Um dia de construção respaldado por meses de preparação
O Butão ergueu 108 chortens budistas em 24 horas, em 1º de novembro de 2026, criando um corredor de monumentos sagrados ao longo do rio Mau Chhu, em Gelephu Mindfulness City. Cada estrutura tem 15 metros de altura. Os preparativos previam pelo menos 40.000 voluntários treinados, enquanto mais de 200.000 pessoas eram esperadas para a construção e as cerimônias religiosas.
Conteúdo
- Um dia de construção respaldado por meses de preparação
- O desafio do rei para trabalharem juntos
- Qual é a extensão do corredor?
- O que há dentro de um chorten
- O trabalho invisível em Sarpang Dzong
- Por que 1º de novembro e o número 108 são importantes
- Comunidades budistas se reúnem além das tradições
- Peregrinação movimenta o comércio em Tsirang
- Índia ajusta estradas e segurança na fronteira
- Equipes médicas se preparam para o encontro
- O que os participantes esperam que permaneça
- Principais pontos
O Projeto 108 reúne um desafio real, meses de trabalho monástico e uma grande mobilização pública. Com USD 200.000 destinados a cada chorten, o total chega a USD 21,6 milhões, financiados por doações públicas e campanhas de financiamento coletivo no Butão e no exterior.
A elevação ocorreu no Dia da Descida do Senhor Buda, celebrado no Butão como Dia das Mães, e no 18º aniversário da coroação do rei Jigme Khesar Namgyel Wangchuck. Um encontro de professores budistas, convidados internacionais e devotos estava previsto para ocorrer de 1º a 4 de novembro, com o Je Khenpo, abade-chefe do Butão, encarregado de presidir a consagração em 2 de novembro.
Os monumentos concluídos dão forma física inicial à ambição de Gelephu Mindfulness City de colocar valores espirituais lado a lado com o desenvolvimento econômico. Também conectam a futura cidade a uma rede muito mais ampla de pessoas: monges que preparam os conteúdos sagrados, famílias que doam pertences, voluntários que constroem as estruturas e empresas que atendem os viajantes.
O público final, o número de voluntários que de fato trabalharam no dia e os gastos finais não foram informados. Os números elevados de público e de trabalhadores eram estimativas anunciadas antes do evento.
O desafio do rei para trabalharem juntos
O rei Jigme Khesar anunciou o Projeto 108 em 21 de fevereiro de 2026, na cerimônia de lançamento da construção do Gelephu Chorten, em Chuzergang. Ele apresentou a iniciativa como um teste de cooperação e determinação, com um prazo destinado a transformar uma ambição compartilhada em trabalho concreto.
Ao discursar na cerimônia, o rei descreveu o que esperava que o projeto demonstrasse:
É uma iniciativa ambiciosa que exige coragem, união e profundo compromisso", disse Sua Majestade. "Precisamos realizá-la para provar a nós mesmos que, ao enfrentarmos os desafios que temos pela frente, não há limites para o que podemos alcançar quando estamos unidos.
O rei comparou seu papel ao de um treinador de futebol: reconhecer habilidades, colocar as pessoas onde possam contribuir da melhor forma e incentivá-las a atingir seu potencial. Sua ênfase estava nas pessoas que realizariam o trabalho.
Ele expressou essa visão diretamente:
"Digo aos amigos do Butão que eu não sou a superestrela; as superestrelas são o meu povo", disse Sua Majestade.
O rei, a rainha e os filhos do casal real estavam em Gelephu antes da elevação. Milhares de voluntários já preparavam os locais enquanto pessoas viajavam de várias partes do Butão em direção ao sul.
Qual é a extensão do corredor?
Os 108 chortens estão alinhados às margens do Mau Chhu, também chamado de rio Mao, com espaçamento planejado de 108 metros. O anúncio do rei descreveu um trecho de 11 quilômetros; descrições posteriores do projeto estimaram o corredor em cerca de 12 quilômetros.
O espaçamento ajuda a entender a escala aproximada. Uma linha de 108 estruturas tem 107 intervalos entre a primeira e a última. A 108 metros por intervalo, esses espaços cobrem, por si só, 11.556 metros, sem considerar como são medidos os limites das estruturas e do corredor.
Cada chorten tem 15 metros de altura, em comparação com os cerca de 10 metros atribuídos nas descrições do projeto a um edifício convencional de três andares. Os monumentos são, portanto, aproximadamente 50% mais altos do que esse edifício usado como referência. A repetição das formas e dos espaçamentos faz da própria margem do rio parte do projeto.
A destinação pública de USD 200.000 por estrutura resulta em um total de USD 21,6 milhões. As doações e o financiamento coletivo tornam a participação financeira mais um aspecto da iniciativa, ao lado da construção, da preparação ritual, do fornecimento de alimentos e de outros serviços.
O que há dentro de um chorten
Um chorten é a forma himalaia de uma stupa budista, um monumento sagrado associado ao Buda e a seus ensinamentos. Jamyang Dorji, monge da tradição Karma Kagyu que viajou do Mosteiro de Rumtek, em Sikkim, explicou que os chortens simbolizam a mente iluminada do Buda e recordam aos devotos os ensinamentos budistas.
Dentro de cada estrutura ficam conteúdos sagrados conhecidos como zung. Eles incluem escrituras, mantras enrolados, relíquias e oferendas simbólicas. Um mantra é uma frase sagrada recitada na prática budista. Esses conteúdos representam o corpo, a fala e a mente dos seres iluminados.
Um mastro de madeira preparado especialmente, chamado sokshing ou zungshing, forma o eixo central. Monges gravam nele letras sagradas e mantras e, em seguida, dispõem os demais conteúdos de acordo com instruções rituais. Depois que o chorten é fechado, esse interior cuidadosamente preparado fica oculto aos visitantes.
O Zhung Dratshang, Corpo Monástico Central do Butão, descreveu imagens sagradas preparadas para o projeto, incluindo Buda Shakyamuni, Guru Rinpoche, Zhabdrung Ngawang Namgyel, Avalokiteshvara, Buda Amitayus e Buda Aksobhya. Na crença budista, a consagração transforma o monumento concluído em uma presença sagrada por meio da qual os devotos podem fazer orações e acumular mérito, o benefício espiritual associado a ações virtuosas.
O trabalho invisível em Sarpang Dzong
Monges dos 20 dzongkhags, os distritos do Butão, trabalharam no zung em Sarpang Dzong por cerca de cinco meses. O Corpo Monástico Central informou que a preparação e a montagem ocorreram sob a orientação de Leytshog Lopen Sangay Dorji.
O trabalhador mais jovem era Dorji Wangchuk, de 16 anos, de Laya; o mais velho tinha 60 anos. Dorji chegou sem experiência na preparação do zung e aprendeu observando seu professor e praticando. Os rolos de escrituras precisavam ficar firmes, uniformes e intactos. Os que se soltavam ou perdiam a forma eram abertos e refeitos.
O Corpo Monástico Central descreveu uma mobilização de mais de 2.400 monges. As tarefas incluíram 20 mestres na instalação do zung, 60 monges de apoio, 1.080 monges preparando oferendas para os 108 chortens, 540 para a Dança das Dezesseis Dakinis das Oferendas, 216 para a Dança da Purificação pelo Fogo e 500 para a consagração.
Famílias apoiaram o trabalho com alimentos, bebidas e mantimentos. Entre as oferendas para o interior sagrado estavam relíquias de família, adornos de ouro e prata, objetos rituais, instrumentos musicais e ferramentas agrícolas, como enxadas e arados. Gempo Tshering, conhecido como Apala, e outros trabalhadores da cozinha prepararam refeições para os monges e ajudantes.
Assim, o trabalho transmitiu conhecimentos ao mesmo tempo que produziu conteúdos sagrados. Monges mais jovens aprenderam técnicas com praticantes mais velhos, enquanto as contribuições da comunidade ligaram os monumentos à história das famílias e aos meios de subsistência cotidianos.
Por que 1º de novembro e o número 108 são importantes
Lhabab Duechen, ou Dia da Descida do Senhor Buda, celebra o relato budista do retorno do Buda à Terra após ensinar no céu, inclusive sua mãe, Mayadevi. Os devotos acreditam que o benefício espiritual das ações virtuosas se multiplica enormemente nesse dia.
Sangay Tshering, Lam Neten de Sarpang Rabdey, relacionou a coincidência da ocasião religiosa com o aniversário da coroação ao vínculo entre o rei e o povo. Ele descreveu os chortens como uma iniciativa espiritual destinada a purificar a negatividade e favorecer a paz, a saúde, chuvas no tempo certo e boas colheitas.
O número 108 está presente tanto na quantidade de monumentos quanto no espaçamento entre eles. Sangay Tshering o relacionou às aflições mentais que a prática budista busca superar. Os rosários de oração tradicionais costumam ter 108 contas, permitindo que os praticantes contem as recitações. O Butão já tem um conjunto de 108 chortens memoriais no passo de Dochula.
Os preparativos religiosos foram além dos objetos colocados dentro das estruturas. Mestres dos distritos realizaram uma cerimônia de 21 dias para os conteúdos sagrados. O Je Khenpo e outras autoridades religiosas também presidiram rituais Si-Nyon nos locais designados.
Sangay Tshering explicou o objetivo do ritual no local:
"O ritual é realizado para subjugar forças negativas e eliminar obstáculos à instalação bem-sucedida dos chortens", disse Lam Neten Sangay Tshering.
Comunidades budistas se reúnem além das tradições
Mais de 70 líderes espirituais do exterior e mais de 100 do Butão confirmaram que pretendiam participar. A programação reuniu professores de várias tradições budistas, dando ao encontro alcance internacional para além dos trabalhos de construção.
Entre os participantes esperados da tradição Sakya estavam o 41º Sakya Trizin, Sakya Gongma Trichen, ao lado do 42º Sakya Trizin, Ratna Vajra Rinpoche, e do 43º Sakya Trizin, Gyana Vajra Rinpoche. Também era esperado o 17º Gyalwang Karmapa, Ogyen Trinley Dorje, líder da linhagem Karma Kagyu.
Os representantes anunciados da tradição Gelug incluíam o 105º Gaden Tripa, Jetsun Lobsang Dorjee Pelsangpo. Entre os professores da tradição Nyingma estavam Dzigar Kongtrul Rinpoche e Khenchen Namdrol Tshering Rinpoche. A delegação internacional também incluía o principal sumo sacerdote budista da Malásia, Datuk K Sri Dhammaratana Nayaka Maha Thera, e Ajahn Amaro, abade do Mosteiro Budista de Amaravati, na Inglaterra.
A cerimônia estava prevista para começar nas primeiras horas do dia, com 58 conjuntos de dungchens, as longas trompas usadas em cerimônias budistas tibetanas e himalaias. As principais etapas se estendem por vários meses:
- 21 de fevereiro de 2026: O rei anunciou o Projeto 108 na cerimônia de lançamento da construção em Chuzergang.
- Até o fim de setembro: Começou uma cerimônia de 21 dias para os conteúdos sagrados preparados.
- 1º de novembro: Os 108 chortens foram erguidos em 24 horas.
- 2 de novembro: O Je Khenpo estava encarregado de presidir a consagração.
- De 1º a 4 de novembro: Líderes budistas, delegados e devotos estavam previstos para se reunir.
Peregrinação movimenta o comércio em Tsirang
Era esperado que mais de 40.000 veículos viajassem até Gelephu, incluindo mais de 9.000 que passariam por Tsirang. O deslocamento dos devotos trouxe movimento imediato a hotéis e vendedores à beira da estrada ao longo do trajeto.
Sari Maya Saru, funcionária do Damphu Residency, em Tsirang, disse que o hotel estava com todas as vagas reservadas havia cerca de uma semana e recebera pedidos de refeições para três dias. Os planos de viagem continuavam mudando: uma reserva de almoço para 30 pessoas foi cancelada quando o grupo decidiu partir mais cedo para Gelephu.
Dawa Dolma Tamang, vendedora de verduras à beira da estrada, disse que os ganhos diários haviam subido dos habituais Nu. 700 a 1.000 para cerca de Nu. 6.000 a 7.000. Comparando os valores mais baixos, o aumento foi de cerca de 8,6 vezes; comparando os mais altos, os ganhos ficaram sete vezes maiores que o habitual.
Famílias faziam escolhas pessoais para participar. Kencho Wangdi viajou de Punakha com a filha, enquanto sua esposa, de 82 anos, ficou em casa. Ele disse que a presença deles representaria a família. Passang Dem viajou de Thimphu depois de deixar de lado outras tarefas importantes para fazer orações.
Índia ajusta estradas e segurança na fronteira
A Índia mobilizou cerca de 500 integrantes da Sashastra Seema Bal ao longo do trajeto entre Samthaibari e o portão de Gelephu, de 25 de outubro a 5 de novembro. A força de fronteira manteve equipes em pontes, cruzamentos e postos de controle em turnos durante o dia e a noite.
A administração do distrito de Chirang, em Assam, emitiu uma ordem em 24 de outubro restringindo veículos pesados e o transporte de mercadorias na estrada entre Samthaibari e a passagem de Dadgiri-Hatisar. As restrições se aplicavam diariamente, das 6h às 20h, de 25 de outubro a 6 de novembro, com exceções para serviços de emergência e veículos de comboios oficiais essenciais.
A Polícia Real do Butão exigiu que os viajantes que entrassem em Gelephu pela Índia participassem do evento. Quem partisse após a cerimônia deveria preencher um formulário específico e carregá-lo nas rodovias indianas, conforme instruções da força de fronteira da Índia.
O trajeto foi beneficiado pela repavimentação, em julho de 2025, dos 40 quilômetros de estrada entre Gelephu e Samthaibari. Kiren Rijiju, ministro de Assuntos Parlamentares da União da Índia, também deveria participar do evento de 1º de novembro.
Equipes médicas se preparam para o encontro
O Serviço Nacional de Saúde coordenou cerca de 200 profissionais de saúde voluntários, incluindo 18 especialistas, 24 médicos e 67 enfermeiros. Treze ambulâncias seriam mobilizadas, e os preparativos médicos começaram um mês antes da elevação.
Um hospital temporário com 10 leitos e 26 profissionais foi instalado na Academia Gyalsung de Tareythang, onde os convidados internacionais estavam hospedados. O Centro de Saúde Primária de Chhuzagang ampliaria sua capacidade para 10 leitos, enquanto cerca de 13 unidades médicas móveis foram designadas para atuar perto dos locais do evento. Profissionais médicos militares também foram mobilizados nos diversos locais dos chortens.
O Hospital Regional de Referência Central de Gelephu acrescentou oito leitos de emergência. Seu superintendente médico, o Dr. Choeda Gyaltshen, aconselhou pessoas com diabetes e outras doenças crônicas a levar quantidade suficiente dos medicamentos prescritos e tomá-los nos horários indicados. Ele também recomendou que os participantes levassem máscaras devido à poeira esperada nas proximidades do rio.
A dimensão desses preparativos mostra as exigências práticas de um encontro espiritual: cuidar de visitantes idosos, lidar com doenças crônicas e manter o acesso ao atendimento de emergência ao longo de um corredor extenso.
O que os participantes esperam que permaneça
Tshering Yangki, mãe de quatro filhos de Thimphu, expressou as amplas esperanças espirituais associadas aos monumentos:
"Rezo para que essas 108 stupas beneficiem todos os seres vivos, não apenas os seres humanos, mas também os animais. Que protejam nosso país de doenças e desastres", disse ela.
Mangali Limbu, agricultora de 50 anos de Gomtu, em Samtse, disse que o projeto a incentivou a dedicar mais tempo à prática espiritual. Melam Wangmo, freira do Anim Dratshang, esperava que a iniciativa unisse as pessoas pela fé e preservasse a herança budista. Kinley Dorji, diretor da Escola de Laya, viu nos chortens uma forma de transmitir valores tradicionais às gerações mais jovens.
Nidup Dorji, um dos 108 fotógrafos que documentam o projeto, está registrando a construção e as pessoas por trás dela. O trabalho deles preservará o registro de uma iniciativa cuja etapa mais visível durou um dia, mas cuja preparação envolveu meses de trabalho paciente.
Para Gelephu Mindfulness City, os monumentos criam um lugar onde moradores e visitantes podem caminhar, orar e se lembrar desse esforço coletivo. Seu papel duradouro será vivido nessas visitas cotidianas, ao lado do desenvolvimento da nova cidade.
Principais pontos
- O Butão ergueu 108 chortens, cada um com 15 metros de altura, em 24 horas, em 1º de novembro de 2026.
- Os monumentos estão alinhados ao longo do Mau Chhu, com espaçamento planejado de 108 metros.
- Os preparativos previam pelo menos 40.000 voluntários treinados e mais de 200.000 participantes.
- A destinação de USD 200.000 por chorten totaliza USD 21,6 milhões, financiados por doações e campanhas de financiamento coletivo.
- Monges dos 20 distritos prepararam conteúdos sagrados ao longo de vários meses.
- O encontro exigiu a ampliação dos serviços médicos, restrições de trânsito e medidas de segurança na fronteira.
- O Je Khenpo estava encarregado de presidir a consagração em 2 de novembro.






