Daca exige extradição com base no tratado com a Índia
Bangladesh pressiona a Índia a entregar a ex-primeira-ministra Sheikh Hasina, com base no tratado de extradição entre os dois países, enquanto ela reafirma que voltará em dezembro, apesar de ter sido condenada à morte. O ministro de Estado das Relações Exteriores, Humaiun Kobir, diz que o governo busca uma entrega por via judicial e descarta questionamentos sobre a emissão de passaporte ou salvo-conduto para ela.
Conteúdo
- Daca exige extradição com base no tratado com a Índia
- Por que a questão do passaporte virou uma disputa
- Hasina diz que não mudou de ideia sobre o retorno
- O veredito e as mortes por trás do caso
- Índia não estabelece prazo para uma decisão
- Como o confronto se desenvolveu
- Partido proibido e versões conflitantes sobre a repressão
- Hasina rejeita proteção estrangeira
- Pontos principais
Hasina e o ex-ministro do Interior Asaduzzaman Khan Kamal foram condenados à morte em 17 de novembro de 2025 por crimes contra a humanidade durante a repressão à revolta de 2024. Um relatório das Nações Unidas estimou que aproximadamente 1.400 pessoas morreram durante os distúrbios. Hasina nega ter ordenado mortes e rejeita o veredito do tribunal.
Kobir falou no Aeroporto Internacional Hazrat Shahjalal, em Daca, após se despedir de Liu Haixing, ministro do Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da China. Ele disse que Bangladesh buscará o retorno de Hasina pelos canais jurídicos e diplomáticos estabelecidos.
Kobir, ministro responsável por explicar a posição de Bangladesh, fez a exigência de forma explícita:
Queremos que Hasina seja entregue. Ela será entregue. É uma terrorista. É uma fugitiva. Há um tratado de extradição em vigor entre Bangladesh e a Índia.
A Índia não entregou Hasina. Sua posição oficial é que o pedido de Bangladesh está sendo analisado pelos procedimentos estabelecidos. O alto-comissário indiano Dinesh Trivedi disse em 3 de outubro que os tribunais estavam envolvidos e que não era possível indicar um prazo.
A disputa imediata diz respeito a quem organizaria o retorno de Hasina e por qual processo. Ela apresenta dezembro como sua própria decisão de voltar para casa. O governo de Bangladesh afirma que seu retorno deve ocorrer por extradição, o processo formal pelo qual um país transfere uma pessoa a outro para que responda a processos criminais ou cumpra uma pena.
Por que a questão do passaporte virou uma disputa
Kobir respondia a perguntas sobre a possibilidade de Hasina, que vive na Índia desde agosto de 2024, receber um passaporte de Bangladesh ou um salvo-conduto. Ele classificou a sugestão como ridícula e afirmou que uma fugitiva procurada por extradição não precisa desses documentos para ser entregue.
A posição de Bangladesh, conforme explicada por ele, se baseia em mandados de prisão expedidos por tribunais, processos judiciais em andamento e no tratado de extradição com a Índia. O governo pede às autoridades indianas que transfiram Hasina por esses canais.
O tratado de 2013 prevê a entrega de pessoas que cometem crimes em um país e buscam refúgio no outro, mas também estabelece motivos para recusar a extradição. O artigo 6(1) permite recusá-la se o delito tiver caráter político. O artigo 8(III) prevê outro motivo para negar a extradição quando a acusação não tiver sido feita de boa-fé, no interesse da justiça. O artigo 10(3) foi alterado em julho de 2016 para facilitar a extradição célere de criminosos fugitivos.
Uma análise do Instituto de Estudos do Sul da Ásia também aponta que a Seção 29 da Lei de Extradição da Índia, de 1962, permite a recusa quando um pedido é insignificante, feito de má-fé, motivado por considerações políticas ou contrário aos interesses da justiça. Essas disposições oferecem possíveis motivos para negar a entrega; não demonstram que a Índia tenha rejeitado o pedido de Bangladesh.
Em geral, o passaporte identifica uma pessoa que viaja para o exterior. A extradição diz respeito a um pedido entre governos para transferir alguém procurado em um caso criminal. O argumento de Kobir é que, no caso de Hasina, aplica-se o segundo processo, e não uma viagem comum de passageira.
Kobir também disse não saber se Hasina havia solicitado um passaporte ou salvo-conduto. Explicou que tinha acabado de voltar da Reunião de Chefes de Governo da Commonwealth, em Antígua e Barbuda. Assim, seus comentários expuseram a posição do governo sobre a extradição, mas não esclareceram se algum pedido havia sido apresentado.
Hasina diz que não mudou de ideia sobre o retorno
Hasina, que foi primeira-ministra de 2009 até ser afastada do poder em 2024, afirma que pretende voltar, embora espere ser presa e enfrentar outros perigos. Ela não revelou uma rota, uma data exata de chegada nem os preparativos para entrar em Bangladesh.
A ex-primeira-ministra descreveu sua determinação em respostas por escrito a perguntas de uma entrevista:
Se meu destino é morrer, prefiro morrer no solo do meu próprio país, entre meu próprio povo", disse. "Então, voltarei a Bangladesh. Essa decisão não mudou.
Hasina também disse saber que poderia ser presa, encarcerada, torturada ou morta. Esses foram riscos que ela descreveu, e não uma ação anunciada pelas autoridades.
Em uma entrevista em julho, ela disse que planejava voltar até dezembro e se apresentar ao tribunal. Em agosto, declarou publicamente que pretendia retornar e agora voltou a reiterar esse compromisso. Seu retorno a levaria de volta a um país onde foi condenada à morte e seu partido político continua proibido.
O veredito e as mortes por trás do caso
O Tribunal Internacional de Crimes de Bangladesh considerou Hasina responsável por ordenar a repressão mortal contra manifestantes durante a revolta que a tirou do poder. A sentença de novembro de 2025 também condenou à morte o ex-ministro do Interior Asaduzzaman Khan Kamal. Outros processos contra ambos continuam em andamento.
Em uma decisão escrita de 453 páginas, o colegiado de três juízes afirmou que o artigo 7 do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, que define crimes contra a humanidade, serviu de base para o processo, e que os depoimentos das vítimas embasaram suas conclusões. Bangladesh havia alterado a Lei dos Tribunais de Crimes Internacionais em novembro de 2024 para aproximar do Estatuto de Roma as disposições sobre responsabilidade de comando e crimes contra a humanidade.
O tribunal condenou Hasina em três das cinco acusações, concluindo que ela incitou a violência, ordenou mortes e não impediu nem puniu atrocidades. Entre as conclusões estavam ordens para usar drones, helicópteros e armas letais contra manifestantes, além da responsabilidade pelas mortes de 12 manifestantes em Chankharpul, em Daca, e Ashulia, em Savar. Os juízes também observaram que, embora Hasina tenha atribuído os fatos a falhas de disciplina entre as forças de segurança, ela havia reconhecido sua responsabilidade como líder.
A acusação convocou 54 testemunhas, cerca de metade delas para prestar depoimento especializado; as demais eram vítimas ou familiares. Entre as provas contra Hasina estavam gravações de áudio nas quais ela aparentemente ordenava o uso de armas letais. Hasina e Kamal foram julgados à revelia. O ex-chefe de polícia Chowdhury Abdullah Al-Mamun, que estava sob custódia e colaborou como testemunha do Estado, recebeu uma pena reduzida de cinco anos de prisão. O tribunal também determinou o confisco dos bens de Hasina e Kamal e o pagamento de indenizações às famílias das vítimas.
A Human Rights Watch afirmou que o processo não cumpriu os padrões internacionais de julgamento justo, incluindo o direito de apresentar uma defesa completa e de ser representado por advogados escolhidos pelos réus. A organização disse que qualquer extradição deveria permitir que os procurados contestassem a transferência em processos judiciais na Índia que respeitassem as garantias do devido processo legal, e que ninguém deveria ser extraditado para enfrentar um julgamento injusto que pudesse resultar na pena de morte.
As Nações Unidas estimaram aproximadamente 1.400 mortes durante os distúrbios de 2024. Milhares de pessoas também ficaram feridas na repressão. A dimensão da violência é central no pedido de Bangladesh para que Hasina seja devolvida a fim de responder perante o sistema judicial do país.
Hasina nega ter cometido irregularidades e contesta a legitimidade do julgamento e do veredito. Seus advogados também questionaram o número de mortos. A conclusão do tribunal, a estimativa da ONU e a defesa de Hasina são elementos distintos da disputa: o tribunal atribuiu responsabilidade criminal, a ONU estimou o número de vítimas e Hasina contesta o caso movido contra ela.
Para as famílias que perderam parentes e as pessoas feridas durante a revolta, o pedido de extradição diz respeito à responsabilização pela violência. Para Hasina, voltar significaria se colocar ao alcance das autoridades responsáveis por fazer cumprir a sentença do tribunal.
Índia não estabelece prazo para uma decisão
Bangladesh enviou várias cartas pedindo o retorno de Hasina. Daca diz não ter recebido resposta a essas cartas, enquanto o Ministério das Relações Exteriores da Índia afirmou publicamente que o pedido está sendo analisado de acordo com os procedimentos estabelecidos.
Bangladesh havia solicitado formalmente a extradição de Hasina no fim de 2024. Após o veredito de novembro de 2025, o Ministério das Relações Exteriores do país pediu à Índia que entregasse Hasina e Kamal com base no acordo de extradição, classificando a concessão de abrigo a pessoas condenadas por crimes contra a humanidade como um ato hostil e um desrespeito à justiça. O então assessor de Relações Exteriores Md Touhid Hossain disse que a conclusão do processo judicial havia mudado a situação e que Bangladesh comunicaria oficialmente sua posição à Índia. O promotor do tribunal Gazi Monawar Hossain Tamim afirmou que também estava sendo preparado um pedido de assistência à Interpol.
Em sua primeira resposta oficial ao veredito, o Ministério das Relações Exteriores da Índia disse ter tomado conhecimento da decisão e manter o compromisso com os melhores interesses do povo de Bangladesh, incluindo paz, democracia, inclusão e estabilidade, além de se comprometer a dialogar de forma construtiva com todas as partes interessadas. O comunicado não anunciou uma decisão de entregar Hasina ou Kamal. Hasina continua na Índia, e o pedido de extradição segue sem resolução.
O primeiro-ministro Tarique Rahman apresentou o pedido de extradição durante uma reunião com o alto-comissário indiano Dinesh Trivedi em Daca, em agosto. Em seguida, Trivedi disse, em 3 de outubro, que o assunto tramitava em um processo jurídico estruturado que envolvia os tribunais.
Trivedi também apresentou a versão da Índia sobre a chegada de Hasina. Disse que ela ainda era primeira-ministra de Bangladesh quando chegou à Índia e descreveu as circunstâncias como trágicas. Afirmou que nem a Força Aérea Indiana nem o Exército Indiano a levaram para lá.
A permanência de Hasina na Índia tem desgastado as relações entre os países vizinhos. Bangladesh busca a transferência com base no tratado, enquanto a Índia continua afirmando que o pedido está sob análise jurídica. A confiança de Kobir de que ela será entregue contrasta com a recusa da Índia em estabelecer um prazo.
Como o confronto se desenvolveu
O pedido de extradição vem após uma sequência de turbulência política, mudança de governo e uma sentença criminal. A previsão de Hasina de voltar em dezembro acrescenta um prazo pessoal a um processo que, segundo a Índia, não tem data fixa para ser concluído.
- Agosto de 2024: Protestos estudantis e uma revolta popular tiraram Hasina do poder. Ela fugiu para a Índia, onde permanece.
- Após sua saída do poder: Muhammad Yunus liderou um governo interino por 18 meses.
- 17 de novembro de 2025: O tribunal condenou Hasina e o ex-ministro do Interior Asaduzzaman Khan Kamal à morte.
- Fevereiro de 2026: Tarique Rahman venceu por ampla margem uma eleição realizada sob o governo interino. O partido de Hasina, a Liga Awami, foi impedido de concorrer.
- Agosto: Rahman apresentou a Trivedi, em Daca, o pedido de extradição de Bangladesh.
- 3 de outubro: Trivedi disse que o processo jurídico continuava, sem indicar um prazo.
- Dezembro: Hasina diz que pretende voltar a Bangladesh.
A eleição de fevereiro mudou o governo responsável por conduzir o pedido de retorno de Hasina. O governo de Rahman agora dá andamento a um caso decorrente da violência que precedeu o governo interino.
Partido proibido e versões conflitantes sobre a repressão
A Liga Awami de Hasina continua proibida, e figuras importantes do partido foram presas ou se exilaram. Sua exclusão da eleição de fevereiro significa que o retorno planejado por ela ocorreria fora de uma disputa eleitoral comum entre partidos que participam do mesmo processo político.
Hasina alega que pelo menos 20 mil integrantes da Liga Awami foram mortos desde agosto de 2024, e que milhares de outros foram presos, torturados ou forçados a se esconder. Ela também diz que apoiadores perderam casas, negócios e meios de subsistência por causa de suas ligações políticas. São alegações feitas por Hasina; o governo as nega e afirma que as prisões dizem respeito a acusações criminais específicas.
Hasina descreveu em termos diretos as condições políticas enfrentadas por seu partido:
"Não há um ambiente político ou democrático normal", disse.
A Human Rights Watch e outros grupos de defesa dos direitos criticaram violações de direitos civis e políticos durante o governo de Rahman. Grupos minoritários também relataram intimidação, enquanto as preocupações com grupos radicais cresceram durante o governo interino. A administração Yunus negou as acusações relacionadas à forma como lidou com essas condições.
A disputa vai além do destino pessoal de Hasina. Integrantes do partido que respondem a processos, famílias que denunciam violência política e pessoas que buscam justiça pela repressão de 2024 têm interesse direto na forma como o governo conduzirá um possível retorno dela.
Hasina rejeita proteção estrangeira
Hasina afirma que não pediu proteção à Índia nem aos Estados Unidos para garantir seu retorno. Questionada se governos estrangeiros deveriam pressionar Bangladesh a garantir sua segurança, disse que não precisava da proteção de uma potência estrangeira para voltar para casa.
Sua posição combina a disposição declarada de voltar com a exigência de extradição feita por Bangladesh. Uma viagem voluntária começaria com os preparativos para seu deslocamento. Uma entrega exigiria uma ação das autoridades indianas em resposta ao pedido de Bangladesh. Qualquer uma das opções a deixaria ao alcance dos processos criminais em Bangladesh.
As declarações de Kobir ocorreram durante uma atividade diplomática mais ampla envolvendo a China. Durante a visita de Liu Haixing, Bangladesh e China discutiram cooperação política, comércio, investimentos e conectividade regional. Kobir também demonstrou interesse em um corredor econômico proposto que ligaria Bangladesh, Mianmar e China, e apontou a estabilidade regional e uma solução sustentável para a crise rohingya como prioridades.
O pedido de extradição continua sendo uma questão entre Daca e Nova Délhi. Bangladesh pressiona por uma transferência judicial, a Índia diz que a análise está em andamento e Hasina mantém a promessa de voltar em dezembro.
Pontos principais
- Bangladesh quer que a Índia entregue Sheikh Hasina com base no tratado de extradição entre os dois países.
- Hasina e o ex-ministro do Interior Asaduzzaman Khan Kamal foram condenados à morte em 17 de novembro de 2025.
- Um relatório das Nações Unidas estimou aproximadamente 1.400 mortes durante os distúrbios de 2024.
- Hasina nega ter cometido irregularidades e diz que pretende voltar em dezembro, apesar do risco de ser presa.
- Kobir afirma que a extradição, e não a emissão de passaporte ou salvo-conduto, é o processo aplicável.
- A Índia diz que o pedido está sob análise jurídica e não estabeleceu um prazo.
- A Liga Awami continua proibida após ser excluída da eleição de fevereiro vencida por Tarique Rahman.






