Conversas em Samarcanda colocam negócios no centro da aproximação dos EUA
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que acordos potencialmente bilionários estavam em discussão em Samarcanda em 19 de outubro, reunindo representantes de quase 300 empresas americanas para conversas com o Uzbequistão e seus vizinhos da Ásia Central. O impulso comercial coincidiu com o primeiro Diálogo de Parceria Estratégica Aprimorada entre EUA e Uzbequistão e com a adesão do Uzbequistão aos Acordos Artemis para a exploração pacífica do espaço.
Conteúdo
- Conversas em Samarcanda colocam negócios no centro da aproximação dos EUA
- O que a delegação empresarial está fazendo
- Por que os minerais críticos são prioridade
- Metas de produção do Uzbequistão mostram a escala dos planos
- Um novo diálogo e um acordo espacial
- Como as reuniões regionais se encaixam
- Compromissos anteriores servem de referência
- Mais parceiros, sem precisar escolher um lado
- Obstáculos aos investimentos e debate sobre direitos humanos
- Principais pontos
Rubio apareceu na Praça Registan ao lado de Saida Mirziyoyeva, chefe da Administração Presidencial do Uzbequistão, após chegar à cidade na noite de 18 de outubro. Ele descreveu os séculos de Samarcanda como encruzilhada do comércio mundial como ponto de partida para uma presença econômica americana mais expressiva na região.
O secretário de Estado disse que os anúncios seriam feitos após o fórum de investimentos. No momento de suas declarações, os acordos específicos, seus valores finais e cronogramas de implementação não haviam sido divulgados. A assinatura pelo Uzbequistão do acordo-quadro espacial foi uma etapa diplomática concluída, enquanto o pacote comercial proposto ainda estava em discussão.
Ao explicar o que o Uzbequistão poderia esperar da visita, Rubio demonstrou confiança de que as reuniões resultariam em anúncios de negócios.
Acho que teremos alguns acordos concretos para anunciar.
A visita reuniu diplomacia e negócios em diversas áreas: minerais, energia, transporte, tecnologia digital, agricultura, educação e finanças. Para o Uzbequistão, a oportunidade é atrair capital e tecnologia para o desenvolvimento interno. Para Washington, as conversas oferecem acesso a novos clientes e fornecedores adicionais de materiais necessários às indústrias americanas.
O que a delegação empresarial está fazendo
Rubio disse que quase 300 empresas americanas estavam representadas em Samarcanda. O Departamento de Estado havia descrito anteriormente uma delegação com mais de 200 líderes empresariais. Os números contabilizam coisas diferentes, empresas e pessoas, mas mostram a dimensão da missão comercial.
O Ministério de Investimentos, Indústria e Comércio do Uzbequistão apresentou seis sessões para 19 de outubro: tecnologias digitais; educação e saúde; recursos minerais; energia e transporte; agricultura e têxteis; e finanças e investimentos. As reuniões entre empresas e as conversas com órgãos do governo deveriam tratar de projetos específicos, financiamento e condições necessárias para avançar.
A programação também incluiu a segunda reunião do Conselho Empresarial e de Investimentos Uzbequistão-EUA. Saida Mirziyoyeva e Sergio Gor, enviado presidencial especial dos EUA para a Ásia Central, copresidem o conselho, criado para promover investimentos e parcerias comerciais.
A agenda de Rubio incluiu conversas com o ministro das Relações Exteriores do Uzbequistão, Bakhtiyor Saidov, uma cerimônia de assinatura de documentos e um encontro e jantar com o presidente Shavkat Mirziyoyev. A inclusão de executivos na mesma programação deu às empresas a oportunidade de discutir planos comerciais com autoridades responsáveis pela relação mais ampla.
Por que os minerais críticos são prioridade
Os minerais críticos foram um tema central nas conversas de Rubio. São materiais que os governos consideram essenciais para suas economias e indústrias, sobretudo quando é difícil garantir fornecimento confiável. Os elementos de terras raras, um grupo específico usado em muitas tecnologias, fazem parte dessa discussão mais ampla.
Rubio argumentou que os países devem evitar depender demais de um único fornecedor. Disse que os Estados Unidos queriam explorar a cooperação com o Uzbequistão para desenvolver jazidas minerais e capacidade de processamento, descrevendo a diversificação do fornecimento como um interesse internacional compartilhado.
O Uzbequistão e seus vizinhos buscam investimentos e tecnologia para desenvolver seus recursos. Washington quer rotas adicionais de fornecimento para indústrias que dependem desses materiais. O processamento é uma parte importante da cooperação proposta: transforma o material extraído em formas que os fabricantes podem usar, criando atividade industrial para além da própria mina.
As conversas dão continuidade a um memorando assinado em 4 de fevereiro por Saidov e Christopher Landau, vice-secretário de Estado dos EUA, sobre a segurança das cadeias de suprimentos de minerais críticos e elementos de terras raras. O acordo abrangia mineração e processamento. Mais tarde naquele mês, a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA assinou termos comerciais preliminares para uma estrutura de investimentos com o Uzbequistão, incluindo a proposta de criação de uma holding conjunta para desenvolver projetos.
Metas de produção do Uzbequistão mostram a escala dos planos
O Uzbequistão pretende aumentar a produção anual de cobre de 150 mil toneladas em 2024 para 500 mil toneladas até 2030, segundo dados atribuídos à Administração de Comércio Internacional dos EUA. Alcançar essa meta significaria produzir cerca de 3,3 vezes mais cobre, um aumento de 350 mil toneladas por ano.
A meta é elevar a produção de urânio de 3.800 toneladas em 2024 para 10 mil toneladas até 2030, cerca de 2,6 vezes o nível anterior. Entre as outras metas do país para 2030 estão a produção anual de 155 toneladas de ouro e 500 toneladas de prata.
A Administração de Comércio Internacional classifica o Uzbequistão em 11º lugar no mundo em reservas comprovadas de cobre. Sua base mais ampla de recursos inclui lítio, tungstênio, grafite e molibdênio. O país criou o Complexo de Metais Tecnológicos do Uzbequistão, conhecido como UzTMC, em 2024 para desenvolver atividades em todo o setor mineral, da extração ao processamento e à produção de etapas posteriores.
Esses planos dão às conversas em Samarcanda um contexto industrial concreto. O Uzbequistão busca ampliar os setores de mineração e processamento, enquanto autoridades americanas procuram fontes adicionais de materiais estratégicos. Transformar esse interesse comum em produção exige financiamento, equipamentos, infraestrutura e parcerias comerciais viáveis.
Um novo diálogo e um acordo espacial
Saidov e Rubio realizaram a primeira reunião do Diálogo de Parceria Estratégica Aprimorada em 19 de outubro. Saidov afirmou que as conversas se concentraram na implementação dos acordos firmados pelos líderes dos dois países e na ampliação da cooperação em comércio, investimentos, energia, minerais críticos e tecnologias avançadas.
Educação, intercâmbios culturais e segurança também estavam na pauta. Rubio citou infraestrutura e cooperação espacial entre os temas discutidos, além da colaboração por meio da plataforma C5+1.
Após as conversas bilaterais, Saidov anunciou que o Uzbequistão havia aderido aos Acordos Artemis como o 77º país participante da iniciativa. Criados em 2020, os acordos estabelecem princípios não vinculantes para a exploração espacial civil e pacífica, incluindo transparência, compartilhamento de informações científicas e redução de interferências entre missões.
Saidov disse que a participação criaria oportunidades de cooperação com a NASA e outras agências espaciais participantes, treinamento para especialistas uzbeques e acesso a tecnologias espaciais. Portanto, o foco prático para o Uzbequistão está no desenvolvimento de conhecimentos especializados e vínculos institucionais, além da adesão a uma estrutura internacional que abrange a exploração da Lua, de Marte e de outros corpos celestes.
Como as reuniões regionais se encaixam
Rubio se reuniu com os ministros das Relações Exteriores do Uzbequistão, do Cazaquistão, do Quirguistão, do Tajiquistão e do Turcomenistão no âmbito do C5+1. O nome significa os cinco países da Ásia Central mais os Estados Unidos. A pauta incluiu cooperação econômica, comércio, investimentos, segurança energética e segurança regional em sentido mais amplo.
A programação em Samarcanda combinou essa reunião regional com conversas bilaterais. O ministro das Relações Exteriores do Tajiquistão, Sirojiddin Muhriddin, também deveria conversar com Rubio, enquanto o secretário de Estado dos EUA se reuniu com seu homólogo cazaque para discutir cooperação econômica e de segurança.
As reuniões mais recentes vêm após várias etapas no desenvolvimento da parceria:
- Setembro e novembro de 2015: ministros das Relações Exteriores dos EUA e da Ásia Central se reuniram em Nova York e Samarcanda enquanto o formato C5+1 ganhava forma.
- Setembro de 2023: ocorreu em Nova York a primeira reunião em nível presidencial, ajudando a estabelecer uma agenda mais ampla de negócios e minerais.
- Fevereiro de 2024: teve início o Diálogo sobre Minerais Críticos.
- Novembro de 2025: o presidente Donald Trump recebeu em Washington os cinco presidentes da Ásia Central, ocasião em que foram anunciados grandes pacotes comerciais.
- 18 e 19 de outubro: Rubio chegou a Samarcanda, reuniu-se com ministros da região e realizou o primeiro Diálogo de Parceria Estratégica Aprimorada com o Uzbequistão.
Os governos da Ásia Central também desenvolveram seu próprio processo de consultas, iniciado com uma reunião de líderes regionais em 2018. A cooperação em transporte e energia é importante para investidores estrangeiros porque os projetos muitas vezes dependem de conexões que atravessam fronteiras nacionais.
Compromissos anteriores servem de referência
A cúpula da Casa Branca de novembro de 2025 oferece uma medida das ambições comerciais por trás da visita a Samarcanda. O pacote do Departamento de Comércio dos EUA foi descrito como superior a US$ 25 bilhões, enquanto os anúncios de Trump também foram descritos como superiores a US$ 130 bilhões. A abrangência por trás dos dois totais não foi explicada.
O pacote incluía pedidos firmes e compromissos preliminares em diferentes etapas de implementação. A aviação foi um componente importante: a Uzbekistan Airways encomendou mais oito aeronaves Boeing 787, enquanto a Air Astana, do Cazaquistão, escolheu até 15. Máquinas agrícolas e computação avançada também fizeram parte do pacote.
O presidente Mirziyoyev havia se comprometido separadamente a investir até US$ 100 bilhões na economia dos EUA, além de comprar produtos americanos. Esses planos mostram que a relação envolve gastos nos dois sentidos: compradores da Ásia Central buscam aeronaves, equipamentos e tecnologia, enquanto empresas americanas exploram projetos na região.
Os próximos avanços concretos em Samarcanda eram esperados após as reuniões do fórum de investimentos. Esses anúncios dariam às empresas e ao público os detalhes necessários para entender como o pacote proposto seria distribuído entre países, setores e projetos específicos.
Mais parceiros, sem precisar escolher um lado
Rússia e China continuam sendo importantes parceiros econômicos e diplomáticos da Ásia Central. Rubio disse que os Estados Unidos queriam abrir oportunidades para empresas americanas sem pedir aos governos da região que encerrassem suas relações com outros países.
Ao responder a perguntas sobre a disputa por influência, Rubio descreveu a posição americana em termos comerciais.
Temos produtos, temos empresas, elas fabricam coisas, e só queremos concorrência justa e uma oportunidade.
A abertura mais ampla do Uzbequistão também esteve entre os temas de suas declarações. Rubio citou o crescimento econômico anual de quase 8% e descreveu o país como o mais populoso da Ásia Central. Com cerca de 37 milhões de habitantes, o Uzbequistão representa um mercado considerável e também uma possível base de produção.
O turismo ofereceu outra possível conexão. Rubio disse ter ficado impressionado com o número de visitantes e soube que estavam em andamento negociações para um voo direto de Miami ao Uzbequistão. Uma rota direta poderia facilitar as viagens de turistas e visitantes a negócios, embora as conversas ainda estivessem em fase de negociação.
Obstáculos aos investimentos e debate sobre direitos humanos
Daniel Rosenblum, ex-vice-secretário adjunto de Estado dos EUA para a Ásia Central e ex-embaixador no Uzbequistão e no Cazaquistão, descreveu como incomum a delegação empresarial que acompanhava Rubio. Ele elogiou a combinação de atenção diplomática e aproximação comercial, mas ponderou que as empresas ainda enfrentariam dificuldades práticas para investir.
Rosenblum apontou a distância, a logística, o financiamento e a busca por parceiros locais adequados como preocupações persistentes. Disse que o tamanho de uma delegação visitante não eliminaria esses obstáculos e duvidou que a atividade empresarial americana crescesse repentinamente dez vezes.
Ao avaliar os limites da influência americana, Rosenblum disse que Washington poderia se tornar um parceiro regional mais importante, mas não a principal potência externa.
Na minha opinião, nunca seremos o principal ator na Ásia Central.
Ele apontou tecnologias avançadas, inteligência artificial e ensino de inglês como áreas em que a cooperação americana poderia ser útil. Sua avaliação indica uma parceria baseada em pontos fortes específicos, e não uma tentativa de substituir todas as relações regionais existentes.
Os direitos humanos foram outra parte do debate. Rosenblum disse que o governo Trump havia praticamente retirado a democracia e os direitos humanos de sua agenda pública, mas argumentou que interesses comerciais e defesa de direitos podem coexistir. Instituições mais previsíveis, afirmou, também poderiam beneficiar empresas que investem na região.
Galiya Ibragimova, especialista regional nascida no Uzbequistão e radicada na Moldávia, descreveu a abordagem do governo como centrada nos negócios, e não em reformas políticas. Alisher Ilkhamov, diretor do centro de pesquisa Central Asia Due Diligence, sediado em Londres, também expressou preocupação com a ausência dos direitos humanos na agenda de Rubio.
A visita a Samarcanda colocou, portanto, dois desafios em foco: saber se a atenção diplomática resultará em projetos comerciais viáveis e se a relação mais ampla poderá tratar de questões para além das transações. Para as empresas, as tarefas imediatas são concretas: garantir financiamento, definir os termos dos projetos e organizar transporte e produção. Para os governos envolvidos, o novo diálogo e o conselho empresarial oferecem canais para dar continuidade a esse trabalho.
Principais pontos
- Rubio disse que acordos potencialmente bilionários estavam em discussão em Samarcanda, com representação de quase 300 empresas americanas.
- Os valores finais dos acordos e os detalhes dos projetos ainda não haviam sido anunciados quando ele falou; os anúncios eram esperados após as reuniões do fórum.
- Uzbequistão e Estados Unidos realizaram seu primeiro Diálogo de Parceria Estratégica Aprimorada em 19 de outubro.
- O Uzbequistão aderiu aos Acordos Artemis como o 77º país participante, segundo o ministro das Relações Exteriores, Bakhtiyor Saidov.
- Minerais críticos e processamento interno são prioridades, ao lado de energia, infraestrutura, tecnologia, educação e segurança.
- O Uzbequistão tem como meta produzir 500 mil toneladas de cobre por ano até 2030, ante 150 mil toneladas em 2024.
- Rubio disse que laços mais estreitos com os EUA poderiam se desenvolver paralelamente às parcerias da Ásia Central com outros países.






