Poucos milímetros podem mudar o tratamento de uma criança
O Hospital da Universidade de Medicina de Hanói colocou em operação, na manhã de 26 de outubro, um aparelho de ressonância magnética de corpo inteiro de 5 teslas. Dirigentes do hospital e a associação vietnamita de radiologia o descrevem como o primeiro sistema desse tipo no Sudeste Asiático. Seu objetivo é especialmente concreto em casos difíceis: encontrar alterações tão pequenas que os médicos têm dificuldade para identificá-las com os equipamentos existentes.
Conteúdo
- Poucos milímetros podem mudar o tratamento de uma criança
- O que significa 5 teslas?
- Por que o cérebro é uma prioridade inicial
- Acompanhar o fluxo sanguíneo sem contraste injetável
- Observar a química dos tumores
- Um sistema de corpo inteiro com aplicações de pesquisa mais amplas
- A formação começou antes da inauguração
- Desenvolver um programa de pesquisa com pacientes vietnamitas
- Segurança, custos e resultados vão definir o acesso
- Principais pontos
O diretor do hospital, o professor associado Nguyen Lan Hieu, descreveu o caso de uma criança de oito anos com epilepsia recorrente resistente ao tratamento. Um exame feito em um aparelho de 3T mostrou uma possível alteração no córtex cerebral, a camada mais externa do cérebro. As imagens do novo sistema de 5T ajudaram a identificar um foco de displasia cortical com apenas alguns milímetros.
Displasia cortical significa que uma área da camada externa do cérebro se desenvolveu de forma anormal. Essa região pode estar envolvida em crises epilépticas. Localizá-la com mais precisão fornece aos médicos informações necessárias para avaliar o tratamento de uma criança cujas crises continuam apesar do uso de medicamentos.
O aparelho uMR Jupiter, fabricado pela United Imaging Healthcare, foi projetado para atendimento a pacientes e pesquisa. Hieu afirmou que seu valor dependerá de profissionais capacitados que o utilizem em casos adequados. O hospital se comprometeu a avaliar o investimento pela melhora dos diagnósticos, pela produção científica e pela formação de especialistas, e não pelo número de exames realizados.
O que significa 5 teslas?
Tesla é a unidade usada para descrever a intensidade do campo magnético de um aparelho de ressonância magnética. O exame usa um campo magnético e ondas de rádio para produzir imagens das estruturas internas do corpo. Os aparelhos de 1,5T e 3T, já amplamente utilizados em hospitais, servem de referência para comparar o novo equipamento.
Com base nas intensidades de campo informadas, 5T é cerca de 67% mais forte que 3T. Em Hanói, o benefício prático esperado é obter imagens mais úteis: mais detalhes e diferenças mais nítidas entre os tecidos.
Hieu explicou a vantagem técnica durante a inauguração, descrevendo como o aparelho separa as informações úteis das interferências indesejadas na imagem:
O sistema Jupiter 5T uMR usa um campo magnético de 5 teslas, capaz de gerar imagens com uma relação sinal-ruído mais alta e maior contraste entre os tecidos em comparação com os aparelhos de ressonância magnética de 1,5T e 3T atualmente populares. Esse recurso abre a possibilidade de examinar com mais detalhes as microestruturas e as funções de muitos órgãos do corpo.
Em termos simples, uma relação maior entre sinal e ruído pode facilitar a visualização de estruturas pequenas. Um contraste melhor entre os tecidos ajuda os médicos a distinguir estruturas vizinhas que, de outra forma, poderiam parecer semelhantes.
Por que o cérebro é uma prioridade inicial
O professor Pham Minh Thong, presidente da Associação Vietnamita de Radiologia e Medicina Nuclear, afirmou que sistemas de 5T ainda são raros no mundo. Ele identificou a instalação de Hanói como a primeira do Sudeste Asiático e disse que a tecnologia pode permitir estudos mais detalhados da estrutura e do funcionamento dos órgãos.
A neurologia é um dos principais focos. Além do caso da criança com epilepsia, o hospital tem interesse em examinar pequenas estruturas cerebrais, paredes de vasos sanguíneos e alterações associadas à doença de Parkinson e a outras condições neurológicas.
Imagens detalhadas do hipocampo, estrutura cerebral envolvida na memória, podem ajudar os médicos a investigar certos tipos de epilepsia. Entre as aplicações de pesquisa estão também o exame de alterações ao redor de pequenos vasos sanguíneos e de estruturas relevantes para doenças neurodegenerativas.
Hieu ressaltou a importância de avaliar tanto a função quanto a anatomia. A anatomia mostra como é um órgão; a imagem funcional fornece informações sobre o funcionamento de seus tecidos. No cérebro, isso pode incluir o fluxo de sangue pelo tecido. Questões semelhantes se aplicam ao coração e ao fígado.
Acompanhar o fluxo sanguíneo sem contraste injetável
O hospital também planeja explorar técnicas para examinar os vasos sanguíneos cerebrais e a perfusão sem injetar um agente de contraste. Perfusão é o fornecimento de sangue ao tecido, que leva o oxigênio e os nutrientes de que ele precisa.
Uma técnica discutida em relação ao sistema é a 4D-ASL-MRA. Ela usa a marcação magnética da água já presente no sangue para ajudar a visualizar a circulação ao longo do tempo. Pesquisadores podem usar essas informações para estudar vasos estreitados ou bloqueados e as rotas alternativas pelas quais o sangue chega ao cérebro.
Um método que dispensa injeções de contraste pode ser útil para pacientes selecionados adequadamente, incluindo algumas pessoas com doença renal grave ou histórico de reações a agentes de contraste. Ainda assim, os médicos precisam escolher o exame de acordo com o quadro do paciente e a questão que pretendem responder.
A detecção precoce de AVC está entre os objetivos de pesquisa do hospital. As equipes pretendem usar dados de imagem anonimizados em projetos conjuntos voltados a melhorar o reconhecimento de doenças antes que os danos se tornem mais extensos.
Observar a química dos tumores
A pesquisa sobre tumores cerebrais é outra aplicação planejada. Duas técnicas mencionadas na inauguração, GluCEST e APT-CEST, examinam aspectos da química dos tecidos, em vez de se basearem apenas na forma e no tamanho de uma área suspeita.
A GluCEST é sensível a sinais associados ao glutamato, uma substância química envolvida na comunicação entre as células nervosas. A APT-CEST examina sinais associados a grupos amida em proteínas e peptídeos. Ambas usam a troca de sinais com a água para produzir informações adicionais sobre os tecidos.
Pesquisadores estudam essas abordagens para ajudar a avaliar tumores cerebrais e distinguir a volta de um tumor de alterações nos tecidos causadas pela radioterapia. Essa distinção é importante porque ambos podem produzir uma aparência anormal no exame, mas exigem decisões clínicas diferentes.
Hieu também apontou a detecção mais precoce de lesões pré-cancerosas como um objetivo. Essas lesões são áreas anormais que podem se transformar em câncer. O programa do hospital vincula essa meta à pesquisa, à interpretação por especialistas e à seleção de pacientes cujos exames anteriores não responderam a questões importantes.
Um sistema de corpo inteiro com aplicações de pesquisa mais amplas
O uMR Jupiter foi projetado para fazer imagens de outras partes do corpo além do cérebro. Entre as áreas previstas para o trabalho clínico e a pesquisa estão fígado, rins, pâncreas, próstata, sistema cardiovascular, músculos, ossos e articulações.
Os possíveis projetos incluem medir gordura e ferro no fígado, examinar o fluxo de sangue para o tecido renal, investigar lesões pancreáticas e avaliar alterações na próstata. O trabalho cardiovascular pode examinar mudanças no músculo cardíaco, incluindo fibrose, ou formação de cicatrizes.
A inteligência artificial faz parte do programa de pesquisa previsto. Algoritmos podem ajudar no processamento de imagens, inclusive na redução de interferências associadas à respiração e aos movimentos intestinais. Imagens mais nítidas podem ajudar os profissionais a examinar pequenas alterações e características dos tecidos.
A variedade de aplicações oferece ao hospital várias possibilidades de pesquisa, mas a prioridade clínica declarada continua sendo os casos difíceis. Entre os pacientes que pretende priorizar estão aqueles cujos exames diagnósticos atuais não forneceram informações suficientes.
A formação começou antes da inauguração
Médicos e técnicos de Hanói passaram várias semanas em treinamento em um sistema de 5T no Hospital Ruijin, em Xangai, antes de introduzir a tecnologia no Vietnã. O Hospital Ruijin é vinculado à Faculdade de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai.
A preparação e a inauguração reuniram formação clínica, cooperação em equipamentos e discussões científicas:
- Antes da abertura em Hanói, profissionais do hospital concluíram várias semanas de treinamento prático no Hospital Ruijin.
- Na manhã de 26 de outubro, o Hospital da Universidade de Medicina de Hanói colocou oficialmente em operação o aparelho de 5T.
- Durante o evento de inauguração, o hospital e a United Imaging Healthcare assinaram um memorando sobre aplicações clínicas, pesquisa e formação de especialistas.
- O simpósio See the Unseen, realizado em conjunto, reuniu mais de 400 participantes e especialistas em diagnóstico por imagem do Vietnã, da China e da Turquia.
O simpósio foi organizado pelo hospital, pela Sociedade Vietnamita de Radiologia e Medicina Nuclear e pela United Imaging Healthcare. Os participantes discutiram vasos sanguíneos cerebrais, neurologia, cardiologia e avanços na ressonância magnética com campos magnéticos muito intensos.
O embaixador chinês no Vietnã, He Wei, participou da inauguração ao lado do vice-ministro permanente da Saúde, Vu Manh Ha. O acordo de cooperação inclui transferência de tecnologia e apoio a médicos, engenheiros e técnicos vietnamitas, ligando a operação do equipamento às competências necessárias para interpretar e utilizar as imagens.
Desenvolver um programa de pesquisa com pacientes vietnamitas
A Universidade de Medicina de Hanói e seu hospital querem que o aparelho se torne uma infraestrutura compartilhada por departamentos clínicos, especialistas em diagnóstico por imagem e pesquisadores que trabalham com biotecnologia e inteligência artificial. A ambição inclui estudos com vários centros médicos, permitindo que dados de pacientes vietnamitas contribuam para pesquisas internacionais.
O hospital e a United Imaging Healthcare também anunciaram planos para criar um Centro de Treinamento e Pesquisa em Ressonância Magnética de 5 Teslas e Inteligência Artificial. Durante a inauguração, as descrições apresentaram o centro ora como já estabelecido, ora como um objetivo conjunto; não foi anunciada uma data definida para o início pleno de suas operações.
Imagens anonimizadas serão usadas como material didático e em cooperação científica. Anonimizar significa remover as informações que identificam o paciente antes que as imagens sejam compartilhadas para esses fins.
A universidade e o hospital pretendem desenvolver uma função de formação regional no âmbito da ASEAN. Médicos residentes, profissionais de pós-graduação e pesquisadores poderão adquirir experiência com diagnóstico por imagem avançado, enquanto a cooperação com outros hospitais poderá disseminar conhecimentos especializados para além da unidade de Hanói.
A ambição de longo prazo de Hieu é fazer com que o hospital deixe de apenas adotar tecnologias avançadas de diagnóstico por imagem e passe a ajudar a desenvolvê-las por meio da pesquisa. Isso inclui contribuir para orientações clínicas sobre diagnóstico, cirurgia e tratamentos intervencionistas.
Segurança, custos e resultados vão definir o acesso
O vice-ministro Vu Manh Ha relacionou o investimento às prioridades do Vietnã em diagnóstico precoce, transformação digital e desenvolvimento de hospitais que combinem tratamento, ensino universitário e pesquisa. Ele pediu o uso eficaz do equipamento, cooperação entre especialidades e publicação de resultados científicos relevantes.
Ha também pediu atenção especial à segurança em campos magnéticos, à triagem de pacientes com dispositivos implantados, à formação de profissionais e à manutenção. Antes de realizar o exame, é preciso avaliar cada dispositivo implantado de acordo com as orientações aplicáveis ao sistema de 5T.
Os custos dos serviços também influenciam o acesso. Ha pediu à universidade e ao hospital que definam preços razoáveis e administrem as despesas operacionais para que os pacientes possam usar a tecnologia avançada com segurança e eficácia. Hieu espera que o fortalecimento dos serviços de diagnóstico no Vietnã também reduza a necessidade de alguns pacientes buscarem tratamento no exterior.
Os três compromissos do hospital oferecem critérios concretos para avaliar o progresso: usar o aparelho em indicações clínicas adequadas, apoiar a pesquisa e a formação e avaliar os resultados com base em desfechos médicos e acadêmicos, e não no volume de exames.
Para os pacientes, a questão central é saber se os detalhes adicionais ajudam os médicos a fazer um diagnóstico mais precoce ou preciso e a escolher o tratamento. Para a universidade, o progresso também significará estudos publicados, especialistas capacitados e resultados de pesquisa capazes de melhorar a prática clínica.
Principais pontos
- O Hospital da Universidade de Medicina de Hanói começou a operar o sistema de ressonância magnética uMR Jupiter 5T em 26 de outubro, descrito como o primeiro do Sudeste Asiático.
- O diretor do hospital, Nguyen Lan Hieu, citou o caso de uma criança com epilepsia resistente ao tratamento cuja pequena alteração cortical foi identificada com mais clareza por imagens de 5T.
- As aplicações planejadas incluem doenças neurológicas, fluxo sanguíneo cerebral, avaliação de tumores e exames de outros órgãos.
- Profissionais receberam treinamento no Hospital Ruijin, em Xangai, e um novo acordo de cooperação abrange trabalho clínico, pesquisa e formação de especialistas.
- O hospital dará prioridade a casos difíceis e avaliará o sucesso pelos resultados em diagnóstico, pesquisa e formação, e não pelo número de exames.
- Autoridades de saúde pediram triagem de pacientes com implantes, segurança em campos magnéticos, manutenção e custos razoáveis dos serviços.






