em parcela única, para poder se dedicar a ganhar o sustento da família.
Ao recordar do que sentiu falta depois de deixar a docência, Mỹ descreveu a perda com as vozes de seus alunos:
Senti falta dos alunos, dos dias em que ficava diante da turma e das vezes em que eles me faziam perguntas.
Às vezes, sonhava que estava de volta à escola, dando aula. Todos os anos, aguardava o dia 20 de novembro, Dia dos Professores no Vietnã, para visitar antigos colegas. Também continuou participando da associação de ex-professores.
As crianças do vilarejo nunca deixaram de procurá-la
Tuyết diz que Mỹ já foi uma professora de matemática muito conhecida na região. Depois de deixar o cargo na escola, continuou ajudando as crianças do vilarejo sem cobrar. Os alunos levavam exercícios para sua casa, mantendo um vínculo pequeno, mas constante, entre a ex-professora e a sala de aula.
Às vezes, lembrou Tuyết, as crianças chegavam logo depois de Mỹ voltar de uma ida para pegar caranguejos. Antes mesmo de trocar de roupa, ela começava a explicar as tarefas escolares. O ensino se encaixava entre as tarefas necessárias para manter a casa funcionando.
Ao falar como chefe do vilarejo sobre a ajuda que as crianças recebem, Tuyết explicou por que elas ainda procuram Mỹ:
Há problemas que as crianças não entendem, então correm até a casa dela para pedir que explique. Embora o jeito dela ensinar seja um pouco diferente do atual, muitas crianças ainda conseguem entender com facilidade.
Para Tuyết, as gravações também trazem de volta seus próprios tempos de escola. A voz e o jeito de Mỹ ficar diante do quadro são familiares. A professora que hoje é vista por um grande público on-line é a mesma pessoa com quem as famílias do vilarejo continuam contando há anos.
Reconhecimento em meio a dificuldades persistentes
A família de Mỹ ainda enfrenta sérias dificuldades financeiras. Segundo Tuyết, no ano passado a família saiu da categoria de quase pobre e, na avaliação atual, passou a ser classificada como pobre. Mỹ também cuida de um neto pequeno cujo pai morreu de doença e cuja mãe foi embora.
A chefe do vilarejo diz que Mỹ continua dando aulas às crianças sem cobrar, apesar dessas pressões. As aulas on-line prolongam esse hábito de compartilhar conhecimentos gratuitamente, embora as gravações tenham começado principalmente como uma forma de ela voltar a aproveitar sua profissão.
O retorno de Mỹ ampliou o alcance de seu ensino, mas pouco mudou seu método básico. Um tampo de madeira substitui o quadro da escola, um celular substitui os alunos diante dela, e Dũng leva a aula até os espectadores. Ela ainda começa com um exemplo, escreve cada etapa e dá tempo para os alunos acompanharem.
Para os ex-alunos, os vídeos trazem de volta uma professora conhecida. Para Mỹ, a recompensa, como ela descreve, é simplesmente poder ensinar. Uma carreira interrompida pela necessidade de sustentar a família agora continua na mesma casa onde essas responsabilidades permanecem.
Principais pontos
- Bùi Thị Mỹ, de 74 anos, dá aulas gratuitas de matemática na cozinha de sua casa em Thanh Hóa, usando um tampo de madeira na vertical como quadro.
- Seu filho caçula, Bùi Văn Dũng, grava as aulas e as publica no Facebook. Um vídeo ultrapassou 3 milhões de visualizações.
- As aulas duram cerca de 45 minutos e abordam frações, números decimais, equações e identidades algébricas.
- Mỹ deixou o ensino formal em 1990 por causa das dificuldades da família, mas continuou ajudando as crianças do vilarejo sem cobrar.
- Ela e o filho alertam que o ensino dela reflete uma formação de décadas atrás, enquanto o currículo escolar mudou.
- A chefe do vilarejo, Bùi Thị Tuyết, diz que a família de Mỹ continua na pobreza e que ela cuida de um neto pequeno.






