Fábricas de chips de Taiwan estão no centro de um alerta estratégico
Mike Gallagher, chefe da área de defesa da Palantir, alertou que a disputa pela inteligência artificial pode dar ao presidente chinês, Xi Jinping, um motivo maior para agir contra Taiwan, pois o controle da ilha poderia permitir que Pequim tomasse ou interrompesse a produção de chips essenciais para o setor de IA dos Estados Unidos.
Conteúdo
- Fábricas de chips de Taiwan estão no centro de um alerta estratégico
- Por que a liderança americana em IA poderia aumentar a pressão
- Como a escassez de chips poderia interromper o desenvolvimento da IA
- Um cenário para 2028 começa com um bloqueio
- Alertas e escolhas políticas evoluem ao longo do tempo
- Gallagher quer acelerar entregas de armas e preparar sanções com antecedência
- Mais fábricas no exterior, expansão contínua em Taiwan
- Palantir tem interesses comerciais em IA militar
- A dissuasão depende de mais do que a liderança tecnológica
- Principais pontos
Em um evento sobre política de defesa em Indiana, ao lado do senador republicano Jim Banks, Gallagher argumentou que a ampliação da vantagem americana em IA poderia tornar uma ação contra Taiwan mais atraente para Pequim. Taiwan abriga a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co., ou TSMC, a maior fabricante mundial de chips avançados usados em sistemas de IA.
Gallagher, ex-deputado republicano que presidiu a comissão da Câmara sobre competição estratégica com a China, descreveu o cálculo que, em sua avaliação, Xi poderia fazer:
A lógica de Xi Jinping fazer enormes sacrifícios para tomar Taiwan está ficando mais convincente.
Seu alerta conecta duas questões frequentemente discutidas em separado: quem desenvolve os sistemas de IA mais poderosos e se as fábricas que fornecem seus processadores podem continuar operando. Na avaliação de Gallagher, interromper o fornecimento de chips de um rival poderia se tornar outra forma de disputar a liderança tecnológica.
Uma avaliação da inteligência dos EUA divulgada em março descreveu uma invasão de Taiwan como extremamente difícil e com alto risco de fracasso. O argumento de Gallagher diz respeito aos possíveis incentivos de Pequim, enquanto a avaliação da inteligência trata da dificuldade de realizar uma invasão. Juntas, as duas análises descrevem uma situação em que uma operação poderia se tornar mais atraente para a liderança chinesa, embora continue sendo militarmente arriscada.
Por que a liderança americana em IA poderia aumentar a pressão
A principal alegação de Gallagher é que o avanço tecnológico pode alterar o momento das decisões de Pequim. Se os líderes chineses acreditarem que os Estados Unidos estão prestes a alcançar uma vantagem irrecuperável, argumenta ele, poderão ver um motivo urgente para interromper esse avanço.
Gallagher explicou essa preocupação no evento em Indiana:
Se dispararmos na frente em IA, este é o momento de nos impedir, porque talvez ele não consiga nos alcançar depois.
A China reivindica Taiwan como parte de seu território e não descartou o uso da força. Gallagher argumenta que a corrida pela IA pode acrescentar um novo incentivo tecnológico e econômico ao objetivo político que Pequim já tem.
Não foi divulgada nenhuma decisão de Xi de atacar Taiwan, nem um cronograma para uma operação desse tipo. Os comentários de Gallagher apresentam sua avaliação sobre como a competição poderia influenciar as escolhas chinesas.
Ele também abordou a possibilidade de uma IA capaz de se aprimorar. Se essa capacidade se tornar realidade, disse, sua importância estratégica poderia ser comparável à das armas nucleares na década de 1940. Um sistema assim ajudaria a desenvolver versões melhores de IA, potencialmente acelerando os avanços para além do ritmo possível apenas com a pesquisa humana.
Como a escassez de chips poderia interromper o desenvolvimento da IA
A TSMC fabrica processadores projetados por outras empresas. Para os desenvolvedores de IA, o acesso a processadores potentes determina quanto trabalho computacional podem realizar e com que rapidez conseguem treinar novos sistemas. Os centros de dados reúnem grandes quantidades desses chips, apoiados por equipamentos de energia elétrica, refrigeração e comunicação.
A Nvidia descreveu Taiwan como o epicentro da IA. Gallagher chamou a ilha de "único ponto de falha" da tecnologia, isto é, um lugar cuja interrupção poderia afetar uma rede muito maior.
Em um comentário anterior, Gallagher atribuiu à TSMC 90% dos semicondutores mais avançados do mundo e 60% dos semicondutores globais. Esses números foram apresentados em seu argumento sobre a dependência de Taiwan; a participação nos chips avançados é especialmente relevante para os processadores potentes necessários aos principais sistemas de IA.
Gallagher descreveu duas possíveis consequências de uma tomada do controle da ilha pela China:
Se a China tomar Taiwan, controlará a TSMC ou desativará a TSMC.
Ele disse que Pequim poderia então "manter o resto do mundo como refém econômico". Ambos os cenários afetariam clientes muito além de Taiwan, embora manter as fábricas em operação e interromper sua produção criasse situações comerciais e estratégicas distintas.
Um cenário para 2028 começa com um bloqueio
O Hudson Institute, que identifica Gallagher como Distinguished Fellow, publicou seu comentário, IA e a ameaça crescente. O texto começa com uma crise imaginária em 2028: Pequim primeiro bloqueia Taiwan e depois invade a ilha, interrompendo o desenvolvimento de IA de ponta e paralisando a construção de centros de dados enquanto os mercados despencam.
IA de ponta significa os sistemas mais capazes em desenvolvimento. O cenário de Gallagher traça uma sequência que vai de uma ação militar em torno de Taiwan à interrupção do fornecimento de chips, à paralisação de obras e a perdas financeiras nos Estados Unidos.
Um bloqueio buscaria restringir o deslocamento de pessoas e mercadorias de e para a ilha. Uma invasão envolveria tomar território pela força. Ao colocar o bloqueio primeiro, o cenário de Gallagher destaca como a pressão sobre o transporte marítimo e o abastecimento poderia afetar o setor antes que uma força invasora assumisse o controle das fábricas.
O ano de 2028 faz parte desse cenário hipotético. Gallagher o usa para ilustrar a vulnerabilidade dos investimentos americanos em IA a acontecimentos no Estreito de Taiwan, onde também aumentaram as patrulhas da guarda costeira chinesa na costa leste da ilha.
Alertas e escolhas políticas evoluem ao longo do tempo
As declarações mais recentes de Gallagher vêm depois de sua saída do Congresso para ingressar no setor de tecnologia de defesa e de seus apelos anteriores para que Washington fortaleça a posição militar de Taiwan. Os principais acontecimentos incluem:
- Em 2024, Gallagher deixou o Congresso e, mais tarde, ingressou na Palantir para liderar a área de defesa da empresa.
- Em março, uma avaliação da inteligência dos EUA concluiu que uma invasão de Taiwan seria extremamente difícil e teria alto risco de fracasso.
- Em maio, o presidente Donald Trump teria suspendido um pacote de armas de US$ 14 bilhões para Taiwan e o descrito como moeda de negociação.
- Em seu comentário anterior, Gallagher apresentou um cenário hipotético de bloqueio e invasão em 2028 e pediu apoio militar mais rápido a Taiwan.
- No evento de quarta-feira em Indiana, ao lado do senador Banks, Gallagher argumentou que a corrida pela IA poderia reforçar o incentivo de Xi para agir.
O pacote de armas ilustra uma tensão prática na política. Gallagher quer que as armas sejam entregues mais rapidamente para ajudar a dissuadir um ataque, enquanto suspender um pacote para negociações torna o cronograma parte de um processo mais amplo de barganha.
Para Taiwan, os prazos de entrega são importantes porque os equipamentos precisam chegar, os militares precisam aprender a usá-los e as unidades precisam incorporá-los a seus planos. A aprovação de uma venda é apenas uma etapa desse processo.
Gallagher quer acelerar entregas de armas e preparar sanções com antecedência
Gallagher pediu a Washington que acelere as vendas de armas a Taiwan e simplifique o processo de Vendas Militares ao Exterior, geralmente chamado de FMS. Esse é o canal governamental pelo qual os Estados Unidos organizam muitas vendas de equipamentos militares a parceiros estrangeiros.
Ele também pediu que sanções financeiras sejam preparadas com antecedência e coordenadas com aliados. Sua proposta é deixar claros para Pequim os custos econômicos de atacar Taiwan antes de uma crise, em vez de montar uma resposta depois que a ação militar começar.
Segundo o comentário de Gallagher, Taiwan elevou seu orçamento de defesa para quase 4% do produto interno bruto e ampliou a produção de drones. O PIB mede o valor dos bens e serviços produzidos por uma economia; portanto, esse percentual descreve a dimensão dos gastos com defesa em relação à produção econômica de Taiwan.
Gallagher e Matthew Pottinger, ex-vice-conselheiro de segurança nacional dos EUA, defenderam separadamente gastos do Pentágono de até 5% do PIB americano, o que, segundo a proposta deles, resultaria em um orçamento básico superior a US$ 1,2 trilhão. A abordagem mais ampla combina gastos militares, redução da dependência econômica da China e coordenação mais estreita entre os parceiros dos Estados Unidos.
Essas propostas exigiriam o compromisso de recursos públicos substanciais. As decisões imediatas incluem quais equipamentos Taiwan receberá, com que rapidez chegarão e se os governos aliados concordarão sobre as medidas financeiras que adotariam durante uma crise.
Mais fábricas no exterior, expansão contínua em Taiwan
Gallagher propôs uma cooperação mais profunda em semicondutores com o Japão e os Países Baixos, além de esforços para colocar em operação o mais rápido possível as instalações da TSMC no Japão e no Arizona. Produzir chips em mais lugares poderia oferecer aos clientes fontes adicionais de abastecimento.
A TSMC também continua expandindo suas operações em Taiwan. O presidente do conselho e diretor-executivo C. C. Wei anunciou outra fábrica em Tainan para 2028, com início da produção comercial previsto para o primeiro semestre daquele ano. Um projeto anterior em Tainan deve começar a produção em massa no primeiro semestre de 2027.
A nova fábrica usará o processo de 3 nanômetros da TSMC, nome dado a uma geração de tecnologia de fabricação de chips. Wei disse que os clientes precisarão de volumes substanciais dessa produção por anos, o que sustenta novos investimentos mesmo com o desenvolvimento de processos mais recentes.
A expansão em Tainan mostra por que a construção de fábricas no exterior e a importância estratégica de Taiwan podem crescer ao mesmo tempo. Os clientes querem mais produção, e a empresa está ampliando sua capacidade em vários lugares, em vez de substituir sua base de fabricação taiwanesa.
A TSMC também começou a pesquisar motores sem terras raras para equipamentos de automação fabril, em meio a preocupações com a dependência de materiais sujeitos a controles de exportação chineses. O trabalho ainda está em estágio inicial, mas mostra como a segurança da fabricação vai além dos chips prontos e abrange também os componentes necessários para manter as máquinas funcionando.
Palantir tem interesses comerciais em IA militar
Gallagher fala como ex-parlamentar e executivo de uma empresa que vende tecnologia a clientes do setor de defesa. A Palantir é uma importante fornecedora do Pentágono, e seu sistema de IA Maven apoia a vigilância e a seleção de alvos militares dos EUA. A Otan também usa o sistema.
O trabalho da empresa para o Exército inclui compartilhamento de dados e pesquisa em IA e seleção de alvos por meio do projeto Tactical Intelligence Target Access Node, conhecido como TITAN. A plataforma de inteligência artificial da Palantir também foi usada na Ucrânia.
O diretor-executivo da Palantir, Alex Karp, disse que os Estados Unidos "provavelmente" entrarão em guerra com a China. Portanto, o alerta de Gallagher vem de alguém ligado a uma empresa cujos produtos fazem parte da competição militar que ele discute.
A passagem de altos funcionários para empresas de defesa é outro aspecto relevante desse contexto. Um relatório de 2023 do gabinete da senadora Elizabeth Warren identificou pelo menos 700 ex-altos funcionários do Pentágono e de outros órgãos do governo trabalhando para as 20 maiores empresas do setor de armamentos. Um estudo separado concluiu que 80% dos generais de três ou quatro estrelas que deixaram o serviço público durante os cinco anos analisados ingressaram no setor de armamentos de alguma forma.
A experiência de Gallagher no governo lhe dá conhecimento das prioridades do Congresso e da política de defesa. Seu cargo executivo também confere à Palantir um interesse comercial direto nas decisões sobre tecnologia e gastos militares. Para avaliar suas recomendações, é preciso considerar os dois aspectos.
A dissuasão depende de mais do que a liderança tecnológica
O quadro geral é mais complexo do que uma corrida para desenvolver uma IA melhor. Gallagher argumenta que uma liderança americana decisiva poderia aumentar o incentivo de Pequim para desestabilizar Taiwan. A resposta que propõe é fortalecer as defesas taiwanesas, preparar sanções econômicas e ampliar a produção de semicondutores para mais lugares.
A avaliação da inteligência de março acrescenta as limitações militares: uma invasão seria excepcionalmente difícil e teria alto risco de fracasso. O aumento da atividade da guarda costeira chinesa acrescenta outra forma de pressão em torno de uma ilha cujas fábricas atendem clientes no mundo inteiro.
As decisões diplomáticas se somam às escolhas militares e industriais. As negociações podem afetar as entregas de armas, enquanto o planejamento de sanções depende de acordos entre governos. A construção de fábricas segue seus próprios cronogramas, vinculados a equipamentos, trabalhadores, serviços públicos e demanda dos clientes.
Para Taiwan, o que está em jogo de imediato é sua segurança e a continuidade de uma indústria central para sua economia. Para as empresas de IA de outros lugares, está em jogo o acesso aos processadores que sustentam a pesquisa e os investimentos em centros de dados. O alerta de Gallagher reúne esses interesses: a competição pela IA depende cada vez mais do que acontece com um pequeno número de fábricas altamente avançadas e com a sociedade ao redor delas.
Principais pontos
- Mike Gallagher, chefe da área de defesa da Palantir, afirma que a ampliação da liderança dos EUA em IA poderia aumentar o incentivo da China para tomar ou desestabilizar Taiwan.
- O papel da TSMC na fabricação de chips avançados torna Taiwan central para o fornecimento de processadores usados em sistemas de IA.
- Um comentário de Gallagher publicado pelo Hudson Institute imagina um bloqueio e uma invasão em 2028 que interrompem o desenvolvimento de IA de ponta e a construção de centros de dados.
- Uma avaliação da inteligência dos EUA em março concluiu que uma invasão seria extremamente difícil e teria alto risco de fracasso.
- Gallagher defende entregas de armas mais rápidas, planejamento antecipado de sanções e ampliação da produção de semicondutores fora de Taiwan.
- A Palantir fornece sistemas de IA militar, o que dá à empresa de Gallagher um interesse comercial na política de tecnologia de defesa.






