Washington estabelece metas de paz e comércio para 2030
Os Estados Unidos querem ajudar Mianmar a alcançar um acordo de paz duradouro até 2030, ao mesmo tempo que abrem acesso a minerais de terras raras, triplicam as compras de produtos americanos e garantem pelo menos três acordos comerciais de mais de US$ 5 milhões cada. Uma estratégia do Departamento de Estado publicada recentemente reúne essas metas diplomáticas e empresariais em um mesmo plano.
Conteúdo
- Washington estabelece metas de paz e comércio para 2030
- Por que os EUA estão retomando o diálogo
- Como fronteiras e divisão de receitas se relacionam com os minerais
- Acesso a terras raras em meio à disputa com a China
- Apoio da oposição vem acompanhado de condições firmes
- Grupos étnicos priorizam a proteção de civis
- Metas comerciais esbarram na continuidade das sanções
- Centros de golpes e migração também são prioridades
- O mercado mais amplo de minerais já reage
- Da linha do tempo do golpe às metas para 2030
- Pontos principais
A Estratégia Integrada para o País da missão dos EUA em Mianmar prevê pelo menos três fóruns que reúnam diferentes partes para negociar propostas de divisão da receita pública e definição de fronteiras territoriais. O documento vincula explicitamente essas discussões a oportunidades de acesso americano a jazidas minerais e a medidas contra centros de golpes pela internet.
A oposição de Mianmar e as organizações armadas étnicas reagiram com uma mistura de esperança e preocupação. Várias delas veem com bons olhos uma maior participação dos EUA, mas querem proteção para civis, libertação de presos políticos e uma transição genuína para longe do regime militar. O paralelo Governo de Unidade Nacional afirma que os recursos do país devem fazer parte de um acordo mais amplo, que respeite os direitos étnicos e o governo democrático.
O que está em jogo vai muito além da mineração. A Organização das Nações Unidas estima que a guerra civil desencadeada pelo golpe militar de 2021 matou 100 mil pessoas e deslocou mais de 3,5 milhões. Muitas jazidas de terras raras ficam em áreas afetadas pelos combates, o que torna as decisões sobre o acesso aos minerais inseparáveis das disputas sobre território, autoridade e a destinação do dinheiro.
Para Washington, a estratégia marca uma mudança após anos de esforços para isolar a liderança militar de Mianmar: agora, o diálogo passa a servir a objetivos americanos de segurança, comércio e alcance regional. Para quem vive em meio à guerra, o teste imediato é saber se esse envolvimento ajuda a interromper os ataques e cria espaço para um acordo político.
Por que os EUA estão retomando o diálogo
Autoridades americanas mantiveram conversas discretas com o governo nominalmente civil de Mianmar, liderado pelo presidente Min Aung Hlaing, o ex-general que comandou o golpe de 2021. Os contatos envolveram Michael Vance, principal autoridade de inteligência do Departamento de Estado, e incluíram discussões sobre o acesso a terras raras. As reuniões ocorreram em Naypyidaw e Tóquio.
Um porta-voz do Departamento de Estado explicou que Washington avaliou se sua abordagem anterior promovia os interesses americanos. Segundo o porta-voz, a política agora acolhe o diálogo com todas as partes envolvidas no conflito, com prioridades que incluem os centros de golpes, as condições para empresas americanas e um processo de paz genuíno.
O porta-voz fez a seguinte avaliação da política anterior:
O governo tem avaliado como ajustar a política de Washington em relação à Birmânia para alcançar estabilidade regional e também avançar em prioridades fundamentais dos EUA. Concluiu que o completo afastamento das autoridades em Naypyidaw contrariava os interesses estratégicos dos EUA na Birmânia e na região.
Min Aung Hlaing também tem buscado maior aceitação diplomática. Desde que assumiu a Presidência, em abril de 2026, fez visitas de Estado à China, à Índia e à Malásia. Assim, a retomada dos contatos por Washington ocorre enquanto a liderança de Mianmar trabalha para ampliar suas relações internacionais.
Como fronteiras e divisão de receitas se relacionam com os minerais
A estratégia do Departamento de Estado prevê um cessar-fogo que abra caminho para um acordo de paz duradouro até 2030. Os fóruns propostos discutiriam federalismo fiscal e demarcação territorial, dois termos técnicos com consequências diretas para as comunidades que vivem perto das jazidas minerais.
Federalismo fiscal significa decidir como diferentes níveis de governo arrecadam, gastam e dividem o dinheiro público. Em Mianmar, isso poderia incluir negociações sobre como repartir entre as autoridades centrais e as regiões étnicas as receitas dos recursos naturais. Demarcação territorial significa definir fronteiras e áreas de autoridade.
O conflito em Mianmar envolve forças que apoiam a democracia e organizações armadas étnicas. Algumas delas combatem os militares há décadas enquanto buscam autonomia. As negociações sobre território e receitas, portanto, abrangem antigas reivindicações políticas, além das condições necessárias para investimentos.
A estratégia vincula essas negociações ao acesso a recursos de terras raras e aos esforços contra os centros de golpes. Assim, o processo de paz proposto pode abrir caminho para mudanças tanto na autoridade política quanto no acesso comercial, e as comunidades locais e as organizações armadas têm interesse direto nos termos do acordo.
Acesso a terras raras em meio à disputa com a China
Mianmar é apontado como o quarto maior fornecedor de terras raras do mundo. O grupo de elementos é usado em produtos como ímãs potentes, eletrônicos e alguns equipamentos de defesa. Atualmente, seus minerais seguem para a China, que domina o processamento global.
Washington quer ampliar as opções de abastecimento fora dessa rede. A estratégia afirma que uma diplomacia ampliada deve contrabalançar a influência chinesa e promover um Indo-Pacífico livre e aberto. Também busca ampliar o papel dos EUA nas discussões de paz para aumentar sua influência e criar condições favoráveis a investimentos americanos, em vez dos de outros atores regionais.
A posição da China se apoia no financiamento de infraestrutura e em relações com facções que controlam territórios ricos em recursos. Portanto, a participação dos EUA se daria em uma rede já existente de relações políticas, comerciais e de segurança, e não em um mercado aberto à espera de novos compradores.
Salai Shein Tun, membro do secretariado da Liga Nacional para a Democracia Chin, apontou a influência chinesa e as visões concorrentes sobre a organização política como desafios. Entre suas preocupações estão as diferenças entre arranjos federais e modelos inspirados na China.
David Gum Awng, vice-ministro das Relações Exteriores do Governo de Unidade Nacional, afirma que a influência americana precisa ser construída por meio da confiança pública e do diálogo com forças que buscam uma democracia federal. Segundo ele, a soberania de Mianmar e o direito de seu povo de determinar o próprio futuro devem ter prioridade sobre a disputa entre Washington e Pequim.
Apoio da oposição vem acompanhado de condições firmes
O Governo de Unidade Nacional, formado por opositores ao golpe e incluindo autoridades destituídas em 2021, afirma que continuará as conversas com o governo dos EUA, o Congresso americano e parceiros internacionais. Gum Awng vê com bons olhos a atenção ativa dos americanos, mas quer políticas voltadas a um acordo político inclusivo.
Gum Awng alertou que objetivos econômicos e de segurança seriam insuficientes se os princípios democráticos fossem deixados de lado:
Uma abordagem que deixe de lado princípios fundamentais, como a democracia, os direitos humanos e a criação de uma união federal, para priorizar os próprios interesses de segurança e econômicos, é insuficiente e não tem o alcance abrangente necessário para resolver a crise de Mianmar.
Segundo ele, um acordo duradouro exige o fim da ditadura militar, a participação de todos os grupos relevantes e mecanismos robustos para monitorar o cumprimento dos acordos. Na visão dele, um prazo por si só corre o risco de produzir uma redução temporária dos combates, sem resolver a disputa política.
O Governo de Unidade Nacional também vincula a titularidade dos minerais aos direitos étnicos e à autoridade da futura união federal para administrar os recursos. Essa posição coloca no centro de qualquer acordo as decisões sobre quem pode negociar o acesso à mineração, quem recebe as receitas e quem representa as comunidades afetadas.
Grupos étnicos priorizam a proteção de civis
A Frente Nacional Chin quer que o envolvimento americano trate dos ataques contra civis e ofereça ajuda humanitária. Seu porta-voz, Salai Htet Ni, disse que Washington precisa entender a violência que atinge a população de Mianmar e responder aos problemas políticos que estão na raiz do conflito.
Salai Htet Ni explicou o que tornaria a participação dos EUA ainda mais bem-vinda:
Da nossa parte, se eles puderem tomar medidas iniciais, como oferecer ajuda humanitária a refugiados de guerra e enfrentar os ataques violentos e assassinatos, acolheremos ainda mais a participação dos EUA.
O porta-voz da União Nacional Karen, Saw Kler Say, também colocou o fim dos ataques contra civis em primeiro lugar. Ele pediu um acordo sobre o processo de diálogo, a libertação de líderes da oposição e presos políticos detidos e a participação das forças revolucionárias.
Saw Kler Say apontou a possível abolição da Constituição de 2008 e a adoção de uma nova Constituição federal como um caminho para a mudança política. Também alertou que um processo movido principalmente pelos interesses americanos poderia desviar Mianmar da democracia federal defendida por sua organização.
O coronel Saw Kyaw Nyunt, porta-voz da Aliança de sete Organizações Armadas Étnicas, que representa organizações que assinaram individualmente o Acordo Nacional de Cessar-Fogo, pediu apoio internacional para retomar os esforços de paz. Representantes do Exército da Independência Kachin e do Exército de Arakan se recusaram a comentar; o Exército de Arakan pediu que as perguntas fossem enviadas por e-mail oficial.
Metas comerciais esbarram na continuidade das sanções
A missão dos EUA quer que Mianmar triplique, até 2030, as importações de produtos e produtos agrícolas americanos e que os Estados Unidos se tornem um importante parceiro comercial e fornecedor. Triplicar as importações significaria um aumento de 200% em relação ao nível inicial, embora o documento não informe o valor inicial em dólares.
A embaixada também pretende garantir pelo menos três grandes acordos comerciais ou de investimento, cada um avaliado em mais de US$ 5 milhões. Três acordos que atingissem esse patamar teriam valor combinado superior a US$ 15 milhões. A estratégia apresenta o aumento das exportações americanas como uma forma de reduzir o déficit comercial dos EUA com Mianmar.
As sanções financeiras dos EUA continuam em vigor contra Min Aung Hlaing, outras figuras do governo respaldado pelos militares e empresas ligadas a eles. O governo Trump retirou vários cidadãos e empresas de Mianmar das listas de sanções, enquanto Washington continua afirmando seu apoio a atividades empresariais legítimas e responsáveis.
A estratégia não esclarece se outras sanções serão suspensas nem como serão tratadas outras questões de conformidade que desestimulam investimentos. Também não informa as datas dos fóruns propostos nem apresenta detalhes de acordos minerais já concluídos. Empresas que considerem participar precisariam avaliar as contrapartes, as formas de pagamento, as condições operacionais e suas obrigações legais.
Centros de golpes e migração também são prioridades
O plano do Departamento de Estado prioriza a cooperação entre órgãos de segurança para combater centros de golpes pela internet que têm como alvo americanos. Também busca ampliar a cooperação com as autoridades de Mianmar para repatriar cidadãos de Mianmar que estão nos Estados Unidos.
Esses objetivos ajudam a explicar por que Washington busca contato mesmo com as sanções em vigor. A estratégia combina a proteção de cidadãos americanos, o comércio, a diplomacia pela paz e a influência regional, dando às autoridades vários motivos para buscar cooperação com as autoridades e outros atores de Mianmar.
Hla Thein, porta-voz do Partido da União, Solidariedade e Desenvolvimento, formado por ex-oficiais militares, disse que apoiava a cooperação caso ela beneficiasse Mianmar, seu povo e os interesses nacionais. Sua resposta reflete o apoio ao diálogo de uma organização política ligada ao establishment militar.
Críticos veem sérios riscos nessa abordagem. Debbie Stothard, fundadora e coordenadora da Rede Alternativa ASEAN sobre a Birmânia, classificou como ilógico e imoral recompensar a junta com comércio e ajuda enquanto se busca acesso aos minerais. Ela alertou que Min Aung Hlaing poderia usar a disputa entre Washington, Pequim e Moscou para obter dinheiro, armas e legitimidade.
O analista político de Mianmar Htin Kyaw Aye também duvidou que um plano de paz dos EUA pudesse ter sucesso rapidamente, descrevendo-o como um possível erro de cálculo estratégico ou um gesto de interesse. Essas objeções questionam se o diálogo pode garantir mudanças políticas ou apenas ampliar as opções internacionais da liderança.
O mercado mais amplo de minerais já reage
A australiana Lynas Rare Earths ilustra o valor comercial da demanda por fontes de abastecimento fora da China. A empresa informou preços realizados recordes no trimestre encerrado em setembro, em resultados divulgados no fim de outubro de 2026.
A demanda crescente do Ocidente ajudou a Lynas a fechar acordos que estabelecem preços mínimos para uma grande parcela da produção. Esses arranjos garantem um preço mínimo e dão ao produtor mais previsibilidade sobre o valor pago pelos compradores, mesmo se os preços de mercado caírem.
A Lynas também informou que planeja interromper temporariamente as operações para manutenção em suas instalações na Malásia e em Kalgoorlie. Sua experiência mostra que a criação de fontes alternativas de abastecimento exige capacidade de processamento, cronogramas operacionais e acordos de compra confiáveis, além de acesso às jazidas.
O desafio de Mianmar tem uma dimensão política adicional: muitas jazidas ficam em áreas afetadas pela guerra, onde o controle sobre terras e recursos é disputado. Para transformar discussões diplomáticas em uma fonte confiável de abastecimento, seriam necessários acordos viáveis sobre autoridade, termos comerciais e segurança.
Da linha do tempo do golpe às metas para 2030
A estratégia reúne um conflito político prolongado e vários prazos específicos dos EUA. Os principais marcos mostram como as ambições diplomáticas e comerciais passaram a estar interligadas:
- 2021: Os militares derrubam o governo eleito liderado por Aung San Suu Kyi, desencadeando uma guerra civil e amplas sanções ocidentais.
- Abril de 2026: Min Aung Hlaing assume a Presidência e busca ampliar o envolvimento internacional.
- 31 de agosto de 2026: A estratégia dos EUA para o país é aprovada.
- Setembro de 2026: Contatos de alto escalão dos EUA com a liderança de Mianmar fazem parte da mudança em direção ao diálogo.
- Outubro de 2026: A estratégia é publicada no site do Departamento de Estado.
- Até 2030: Washington busca um caminho para a paz duradoura e a triplicação das importações de produtos e produtos agrícolas americanos por Mianmar.
A principal questão das negociações é o que acontecerá entre esses marcos. Líderes da oposição e organizações étnicas querem que a segurança dos civis, a participação política e os direitos sobre os recursos sejam incorporados ao processo. Washington quer avançar nessas conversas junto com o acesso aos minerais, o comércio, o combate aos centros de golpes e a influência regional.
Pontos principais
- A estratégia dos EUA vincula explicitamente a diplomacia pela paz em Mianmar ao possível acesso a recursos de terras raras.
- Washington busca pelo menos três fóruns sobre divisão de receitas e fronteiras territoriais, além de um caminho para a paz duradoura até 2030.
- A oposição e os grupos étnicos querem o fim dos ataques contra civis, a libertação de presos políticos e um acordo inclusivo que apoie a democracia federal.
- As metas comerciais incluem triplicar as importações de produtos americanos até 2030 e garantir pelo menos três acordos de mais de US$ 5 milhões cada.
- As sanções contra Min Aung Hlaing e outros interesses militares continuam em vigor, enquanto eventuais mudanças nas sanções e as datas dos fóruns não foram especificadas.
- Atualmente, os minerais de Mianmar seguem para a China, inserindo as negociações sobre recursos em uma disputa mais ampla por influência regional.






