Sete integrantes vão examinar decisões por trás da delimitação da fronteira marítima
O presidente Dr. Mohamed Muizzu criou uma comissão de sete integrantes para investigar como as Maldivas conduziram o Caso nº 28 do ITLOS, a disputa sobre a fronteira marítima na qual um tribunal internacional atribuiu 47.232 quilômetros quadrados de águas sobrepostas às Maldivas e 45.331 quilômetros quadrados a Maurício, em abril de 2023.
Conteúdo
- Sete integrantes vão examinar decisões por trás da delimitação da fronteira marítima
- O que determina o decreto presidencial
- Quem conduzirá a investigação?
- O que o tribunal dividiu em 2023
- Por que o recife de Blenheim era importante
- Como Chagos influenciou a disputa jurídica
- Do processo no tribunal à ruptura diplomática
- Reivindicações sobre o leito marinho acrescentam outra dimensão
- Principais pontos
Criada em 1º de novembro de 2026 por meio do Decreto Presidencial nº 2026/17, a comissão examinará as decisões de funcionários públicos, assessores e autoridades antes e durante o processo. Entre suas atribuições estão avaliar se houve negligência jurídica, verificar como os documentos foram preservados e recomendar medidas contra eventuais responsáveis.
O gabinete presidencial afirma que especialistas internacionais encarregados de analisar o caso concluíram que ações das Maldivas causaram perdas significativas e irreparáveis relacionadas a território marítimo, pesca, recursos marinhos e riquezas do leito marinho. Esses são os motivos apresentados pelo governo para a investigação. Agora, cabe à comissão examinar a conduta das pessoas e instituições envolvidas.
Ahmed Shakir preside a investigação, que não tem prazo definido para ser concluída. Ela continuará em funcionamento até Muizzu declarar que o trabalho designado foi concluído.
A decisão reúne duas frentes de uma disputa que se intensificou desde a sentença: uma investigação interna sobre as ações do governo anterior e os esforços do atual governo para recuperar águas que considera perdidas. As relações com Maurício também se deterioraram, e o país suspendeu as relações diplomáticas com as Maldivas em fevereiro de 2026.
O que determina o decreto presidencial
Em seu anúncio da comissão, o gabinete presidencial aponta o artigo 115(o) da Constituição como fundamento para a criação da investigação. Muizzu havia anunciado a intenção de criá-la durante seu discurso presidencial, em 5 de fevereiro.
O decreto confere amplos poderes à comissão. O escopo inclui as ações das Maldivas antes da apresentação do caso, sua conduta durante o processo, sua resposta à disputa e assuntos relacionados. Estão abrangidos tanto os funcionários que participaram indiretamente quanto aqueles que lidaram diretamente com o processo.
A comissão deve determinar se houve negligência jurídica e, em caso afirmativo, identificar sua extensão. Em termos simples, deve examinar se as pessoas responsáveis por proteger os interesses jurídicos do Estado deixaram de cumprir suas obrigações.
A preservação de documentos é outra parte do mandato. A investigação analisará como foram mantidos e protegidos os registros relativos ao caso e a assuntos relacionados. Esse trabalho ajudará a reconstruir quais decisões foram tomadas, por quem e quais orientações estavam disponíveis.
O gabinete presidencial atribui a decisão às conclusões de especialistas internacionais designados para examinar a disputa e identificar possíveis próximos passos. O anúncio identifica o caso como Disputa sobre a delimitação da fronteira marítima entre Maurício e Maldivas no oceano Índico (Maurício/Maldivas).
Quem conduzirá a investigação?
Ahmed Shakir liderará a comissão, que também terá Abdul Azeez Yoosuf, Dr. Aminath Shafiya Adam, Dr. Abdul Muhsin Mohamed, o ex-vice-comissário de Polícia Mohamed Sadiq, Ahmed Ali Maniku e Fathimath Minhath Izzath. O anúncio presidencial identifica Shakir com a designação ODRDD.
Os sete integrantes têm duas responsabilidades relacionadas: examinar a conduta passada e propor mudanças para casos futuros. Além de recomendar medidas relativas aos responsáveis, devem sugerir formas de organizar os assuntos de Estado para evitar que problemas semelhantes se repitam.
O decreto vincula a duração da investigação a uma decisão presidencial, e não a um prazo definido no calendário. Portanto, o trabalho vai além da análise da decisão final do tribunal: também deve examinar o processo administrativo e jurídico que levou à posição das Maldivas.
O que o tribunal dividiu em 2023
As águas em disputa ficam entre a cidade de Addu, no sul das Maldivas, e o arquipélago de Chagos, mais ao sul. Em 2019, os dois países concordaram em submeter a disputa de delimitação marítima a uma câmara especial do Tribunal Internacional do Direito do Mar, conhecido como ITLOS.
A delimitação marítima consiste em traçar uma fronteira onde se sobrepõem as reivindicações marítimas de dois países. O caso envolvia direitos sobre as águas e a plataforma continental, ou seja, o leito marinho e o subsolo. Esses direitos são importantes para atividades como a pesca e a exploração de recursos do leito marinho.
A divisão anunciada em abril de 2023 concedeu às Maldivas 1.901 quilômetros quadrados a mais do que a Maurício. Com base nas áreas atribuídas a cada país, as Maldivas receberam cerca de 51% do total combinado de 92.563 quilômetros quadrados, enquanto Maurício ficou com aproximadamente 49%. Para cada quilômetro quadrado atribuído às Maldivas, Maurício recebeu cerca de 0,960 quilômetro quadrado.
A área sobreposta também foi descrita como tendo 95.000 quilômetros quadrados. Essa estimativa supera em 2.437 quilômetros quadrados a soma das áreas atribuídas aos dois países; por isso, esta comparação usa os valores concedidos a cada um.
O governo de Muizzu agora examina por que as Maldivas aceitaram ou defenderam determinadas posições jurídicas durante o caso. O argumento se concentra em direitos que, segundo o governo, o país deveria ter mantido, embora as Maldivas tenham recebido a maior das duas parcelas na divisão final.
Por que o recife de Blenheim era importante
O recife de Blenheim foi um dos principais pontos de divergência sobre o traçado da fronteira. Maurício propôs usar o recife como ponto de referência para uma linha de equidistância. Essa linha é traçada a partir de pontos que ficam à mesma distância de pontos selecionados nas costas dos dois lados.
As Maldivas contestaram o uso do recife e apresentaram evidências científicas e imagens de satélite para sustentar sua posição. A câmara especial excluiu o recife de Blenheim como ponto de referência ao traçar a linha de equidistância.
O uso do recife proposto por Maurício teria acrescentado 4.687 quilômetros quadrados à sua parcela. A decisão de excluí-lo, portanto, teve um efeito concreto sobre a fronteira proposta e foi um resultado importante para as Maldivas durante o processo.
A disputa sobre o recife ajuda a explicar por que as avaliações do caso podem enfatizar decisões diferentes. As Maldivas obtiveram êxito no cálculo da fronteira envolvendo o recife de Blenheim, enquanto o atual governo conduz uma investigação mais ampla sobre como o país lidou com o processo judicial e sobre os direitos marítimos que afirma ter perdido.
Como Chagos influenciou a disputa jurídica
Inicialmente, as Maldivas contestaram a competência do tribunal para julgar o caso enquanto a soberania sobre Chagos era disputada entre Maurício e o Reino Unido. Uma objeção preliminar é um argumento sobre se um tribunal pode prosseguir antes de examinar a disputa principal.
Em 28 de janeiro de 2021, a câmara especial do ITLOS rejeitou as objeções preliminares das Maldivas. Thomas Burri e Jamie Trinidad descrevem essa decisão em seu comentário jurídico sobre o caso, publicado on-line em 9 de junho de 2021. A decisão permitiu que o processo sobre a fronteira prosseguisse.
Chagos foi separado de Maurício pelo Reino Unido em 1965, três anos antes da independência mauriciana. Entre 1967 e 1973, os habitantes foram deslocados enquanto Reino Unido e Estados Unidos desenvolviam a base militar em Diego Garcia.
Em 25 de fevereiro de 2019, a Corte Internacional de Justiça emitiu um parecer consultivo concluindo que o processo de descolonização de Maurício não havia sido concluído legalmente e que o Reino Unido deveria encerrar sua administração de Chagos o mais rápido possível. A situação das ilhas fez parte do contexto do caso marítimo posterior.
As Maldivas votaram contra a resolução das Nações Unidas sobre Chagos em 22 de maio de 2019. A resolução recebeu 119 votos favoráveis, enquanto Maldivas, Reino Unido, Estados Unidos, Hungria, Austrália e Israel votaram contra. O Ministério das Relações Exteriores das Maldivas afirmou que não poderia apoiar propostas que reduzissem o território nacional, conforme a Constituição de 2008 e a legislação interna.
Do processo no tribunal à ruptura diplomática
Muizzu retirou a posição do governo anterior e afirmou que o governo revogou uma carta enviada pelo ex-presidente Ibrahim Mohamed Solih ao primeiro-ministro de Maurício sobre a disputa. Também anunciou medidas jurídicas para recuperar a área marítima que seu governo considera perdida.
Os principais acontecimentos se desenrolaram ao longo de vários anos:
- 2019: Maldivas e Maurício concordaram em submeter a disputa sobre a fronteira marítima a uma câmara especial do ITLOS.
- 28 de janeiro de 2021: A câmara rejeitou as objeções preliminares das Maldivas.
- Abril de 2023: O tribunal proferiu a decisão final sobre a fronteira.
- 5 de fevereiro de 2026: Muizzu anunciou planos para criar uma comissão durante seu discurso presidencial.
- Fevereiro de 2026: Maurício suspendeu as relações diplomáticas com as Maldivas.
- 1º de novembro de 2026: Muizzu criou a comissão por meio do Decreto nº 2026/17.
Muizzu declarou que a área cedida pelo governo anterior seria incluída na zona econômica das Maldivas. Uma zona econômica exclusiva é uma área na qual o Estado costeiro tem direitos específicos sobre os recursos naturais, inclusive os peixes, enquanto outros países mantêm o direito de navegação previsto no direito internacional.
A tarefa imediata da comissão é investigar as decisões tomadas pelas Maldivas e recomendar medidas. Os esforços do governo para alterar o resultado marítimo envolvem suas relações jurídicas e diplomáticas para além dessa investigação interna.
Reivindicações sobre o leito marinho acrescentam outra dimensão
A disputa sobre a fronteira também envolve a plataforma continental. Os direitos sobre a plataforma dizem respeito ao leito marinho e ao que existe abaixo dele, enquanto os direitos de pesca se referem aos recursos nas águas acima. Isso ajuda a explicar por que o gabinete presidencial menciona separadamente a pesca, as riquezas marinhas e os recursos do leito marinho ao descrever as perdas alegadas.
Em 2010, os dois países recorreram à Comissão de Limites da Plataforma Continental para apresentar reivindicações que ultrapassavam 200 milhas náuticas. Esse órgão examina informações científicas e técnicas sobre os limites externos das plataformas continentais. Essas reivindicações constituíram outra parte dos interesses marítimos concorrentes dos países.
As Maldivas já têm experiência em negociar fronteiras marítimas com seus vizinhos do norte. O país assinou um acordo com o Sri Lanka em 31 de julho de 1976 e outro com a Índia em 28 de dezembro de 1976; ambos entraram em vigor em 8 de junho de 1978. Os acordos usaram a equidistância para dividir áreas sobrepostas.
A nova investigação se concentra em como as Maldivas conduziram o caso sobre sua fronteira sul. Para o Estado, as questões práticas dizem respeito à responsabilidade por decisões jurídicas, à preservação de documentos e à organização de futuros litígios marítimos. Para a gestão da pesca e dos recursos, está em jogo qual país exercerá seus direitos na área disputada.
Principais pontos
- Muizzu criou uma comissão de sete integrantes em 1º de novembro de 2026, por meio do Decreto Presidencial nº 2026/17.
- Ahmed Shakir presidirá a investigação sobre a condução do Caso nº 28 do ITLOS pelas Maldivas.
- A comissão avaliará possíveis casos de negligência jurídica, a preservação de documentos, a responsabilização e reformas.
- A decisão de abril de 2023 atribuiu 47.232 quilômetros quadrados às Maldivas e 45.331 quilômetros quadrados a Maurício.
- O tribunal excluiu o recife de Blenheim como ponto de referência para traçar a linha de equidistância.
- Maurício suspendeu as relações diplomáticas com as Maldivas em fevereiro de 2026.
- A comissão seguirá em funcionamento até o presidente declarar concluído seu mandato.






