Uma morte às margens do rio revelou uma investigação muito mais ampla
Em 20 de novembro de 2024, o Tribunal Criminal da Tailândia condenou Sararat Rangsiwuthaporn à morte pelo assassinato de Siriporn Khanwong, uma amiga de 32 anos que desmaiou durante um ritual de soltura de peixes às margens do rio Mae Klong, no distrito de Ban Pong, em Ratchaburi. O tribunal considerou Sararat culpada de assassinato premeditado, roubo e adulteração de alimentos. Os pertences roubados de Siriporn foram avaliados em cerca de 150 mil baht.
Conteúdo
- Uma morte às margens do rio revelou uma investigação muito mais ampla
- Por que a família de Siriporn rejeitou a hipótese de ataque cardíaco
- A sobrevivente que reconheceu os próprios sintomas
- Empréstimos e grupos de poupança ligaram os casos
- Famílias questionaram mortes classificadas como naturais
- Como os investigadores reuniram as provas
- O que decidiu a primeira sentença
- Mais 14 processos e uma cronologia divergente
- As absolvições mostram por que cada acusação deve ser avaliada separadamente
- Principais pontos
A condenação foi a primeira decisão em uma série de 15 processos envolvendo 14 mortes e uma suposta tentativa de assassinato. A polícia relacionou os casos por meio de amizades, empréstimos e grupos de poupança, investigando mortes em várias províncias que remontavam a 2015. Sararat, conhecida como Aem ou Am, negou as acusações.
O que começou como uma morte inicialmente atribuída a um ataque cardíaco se transformou em uma investigação que envolveu uma segunda autópsia, imagens de câmeras de segurança, transferências bancárias e uma foto de entrega que, segundo os investigadores, ajudou a rastrear o cianeto até Sararat. Familiares que haviam questionado mortes anteriores se apresentaram após a prisão dela, em 25 de abril de 2023.
Os resultados judiciais não foram uniformes. Além de sentenças de morte e prisão perpétua, os tribunais absolveram Sararat em vários casos porque as provas não foram suficientes para estabelecer sua culpa. As reportagens também trazem datas e informações conflitantes sobre as sentenças, o que torna necessário distinguir a primeira condenação confirmada de relatos posteriores sobre processos separados.
A distinção central está entre a hipótese policial que relaciona 15 pessoas e as provas necessárias para comprovar cada acusação individual. O caso de Siriporn estabeleceu a responsabilidade criminal pelo assassinato dela. Isso não estabeleceu automaticamente a responsabilidade por todas as outras mortes investigadas.
Por que a família de Siriporn rejeitou a hipótese de ataque cardíaco
Em 14 de abril de 2023, Siriporn, conhecida pela família como Koy, disse à mãe que voltaria naquela noite e a levaria para fazer compras. Em vez disso, morreu às margens do rio, a cerca de 80 quilômetros a oeste de Bangkok, depois de ir até lá com Sararat para soltar peixes como parte de um ritual budista de acúmulo de mérito.
A família percebeu mais do que a morte súbita de uma jovem saudável. Os dois celulares dela estavam desligados, e sua bolsa e outros pertences haviam desaparecido. Sua irmã, Nipawan Khanwong, disse que, no início, a família teve dificuldade para convencer a polícia local a investigar mais a fundo.
O investigador independente Rapee Chamnanrua, amigo de Siriporn, ajudou a levar as preocupações da família a Surachate Hakparn, que foi vice-chefe nacional da polícia de 2022 a 2024. Rapee explicou por que o desaparecimento dos pertences tornava insuficiente a explicação inicial.
Um ataque cardíaco não faz os pertences desaparecerem.
Uma segunda autópsia, mais detalhada, detectou cianeto. Imagens de câmeras de segurança também mostraram que Siriporn estava acompanhada de Sararat no píer. Segundo a acusação, Siriporn consumiu alimentos e água com cianeto, desmaiou e não recebeu ajuda de Sararat, que levou seus pertences.
Após o veredito de novembro de 2024, a mãe de Siriporn, Thongpin Kiatchanasiri, segurou uma foto da filha do lado de fora do tribunal e falou sobre a decisão.
Você teve justiça, minha filha. Hoje, há justiça neste mundo.
A sobrevivente que reconheceu os próprios sintomas
Kantima Paesaard, conhecida como Pla, sobreviveu a um episódio que a polícia investigou posteriormente como tentativa de assassinato. Ela conhecia Sararat havia cerca de dez anos. Os maridos das duas, ou ex-marido no caso de Sararat, frequentaram a mesma turma da academia de polícia, e as famílias se visitavam com frequência.
Pla disse que ficou gravemente doente menos de 10 minutos depois de tomar um remédio herbal que Sararat lhe dera para a tosse. Ela teve dificuldade para respirar, chamou uma ambulância e sentiu as mãos ficarem cada vez mais rígidas antes de perder a consciência. Ao acordar no hospital, soube pelo marido que seu coração havia parado.
Pla, a única sobrevivente entre as 15 pessoas identificadas pela polícia, descreveu a dificuldade para respirar que sentiu.
Mas, por mais que eu tentasse respirar, não conseguia.
Na época, ela achou que tivesse tido uma reação alérgica. Sararat foi visitá-la no hospital, aparentemente preocupada. Dois meses depois, em novembro de 2022, Sararat levou pílulas para emagrecer à casa de Pla, após uma conversa em família sobre perda de peso. Pla não tomou os comprimidos.
Só depois que veio à tona a notícia do envenenamento de Siriporn é que Pla associou a própria doença aos sintomas ligados à exposição ao cianeto. Ela também relatou uma ligação financeira: havia emprestado 250 mil baht a Sararat por um mês e depois pediu o valor integral de volta porque precisava pagar o carro.
O fato de ter sobrevivido permitiu aos investigadores ouvir alguém capaz de descrever tanto a doença quanto a relação que a antecedeu. Ainda assim, esse depoimento precisava ser avaliado separadamente das provas relacionadas às mortes.
Empréstimos e grupos de poupança ligaram os casos
Os investigadores identificaram vários tipos de relação financeira: pessoas em grupos de poupança organizados por Sararat, amigos que emprestaram dinheiro diretamente a ela e pessoas que lhe deram dinheiro para que emprestasse ou investisse em outros lugares. Siriporn havia transferido 300 mil baht a Sararat para investimento, segundo a irmã.
Nesses grupos de poupança, os participantes reúnem contribuições regulares. Os integrantes podem tomar empréstimos do fundo, pagar juros a uma taxa acordada e continuar fazendo suas contribuições habituais enquanto quitam a dívida. Para alguns participantes, os juros são uma fonte de renda adicional. O sistema depende muito da confiança de que os demais integrantes cumprirão seus compromissos.
Piriya Pholphirul, professor de economia do Instituto Nacional de Administração do Desenvolvimento, descreveu a dimensão da participação na Tailândia.
Estima-se que milhões de tailandeses participem de grupos de poupança, com bilhões de baht em circulação.
A polícia alegou que dívidas e jogos de azar motivaram as ações de Sararat. Em maio de 2023, Surachate mencionou dívidas substanciais no cartão de crédito. Mais tarde, relatou um episódio em que ela teria perdido 10 milhões de baht em um cassino clandestino durante uma viagem entre Kanchanaburi e Nakhon Pathom.
Os valores ilustram as diferentes dimensões das relações financeiras. Surat Toraphap, outra suposta vítima, havia emprestado 50 mil baht a Sararat e, depois, mais 10 mil, totalizando 60 mil baht. A transferência de 300 mil baht de Siriporn foi cinco vezes maior. A perda relatada no jogo foi muito superior a qualquer um dos empréstimos, embora esses valores, por si só, não comprovem como cada pagamento foi usado.
Dificuldades financeiras podem explicar o motivo alegado pela polícia, mas não comprovam, por si só, um assassinato. Cada processo exige provas que liguem a ré ao envenenamento e à vítima em questão.
Famílias questionaram mortes classificadas como naturais
Em Mukdahan, Sawitree Budsrirak, conhecida como Nim, morreu em novembro de 2020, pouco depois de dar à luz. Seu marido, Nitipon Nuchit, trabalhava em Bangkok, a cerca de 650 quilômetros de distância, quando, sem conseguir falar com ela, entrou em contato por chamada de vídeo com o filho de cinco anos.
A criança apontou a câmera para a mãe, que estava deitada de bruços em um colchão. Nitipon achou inicialmente que ela estivesse dormindo. Quando outra chamada mostrou que ela continuava na mesma posição, ele pediu a um vizinho que fosse verificar. A filha recém-nascida estava por perto.
Ao descrever como encontrou a esposa morta, Nitipon lembrou da proximidade da filha pequena.
Nim foi encontrada morta na cama enquanto nossa filha dormia a poucos passos dali.
Nim havia entrado em um grupo de poupança on-line que envolvia Sararat para obter uma renda adicional. As reportagens divergem sobre a idade dela: dizem que tinha 40 ou 41 anos. Sua morte foi inicialmente tratada como natural.
Surat, conhecido como Bee, tinha 35 anos e havia estudado com Sararat. O irmão dele questionou sua morte súbita em Kanchanaburi e encontrou mensagens sobre dinheiro emprestado a Sararat. Essa morte também foi classificada como natural.
A cronologia varia entre os relatos: a narrativa da família situa a morte de Surat em janeiro de 2021, enquanto uma lista posterior de casos indica 6 de março de 2021. Não é possível resolver essa divergência sem consultar os autos do processo. Ambos os relatos descrevem uma morte súbita e a mesma ligação financeira.
Outra investigação envolveu Monthathip Khao-in, que morreu após voltar do exterior para a Tailândia. A mãe dela disse que Sararat a buscou no aeroporto e que ela morreu horas depois. O relato de maio de 2023 descreveu a morte como ocorrida sete anos antes, enquanto uma lista posterior indica 7 de julho de 2015. Essas datas também não coincidem exatamente.
Como os investigadores reuniram as provas
A investigação combinou exames toxicológicos, imagens de câmeras de segurança, registros financeiros e depoimentos. Em maio de 2023, o chefe nacional da polícia, Damrongsak Kittiprapas, afirmou que nenhuma testemunha tinha visto Sararat colocar cianeto em comida ou água, mas que os investigadores acreditavam ter provas circunstanciais e forenses suficientes para processá-la.
Provas circunstanciais não registram diretamente o ato alegado. Em vez disso, podem ligar acontecimentos por meio de fatos como compras, comunicações, transferências e deslocamentos. Seu valor depende de esses fatos estabelecerem de forma confiável a responsabilidade no caso individual.
Rapee descreveu uma foto de entrega que mostrava o cianeto sendo entregue junto ao Toyota Fortuner de Sararat. Uma pequena bolsa rosa da Hello Kitty aparecia ao lado da alavanca de câmbio. Segundo ele, os investigadores apreenderam a bolsa depois e encontraram um frasco com um número de registro que identificava o importador. A polícia também afirmou que Sararat recorria a outras pessoas para encomendar cianeto, em vez de comprá-lo em nome próprio.
O cianeto impede que as células utilizem o oxigênio adequadamente e pode causar rapidamente dificuldade para respirar, perda de consciência e parada cardíaca. Também tem usos industriais legítimos, inclusive em galvanoplastia e no processamento de ouro. Por isso, as provas de posse precisam estar ligadas ao uso ilegal.
O caso de Siriporn mostra que é possível detectar cianeto por meio de exames forenses específicos. A hipótese inicial de ataque cardíaco descreveu o evento médico aparente; o resultado toxicológico posterior forneceu provas da causa. Essa distinção ajudou os investigadores a reavaliar mortes que antes pareciam não ter relação entre si.
O que decidiu a primeira sentença
A decisão de 20 de novembro de 2024 condenou Sararat à morte pelo assassinato de Siriporn. O ex-marido dela, o ex-tenente-coronel da polícia Vitoon Rangsiwuthaporn, e a advogada Thannicha Aeksuwanwat também foram condenados por ajudar a ocultar provas ou a evitar que ela fosse punida.
As reportagens concordam que Vitoon recebeu uma pena de um ano e quatro meses de prisão. Elas divergem sobre a sentença de Thannicha. Uma reportagem diz que ambos foram inicialmente condenados a dois anos, pena reduzida para um ano e quatro meses em razão de depoimentos úteis. Outras reportagens, inclusive sobre processos posteriores, informam que a pena da advogada foi de dois anos.
Os valores de indenização também divergem. Uma reportagem diz que os três réus foram condenados a pagar, juntos, 2,4 milhões de baht à família de Siriporn. Outra afirma que Sararat foi condenada a pagar dois milhões de baht. É possível que os relatos descrevam responsabilidades diferentes, mas essa distinção não está estabelecida; portanto, os valores não devem ser tratados como equivalentes.
A posição de Vitoon mudou ao longo do processo. Em maio de 2023, o Tribunal Provincial de Nakhon Pathom o libertou temporariamente porque os investigadores ainda não haviam reunido provas que o ligassem aos crimes alegados. Na ocasião, a polícia descreveu acusações envolvendo bens roubados e documentos oficiais falsificados. Essa libertação anterior não foi uma decisão final sobre o caso posterior de ocultação de provas.
Em 26 de novembro de 2024, Thannicha pediu para deixar de atuar como advogada de Sararat, alegando divergências sobre a condução da defesa e a conclusão de seu trabalho no tribunal de primeira instância. Antes da primeira condenação, ela havia contestado a hipótese da polícia e questionado se as provas de envenenamento por cianeto demonstravam que Sararat havia fornecido o veneno.
Mais 14 processos e uma cronologia divergente
Em 26 de novembro de 2024, os investigadores entregaram aos promotores outros 14 processos. A entrega foi conduzida por Thanayut Wutthichatthamrong, chefe-adjunto nacional da polícia, com a participação de investigadores da polícia central e provincial. Anek Taosupap, vice-comandante da Divisão de Supressão de Crimes, disse acreditar que as provas eram suficientes para levar os casos à Justiça.
Os processos variavam bastante de tamanho. O processo de Pla continha 2.821 folhas em seis pastas. O processo de Pusadee Samboonmee tinha 3.479 folhas em oito pastas. Apesar de uma reportagem descrever a entrega como referente a 14 mortes, a própria lista inclui Pla, que sobreviveu.
Sanchai Chanphong, diretor-geral do Escritório de Litígios Criminais, disse que os promotores designariam responsáveis para examinar cada processo individualmente. Ele alertou que o impacto da primeira sentença sobre os outros casos precisava ser avaliado separadamente.
- 14 de abril de 2023: Siriporn morreu após viajar com Sararat até o rio Mae Klong, em Ratchaburi.
- 25 de abril de 2023: A polícia prendeu Sararat em Bangkok.
- 4 de maio de 2023: A polícia identificou publicamente 15 supostas vítimas, incluindo 14 mortos e uma sobrevivente.
- 20 de novembro de 2024: O Tribunal Criminal impôs a primeira pena de morte, pelo assassinato de Siriporn.
- 26 de novembro de 2024: Os investigadores entregaram outros 14 processos aos promotores.
Não é possível reunir relatos posteriores em uma única atualização confiável. Um relato de 22 de setembro, sem indicar explicitamente o ano, registra três sentenças de morte, duas de prisão perpétua e três absolvições. Uma retrospectiva separada, datada explicitamente de 25 de agosto de 2026, descreve sete decisões: duas sentenças de morte, duas de prisão perpétua e três absolvições. Ela identifica a sentença de morte no caso de Darinee Thepthawee como a sétima decisão.
A retrospectiva situa várias decisões em 2026, enquanto o relato de setembro menciona um total diferente. As datas e as contagens devem permanecer distintas, em vez de serem combinadas sem ressalvas.
As absolvições mostram por que cada acusação deve ser avaliada separadamente
A retrospectiva datada descreve absolvições nos casos envolvendo Nittaya Kaewbuppa, Rosjarin Nilhoi e Monthathip Khao-in. Segundo o texto, as decisões decorreram de lacunas nas provas que ligavam Sararat ao suposto envenenamento, à posse de cianeto ou ao motivo financeiro. No caso de Rosjarin, também afirma que a vítima quitou uma dívida e recuperou um veículo dado como garantia.
Esses resultados distinguem a suspeita dos investigadores das provas necessárias para uma condenação. A confiança da polícia em um padrão recorrente não substitui provas que estabeleçam a responsabilidade da ré em cada processo.
Winyoo Chanakul, vice-diretor do Instituto de Psiquiatria Somdet Chaopraya, também alertou contra tratar as dívidas como explicação completa para episódios repetidos de violência. Ele tem mais de 20 anos de experiência no atendimento a pacientes psiquiátricos que cometeram atos violentos, inclusive homicídios.
Uma pessoa com problemas financeiros a ponto de conseguir matar outras pessoas, e fazer isso repetidamente, não pode ser explicada apenas por razões financeiras. Caso contrário, todo mundo endividado estaria matando pessoas.
Os comentários dele não estabelecem um diagnóstico de Sararat. Eles contestam a ideia de que os problemas financeiros, por si só, expliquem o comportamento alegado pelos investigadores.
O relato de 22 de setembro afirma que os casos de Nim e Surat ainda não haviam ido a julgamento e indica 25 de novembro como a próxima data no processo de tentativa de assassinato de Pla, sem especificar o ano. Nem esse relato nem a retrospectiva posterior estabelecem o resultado do processo de Pla ou um histórico completo de recursos. Uma sentença de morte também não significa que a execução tenha ocorrido: segundo relatos, a Tailândia realizou apenas uma execução desde o fim de 2009, em 2018.
Principais pontos
- Sararat Rangsiwuthaporn recebeu sua primeira sentença de morte em 20 de novembro de 2024 pelo assassinato de Siriporn Khanwong.
- A polícia identificou 15 supostas vítimas: 14 pessoas que morreram e uma sobrevivente, Kantima Paesaard.
- A descoberta de cianeto na segunda autópsia, imagens de câmeras de segurança, registros financeiros e provas de entrega ajudaram a ampliar a investigação.
- Os investigadores entregaram outros 14 processos aos promotores em 26 de novembro de 2024.
- Outros processos resultaram em condenações e absolvições, e cada caso exige provas próprias.
- As reportagens divergem sobre o total de decisões posteriores, algumas datas, a sentença da advogada e os valores de indenização.
- A data informada de 25 de novembro para o caso da sobrevivente não especifica o ano, e o resultado não está estabelecido neste relato.






