Recurso em caso de estupro leva significado de força ao plenário completo
A Suprema Corte da Coreia do Sul vai examinar se deve alterar um critério jurídico estabelecido em fevereiro de 1979, segundo o qual, em um caso de estupro, a violência ou intimidação deve tornar a resistência impossível ou substancialmente difícil. O caso foi encaminhado ao plenário completo, cuja primeira deliberação está marcada para o dia 22. O mês e a data de uma decisão final não foram informados.
Conteúdo
- Recurso em caso de estupro leva significado de força ao plenário completo
- O que o Ministério Público precisa comprovar
- Decisões anteriores mostram como o critério é aplicado
- Por que a decisão de 2023 é importante
- Como o debate jurídico se desenvolveu
- Por que o consentimento continua no centro da campanha
- A pressão em torno de uma denúncia de estupro
- O que os dados históricos revelam
- Pontos principais
O réu, identificado apenas como A, foi condenado em primeira instância, mas absolvido em recurso. O tribunal de apelação considerou insuficientes os fundamentos para concluir que A agiu com a intenção de cometer estupro e usou violência ou ameaças graves o bastante para atingir esse patamar. O Ministério Público recorreu, levando o caso à Suprema Corte em fevereiro do ano anterior.
A questão central é quanta força ou intimidação o Ministério Público precisa comprovar para obter uma condenação por estupro. Há 47 anos, a Corte mantém o requisito básico de que a conduta deve tornar a resistência da vítima impossível ou substancialmente difícil, orientando os juízes a considerar as circunstâncias do caso.
Uma mudança poderia afetar a forma como os tribunais avaliam encontros sexuais que envolvem força ou ameaças indesejadas, mas não chegam a esse patamar rigoroso. Também aproximaria a interpretação de estupro de uma mudança feita pela Suprema Corte em setembro de 2023 para o crime distinto de atentado ao pudor mediante força ou intimidação.
A análise ocorre em meio a uma campanha de longa data para que a falta de consentimento seja o elemento central da lei sobre estupro. O Parlamento não aprovou essas propostas, deixando para a Suprema Corte a tarefa de considerar o significado do requisito de violência e intimidação previsto na legislação atual.
O que o Ministério Público precisa comprovar
O artigo 297 do Código Penal da Coreia do Sul define o estupro como relação sexual obtida mediante violência ou intimidação. A pena prevista é de reclusão por prazo determinado, não inferior a três anos.
A Clínica Jurídica de Interesse Público da Faculdade de Direito da Universidade Sungkyunkwan apresentou essa redação em sua resposta ao questionário de 2020, enviada em 20 de agosto à relatora especial das Nações Unidas sobre violência contra as mulheres. A clínica respondeu que a definição se baseava em força ou ameaças, e não na falta de consentimento.
A lei e a interpretação da Corte cumprem funções diferentes. O artigo 297 aponta a violência e a intimidação como elementos do crime. A jurisprudência da Suprema Corte orienta os juízes sobre a gravidade que essa violência ou intimidação deve ter.
De acordo com a interpretação consolidada, os juízes avaliam se a força ou as ameaças tornaram a resistência impossível ou substancialmente difícil. Devem considerar a natureza e o grau da conduta, como ela ocorreu, a relação entre as pessoas envolvidas e as circunstâncias durante e depois da relação sexual.
Assim, o Ministério Público enfrenta tanto um limite jurídico quanto uma exigência de prova. Precisa demonstrar que a conduta alegada se enquadra na definição de estupro e provar a acusação além de qualquer dúvida razoável. Em termos simples, as provas devem convencer os juízes da culpa, sem deixar dúvida razoável sobre os fatos essenciais.
Decisões anteriores mostram como o critério é aplicado
A decisão de abril de 2001 da Suprema Corte, no processo 2001Do230, ilustra como o critério de resistência influenciou recursos. Em 27 de abril de 2001, a Corte anulou uma condenação por estupro com lesão corporal e devolveu o caso ao Tribunal Superior de Seul para nova análise.
Os ministros reiteraram que a violência ou intimidação deve tornar a resistência impossível ou substancialmente difícil. Também apontaram falhas no exame das provas, incluindo as declarações da denunciante, os relatos de outras testemunhas e as provas médicas. O tribunal de instância inferior precisava examinar as circunstâncias com mais cuidado antes de decidir se a acusação estava comprovada.
Quase uma década depois, a Suprema Corte voltou a aplicar o mesmo critério em sua decisão de novembro de 2010, no processo 2010Do9633. A Corte concluiu que o Ministério Público não havia provado, além de qualquer dúvida razoável, as acusações de estupro referentes aos dias 28 e 29 de outubro de 2009 e devolveu o caso ao Tribunal Superior de Seul.
A decisão de 2010 tratou tanto da confiabilidade das provas quanto da gravidade da violência ou das ameaças alegadas. Após considerar a relação entre as partes e as circunstâncias em torno da relação sexual, questionou se a conduta atingia o nível exigido. A decisão também manteve as conclusões do tribunal inferior sobre acusações distintas de agressão e intimidação.
Por que a decisão de 2023 é importante
A Suprema Corte já alterou um critério semelhante para o crime de atentado ao pudor mediante força ou intimidação. Em setembro de 2023, o plenário completo revisou uma interpretação que vigorava havia cerca de 40 anos.
Para esse crime, a Corte decidiu que a violência poderia consistir na aplicação ilegal de força física contra o corpo de outra pessoa. A intimidação poderia consistir em comunicar uma ameaça de dano capaz de provocar medo. O critério revisado deixou de exigir força ou ameaças graves o bastante para tornar a resistência substancialmente difícil.
O atual recurso por estupro leva uma questão relacionada ao plenário completo: se a Corte deve continuar exigindo esse nível elevado de força ou intimidação para o estupro, enquanto aplica uma interpretação mais ampla ao atentado ao pudor.
Na prática, está em jogo quais condutas os tribunais podem reconhecer como violência ou intimidação. Se a Suprema Corte reduzir o patamar, os juízes avaliarão as acusações de estupro com base em uma compreensão mais ampla desses termos. O Ministério Público ainda terá de provar todos os elementos exigidos pelo critério jurídico resultante.
Chae Da-eun, advogada especializada em casos de crimes sexuais, disse que as disposições atuais e sua interpretação têm sido criticadas por pressupor violência ou ameaças tão graves que a resistência se tornaria efetivamente impossível. Ela também afirmou que alguns tribunais de instância inferior interpretaram a violência e a intimidação de maneira mais ampla do que a jurisprudência consolidada.
Chae considera que a análise pelo plenário completo é uma oportunidade para resolver essas divergências de interpretação e responder ao movimento internacional que busca dar mais peso ao consentimento. Essa é a avaliação dela sobre o possível rumo da Corte; os ministros ainda não anunciaram sua decisão.
Como o debate jurídico se desenvolveu
A controvérsia se desenvolveu ao longo de décadas de decisões judiciais, mobilização e propostas legislativas. Algumas datas ajudam a explicar como a análise atual se insere nessa trajetória:
- Fevereiro de 1979: A Suprema Corte estabeleceu pela primeira vez que a violência ou intimidação em casos de estupro deve tornar a resistência substancialmente difícil.
- 27 de abril de 2001: O processo 2001Do230 reiterou o critério e exigiu um exame mais cuidadoso das provas antes que uma condenação pudesse ser mantida.
- 11 de novembro de 2010: O processo 2010Do9633 reafirmou o patamar e o dever do Ministério Público de provar a culpa além de qualquer dúvida razoável.
- Julho de 2018: O debate público destacou o requisito de resistência e a pressão enfrentada por algumas denunciantes diante de acusações jurídicas retaliatórias.
- 20 de agosto de 2020: A Clínica Jurídica de Interesse Público da Universidade Sungkyunkwan apresentou a uma relatora especial da ONU seu relato sobre a legislação sul-coreana de estupro e os obstáculos à denúncia.
- Setembro de 2023: A Suprema Corte reduziu o patamar de força e intimidação para o atentado ao pudor.
- O recurso atual: O plenário completo deve começar a analisar, no dia 22, se revisará o critério aplicado a casos de estupro.
A sequência mostra dois caminhos para mudar a lei na prática. O Parlamento pode reformular o crime, enquanto a Suprema Corte pode alterar a forma como os juízes interpretam a redação atual. O caso pendente diz respeito ao segundo caminho.
Por que o consentimento continua no centro da campanha
Organizações de mulheres têm pedido repetidamente que o estupro seja definido com base na ausência de consentimento. Órgãos de direitos humanos da ONU também instaram a Coreia do Sul a revisar sua definição nessa direção.
Uma lei centrada no consentimento pergunta se a pessoa concordou livremente com a atividade sexual. A abordagem atual da Coreia do Sul coloca a violência ou a intimidação no centro do artigo 297, e a jurisprudência determina o grau de gravidade exigido.
Essa diferença importa quando uma pessoa não consente com a relação sexual, mas é difícil comprovar a força ou as ameaças no nível exigido pela interpretação atual. As pessoas que defendem a mudança querem que a definição jurídica se concentre diretamente no consentimento, e não no grau de dificuldade da resistência.
A manifestação de 2020 da Clínica Jurídica de Interesse Público apontou esse problema como um obstáculo às denúncias e aos processos. Também descreveu ideias preconcebidas segundo as quais a violência sexual seria menos grave quando a mulher já teve experiências sexuais, manteve um relacionamento com o autor ou consentiu anteriormente em ter relações sexuais com ele. Segundo a clínica, essas ideias às vezes poderiam contribuir para a redução das penas.
Inglaterra, Alemanha, França, Canadá e alguns estados dos Estados Unidos adotaram abordagens jurídicas que atribuem papel central ao consentimento, embora os critérios previstos em lei variem. Parlamentares sul-coreanos apresentaram projetos relacionados várias vezes, mas as propostas não foram aprovadas antes do fim das respectivas legislaturas.
A Suprema Corte pode reavaliar o critério de força previsto no artigo 297. Substituir essa disposição por um crime definido expressamente com base na ausência de consentimento exigiria uma ação do Parlamento.
A pressão em torno de uma denúncia de estupro
Os debates jurídicos sobre o critério de resistência ocorrem ao lado de outro problema documentado em 2018: denunciantes que enfrentaram acusações criminais depois de relatar violência sexual ou falar publicamente sobre o assunto.
Uma funcionária de escritório de Seul identificada como D relatou que recebeu repetidas acusações de crimes como difamação, perjúrio e intimidação. O homem que ela acusou acabou condenado por estupro e sentenciado a dois anos de prisão, enquanto as acusações contra ela foram arquivadas. Ele continuou a persegui-la após sair da prisão, até que uma condenação por perseguição e intimidação em 2014 pôs fim à provação descrita em seu relato.
Seo Hye-Jin, da Associação Coreana de Advogadas, descreveu o efeito sobre as mulheres que avaliam se devem fazer uma denúncia:
Todo o sistema tem um efeito intimidatório sobre as mulheres,
As leis sul-coreanas sobre difamação criminal podem expor alguém a uma denúncia por acusações divulgadas publicamente, mesmo quando são verdadeiras, a depender das circunstâncias jurídicas. Relatar uma acusação à polícia e divulgá-la publicamente envolve riscos jurídicos diferentes. Processos por falsa acusação podem se tornar outra fonte de pressão durante um caso de violência sexual.
Em julho de 2018, o Ministério da Justiça orientou os promotores a esperar pela resolução do caso de abuso sexual subjacente antes de investigar a denunciante por falsa acusação. Essa medida tratou do momento das investigações, enquanto a campanha por mudanças na lei sobre estupro tratou da definição do próprio crime.
O que os dados históricos revelam
A Linha Direta para Mulheres da Coreia afirmou em 2018 que apenas cerca de 10% das denúncias de estupro que recebeu se enquadravam como estupro na legislação vigente na época. O número se referia às denúncias recebidas pela organização, cujo contato com sobreviventes lhe permitia observar diretamente a diferença entre as experiências relatadas e o patamar jurídico.
Dados atribuídos ao Instituto de Justiça mostraram que os promotores arquivaram 55% dos casos de crimes sexuais em 2016, ante 22% dos casos de homicídio e 26% dos casos de furto e roubo. O índice de crimes sexuais foi 33 pontos percentuais superior ao de homicídios e 29 pontos superior ao de furto e roubo.
Esses dados descrevem o contexto das acusações em 2016. A atual análise pelo plenário completo diz respeito a um aspecto desse contexto: o significado jurídico da violência e da intimidação nos casos de estupro.
Para A, a questão imediata é se a absolvição será mantida após o recurso do Ministério Público. Em casos futuros, a consequência mais ampla seria uma mudança no critério jurídico usado pelos juízes para avaliar a força e as ameaças. A Suprema Corte precisa decidir se mantém ou revisa o padrão e determinar como sua fundamentação se aplica a este recurso.
Pontos principais
- A Suprema Corte da Coreia do Sul encaminhou ao plenário completo um recurso por estupro para reavaliar um critério de força e intimidação que remonta a 1979.
- O teste atual exige uma conduta que torne a resistência impossível ou substancialmente difícil, avaliada conforme o contexto.
- O réu foi condenado em primeira instância e absolvido em recurso antes de o Ministério Público levar o caso à Suprema Corte.
- Uma decisão de setembro de 2023 reduziu um patamar semelhante para o atentado ao pudor mediante força ou intimidação.
- Grupos de mulheres e órgãos de direitos humanos da ONU pedem que a legislação sobre estupro tenha como foco a falta de consentimento.
- A primeira deliberação do plenário completo está marcada para o dia 22; a Corte ainda não anunciou uma decisão final.






