Prazo de novembro é incerto apesar de negociações mais intensas
O presidente das Filipinas, Ferdinand R. Marcos Jr., diz não poder ter certeza de que a ASEAN e a China concluirão um Código de Conduta para o Mar do Sul da China antes de o bloco regional transferir sua presidência rotativa para Singapura, em novembro. A cautela vem apesar da maior frequência das negociações e do esforço filipino para concluir o acordo em 2026.
Conteúdo
- Prazo de novembro é incerto apesar de negociações mais intensas
- Quatro questões ainda dividem os negociadores
- Até palavras comuns continuam em disputa
- Negociações mensais põem à prova a meta para 2026
- Um código para administrar incidentes, não para decidir a soberania
- Direitos marítimos continuam sendo uma questão jurídica separada
- Interrupção no estreito de Ormuz aumenta urgência da agenda marítima
- Abordagem diplomática de Manila enfrenta desafio de segurança
- O que Singapura herdará se as negociações continuarem
- Principais pontos
Em entrevista em Singapura, Marcos reconheceu avanços substanciais, mas não chegou a prometer que o texto estará concluído até a transferência. Ele disse que os esforços continuarão para resolver as questões pendentes. O código proposto pretende estabelecer regras para administrar confrontos em águas disputadas, onde encontros perigosos continuam ocorrendo sem um acordo vinculante que regule a conduta.
A diferença entre novembro e o fim do ano é importante. A secretária de Relações Exteriores, Ma. Theresa Lazaro, demonstrou confiança com ressalvas na conclusão até dezembro de 2026, enquanto as Filipinas esperam mostrar avanços quando os líderes da ASEAN se reunirem em Manila, em novembro. São objetivos relacionados, mas não representam o mesmo prazo.
Marcos também se mostrou mais otimista na 24ª Conferência Global de CEOs da Forbes, em Singapura, afirmando que a ASEAN e a China avançavam bem rumo à conclusão das negociações neste ano. Em conjunto, suas declarações descrevem um governo ainda comprometido com um acordo, mas que não quer garantir que as cláusulas mais difíceis serão definidas antes do fim de sua presidência.
As questões pendentes vão além da redação. Os negociadores ainda não definiram se o código será juridicamente vinculante, quais águas abrangerá, como se relacionará com a declaração de 2002 já existente e quais serão seus termos de referência. Reuniões mais frequentes criaram mais oportunidades de negociação, mas ainda não produziram um acordo sobre essas escolhas centrais.
Quatro questões ainda dividem os negociadores
Lazaro identificou quatro questões pendentes: o status jurídico do código, seu escopo geográfico, sua relação com a Declaração sobre a Conduta das Partes no Mar do Sul da China e seus termos de referência. Cada uma afeta o que o acordo final exigirá e como funcionará.
As Filipinas querem um código juridicamente vinculante que faça referência explícita à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS). Um acordo vinculante criaria obrigações jurídicas para suas partes. Isso, porém, não garante automaticamente o cumprimento, e os detalhes de monitoramento e resposta a violações continuariam sendo importantes.
O escopo geográfico determina onde as regras acordadas seriam aplicadas. A relação com a declaração de 2002 define como um novo código se articularia com os compromissos políticos já assumidos pela ASEAN e pela China. Os termos de referência estabelecem o marco no qual o acordo funcionará.
Lazaro não revelou os limites da negociação filipina nem os compromissos que Manila poderia aceitar, citando a sensibilidade das discussões. Não foram anunciadas a redação final nem medidas de aplicação acordadas. Portanto, dizer que as negociações avançam rumo a um código vinculante exige uma ressalva: o caráter vinculante continua sendo uma das questões em negociação.
Até palavras comuns continuam em disputa
A dificuldade fica evidente nas divergências sobre termos básicos. Em um fórum em Washington, no início de junho, Lazaro disse que os negociadores ainda não haviam chegado a uma definição de autocontenção, apesar de quase uma década de conversas. A expressão importa porque os governos precisam concordar sobre qual comportamento um compromisso efetivamente proíbe ou exige.
Marcos, falando como presidente das Filipinas e atual presidente da ASEAN na conferência empresarial em Singapura, descreveu como divergências de linguagem podem atrasar as negociações:
As discussões vêm acontecendo há algum tempo, e às vezes é um pouco frustrante que até as definições de palavras comuns estejam se tornando motivo de discórdia. Mas estamos determinados a chegar a um acordo e, esperamos, reduzir a escalada da situação,
Uma expressão compartilhada não basta se as partes a interpretam de maneiras diferentes quando navios se encontram no mar. Por isso, chegar a um acordo sobre as definições faz parte do conteúdo do código, e não é apenas uma etapa final de revisão do texto.
Negociações mensais põem à prova a meta para 2026
Lazaro disse que os negociadores da ASEAN e da China agora se reúnem todos os meses, uma frequência que ela descreveu como diferente da prática anterior. Ela também afirmou que o desejo de concluir o código existe dos dois lados, e não apenas entre os governos da ASEAN.
O ritmo acelerado vem na esteira dos preparativos de Manila para sua presidência. A pressão filipina por um acordo em 2026 incluiu propostas para rodadas de negociação mais frequentes e prazos mais apertados. As reuniões mensais mostram que o processo se intensificou, embora não indiquem o quanto as partes estão perto de resolver as cláusulas pendentes.
Os principais marcos mostram tanto a duração do esforço quanto o pouco tempo que resta sob a liderança filipina:
- 2002: A ASEAN e a China adotaram a Declaração sobre a Conduta das Partes no Mar do Sul da China, que não é vinculante.
- 2023: Os dois lados concordaram com diretrizes destinadas a acelerar as negociações do código.
- Início de 2025: Autoridades informaram que o texto preliminar havia passado por uma terceira leitura.
- Janeiro de 2026: As Filipinas assumiram a presidência da ASEAN e priorizaram a conclusão do código.
- 22 de junho de 2026: Lazaro descreveu as negociações mensais e manteve a meta de concluir o código ainda neste ano.
- Novembro de 2026: Os líderes da ASEAN devem se reunir em Manila, e a presidência rotativa está prevista para passar a Singapura.
- Dezembro de 2026: Chega ao prazo a meta declarada por Lazaro para concluir o acordo.
Questionada em sua entrevista de junho sobre a confiança na conclusão até dezembro, Lazaro, secretária de Relações Exteriores das Filipinas, respondeu com ressalvas:
Sou otimista; ao mesmo tempo, pragmática.
A cautela de Marcos em relação a novembro não abandona formalmente a meta para dezembro. Ela deixa claro, porém, que o objetivo político e o resultado das negociações continuam sendo coisas distintas.
Um código para administrar incidentes, não para decidir a soberania
O acordo proposto pretende reduzir encontros perigosos e mal-entendidos. Por si só, não decidiria a soberania sobre ilhas nem definiria fronteiras marítimas. Essas disputas envolvem processos jurídicos e diplomáticos distintos.
Marcos reconheceu essa diferença. Na conferência em Singapura, disse que a tarefa imediata talvez seja administrar o problema, em vez de resolvê-lo, para que erros e interpretações equivocadas não transformem confrontos em algo pior.
A declaração de 2002 não era juridicamente vinculante. Nos 24 anos desde sua adoção, a ASEAN e a China não concluíram regras vinculantes de conduta, enquanto embarcações filipinas foram alvo de perseguição, abalroamentos e jatos de água em confrontos com navios chineses. Esses incidentes explicam por que Manila quer mais do que outra declaração de intenções compartilhadas.
Uma análise anterior das regras em disputa no mar descreveu medidas práticas que um código confiável poderia incluir, como protocolos de comunicação, linhas diretas para crises e procedimentos para investigar incidentes. Essas são ferramentas possíveis, não cláusulas confirmadas de um acordo final.
O teste, portanto, tem duas partes: saber se os negociadores conseguem chegar a um texto e se esse texto oferece regras úteis aos governos e às equipes no mar. Uma data de conclusão, por si só, não responderia à segunda questão.
Direitos marítimos continuam sendo uma questão jurídica separada
Brunei, Malásia, Filipinas e Vietnã têm reivindicações que se sobrepõem às da China no Mar do Sul da China. As Filipinas usam o nome Mar das Filipinas Ocidentais para as águas de sua costa oeste, incluindo áreas dentro de sua zona econômica exclusiva e plataforma continental.
A UNCLOS estabelece o marco jurídico para as zonas marítimas. Uma zona econômica exclusiva pode se estender por até 200 milhas náuticas a partir das linhas de base costeiras de um Estado e lhe confere direitos soberanos sobre os recursos, incluindo pesca e energia offshore. Esses direitos sobre recursos são diferentes da soberania sobre toda a área marítima, e outros Estados mantêm direitos de navegação conforme o direito internacional.
A sentença arbitral de 2016 no caso iniciado pelas Filipinas rejeitou o fundamento jurídico da ampla reivindicação chinesa de direitos históricos na medida em que ultrapassava os direitos marítimos previstos pela UNCLOS. Também tratou dos direitos soberanos filipinos em partes de sua zona econômica exclusiva. A China rejeita a decisão.
Essa disputa jurídica não desaparecerá simplesmente com a assinatura de um código de conduta. A insistência de Manila em uma referência explícita à UNCLOS reflete sua posição de que as regras para encontros no mar devem se enquadrar no direito internacional vigente, e não substituir o marco jurídico dos direitos marítimos.
Interrupção no estreito de Ormuz aumenta urgência da agenda marítima
Lazaro relacionou as negociações do código à vulnerabilidade exposta pela crise no estreito de Ormuz. O conflito envolvendo o Irã começou em fevereiro, seguido por repetidas interrupções do transporte marítimo e preços do petróleo acima de US$ 100 por barril por um período prolongado. As economias do Sudeste Asiático sentiram os efeitos, apesar da distância em relação ao conflito.
Em sua entrevista de 22 de junho, Lazaro, falando como secretária de Relações Exteriores, relacionou essa experiência à importância de um acordo para o Mar do Sul da China:
Acho que o mundo inteiro ficará grato se conseguirmos elaborar este Código de Conduta. Este é o presente da ASEAN ao mundo.
As duas vias marítimas envolvem disputas e condições diferentes. A comparação de Lazaro dizia respeito à exposição econômica compartilhada a interrupções no transporte marítimo, e não à alegação de que o Mar do Sul da China enfrenta uma crise idêntica. Marcos também relacionou o código à liberdade de navegação e às necessidades do comércio global.
Na cúpula da ASEAN em Cebu, em maio, os líderes pediram a ratificação do Acordo de Segurança do Petróleo da ASEAN, a criação de um estoque regional de combustíveis e a aceleração dos trabalhos na Rede Elétrica da ASEAN. Essas iniciativas enfrentam a vulnerabilidade da região a choques energéticos, paralelamente ao esforço diplomático para manter as rotas marítimas seguras.
A implementação continua pendente. Marcos reconheceu questões não resolvidas sobre armazenamento e compartilhamento das reservas de combustível e sobre como definir prioridades em períodos de escassez. Em junho, Lazaro disse que ainda não havia cronogramas nem atualizações sobre ratificação entre os 11 membros da ASEAN, embora o acordo sobre petróleo tivesse entrado na pauta do Senado filipino. A resposta energética ilustra a mesma diferença observada nas negociações do código: concordar com um objetivo não resolve os detalhes operacionais.
Abordagem diplomática de Manila enfrenta desafio de segurança
As negociações também acontecem em paralelo a diferentes posturas públicas dentro do governo filipino. No Diálogo de Shangri-La, em Singapura, em maio, o secretário de Defesa, Gilberto Teodoro Jr., criticou a conduta de Pequim em águas disputadas e alertou que as negociações poderiam dar vantagens estratégicas à China, em vez de resolver as disputas.
Lazaro não negou a diferença de abordagem. Ela fundamentou seu compromisso com a diplomacia na autoridade do presidente sobre a política externa. Ao explicar sua posição como secretária de Relações Exteriores, disse:
Minha posição de que a diplomacia e o diálogo são muito importantes vem do responsável pela formulação da política externa. O responsável pela formulação da política externa é o presidente da República das Filipinas,
Essas posições evidenciam o desafio prático para Manila. O país busca estabelecer regras com Pequim enquanto responde às ações chinesas no mar e avalia se as negociações estão impondo limitações úteis. O apoio contínuo de Marcos ao processo não significa afirmar que um acordo está próximo ou que resolverá a disputa subjacente.
O que Singapura herdará se as negociações continuarem
Singapura se prepara para presidir a ASEAN em 2027. As prioridades anunciadas para a presidência de 2027 se concentram em fortalecer a integração econômica regional e ampliar parcerias globais, inclusive em energia e tecnologia. Um código para o Mar do Sul da China ainda não concluído acrescentaria a essa agenda uma negociação marítima em andamento.
A transferência em novembro é um marco de liderança, não o fim automático das negociações entre a ASEAN e a China. Se o texto não estiver pronto, Singapura herdará o processo, e não um acordo concluído. Não foi anunciado nenhum novo prazo além da meta filipina de dezembro de 2026.
O próximo teste concreto é a reunião de líderes em Manila, em novembro. As Filipinas esperam mostrar avanços, mas Marcos não prometeu a conclusão. As questões a acompanhar são se as partes definirão o caráter vinculante, a abrangência geográfica, a relação com a declaração de 2002 e o marco operacional.
Por enquanto, as reuniões mensais e as manifestações de otimismo demonstram que o esforço político continua. Elas não comprovam que os compromissos finais já tenham sido acertados. A cautela do presidente deixa em aberto tanto a conclusão ainda em 2026 quanto a continuidade das negociações durante a presidência de Singapura.
Principais pontos
- Marcos não pode garantir que o Código de Conduta para o Mar do Sul da China será concluído antes da transferência da presidência da ASEAN, em novembro.
- As Filipinas ainda buscam um acordo em 2026, e Lazaro demonstra otimismo com ressalvas sobre a conclusão em dezembro.
- Os negociadores da ASEAN e da China agora se reúnem mensalmente.
- O caráter vinculante, o escopo geográfico, a relação com a declaração de 2002 e os termos de referência continuam sem definição.
- O código serviria para administrar incidentes e mal-entendidos, não para decidir soberania ou fronteiras marítimas.
- Os líderes da ASEAN se reúnem em Manila em novembro, e Singapura assume a presidência em 2027.






