Nepal pede US$ 20 milhões a fundo climático da ONU após enchentes mortais no Himalaia

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Nepal pede US$ 20 milhões a fundo climático da ONU após enchentes mortais no Himalaia

Evidências científicas fortalecem pedido de financiamento do Nepal

O Nepal se prepara para pedir cerca de US$ 20 milhões ao Fundo das Nações Unidas para Responder a Perdas e Danos, depois que uma enchente catastrófica matou cerca de 1.400 pessoas e deixou 6.150 desaparecidas, segundo números oficiais citados nos relatórios mais recentes. O dinheiro seria uma contribuição inicial para a recuperação de comunidades ao longo da fronteira do Nepal com o Tibete, onde enchentes e deslizamentos destruíram casas, estradas, instalações de energia e outras infraestruturas vitais.

Conteúdo
  1. Evidências científicas fortalecem pedido de financiamento do Nepal
  2. Como as mudanças climáticas podem ter tornado o desastre mais provável
  3. Por que o estudo é importante para o pedido do Nepal
  4. O Nepal enfrenta uma conta muito maior para a reconstrução
  5. A urgência do apoio esbarra na lentidão do financiamento
  6. Um teste para o sistema de perdas e danos
  7. O Nepal leva o caso às Nações Unidas
  8. Principais pontos

O pedido se apoiará fortemente em um novo estudo da World Weather Attribution, grupo de pesquisa que analisa o papel das mudanças climáticas causadas pela atividade humana em eventos extremos. O estudo concluiu que o aumento das temperaturas provavelmente ajudou a desestabilizar rochas, gelo e o solo congelado perto do Langtang Lirung, pico do Himalaia no lado nepalês da fronteira. O colapso provocou uma avalanche que lançou enormes volumes de detritos e água sobre comunidades rio abaixo.

O pedido do Nepal é apresentado enquanto países em desenvolvimento pressionam por acesso mais rápido aos recursos do fundo para perdas e danos. O fundo foi criado para ajudar países a lidar com destruição que não pode ser evitada apenas com medidas de adaptação, incluindo mortes, infraestrutura destruída, perda de moradias e danos à vida cultural e econômica.

Quase 120 países apresentaram pedidos que somam cerca de US$ 3 bilhões. O fundo, porém, teria menos de US$ 400 milhões disponíveis para distribuição, criando uma grande diferença entre os pedidos e os recursos disponíveis.

Como as mudanças climáticas podem ter tornado o desastre mais provável

O estudo não descreve as mudanças climáticas como a única causa das enchentes. Em vez disso, identifica o aquecimento como parte de uma cadeia de eventos que se combinou com fragilidades geológicas em um ambiente montanhoso instável.

Os pesquisadores constataram que, por influência humana sobre o clima, as temperaturas na região durante julho e agosto estavam cerca de 1,5 grau Celsius mais altas. As geleiras da região também vêm diminuindo cerca de meio metro por ano. À medida que o gelo glacial recua e o permafrost, ou solo permanentemente congelado, descongela, as encostas podem perder parte da resistência que as mantém unidas.

A forte queda de neve em outubro e novembro aumentou a quantidade de água disponível para o derretimento no início deste ano. A pressão resultante pode ter enfraquecido fraturas já existentes na montanha. Um terremoto de magnitude 7,8 que atingiu o Nepal em 2015 e provocou outra avalanche de rochas e gelo também pode ter danificado a rocha subjacente, embora os pesquisadores tenham dito não ser possível confirmar quanto o terremoto contribuiu para o colapso recente.

Os cientistas descrevem esse tipo de desastre como um evento composto. Isso significa que vários riscos interagem, em vez de uma única tempestade ou recorde de temperatura causar os danos. Neste caso, o aquecimento, a perda de geleiras, o descongelamento do solo congelado, a neve intensa e a instabilidade geológica parecem ter se combinado em um local perigoso.

Friederike Otto, climatologista do Imperial College London e coautora do estudo, disse que as evidências não deixam dúvidas de que o aquecimento causado pela atividade humana teve um papel nas condições que antecederam o desastre.

Não havia absolutamente nenhuma dúvida de que as mudanças climáticas causadas pela atividade humana tiveram um papel na preparação das condições que levaram ao desastre.

A formulação reflete um ponto fundamental da pesquisa de atribuição climática. Os cientistas podem identificar como o aquecimento altera a probabilidade ou a intensidade de um evento sem afirmar que ele causou diretamente todas as etapas do ocorrido.

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Por que o estudo é importante para o pedido do Nepal

O fundo das Nações Unidas exige que os países demonstrem que os danos para os quais buscam apoio estão relacionados às mudanças climáticas. Essa exigência torna as evidências científicas centrais para o pedido do Nepal.

Antes da divulgação do estudo, as autoridades nepalesas vinham reunindo imagens de satélite, gravações feitas por drones e avaliações preliminares dos danos. Esses registros podem mostrar a dimensão da destruição, mas, por si só, não estabelecem como as mudanças climáticas contribuíram para o colapso. A nova análise dá ao governo uma base científica mais sólida para relacionar o desastre ao aquecimento de longo prazo.

Maheshwar Dhakal, porta-voz do Ministério da Agricultura, Florestas e Meio Ambiente do Nepal, disse que o estudo será a principal base do pedido, pois detalha o papel das condições climáticas.

O relatório será a principal base do nosso pedido, pois detalha o papel do clima neste desastre.

O estudo ainda não foi publicado em uma revista acadêmica. A World Weather Attribution afirma que suas avaliações usam um método revisado para analisar eventos extremos, e as conclusões sobre o Nepal se baseiam em observações feitas por especialistas em geleiras e montanhas logo após as enchentes.

Simon Cook, especialista em geleiras da University of Dundee, descreveu a pesquisa como uma análise valiosa das causas subjacentes do desastre. Ele disse que ela apresenta fortes evidências de que o aquecimento foi um fator fundamental, mas ponderou que os cientistas ainda não conseguem explicar com precisão todos os aspectos do colapso.

O aquecimento climático acaba desestabilizando esses ambientes de alta montanha.

Cook também defendeu um monitoramento melhor das áreas de alta montanha, para que mudanças no gelo, nas rochas e na pressão da água possam ser detectadas antes de um colapso. É difícil instalar esses sistemas em terrenos remotos, mas eles podem dar tempo valioso para evacuações quando há comunidades rio abaixo.

O Nepal enfrenta uma conta muito maior para a reconstrução

O pedido proposto de US$ 20 milhões representaria apenas uma pequena parte do dinheiro que o Nepal diz precisar. Líderes do governo estimam que a reconstrução após o desastre pode custar cerca de US$ 5 bilhões. Os danos incluem casas destruídas, ligações de transporte, instalações de energia e atividades econômicas locais em comunidades fronteiriças.

Autoridades afirmam que a dimensão das perdas supera a capacidade de resposta do Nepal. Muitas comunidades afetadas ficam em áreas remotas, o que encarece o transporte, as operações de resgate e a reconstrução. Os danos à infraestrutura energética também podem prejudicar hospitais, comunicações, sistemas de abastecimento de água e empresas muito depois de as águas da enchente baixarem.

O desastre causou perdas econômicas e não econômicas. Entre as perdas econômicas estão edifícios, estradas, pontes, propriedades rurais e usinas danificadas. As perdas não econômicas incluem mortes, deslocamento de pessoas, ruptura de redes comunitárias, danos a patrimônios culturais e traumas emocionais. O fundo para perdas e danos se destina a enfrentar ambos os tipos de prejuízo, embora suas regras e recursos disponíveis continuem limitados.

O Nepal contribui muito pouco para as emissões globais de gases de efeito estufa em comparação com as grandes economias industrializadas. Seus líderes argumentam que esse desequilíbrio deve orientar a resposta internacional. O país está muito exposto ao aquecimento porque sua população vive perto de encostas frágeis, geleiras em rápida transformação e rios alimentados por neve e gelo.

O governo do Nepal tem usado a palavra “compensação” ao descrever o dinheiro de que precisa. Danya Liu, especialista em adaptação climática da BloombergNEF, disse que essa formulação aponta para o princípio de que quem polui deve pagar. Nesse modelo, os países e as empresas mais responsáveis pelas emissões históricas arcariam com uma parcela maior dos custos, em vez de países atingidos por desastres dependerem principalmente de ajuda.

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A urgência do apoio esbarra na lentidão do financiamento

O Nepal apresentou seu pedido após a enchente repentina de 26 de agosto perto do rio Bhote Koshi, que ocorreu após o colapso glacial próximo à fronteira entre o Nepal e o Tibete. Os ministros das Finanças e do Meio Ambiente do país pediram ao conselho do fundo que concedesse ajuda urgente, afirmando que a dimensão da destruição excedia a capacidade do governo de lidar com a situação sozinho.

Em uma carta datada de 9 de setembro, os copresidentes do fundo, Camila Minerva Rodriguez Tavarez e Georg Borsting, garantiram ao Nepal que estavam trabalhando com o conselho para avaliar uma resposta rápida. Eles disseram que o conselho examinaria todas as opções disponíveis para oferecer apoio da forma mais rápida e significativa possível.

Integrantes de países em desenvolvimento também pressionaram por medidas imediatas. Oito dos 14 membros do conselho do fundo oriundos de países em desenvolvimento, além de seis suplentes, teriam assinado uma carta pedindo uma reunião extraordinária. A carta dizia que o desastre correspondia ao tipo de crise relacionada ao clima para o qual o fundo foi criado.

O apoio de representantes de países em desenvolvimento indica ampla solidariedade política ao pedido do Nepal. Também revela divergências sobre a rapidez com que o fundo pode agir e o rigor com que os procedimentos existentes devem ser aplicados. Representantes de países desenvolvidos não assinaram o pedido de convocação de uma reunião extraordinária, segundo relatos sobre a resposta do conselho.

Representantes do fundo devem se reunir em dezembro para decidir quais pedidos podem ser aceitos e se o caso do Nepal deve receber uma decisão urgente. O processo pode determinar se o país receberá recursos enquanto as necessidades de resgate e reconstrução ainda são imediatas ou somente depois de passada boa parte da resposta inicial.

Um teste para o sistema de perdas e danos

O pedido do Nepal será acompanhado de perto por outros países vulneráveis. Se o fundo aceitar a solicitação rapidamente, isso poderá mostrar que evidências de um estudo de atribuição climática podem ajudar governos a obter apoio após desastres complexos que envolvam deslizamentos, colapso de geleiras e enchentes.

O caso também testa como o fundo lida com desastres que não seguem um padrão simples. Muitas vezes é possível comparar um ciclone ou uma onda de calor com registros históricos. Um colapso em uma montanha pode envolver, ao mesmo tempo, um terremoto, fraturas nas rochas, queda de neve, derretimento do gelo e aumento das temperaturas. Determinar o papel de cada fator é mais difícil, especialmente quando o evento ocorre em uma área com poucos dados de monitoramento.

Isso não torna irrelevante a relação com o clima. O aquecimento pode alterar as condições de base mesmo quando não provoca diretamente um colapso específico. Geleiras mais finas, o descongelamento do solo congelado e o aumento da água do degelo podem deixar encostas mais vulneráveis. Em geral, a questão científica é se o aquecimento tornou um desastre mais provável ou mais grave, e não se agiu sozinho.

Os recursos limitados do fundo acrescentam outra dificuldade. Pedidos que somam cerca de US$ 3 bilhões disputam menos de US$ 400 milhões, o que significa que até um pedido aprovado pode cobrir apenas uma pequena parte das perdas totais. O valor proposto pelo Nepal ajudaria a atender necessidades urgentes, mas ficaria muito aquém do custo estimado da reconstrução.

O Nepal leva o caso às Nações Unidas

O primeiro-ministro Balendra Shah deve discutir o desastre e a justiça climática na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, durante sua primeira viagem ao exterior como chefe de governo. Autoridades nepalesas querem que o evento seja visto como mais do que uma emergência nacional. Elas o consideram uma evidência dos custos crescentes enfrentados por países que pouco contribuíram para as emissões responsáveis pelo aquecimento global.

O ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal, disse que o apoio internacional deve ser avaliado sob a ótica da justiça climática, e não da caridade. Esse argumento reflete uma posição mais ampla dos países em desenvolvimento, que há anos buscam financiamento previsível para adaptação climática e recuperação.

Para o Nepal, a posição diplomática se apoia em dois pontos interligados. O país precisa de ajuda imediata após um desastre que destruiu vidas e infraestrutura. Também quer que o sistema internacional de financiamento reconheça que o aquecimento está mudando os riscos enfrentados por comunidades de montanha, mesmo quando a geologia e o clima locais continuam fazendo parte das causas.

O relatório científico não garante que o Nepal receberá o dinheiro solicitado. No entanto, oferece ao governo uma explicação mais clara de como as mudanças climáticas afetaram as condições que levaram à enchente. A decisão do fundo mostrará se esse tipo de evidência pode se traduzir em apoio oportuno.

Principais pontos

  • O Nepal pretende pedir cerca de US$ 20 milhões ao Fundo das Nações Unidas para Responder a Perdas e Danos.
  • Cerca de 1.400 pessoas morreram e 6.150 continuavam desaparecidas no desastre, segundo números oficiais citados em reportagens.
  • Um estudo da World Weather Attribution relacionou o aquecimento à perda de geleiras, ao descongelamento do solo congelado e à instabilidade perto do Langtang Lirung.
  • O Nepal estima que a reconstrução de comunidades e infraestruturas danificadas pode custar cerca de US$ 5 bilhões.
  • Quase 120 países pediram cerca de US$ 3 bilhões a um fundo com menos de US$ 400 milhões disponíveis para distribuição.
  • Espera-se que o conselho do fundo analise o pedido do Nepal e a possibilidade de apoio urgente em uma reunião em dezembro.
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