Nove milhões de infecções e a corrida para alcançar pacientes sem tratamento
O Paquistão concentra cerca de nove milhões das 47 milhões de infecções por hepatite C no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, colocando o país no centro de uma crise de saúde causada por uma doença que pode ser curada com tratamento. A OMS estima que as hepatites B e C causaram juntas 48.715 mortes no Paquistão em 2024, enquanto outras 88.199 pessoas contraíram hepatite C naquele ano.
Conteúdo
- Nove milhões de infecções e a corrida para alcançar pacientes sem tratamento
- O que os números sobre hepatites significam
- Injeções inseguras e transfusões de sangue impulsionam a transmissão
- Encontrar pessoas infectadas continua sendo um grande desafio
- O que o programa nacional promete até 2027
- Pacientes relatam o que muda com o acesso ao tratamento
- Tratamento de HIV alcança uma minoria dos pacientes estimados
- Necessidades de saúde mental superam a capacidade de atendimento especializado
- Marcos até a meta de 2030
- Principais pontos
Os números evidenciam o desafio enfrentado pelo Programa Nacional do Primeiro-Ministro para a Eliminação da Infecção por Hepatite C, em vigor de 2024 a 2027. A tarefa é encontrar pessoas que talvez não saibam que estão infectadas, encaminhá-las para tratamento e evitar que procedimentos médicos inseguros transmitam o vírus a outras pessoas.
A ficha informativa da OMS sobre hepatites no Paquistão, de 2026, estima que 9,06 milhões de pessoas tinham hepatite C crônica em 2024, o equivalente a 3,60% da população. Outras 3,86 milhões tinham hepatite B crônica. Juntas, as infecções afetavam aproximadamente 12,9 milhões de pessoas, ou 5,1% da população, cerca de uma em cada 20.
O Ministério dos Serviços Nacionais de Saúde apresentou à Assembleia Nacional um quadro mais amplo das necessidades de saúde não atendidas: 32,4 milhões de pessoas afetadas por transtornos mentais, mais de 417 mil vivendo com HIV e apenas 1.050 psiquiatras registrados em todo o país. Cada condição exige cuidados diferentes, mas os números apontam um problema prático comum: alcançar os pacientes e mantê-los conectados aos serviços.
O que os números sobre hepatites significam
Hepatite é a inflamação do fígado, órgão que processa nutrientes e ajuda a remover substâncias nocivas do sangue. As hepatites B e C são causadas por vírus diferentes. Uma infecção crônica persiste ao longo do tempo e pode causar cirrose, ou seja, cicatrizes graves no fígado, ou câncer hepático.
A hepatite C representava cerca de 70% das infecções crônicas por hepatites virais no Paquistão em 2024 e aproximadamente três quartos das mortes atribuídas às hepatites. Com base nos números internacionais arredondados da OMS, os nove milhões de casos do Paquistão correspondem a cerca de 19% do total mundial de 47 milhões, quase um em cada cinco.
A OMS identifica o Paquistão como o país com o maior número de casos de hepatite C no mundo. Os números atribuídos ao ministério também apontaram o país em décimo lugar, junto com uma estimativa menor de 3,086 milhões de casos de hepatite B. A ficha detalhada da OMS de 2026 estima 3,86 milhões de casos de hepatite B e sua declaração de julho de 2026 afirma explicitamente que o Paquistão ocupa o primeiro lugar em casos de hepatite C.
A distinção entre os dois vírus é importante para a prevenção e o tratamento. A hepatite C pode ser curada com medicamentos antivirais. A hepatite B pode ser prevenida com vacinação, enquanto o tratamento antiviral pode controlar a infecção e reduzir o risco de danos graves ao fígado.
Injeções inseguras e transfusões de sangue impulsionam a transmissão
A OMS atribui grande parte da carga de hepatite C no Paquistão à transmissão ocorrida historicamente em serviços de saúde, em particular à reutilização de agulhas e a transfusões de sangue inseguras. Sua declaração sobre o Dia Mundial de Combate às Hepatites, publicada em 28 de julho de 2026, aponta bancos de sangue privados sem regulamentação e falhas na triagem universal do sangue entre os riscos.
Equipamentos contaminados usados em cirurgias, tratamentos odontológicos, colocação de piercings, tatuagens e barbear também podem transmitir a infecção. Essas atividades têm um mecanismo em comum: o sangue infectado pode chegar a outra pessoa quando os instrumentos são reutilizados sem esterilização adequada ou quando o sangue destinado à transfusão não é testado de forma suficiente.
O Paquistão registrou, em 2024, uma estimativa de 15.737 novas infecções por hepatite B e 88.199 por hepatite C. Assim, a hepatite C correspondeu a cerca de 85% das novas infecções pelos dois vírus, segundo cálculo baseado nos números da OMS. O tratamento precisa vir acompanhado de procedimentos mais seguros para que o país reduza o número de novas infecções.
Para a hepatite B, a OMS recomenda vacinar os recém-nascidos nas primeiras 24 horas de vida. As políticas do Paquistão também apoiam a testagem de gestantes, o uso preventivo de antivirais por mulheres elegíveis com hepatite B e a administração de imunoglobulina contra hepatite B a recém-nascidos expostos. A imunoglobulina fornece anticorpos que oferecem proteção imediata.
Encontrar pessoas infectadas continua sendo um grande desafio
Segundo a declaração da OMS de julho de 2026, apenas três em cada 10 pessoas afetadas pela hepatite C sabem que têm a doença. Muitas, portanto, permanecem fora do caminho que vai da testagem ao tratamento, embora estejam disponíveis medicamentos capazes de curar a infecção.
A ficha informativa da OMS registra que aproximadamente 1,94 milhão de pessoas já haviam recebido diagnóstico de hepatite C até 2024, enquanto mais de 2,47 milhões já haviam iniciado tratamento curativo. É preciso cautela ao interpretar esses números acumulados como medida dos serviços atuais: eles contabilizam diagnósticos e inícios de tratamento anteriores, enquanto a estimativa de 9,06 milhões descreve as pessoas vivendo com infecção crônica em 2024. A ficha não explica por que o total de pessoas que iniciaram tratamento supera o total registrado de diagnósticos.
Os serviços para hepatite B também enfrentam uma lacuna considerável. Até 2024, aproximadamente 996.654 pessoas já haviam recebido diagnóstico, e 140 mil já tinham iniciado tratamento antiviral. A OMS estima que 14% das pessoas diagnosticadas começaram o tratamento.
A OMS aponta o financiamento limitado para testes, serviços de diagnóstico e medicamentos como um entrave persistente. O diagnóstico confirmatório e o tratamento também continuam pouco disponíveis na atenção primária. Levar esses serviços para mais perto das comunidades reduziria o número de consultas e deslocamentos que os pacientes precisam fazer antes de receber atendimento.
O que o programa nacional promete até 2027
O programa do primeiro-ministro coloca a oferta gratuita de triagem, testagem e tratamento no centro da resposta do Paquistão. A ficha informativa da OMS de 2026 descreve o objetivo de alcançar 100% da população elegível com 12 anos ou mais, por meio de uma abordagem gradual ao longo do programa, que abrange o período de 2024 a 2027.
O relato da OMS sobre testagem e tratamento, publicado em 3 de agosto de 2025, apresenta uma meta operacional mais específica: testar 82,5 milhões de pessoas, descritas como 50% da população elegível, e tratar cinco milhões até 2027. O programa, portanto, combina um compromisso amplo de ampliar o acesso com uma meta numérica de atendimento.
Os parlamentares também foram informados de que haviam sido aprovados 67,77 bilhões de rúpias paquistanesas para o programa, que abrange o período de julho de 2024 a 2027. O governo federal deverá arcar com 51% dos custos, e as províncias, com 49%. Essa divisão torna a execução dependente da coordenação entre as autoridades nacionais e provinciais.
O Paquistão atualizou suas diretrizes nacionais de tratamento da hepatite C em 2024. Para a hepatite B, a OMS afirma que o país ainda não adotou diretrizes nacionais de tratamento e atualmente se baseia nas recomendações da organização de 2024. A OMS apoia planos nacionais e provinciais, protocolos de tratamento, pesquisas e projetos direcionados à eliminação das hepatites em comunidades específicas.
Pacientes relatam o que muda com o acesso ao tratamento
O relato da OMS de agosto de 2025 descreve a testagem de 30 mil pessoas de áreas desfavorecidas do Território da Capital de Islamabad no Dispensário Civil do Governo Federal ao longo dos cinco anos anteriores. O serviço seguiu protocolos e orientações da OMS, oferecendo um exemplo concreto de como as ambições nacionais podem se transformar em atendimento em uma unidade local.
Safina Saqib, paciente descrita pela OMS como totalmente recuperada da hepatite C, incentivou outras pessoas a fazerem o teste:
"A hepatite C é uma doença mortal; todos deveriam fazer o teste",
Surayya, outra paciente recuperada da hepatite C apresentada pela OMS, contou sobre a doença e sua recuperação após receber tratamento:
Eu tinha hepatite C e estava preocupada porque não conseguia andar devido à dor. Depois, fiz tratamento na unidade e agora estou bem. Hoje, digo a todos no meu bairro que façam o teste e se tratem.
Esses relatos mostram o que o programa busca tornar possível em uma escala muito maior: uma pessoa faz o teste, recebe o diagnóstico, inicia o tratamento e retoma a vida cotidiana com mais saúde. Entre as prioridades da OMS estão integrar os serviços para hepatites aos cuidados de HIV, à saúde materno-infantil e à atenção primária, para que os pacientes possam receber mais cuidados no mesmo sistema.
Tratamento de HIV alcança uma minoria dos pacientes estimados
O ministério informou à Assembleia Nacional que mais de 417 mil pessoas viviam com HIV no Paquistão, com base em estimativas da OMS. Destas, 92.148 estavam registradas junto às autoridades competentes e 67.878 recebiam terapia antirretroviral. Esses medicamentos suprimem o HIV, protegem o sistema imunológico e ajudam as pessoas a viver mais e com mais saúde.
Em relação à estimativa de 417 mil pessoas, o número de registros corresponde a cerca de 22%, enquanto o de pessoas em tratamento é de aproximadamente 16%. Entre os pacientes registrados, cerca de 74% recebiam terapia. Alcançar as pessoas que não estão nos serviços registrados é, portanto, parte fundamental da ampliação do acesso ao tratamento.
As novas infecções anuais por HIV aumentaram de cerca de 16 mil em 2010 para 48 mil em 2024, uma alta de três vezes. A testagem também se expandiu: passou de 37.944 testes em 2020 para 374 mil em 2025, quase dez vezes mais. O número de testes mede a atividade de triagem; a estimativa de infecções mede quantas pessoas contraem o vírus em um ano.
O ministério registrou 3.900 crianças com HIV positivo entre janeiro de 2025 e junho de 2026. Sindh respondeu por 1.915 registros e Punjab, por 1.765, juntos cerca de 94% do total. Khyber Pakhtunkhwa registrou 139, Balochistão, 46, Islamabad, 30, Azad Jammu e Caxemira, quatro, e Gilgit-Baltistão, um. Esses números indicam quando as crianças foram incluídas no registro, e não quando cada infecção ocorreu.
Necessidades de saúde mental superam a capacidade de atendimento especializado
A estimativa de pessoas afetadas por transtornos mentais no Paquistão passou de 30 milhões em 2019 para 32,4 milhões em 2023. O aumento foi de 2,4 milhões, ou 8%, em quatro anos. Segundo os dados do ministério, mais de 300 mil pessoas em Islamabad eram afetadas.
O país tem 1.050 psiquiatras registrados, aproximadamente um para cada 245 mil habitantes. Psiquiatras são médicos com formação para diagnosticar e tratar problemas de saúde mental. Essa proporção descreve a disponibilidade desses especialistas no país, incluindo pessoas que atualmente não precisam de tratamento em saúde mental.
Dados provinciais associados à Pesquisa sobre a Força de Trabalho em Saúde do Paquistão de 2026 indicam 406 psiquiatras registrados em Punjab, 228 em Sindh, 122 em Khyber Pakhtunkhwa e 44 em Balochistão. Esses quatro totais somam 800. Não foi informada a distribuição geográfica dos 250 restantes no total nacional.
Para as famílias, a disponibilidade limitada de especialistas pode significar viagens mais longas ou maior espera por avaliação e acompanhamento. Os números também mostram por que a resposta não pode ser avaliada apenas pelo número de pacientes identificados: os serviços precisam de profissionais capacitados em quantidade suficiente para oferecer tratamento após o diagnóstico.
Marcos até a meta de 2030
O programa imediato do Paquistão tem prazo até 2027, enquanto a meta mais ampla da OMS é eliminar as hepatites como problema de saúde pública até 2030. O cronograma é curto para ampliar a testagem e o tratamento e, ao mesmo tempo, melhorar a segurança nos locais onde ocorre a transmissão.
- 2019 a 2023: A estimativa de pessoas afetadas por transtornos mentais aumentou de 30 milhões para 32,4 milhões.
- 2024: A OMS estima que o Paquistão tinha 12,9 milhões de infecções crônicas por hepatites B e C e 48.715 mortes associadas. As diretrizes nacionais de tratamento da hepatite C foram atualizadas.
- Julho de 2024 a 2027: Período do programa nacional de hepatite C aprovado, com financiamento federal e provincial.
- 3 de agosto de 2025: A OMS apresentou as metas do programa: testar 82,5 milhões de pessoas elegíveis e tratar cinco milhões até 2027.
- Janeiro de 2025 a junho de 2026: As autoridades registraram 3.900 crianças vivendo com HIV.
- 28 de julho de 2026: A OMS renovou seu apoio à resposta do Paquistão às hepatites no Dia Mundial de Combate às Hepatites.
- 2030: Ano da meta internacional para eliminar as hepatites como problema de saúde pública.
A OMS estima que as hepatites B e C causaram 1,34 milhão de mortes no mundo em 2024, com mais de 4.900 novas infecções por dia. A parcela do Paquistão nos casos de hepatite C torna o avanço no país essencial para o esforço internacional. As prioridades práticas já estão definidas: injeções e estoques de sangue mais seguros, vacinação de recém-nascidos contra a hepatite B, diagnóstico acessível e tratamento contínuo.
Principais pontos
- A OMS estima que o Paquistão tinha 9,06 milhões de infecções crônicas por hepatite C e 3,86 milhões por hepatite B em 2024.
- As hepatites B e C causaram, segundo estimativa, 48.715 mortes no Paquistão em 2024.
- O programa nacional de hepatite C prevê testar 82,5 milhões de pessoas elegíveis e tratar cinco milhões até 2027.
- Estima-se que mais de 417 mil pessoas viviam com HIV; 67.878 recebiam terapia antirretroviral.
- As autoridades registraram 3.900 crianças vivendo com HIV entre janeiro de 2025 e junho de 2026.
- O Paquistão tinha uma estimativa de 32,4 milhões de pessoas afetadas por transtornos mentais e 1.050 psiquiatras registrados.






