Limites à importação chegam em meio ao aumento das compras de açúcar
O Uzbequistão planeja estabelecer, a partir de 1º de janeiro de 2027, uma cota anual de 300 mil toneladas para a importação de açúcar branco por empresas do setor alimentício, enquanto oferece às usinas nacionais de açúcar alívio de dívidas, subsídios para juros e prioridade nas compras governamentais. O pacote reformularia o acesso a um ingrediente essencial para fabricantes de bebidas, empresas de confeitaria e outros produtores de alimentos.
Conteúdo
- Limites à importação chegam em meio ao aumento das compras de açúcar
- Como funcionarão as três cotas de importação
- Empresas disputarão acesso às importações
- Por que os dados de oferta são importantes
- Usinas ganham compradores e condições de empréstimo mais favoráveis
- Subsídios para juros e alívio tributário proposto
- Bancos terão papel maior dentro das usinas
- Economistas alertam para custos aos consumidores e ao orçamento
- Planos de investimento e cronograma de implementação
- Principais pontos
As medidas estão previstas na Resolução nº 417 do Conselho de Ministros, de 30 de julho de 2026, sobre o desenvolvimento da produção nacional de açúcar, a garantia da segurança alimentar e a estabilização do mercado açucareiro. A resolução tem classificação de uso oficial restrito e não foi publicada na base de dados da legislação nacional, Lex.uz. Também foi divulgada uma data de decisão em junho, embora a resolução esteja identificada como datada de 30 de julho.
O limite de importação chega em um momento de aumento das compras no exterior. Dados do Comitê Aduaneiro apontam importações de açúcar e açúcar bruto de 652,8 mil toneladas, no valor de US$ 440,1 milhões, entre janeiro e setembro de 2026, ante 480,1 mil toneladas, no valor de US$ 321,3 milhões, no mesmo período de 2025. O volume importado aumentou cerca de 36%.
A produção nacional seguiu na direção oposta. Segundo o Comitê Nacional de Estatística, o Uzbequistão produziu 165,5 mil toneladas de açúcar no primeiro semestre de 2025, abaixo das 332,6 mil toneladas registradas no mesmo período de 2023. Isso representa uma queda de aproximadamente 50% em dois anos.
A estratégia do governo combina proteção contra a importação de açúcar branco com apoio financeiro às usinas locais. Os fabricantes de alimentos enfrentariam um sistema de abastecimento mais controlado, enquanto os produtores nacionais de açúcar receberiam ajuda para quitar dívidas e recuperar sua situação financeira.
Como funcionarão as três cotas de importação
As 300 mil toneladas serão divididas igualmente entre três grupos de fabricantes de alimentos. Cada grupo receberá uma alocação própria:
- Fabricantes de bebidas: 100 mil toneladas por ano.
- Produtores de confeitos: 100 mil toneladas por ano.
- Fabricantes de outros produtos alimentícios: 100 mil toneladas por ano.
O Conselho de Ministros deverá aprovar a cota do ano seguinte todo mês de novembro. As propostas serão apresentadas pelo Ministério da Economia e das Finanças, pelo Comitê de Promoção da Concorrência e Proteção dos Consumidores e pelo Comitê Nacional de Estatística.
As autoridades poderão revisar as cotas a cada seis meses, levando em conta o consumo interno, a utilização da capacidade das fábricas, os preços de importação e os preços no Uzbequistão. Isso dará ao governo um mecanismo para ajustar os volumes permitidos conforme mudarem a oferta e a demanda.
As regras para remessas acima da cota, importações por empresas fora dos grupos especificados e eventuais condições tarifárias especiais não foram esclarecidas. Esses detalhes determinarão o alcance da restrição sobre o mercado.
Empresas disputarão acesso às importações
As alocações de importação serão distribuídas por meio de leilões on-line, com resultados divulgados publicamente. O Ministério de Investimentos, Indústria e Comércio, em conjunto com o Ministério das Tecnologias Digitais, o Comitê Aduaneiro e a autoridade de concorrência, deverá lançar a plataforma até 1º de dezembro de 2026.
A plataforma será integrada ao sistema Janela Única do Comitê Aduaneiro, que reúne eletronicamente os procedimentos alfandegários. Para as empresas, o leilão será uma etapa adicional para garantir o acesso ao açúcar branco importado.
O advogado empresarial Bektosh Hatamov alertou que o custo para obter uma alocação poderá ser repassado aos compradores. Um fabricante que pagar pelo acesso à importação terá essa despesa além do preço de compra do açúcar, dos custos de transporte e dos encargos alfandegários aplicáveis.
Hatamov também mencionou as regras da Organização Mundial do Comércio contra restrições quantitativas à importação. O alerta acrescenta uma preocupação de política comercial à questão comercial imediata: como os fabricantes conseguirão açúcar suficiente a um preço que lhes permita competir.
Por que os dados de oferta são importantes
As necessidades anuais de açúcar do Uzbequistão são estimadas entre 650 mil e 700 mil toneladas. As 300 mil toneladas propostas equivalem a cerca de 43% a 46% desse total. A produção nacional e as importações eventualmente permitidas por outros canais, portanto, terão papel importante no atendimento da demanda.
O economista Otabek Bakirov estima que as importações de açúcar poderão chegar a 750 mil ou 800 mil toneladas em 2026. Em comparação com essa previsão, uma cota de 300 mil toneladas seria de 60% a 62,5% menor. Bakirov descreve a medida como uma forte redução administrativa do acesso às importações.
Os dados aduaneiros contabilizam açúcar e açúcar bruto em conjunto, enquanto a cota se refere ao açúcar branco importado por empresas alimentícias especificadas. O açúcar bruto é uma matéria-prima que as fábricas podem processar para produzir açúcar refinado. As duas categorias devem ser consideradas separadamente ao avaliar quanto açúcar pronto chegará aos fabricantes e às famílias.
A Rússia forneceu 417 mil toneladas de açúcar ao Uzbequistão em 2025, o maior volume em cinco anos. As importações totais de açúcar e açúcar bruto naquele ano chegaram a 732,3 mil toneladas, avaliadas em US$ 481,9 milhões, segundo os dados aduaneiros.
O Uzbequistão aboliu seu imposto especial de consumo de 20% sobre o açúcar branco importado em 1º de outubro de 2025, mas manteve uma tarifa alfandegária de 20%. O imposto especial de consumo e a tarifa alfandegária são cobranças diferentes: a retirada do primeiro reduziu uma parte dos impostos de importação, mas a tarifa na fronteira continuou em vigor.
Usinas ganham compradores e condições de empréstimo mais favoráveis
Organizações e empresas estatais deverão dar prioridade ao açúcar branco produzido no país nas compras públicas a partir de 1º de janeiro de 2027. As reservas governamentais de açúcar também deverão ser formadas com produtos das usinas locais, oferecendo aos produtores outra fonte de demanda.
As usinas nacionais deverão vender sua produção por meio da bolsa de commodities, um mercado organizado para a negociação de produtos. O açúcar acabado poderá ser exportado sem restrições especiais adicionais. Os produtores também poderão obter gratuitamente a certificação de produtos fabricados localmente e o registro no Cadastro de Produtos e Fabricantes Locais.
Empréstimos existentes junto ao Uzpromstroybank poderão ter o prazo de pagamento estendido por até cinco anos, incluindo um período de carência de até dois anos. Os cronogramas de pagamento e as taxas de juros serão revisados com base nas taxas de crédito aplicáveis do banco. O alívio dará às usinas mais tempo para cumprir suas obrigações.
Até o fim de 2026, espera-se que os produtores cobrem os valores vencidos a receber, ou seja, dinheiro que clientes ou outras partes lhes devem. O pacote também prevê atrair US$ 50 milhões em investimentos para apoiar as operações. Em diversas fontes, a meta é descrita como investimento estrangeiro direto e, em outra, de forma mais ampla, como investimento privado.
Subsídios para juros e alívio tributário proposto
A Companhia de Desenvolvimento do Empreendedorismo deverá cobrir 50% das despesas com juros de empréstimos em moeda estrangeira usados para importar matérias-primas, com limite de cinco pontos percentuais. O período de apoio vai de 1º de agosto de 2026 a 1º de agosto de 2031.
Pontos percentuais medem a diferença entre taxas de juros. Em um empréstimo elegível com juros anuais de 8%, cobrir metade dos juros equivaleria a quatro pontos percentuais. Com juros de 12%, o limite de cinco pontos percentuais restringiria o apoio a menos da metade do custo dos juros.
O Ministério da Economia e das Finanças também recebeu a determinação de preparar propostas de emendas ao Código Tributário no prazo de um mês. Os termos detalhados preveem isenção do imposto de renda corporativo e redução do imposto sobre a propriedade à metade da alíquota aplicável até 1º de janeiro de 2031. Outras descrições mencionam isenção total do imposto sobre a propriedade, deixando esse ponto da proposta legislativa pouco claro.
As usinas teriam de usar todo o dinheiro economizado com os benefícios fiscais para pagar empréstimos. Assim, o alívio está vinculado à redução das dívidas, em vez de deixar os recursos à disposição irrestrita dos proprietários. As medidas tributárias ainda dependem das alterações legislativas previstas na resolução.
O subsídio para juros tem prazo final posterior ao do alívio tributário proposto: 1º de agosto de 2031, em vez de 1º de janeiro de 2031. Ambos apoiariam as usinas por vários anos após o início da cota de importação.
Bancos terão papel maior dentro das usinas
Recomenda-se que os produtores nacionais nomeiem representantes dos bancos credores como diretores financeiros. Esses representantes poderão participar das assembleias gerais das empresas e bloquear decisões que enfraqueçam a situação financeira de um devedor.
Os recursos líquidos excedentes, ou seja, dinheiro ou ativos prontamente disponíveis para pagamentos, deverão ser direcionados à amortização antecipada das dívidas bancárias. O pacote também prevê a retenção de dividendos até o pagamento dos empréstimos, mantendo os lucros no processo de quitação da dívida, em vez de distribuí-los aos proprietários.
Ativos dados em garantia poderão ser inventariados e transferidos para o balanço patrimonial do banco em condições específicas. Entre elas estão iniciar projetos fora do plano de negócios, aumentar o endividamento, atrasar pagamentos de empréstimos ou deixar de direcionar as receitas das vendas à conta designada do Uzpromstroybank para o pagamento das dívidas.
Consultores estrangeiros ajudarão a avaliar as finanças das usinas e elaborar planos de recuperação. O pacote também prevê gestão digital da produção, melhoria dos controles de produtos e estoques, redução das perdas de produção e monitoramento contínuo por vídeo. O vice-primeiro-ministro Jamshid Khodjaev será responsável por supervisionar a implementação.
Economistas alertam para custos aos consumidores e ao orçamento
Bakirov alerta que restringir as importações poderá elevar os preços do açúcar, aumentar os custos dos fabricantes de bebidas e confeitos e reduzir a produção ou as oportunidades de exportação. Segundo ele, as famílias de baixa renda seriam especialmente afetadas pelo aumento dos custos dos alimentos.
Seu cálculo para o orçamento supõe uma redução anual de 500 mil toneladas nas importações e um custo de US$ 650 por tonelada de açúcar. Essas compras valeriam US$ 325 milhões. Aplicando a tarifa alfandegária mantida de 20%, chega-se à estimativa de Bakirov de US$ 65 milhões em perda anual de receita tarifária, ou cerca de 770 bilhões de som.
O valor é uma estimativa de Bakirov, baseada nessas premissas. Ele também argumenta que a compensação dos juros, as concessões tributárias e as mudanças nos empréstimos das usinas gerariam custos adicionais para o orçamento e as instituições financeiras públicas.
O economista Yuliy Yusupov criticou tanto a publicação restrita da resolução quanto a política de substituir importações por meio de protecionismo e subsídios. Em um comentário traduzido do uzbeque, ele perguntou:
Por que um documento sigiloso?
Yusupov argumenta que as usinas podem se tornar dependentes de apoio estatal recorrente: barreiras à importação e concessões financeiras ajudam as empresas a operar, e depois os benefícios são prorrogados quando elas têm dificuldade para competir sem esse apoio. Em vez disso, ele defende uma concorrência mais forte e a proteção dos interesses dos consumidores.
Os objetivos declarados do pacote são a produção nacional, a segurança alimentar e a estabilidade do mercado. O teste prático será saber se as usinas aumentarão a oferta confiável a preços acessíveis para fabricantes de alimentos e famílias, ao mesmo tempo que reduzem suas dívidas.
Planos de investimento e cronograma de implementação
A empresa egípcia Nile Sugar foi apontada em fevereiro como responsável por um plano de investimento de US$ 450 milhões no cultivo de beterraba-açucareira e em uma usina de processamento na região de Jizzakh. Quando entrar em operação, a unidade poderá produzir até 200 mil toneladas por ano.
Essa capacidade planejada equivale a cerca de 29% a 31% das necessidades anuais estimadas de açúcar do Uzbequistão, de 650 mil a 700 mil toneladas. Não foi informada uma data de inauguração para a usina da Nile Sugar. Em janeiro, Khodjaev afirmou que dois grandes projetos poderiam aumentar a produção nacional em dois a três anos.
A resolução estabelece vários prazos mais próximos para empresas e autoridades:
- 30 de julho de 2026: data atribuída à Resolução nº 417 do Conselho de Ministros.
- 1º de agosto de 2026: início do período de compensação dos juros.
- Novembro de cada ano: aprovação, pelo Conselho de Ministros, da cota de importação do ano seguinte.
- 1º de dezembro de 2026: prazo para lançar a plataforma de leilões eletrônicos.
- Fim de 2026: prazo para cobrar os valores vencidos a receber e atrair os US$ 50 milhões em investimentos previstos.
- 1º de janeiro de 2027: início da cota de importação e da prioridade de compra do açúcar nacional.
- 1º de janeiro de 2031: data prevista para o fim das concessões tributárias.
- 1º de agosto de 2031: fim do período de compensação dos juros.
O Comitê Aduaneiro deverá publicar dados trimestrais sobre as importações de alimentos socialmente importantes até o dia 10 do mês seguinte. As informações exigidas incluem volume, valor e valor aduaneiro médio por tonelada, discriminados por país fornecedor e importador. Junto com os resultados publicados dos leilões, esses dados permitirão que empresas e consumidores acompanhem as mudanças no acesso às importações e nos custos.
Principais pontos
- O Uzbequistão planeja estabelecer, a partir de 1º de janeiro de 2027, uma cota de 300 mil toneladas para a importação de açúcar branco por empresas do setor alimentício.
- Fabricantes de bebidas, confeitos e outros alimentos receberão, cada um, uma alocação de 100 mil toneladas, distribuída por leilões on-line.
- O governo poderá revisar as cotas a cada seis meses e aprovará o volume do ano seguinte todo mês de novembro.
- As usinas nacionais terão prioridade nas compras, prazos maiores para pagar empréstimos e apoio para juros, além de concessões tributárias propostas.
- Economistas alertam para aumento dos preços ao consumidor, maiores custos de fabricação e redução da receita alfandegária.
- As regras para importações acima da cota e para empresas fora dos grupos especificados não foram esclarecidas.






