Uma iniciativa para transformar a eletricidade do Cazaquistão em poder computacional
O plano do Cazaquistão de construir um cluster de computação para inteligência artificial de US$ 10 bilhões alcançou um marco concreto em 23 de outubro de 2026: a Firebird, empresa americana responsável pelo projeto, obteve uma licença de exportação dos Estados Unidos para 45 mil unidades de processamento gráfico Nvidia Grace Blackwell. A primeira fase da instalação, desenvolvida com a Kazakhtelecom em Ekibastuz, deve iniciar as operações comerciais no terceiro trimestre de 2027.
Conteúdo
- Uma iniciativa para transformar a eletricidade do Cazaquistão em poder computacional
- O que o acordo com a Firebird prevê construir
- Computadores já em operação e próximas metas de construção
- Por que o Cazaquistão quer uma IA que compreenda o cazaque
- Serviços públicos oferecem uma aplicação imediata da tecnologia
- Higgsfield aproxima desenvolvedores locais do capital internacional
- Robótica levaria a IA aos setores industriais do Cazaquistão
- Capacitação e conexões regionais completam a proposta
- As datas por trás da expansão
- Principais pontos
O fundador e diretor-executivo da Nvidia, Jensen Huang, visitou o Cazaquistão pela primeira vez naquele dia e se reuniu com o vice-primeiro-ministro e ministro da Inteligência Artificial e do Desenvolvimento Digital, Zhaslan Madiyev, no Centro Internacional de Inteligência Artificial Alem.ai, em Astana. Sua mensagem relacionou os recursos energéticos do país à ambição de vender serviços de computação para o exterior.
Huang descreveu o papel que acredita que o Cazaquistão poderia desempenhar no fornecimento da capacidade computacional necessária para desenvolver e operar IA:
Será um polo, um polo de computação, um polo de fábricas de IA para toda a Europa.
O Cazaquistão busca concretizar várias partes dessa ambição ao mesmo tempo: grandes centros de dados, modelos nacionais de IA que compreendam o cazaque, investimentos em desenvolvedores locais e robótica para setores como mineração e agricultura. A Nvidia participa por meio de seus chips, do investimento planejado na Firebird e do apoio anunciado recentemente à empresa de geração de vídeos Higgsfield.
O desafio imediato é transformar compromissos de investimento, capacidade elétrica e autorizações para chips em serviços operacionais. O Cazaquistão já utiliza sistemas de computação da Nvidia, enquanto os maiores projetos têm entrega prevista para mais adiante. A diferença entre essas etapas importa para empresas que buscam acesso à IA hoje e para investidores que esperam um mercado de computação muito maior amanhã.
O que o acordo com a Firebird prevê construir
O governo do Cazaquistão anunciou em junho planos para um investimento de US$ 10 bilhões em infraestrutura de IA com a Firebird, com o objetivo de criar um cluster equipado com 100 mil GPUs avançadas, incluindo chips da Nvidia. Uma GPU é um processador capaz de realizar muitos cálculos ao mesmo tempo, o que a torna útil para ensinar sistemas de IA a reconhecer padrões e para operá-los depois do treinamento.
O anúncio de 23 de outubro acrescentou um acordo de investimento com o governo cazaque e a licença de exportação dos Estados Unidos para 45 mil GPUs Grace Blackwell. O plano de junho descreve a ambição mais ampla de chegar a 100 mil GPUs; a licença de outubro abrange 45 mil unidades da Nvidia. A primeira fase comercial com a Kazakhtelecom é esperada para o terceiro trimestre de 2027.
A Nvidia pretende investir na Firebird, que busca expandir sua infraestrutura de IA em aproximadamente 2 gigawatts na Armênia, no Cazaquistão e em outros mercados. Esse número se refere à expansão mais ampla da Firebird, não apenas ao Cazaquistão.
Ekibastuz, no nordeste do Cazaquistão, é onde fica o Data Center Valley, polo de infraestrutura planejado que está no centro da proposta do país. O local dispõe de 300 megawatts de capacidade elétrica, com planos de expansão para 1 gigawatt. Como 1 gigawatt equivale a 1.000 megawatts, a expansão proposta elevaria a capacidade a mais de três vezes o nível atual.
O Cazaquistão promove custos competitivos de eletricidade, grandes reservas de terras e incentivos ao investimento para atrair desenvolvedores. Huang apontou três elementos necessários para uma economia de IA: eletricidade, dados e demanda por serviços de IA. Prédios e chips fornecem capacidade computacional; os clientes que a utilizam dão ao investimento uma finalidade comercial.
Computadores já em operação e próximas metas de construção
A Kazakhtelecom já instalou 880 GPUs da Nvidia em Astana e Almaty. A empresa planeja acrescentar mais de 2 mil GPUs em 2027, incluindo mais de mil processadores Nvidia Vera Rubin em Ekibastuz. O presidente Kassym-Jomart Tokayev também afirmou no início de outubro que dois clusters de supercomputação com tecnologia Nvidia haviam sido inaugurados no Cazaquistão.
O país também busca atrair outros investidores em infraestrutura. A GK Hyperscale, de Singapura, assinou um acordo com o governo para desenvolver dois centros de dados de hiperescala, com investimento esperado de US$ 1,5 bilhão e capacidade de TI combinada de 200 megawatts. Instalações de hiperescala abrigam grandes quantidades de equipamentos de computação e são projetadas para crescer conforme a demanda aumenta.
O projeto da GK Hyperscale também inclui um investimento planejado de US$ 1,2 bilhão em infraestrutura de energia. A previsão inicial era começar a construção no início de 2026, com a primeira unidade do centro de dados entrando em operação em 2027. Os 200 megawatts se referem à capacidade de TI, enquanto os números do Data Center Valley descrevem a capacidade elétrica disponível e planejada.
Os anúncios, portanto, descrevem diferentes etapas de desenvolvimento: equipamentos já instalados, eletricidade disponível para novas instalações e planos de investimento para construções futuras. O próximo marco comercial com data prevista para a instalação da Firebird e da Kazakhtelecom está entre julho e setembro de 2027.
Por que o Cazaquistão quer uma IA que compreenda o cazaque
Madiyev aproveitou a conversa com Huang para perguntar se o Cazaquistão deveria criar um equivalente próprio do ChatGPT, capaz de falar cazaque e compreender o contexto cultural do país. Ele afirmou que o Cazaquistão já havia desenvolvido vários modelos usando tecnologias com código disponível publicamente ou pesos de modelos que podem ser baixados.
Os pesos de um modelo são os parâmetros numéricos que um sistema de IA aprende durante o treinamento. Quando os desenvolvedores podem baixá-los, conseguem adaptar e operar um modelo existente em vez de construir tudo por conta própria. Madiyev perguntou em que momento valeria a pena desenvolver um modelo fundacional do zero.
Huang apoiou o desenvolvimento nacional de IA e descreveu o controle sobre os dados nacionais como uma questão de segurança. Ele comparou as informações sobre uma população, seu idioma e sua cultura aos recursos naturais de um país.
Huang explicou sua posição em termos de propriedade e controle:
Esses dados pertencem a vocês, assim como seus recursos naturais. Os dados da sua sociedade também fazem parte dos seus recursos naturais.
Huang elogiou o LLM cazaque do país pelo uso de dados nacionais. Um grande modelo de linguagem, ou LLM, aprende padrões da língua para gerar textos e responder a perguntas. Um modelo adaptado ao cazaque pode ser desenvolvido levando em conta o uso local do idioma e o contexto cultural, em vez de depender inteiramente de sistemas criados para outros mercados.
A infraestrutura nacional faz parte da mesma política. Huang argumentou que os países devem ter capacidade para fornecer serviços de IA a moradores, empresas e instituições públicas, assim como mantêm redes de eletricidade, internet e telecomunicações.
Serviços públicos oferecem uma aplicação imediata da tecnologia
O centro de serviços do Alem.ai deu a Huang uma visão de como o Cazaquistão já aplica a IA. O centro conta com o alem.gpt, um assistente de conversa que permite aos usuários interagir usando linguagem natural. Seus modelos são executados nos clusters de computação do Alem.Cloud, equipados com GPUs Nvidia H200.
A visita também incluiu demonstrações de serviços do eGov Mobile, entre eles documentos digitais, eGov QR e serviços bancários, como hipotecas digitais. Essas aplicações conectam o debate sobre infraestrutura a tarefas do cotidiano: encontrar um serviço, apresentar documentos e concluir transações.
O Cazaquistão declarou 2026 como o Ano da Digitalização e da Inteligência Artificial, criou um ministério dedicado e aprovou uma Lei de Inteligência Artificial. Tokayev relacionou o desenvolvimento da IA à competitividade e à soberania nacional. Huang descreveu o Cazaquistão como o primeiro país que visitou cujo presidente havia declarado a intenção de transformá-lo em uma nação de IA.
Huang também defendeu o desenvolvimento responsável à medida que sistemas cada vez mais autônomos passam a ter acesso a informações sensíveis e ferramentas digitais. Suas declarações em Astana vieram depois de seu alerta sobre desenvolvedores que não adotam práticas de segurança no Reino Unido, onde afirmou que consideraria interromper o fornecimento de chips após discutir preocupações com um cliente. A Nvidia também se comprometeu a fornecer US$ 250 milhões em recursos de computação ao longo de cinco anos para pesquisas britânicas sobre segurança em IA.
Higgsfield aproxima desenvolvedores locais do capital internacional
A Higgsfield, empresa de São Francisco que desenvolve tecnologia de vídeo com IA, tem mais de 300 pessoas trabalhando em equipes de engenharia e criação no Cazaquistão. Em 23 de outubro, a empresa anunciou que a Nvidia e a gestora de investimentos TCV haviam participado de uma extensão de sua rodada de financiamento Série B. O valor da extensão não foi divulgado.
Em agosto, a empresa havia captado US$ 400 milhões, com avaliação de US$ 5,4 bilhões. Sua presença no Cazaquistão acrescenta um negócio de software e criação a uma estratégia nacional frequentemente descrita em termos de centros de dados e fornecimento de eletricidade.
Yerzat Dulat, cofundador da Higgsfield e engenheiro cazaque de IA, descreveu a decisão da empresa de formar uma equipe expressiva no país:
Montar uma equipe no Cazaquistão foi uma aposta inesperada para muitos. Hoje, temos o apoio de alguns dos nomes mais influentes da tecnologia e da mídia.
Ao comentar o investimento da Nvidia, Huang também destacou os fundadores:
O mais importante, do começo ao fim, é investir nas pessoas, não nas empresas. E os fundadores da Higgsfield são visionários no trabalho que realizam.
Robótica levaria a IA aos setores industriais do Cazaquistão
O Cazaquistão apresentou uma estratégia para se tornar um polo global de IA física, baseada em três elementos: um ambiente institucional favorável ao desenvolvimento, infraestrutura moderna e profissionais qualificados. A IA física combina inteligência artificial com máquinas e sistemas que percebem e atuam no mundo real.
Huang apontou a mineração, a agricultura, a logística e a energia como áreas em que o Cazaquistão poderia desenvolver esses sistemas. Também mencionou aplicações em exploração geológica, análise sísmica, mapeamento de depósitos minerais e aprimoramento de processos industriais. Essas aplicações relacionam a IA a setores nos quais o país já tem experiência industrial.
Entre os exemplos de Huang estavam agricultores que usam robôs para ampliar suas operações, cientistas que trabalham com assistentes de IA e engenheiros que desenvolvem projetos mais avançados. O argumento dele era que a IA poderia ajudar pessoas de diferentes profissões a realizar tarefas maiores ou mais complexas.
Os testes de táxis autônomos propostos em Astana oferecem um exemplo concreto no setor de transportes. De acordo com o plano de testes de robotáxis em Astana, a inDrive pretende testar veículos da Pony.ai que usam tecnologia Nvidia no primeiro semestre de 2027. Os veículos iniciais teriam um operador de segurança a bordo, e o lançamento depende de um acordo com o governo do Cazaquistão.
O roteiro de Huang também incluiu startups que desenvolvem e fabricam drones, projetos de automação e uma apresentação do Data Center Valley. As demonstrações mostraram como o Cazaquistão quer que a infraestrutura de computação dê suporte a máquinas e serviços industriais, além de assistentes de conversa e geração de vídeos.
Capacitação e conexões regionais completam a proposta
O Astana Hub apoiou o Mês da IA, iniciado em 23 de setembro e encerrado com a visita de Huang em 23 de outubro. O programa reuniu desenvolvedores, startups, pesquisadores e empresas de tecnologia. Huang destacou a necessidade de formar especialistas e envolver jovens, universidades, cientistas e empresas na criação de demanda por IA.
O diretor-executivo do Astana Hub, Magzhan Madiev, apresentou o Startup City, um projeto digital que usa a interação entre participantes e elementos de jogos para ajudar startups a crescer internacionalmente. Huang também visitou o Museu da Singularidade do Alem.ai, autografou uma placa gráfica Nvidia RIVA TNT de 1998 para o acervo e conheceu o AI Cinema, que exibe conteúdo gerado por IA.
As ambições tecnológicas regionais do Cazaquistão também foram mencionadas na Declaração de Tianjin, que encerrou a cúpula de 2025 da Organização para Cooperação de Xangai. Os membros reconheceram o potencial de plataformas como um centro de inovação em IA no Cazaquistão. Um evento da OCS sobre IA em Astana, no início de outubro, reuniu representantes para discutir estratégias nacionais, regulamentação e cooperação tecnológica.
O interesse empresarial internacional vai além da computação. A operação da Volkswagen na China começou a liderar as exportações de veículos para o Uzbequistão no fim de junho de 2026, seguida algumas semanas depois pelo anúncio de entrada no Cazaquistão. Essa expansão usa operações de fabricação chinesas já existentes para atender a mercados vizinhos, enquanto a proposta de IA do Cazaquistão busca atrair nova infraestrutura de computação e exportar serviços digitais.
As datas por trás da expansão
Os anúncios do Cazaquistão vão da política nacional a acordos de investimento e possíveis lançamentos comerciais. Os principais marcos mostram que boa parte da expansão está prevista para 2027.
- 2025: A Declaração de Tianjin da OCS reconheceu o potencial de um centro de inovação em IA no Cazaquistão.
- Junho de 2026: O Cazaquistão anunciou o plano de infraestrutura de US$ 10 bilhões da Firebird, com a meta de alcançar 100 mil GPUs avançadas.
- Agosto de 2026: A Higgsfield captou US$ 400 milhões, com avaliação de US$ 5,4 bilhões.
- 23 de setembro de 2026: Começou o Mês da IA no Cazaquistão.
- 23 de outubro de 2026: Huang visitou Astana; foram anunciadas a licença da Firebird para 45 mil GPUs Grace Blackwell e a participação da Nvidia na extensão da rodada de financiamento da Higgsfield.
- Primeiro semestre de 2027: A inDrive pretende iniciar testes supervisionados de robotáxis em Astana.
- Terceiro trimestre de 2027: A primeira fase da instalação da Firebird com a Kazakhtelecom deve iniciar as operações comerciais.
O próximo teste prático do Cazaquistão é a execução: colocar em operação a capacidade computacional planejada e, ao mesmo tempo, desenvolver clientes, aplicações e equipes qualificadas para utilizá-la. As GPUs já instaladas, os modelos nacionais de idioma e a equipe da Higgsfield oferecem uma base para essa expansão mais ampla.
Principais pontos
- A Firebird obteve uma licença de exportação dos Estados Unidos para 45 mil GPUs Nvidia Grace Blackwell destinadas ao projeto no Cazaquistão.
- O plano mais amplo, de US$ 10 bilhões, tem como meta um cluster equipado com 100 mil GPUs avançadas.
- O Data Center Valley dispõe de 300 megawatts de capacidade elétrica e planeja chegar a 1 gigawatt.
- A primeira fase da instalação da Firebird com a Kazakhtelecom deve entrar em operação comercial no terceiro trimestre de 2027.
- A Nvidia e a TCV investiram na extensão da rodada de financiamento da Higgsfield; a empresa emprega mais de 300 pessoas no Cazaquistão.
- O Cazaquistão combina investimento em infraestrutura com modelos nacionais de idioma, aplicações para serviços públicos e ambições em robótica industrial.






