Queda de US$ 942 milhões no comércio em uma fronteira fechada
O comércio entre Paquistão e Afeganistão caiu de US$ 1,3 bilhão em 2024-25 para US$ 358 milhões no ano fiscal de 2025-26, segundo dados atribuídos à Autoridade de Desenvolvimento Comercial do Paquistão. A contração de US$ 942 milhões interrompeu o envio de hortaliças, levou transportadores a vender caminhões e tirou dos fabricantes de medicamentos o acesso a um mercado importante.
Conteúdo
- Queda de US$ 942 milhões no comércio em uma fronteira fechada
- Como a interrupção se tornou uma crise prolongada
- Afeganistão está mais exposto em âmbito nacional
- Carga em trânsito diminui enquanto comerciantes buscam outras rotas
- Por que Khyber Pakhtunkhwa sente a perda com tanta intensidade
- Fabricantes de medicamentos perdem um grande cliente
- Comerciantes de batata enfrentam perdas agora e colheitas menores depois
- Donos de caminhões não conseguem substituir facilmente as rotas afegãs
- Exigências de segurança dividem lideranças empresariais
- Pontos principais
A queda foi descrita como de 74% em relatos que citam a autoridade, embora também tenha circulado o percentual de 95% junto dos mesmos valores em dólares. O cálculo direto a partir de US$ 1,3 bilhão e US$ 358 milhões aponta uma queda de cerca de 72,5%, deixando o comércio pouco acima de um quarto do valor anterior.
Torkham, uma das passagens mais movimentadas, foi fechada em 12 de outubro de 2025, após confrontos mortais. O tráfego comercial também foi interrompido ou restringido em Kharlachi, Ghulam Khan e Angoor Adda, em Khyber Pakhtunkhwa, e na passagem de Chaman-Spin Boldak, que liga o Baluchistão ao sul do Afeganistão.
O Paquistão afirma que a normalização do comércio depende de medidas contra grupos armados que acusa de atuar em território afegão. As autoridades talibãs rejeitam as acusações. Empresas que ficam entre os dois governos enfrentam perdas que vão além da própria fronteira e afetam fábricas, propriedades rurais e rotas para a Ásia Central.
Os dados são apresentados como referentes a 2025-26, embora o período exato de apuração não tenha sido especificado. Nenhuma data definida para a retomada do tráfego comercial normal foi anunciada. Para comerciantes de produtos frescos ou que pagam para manter caminhões parados, a incerteza sobre a reabertura dificulta decidir o que plantar, comprar ou transportar em seguida.
Como a interrupção se tornou uma crise prolongada
A desorganização do comércio surgiu de um confronto de segurança que se estendeu por várias rodadas de combates e tentativas malsucedidas de negociação. Os confrontos na fronteira em outubro fecharam passagens importantes e deixaram milhares de caminhões de carga retidos, transformando uma disputa militar em um problema imediato para comerciantes e comunidades fronteiriças.
Dados anteriores acompanhavam a repressão mais ampla do Paquistão ao comércio desde 10 de outubro, enquanto a data informada para o fechamento de Torkham é 12 de outubro. No início de janeiro, a suspensão já durava quase três meses. Os combates voltaram a se intensificar em fevereiro, quando ataques aéreos paquistaneses atingiram Cabul e outras localidades afegãs.
- 10 de outubro de 2025: começou a repressão mais ampla ao comércio, segundo os dados usados para acompanhar as perdas iniciais nas exportações.
- 12 de outubro de 2025: Torkham foi fechada após confrontos mortais entre os dois países.
- Início de novembro de 2025: o Paquistão declarou que as negociações estavam, na prática, encerradas, após uma tentativa malsucedida de mediação envolvendo Turquia e Catar.
- 3 de janeiro de 2026: a suspensão se aproximava de três meses, com mais de 11.500 caminhões retidos, segundo relatos.
- 26 e 27 de fevereiro de 2026: os combates se ampliaram, com ataques paquistaneses a Cabul, Kandahar e Paktia, seguidos pela declaração de guerra aberta do Paquistão.
A escalada militar de fevereiro aprofundou uma disputa que já vinha prejudicando o comércio. A reabertura agora depende de decisões sobre segurança na fronteira e do trabalho prático para permitir novamente a circulação de cargas, veículos e comerciantes.
Afeganistão está mais exposto em âmbito nacional
O Afeganistão depende mais dessa relação do que o Paquistão. Dados divulgados em janeiro mostraram que o Paquistão recebia quase 46% das exportações afegãs, enquanto o Afeganistão respondia por cerca de 3,46% das exportações globais do Paquistão.
Essas proporções ajudam a explicar as perdas econômicas desiguais registradas durante a interrupção inicial. O Afeganistão havia perdido cerca de 10% do valor de suas exportações, em comparação com aproximadamente 0,6% das exportações totais do Paquistão. Essas medidas se referem ao impacto inicial, e não aos totais bilaterais de comércio divulgados posteriormente.
A menor exposição nacional do Paquistão ainda deixa determinados locais e setores sob forte pressão. Um país pode perder uma parcela relativamente pequena de suas exportações totais enquanto um transportador, agricultor ou fabricante perde seu principal cliente. Khyber Pakhtunkhwa está especialmente exposta porque suas empresas atendem há muito tempo ao mercado afegão vizinho.
Carga em trânsito diminui enquanto comerciantes buscam outras rotas
O comércio de trânsito afegão pelo Paquistão encolheu ainda mais em valor do que o comércio bilateral. Antes de os talibãs voltarem ao poder, em 2021, o fluxo chegava a quase 89 mil contêineres, com mercadorias avaliadas em cerca de US$ 5 bilhões. Os dados mais recentes apontam 11.592 contêineres, no valor de US$ 367 milhões.
Com base nesses totais, o número de contêineres caiu cerca de 87%, enquanto o valor da carga recuou aproximadamente 93%. A comparação abrange vários anos, um período mais longo do que a variação do comércio bilateral entre 2024-25 e 2025-26.
Comércio de trânsito é aquele em que as mercadorias passam por um país a caminho de outro. Para o Afeganistão, que não tem litoral, os portos e as estradas paquistanesas oferecem uma rota até fornecedores no exterior. Já o comércio bilateral envolve mercadorias compradas e vendidas entre o próprio Paquistão e o Afeganistão.
Antes dos fechamentos mais recentes, o Afeganistão já havia começado a direcionar uma parcela maior do comércio para rotas alternativas, especialmente pelo Irã. A redução, portanto, reflete tanto a interrupção recente quanto uma mudança anterior na forma como as empresas afegãs transportam mercadorias. Exportadores paquistaneses que usam o Afeganistão como rota para os mercados da Ásia Central também foram afetados.
Por que Khyber Pakhtunkhwa sente a perda com tanta intensidade
Junaid Altaf, ex-presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Sarhad, afirmou que o fechamento prolongado agravou as dificuldades econômicas de empresas, trabalhadores e comunidades fronteiriças em Khyber Pakhtunkhwa. Ele destacou a distância da província em relação aos principais portos marítimos e às rotas internacionais de transporte, o que já eleva os custos logísticos.
Altaf disse que os danos vão além da interrupção de uma única rota:
"Para uma província que já enfrenta desvantagens econômicas estruturais, o fechamento não apenas interrompeu uma rota comercial; também enfraqueceu ainda mais as oportunidades econômicas das quais dependem suas empresas, seus trabalhadores e suas comunidades fronteiriças", afirmou.
Para empresas distantes do litoral, os custos de transporte influenciam quais mercados podem ser atendidos. Perder clientes afegãos próximos pode significar buscar compradores muito mais distantes, com trajetos mais longos e despesas de entrega maiores. Por isso, substituir os negócios perdidos é mais difícil do que simplesmente enviar as mesmas mercadorias para outro lugar.
Fabricantes de medicamentos perdem um grande cliente
O Paquistão exportou cerca de US$ 130 milhões em produtos farmacêuticos para o Afeganistão em 2023-24, segundo dados do Departamento de Estatísticas do Paquistão. O volume dessas vendas mostra por que a perda de acesso ao mercado afegão importa para os fabricantes, além dos prejuízos ao transporte e à agricultura.
As autoridades talibãs ordenaram a suspensão das importações de produtos farmacêuticos do Paquistão em novembro de 2025. O ministro da Saúde talibã, Noor Jalal Jalali, afirmou que o Paquistão fornecia de 60% a 70% dos medicamentos do Afeganistão. Assim, os exportadores de medicamentos enfrentam tanto uma restrição de política comercial quanto a interrupção física do tráfego na fronteira.
Os fabricantes que antes abasteciam compradores afegãos precisam encontrar outros clientes ou ajustar a produção. A queda nas vendas pode pressionar investimentos e empregos, embora não tenha sido divulgado um total quantificado de postos de trabalho perdidos em fábricas nem de investimentos farmacêuticos cancelados.
Entre as outras exportações do Paquistão para o Afeganistão estão cimento, plásticos, arroz, frutas e hortaliças. As vendas afegãs para o Paquistão incluem cebolas, tomates, sementes agrícolas, uvas, damascos secos, maçãs, carvão e chumbo bruto, isto é, chumbo ainda não transformado em produtos acabados. Os fechamentos afetam tanto insumos industriais quanto o comércio cotidiano de alimentos.
Comerciantes de batata enfrentam perdas agora e colheitas menores depois
Malik Sohni, presidente da Federação de Comerciantes de Produtos Agrícolas de Todo o Paquistão, afirmou que antes até 50 caminhões carregados de batatas e 25 com hortaliças frescas viajavam diariamente do Paquistão para o Afeganistão. Esses embarques diários foram interrompidos, eliminando um canal de escoamento para até 75 caminhões de produtos agrícolas.
Sohni disse ter sofrido perdas de 180 milhões de rúpias paquistanesas depois que as hostilidades interromperam o comércio e os preços da batata caíram. Produtos frescos criam um problema especialmente urgente, pois os comerciantes não podem armazená-los indefinidamente enquanto aguardam uma decisão sobre a fronteira. Uma venda perdida pode rapidamente se transformar em estoque estragado ou vendido por um preço muito menor.
O cultivo de batata havia diminuído quase pela metade, segundo Sohni, que alertou que a redução da oferta poderia elevar os preços mais adiante. Seu relato descreve duas etapas da mesma interrupção: os preços caem quando as batatas colhidas perdem o mercado de exportação; depois, os agricultores plantam menos porque a safra anterior teve baixo retorno.
Os consumidores podem, portanto, sentir efeitos diferentes em momentos distintos. A oferta deixada nos mercados domésticos pode inicialmente ficar mais barata. Uma colheita posterior menor, devido à redução do plantio, pode apertar a oferta e elevar os preços. A estimativa sobre o cultivo vem de um representante do setor, e não de uma pesquisa agrícola nacional.
Donos de caminhões não conseguem substituir facilmente as rotas afegãs
Um transportador identificado como Azeemullah disse ter vendido três de seus cinco caminhões porque o fechamento prolongado tornou economicamente inviável redirecioná-los para outras rotas dentro do Paquistão. Sua frota encolheu 60%, mostrando como a paralisação de uma rota comercial pode obrigar um operador a vender ativos acumulados ao longo de anos.
Os donos de caminhões precisam de carga remunerada suficiente para cobrir os custos de manter os veículos em operação. A mudança para outra rota doméstica exige clientes e tarifas comercialmente viáveis. Um veículo que antes atendia o Afeganistão não consegue automaticamente gerar a mesma renda em outro lugar.
As perdas no transporte também atingem exportadores além da economia fronteiriça imediata. Empresas paquistanesas que vendem para a Ásia Central sofrem interrupções quando suas mercadorias dependem da passagem pelo Afeganistão. Os danos comerciais incluem, portanto, a perda de clientes afegãos, a redução do transporte de cargas em trânsito e a interrupção do acesso a mercados mais ao norte.
Exigências de segurança dividem lideranças empresariais
Islamabad afirma que as restrições comerciais permanecerão até que representantes talibãs tomem medidas práticas e verificáveis contra grupos armados que atuam em território afegão. Entre as acusações do Paquistão estão as dirigidas ao Tehrik-i-Taliban Pakistan, ou TTP, responsável por ataques dentro do país.
As autoridades talibãs rejeitam as acusações de que o território afegão esteja sendo usado para ataques contra países vizinhos. Elas afirmam que a insegurança dentro do Paquistão é uma questão que Islamabad deve resolver. A disputa mantém as condições de segurança no centro das decisões sobre o acesso comercial.
Fuad Ishaq, empresário de Peshawar e ex-presidente de uma câmara de comércio, defende que a segurança nacional deve ser prioridade e que os exportadores paquistaneses podem buscar mercados alternativos. Outros representantes empresariais de Khyber Pakhtunkhwa pediram fronteiras seguras junto com comércio regulado e medidas duradouras para evitar o isolamento econômico da região.
As duas posições tratam da mesma decisão imediata: manter o comércio suspenso enquanto as exigências de segurança não forem atendidas ou retomar a circulação controlada de mercadorias. Para fabricantes, agricultores e transportadores, o que está em jogo é o acesso a clientes, a capacidade de planejar a produção e a renda necessária para manter as empresas em operação.
Pontos principais
- Dados atribuídos à autoridade comercial do Paquistão mostram que o comércio bilateral caiu de US$ 1,3 bilhão para US$ 358 milhões, uma perda de US$ 942 milhões.
- A queda é amplamente descrita como de 74%; os valores em dólares informados resultam em cerca de 72,5%.
- Torkham foi fechada em 12 de outubro de 2025, e várias outras passagens importantes continuam fechadas ou com o tráfego comercial restrito.
- A carga afegã em trânsito pelo Paquistão caiu de quase 89 mil contêineres antes de 2021 para 11.592 nos dados mais recentes.
- Exportadores de medicamentos, comerciantes de produtos agrícolas e donos de caminhões enfrentam grandes perdas, com pressão especialmente concentrada em Khyber Pakhtunkhwa.
- As autoridades talibãs ordenaram a suspensão das importações de produtos farmacêuticos paquistaneses em novembro de 2025.
- O Paquistão condiciona a normalização do comércio a medidas contra grupos armados; as autoridades talibãs rejeitam as acusações.
- Nenhuma data definida para a retomada do tráfego comercial normal foi anunciada.






