Milhões de crianças enfrentam ameaças simultâneas
No Nepal, 9,9 milhões de crianças estão expostas à poluição do ar prejudicial à saúde, 7,3 milhões à seca e 5,7 milhões a dias de calor extremo, segundo um informe de advocacy do UNICEF divulgado em 5 de novembro de 2026. Estima-se que 2,4 milhões de crianças enfrentem vários riscos climáticos de alta intensidade, o que dificulta a recuperação das famílias quando ocorrem desastres.
Conteúdo
- Milhões de crianças enfrentam ameaças simultâneas
- A poluição do ar lidera um amplo padrão de exposição
- Seca e calor afetam o cotidiano
- Lacunas no acesso à água e à nutrição aumentam a vulnerabilidade
- As crianças com menos recursos enfrentam riscos maiores
- Os danos das enchentes vão além das salas de aula
- Declaração do Nepal estabelece compromisso público
- Para onde o UNICEF quer direcionar o financiamento climático
- Jovens querem participar das decisões
- Principais pontos
O informe, Crescer em um hotspot climático: os riscos que moldam a vida e o futuro das crianças do Nepal, reúne dados nacionais e globais. Seu principal alerta vai além de enchentes, calor e prédios danificados: as pressões ambientais ameaçam a saúde, a alimentação, a educação e a proteção de que as crianças precisam todos os dias.
O UNICEF também estima que 2,9 milhões de crianças estão expostas a deslizamentos de terra provocados pelas chuvas. Os números abrangem grupos sobrepostos de crianças, e algumas enfrentam várias ameaças no mesmo lugar.
As conclusões vêm à tona enquanto o Nepal se prepara para participar da COP31, a conferência das Nações Unidas sobre o clima na Türkiye, após aderir à Declaração sobre Crianças, Jovens e Ação Climática em 29 de outubro. O UNICEF quer que esse compromisso se traduza em orçamentos governamentais, serviços públicos e decisões sobre a destinação dos recursos climáticos.
Alice Akunga, representante do UNICEF no Nepal, descreveu a ameaça em termos dos direitos das crianças:
A crise climática está se tornando cada vez mais uma crise dos direitos das crianças.
Akunga afirmou que as consequências atingem os pilares da infância:
As crianças foram as que menos contribuíram para a mudança climática, mas estão entre as que sofrem suas consequências mais graves. Cada enchente, seca, onda de calor e episódio de poluição ameaça a saúde, a nutrição, a educação e a proteção das crianças.
A poluição do ar lidera um amplo padrão de exposição
Entre as ameaças quantificadas no informe, a poluição do ar prejudicial à saúde atinge o maior número de crianças. São 9,9 milhões expostas à poluição do ar, 2,6 milhões a mais do que as 7,3 milhões expostas à seca.
O UNICEF considera a poluição junto com os riscos climáticos e de desastres porque essas pressões podem afetar as mesmas crianças e os serviços que as atendem. Uma criança que vive exposta ao ar poluído também pode enfrentar calor extremo, falta de água ou interrupções nas aulas durante chuvas fortes.
A estimativa de 2,4 milhões de crianças que enfrentam múltiplos riscos climáticos de alta intensidade torna particularmente urgente planejar ações que envolvam vários serviços. Famílias que se recuperam de uma emergência podem ter pouco tempo ou dinheiro para se preparar para outra.
Para as autoridades públicas, o desafio prático é considerar em conjunto o entorno de cada criança: o ar que ela respira, a regularidade do abastecimento de água, a segurança da escola e a capacidade dos serviços de saúde próximos de continuar funcionando.
Seca e calor afetam o cotidiano
A exposição à seca afeta 7,3 milhões de crianças, com riscos que vão da água potável aos meios de subsistência das famílias, à produção agrícola e à nutrição. Quando a água escasseia, famílias e propriedades rurais sofrem pressão ao mesmo tempo, vinculando a saúde das crianças aos recursos disponíveis em casa.
A produção de alimentos é importante porque as famílias dependem da agricultura tanto para o que comem quanto para obter renda. As conclusões do UNICEF relacionam a seca à nutrição por meio dessas necessidades cotidianas, em vez de tratar a escassez de água como um problema ambiental isolado.
Dias de calor extremo expõem outras 5,7 milhões de crianças a riscos que afetam a saúde, o bem-estar, a aprendizagem e a rotina diária. Por isso, o calor deve ser levado em conta nas decisões sobre educação e serviços de saúde, assim como no planejamento de emergências.
O apelo do UNICEF à adaptação significa preparar-se para essas pressões e reduzir seus danos. Neste caso, a agência pede aos governos que tornem os serviços essenciais mais confiáveis em condições climáticas difíceis, incorporando as necessidades das crianças ao planejamento e ao financiamento.
Lacunas no acesso à água e à nutrição aumentam a vulnerabilidade
Apenas 47,5% da população do Nepal tem acesso a serviços de água potável geridos de forma segura, afirma o informe. Isso deixa 52,5%, pouco mais da metade, sem esse nível de serviço. Água potável gerida de forma segura é aquela proveniente de uma fonte melhorada, disponível quando necessária, acessível no domicílio e livre de contaminação.
O UNICEF associa esse dado a outros dois indicadores de vulnerabilidade: uma em cada quatro crianças menores de cinco anos tem baixa estatura para a idade, e 22% das crianças vivem em situação de pobreza multidimensional.
Baixa estatura para a idade significa que uma criança é baixa demais para sua idade e reflete problemas prolongados de nutrição, saúde ou ambos. A pobreza multidimensional mede privações que se sobrepõem no cotidiano, em vez de considerar apenas a renda.
Essas condições ajudam a explicar por que um choque climático pode ter consequências muito depois de as águas das enchentes baixarem ou as temperaturas caírem. Crianças que já enfrentam nutrição inadequada ou acesso limitado a serviços têm menos recursos para apoiar sua recuperação.
O UNICEF afirma que os choques climáticos também aumentam os riscos de surtos de doenças, trabalho infantil, casamento infantil e interrupção da educação. A resposta proposta pela agência articula saúde e nutrição com água, saneamento, educação e serviços que protejam as crianças contra danos.
As crianças com menos recursos enfrentam riscos maiores
Segundo o informe, crianças que vivem na pobreza, meninas, crianças com deficiência e crianças de comunidades historicamente marginalizadas enfrentam riscos desproporcionalmente altos. Crianças em áreas remotas vulneráveis a riscos climáticos também têm mais dificuldade para enfrentar desastres e se recuperar depois deles.
O UNICEF pede aos governos e às instituições financiadoras que levem em conta idade, gênero e deficiência ao investir em serviços. Os serviços precisam continuar acessíveis e utilizáveis para as crianças que deles precisam, inclusive durante uma emergência.
Também se pede aos governos nacionais e locais que usem dados desagregados sobre riscos climáticos com foco nas crianças. Dados desagregados são números divididos em grupos menores, por exemplo, por localização, idade, sexo ou deficiência, para que os responsáveis pelo planejamento identifiquem diferenças nas necessidades.
Os totais nacionais mostram a dimensão da exposição. Informações mais detalhadas podem ajudar as autoridades a decidir quais comunidades precisam de investimentos prioritários e quais serviços devem ser adaptados para atender às crianças que enfrentam as maiores dificuldades.
Os danos das enchentes vão além das salas de aula
Jayanti Bam, 16 anos, defensora da Ação Climática Jovem do UNICEF Nepal, afirmou que as crianças já sentem os efeitos imediatos da mudança climática:
A mudança climática não é um problema futuro para as crianças; já está afetando nossas vidas hoje.
Em um relato em primeira pessoa, Bam lembrou que soube por meio de um vídeo que sua escola fecharia por vários dias devido a uma enchente repentina, dois anos antes. Ver a chuva fora de época alagar as ruas lhe causou apreensão, em vez da alegria que talvez sentisse em outras circunstâncias com o fechamento da escola. Ela descreveu essa experiência como o momento em que a mudança climática passou a fazer parte de sua vida cotidiana.
Bam descreveu as perdas mais amplas que as crianças sofrem quando uma enchente danifica uma escola:
Quando as enchentes danificam as escolas, as crianças não perdem apenas as salas de aula. Perdemos oportunidades de aprendizagem, rotinas, amizades e a sensação de segurança.
Seus comentários relacionam os danos materiais à estrutura cotidiana que as escolas oferecem. Reconstruir uma sala de aula atende a uma necessidade; retomar a aprendizagem regular, o contato com amigos e uma rotina segura atende a outras.
Em seu relato, Bam falou das enchentes de 26 de agosto, que afetaram cerca de 84.270 pessoas, incluindo 32.021 crianças nos distritos de Rasuwa, Nuwakot e Dhading. Ela descreveu a perda de casas e escolas como uma perda de oportunidades de aprendizagem, amizades, segurança e esperança, enquanto as aspirações das crianças são deixadas de lado e as famílias lutam para reconstruir suas vidas.
Ela também descreveu como os desastres relacionados ao clima podem interromper o acesso à água potável segura, aos serviços de saúde, a abrigos e a alimentos nutritivos. A má nutrição pode afetar o crescimento e a capacidade de aprendizagem das crianças muito depois de um desastre, enquanto as interrupções podem aumentar a exposição delas à violência, à exploração e à negligência.
Bam pediu aos responsáveis pelas decisões que invistam em escolas e serviços capazes de resistir às pressões climáticas. Também pediu que escutem as crianças e ofereçam aos jovens oportunidades significativas de ajudar a moldar seu futuro.
Entre seus pedidos concretos estão espaços temporários seguros para aprendizagem e alternativas de ensino quando as escolas fecharem, acesso contínuo à água potável e aos serviços de saúde, além de proteção contra violência, abuso, exploração e casamento infantil. Em um apelo às lideranças que se preparam para a COP31, ela pediu políticas e investimentos que protejam a educação, a saúde, a nutrição, a segurança e o direito das crianças a um ambiente saudável.
Declaração do Nepal estabelece compromisso público
O governo aderiu à Declaração sobre Crianças, Jovens e Ação Climática na Cúpula Nacional do Clima, em 29 de outubro. A declaração compromete os governos com ações climáticas que reconheçam os direitos, as necessidades e as contribuições das crianças e dos jovens.
Lançada na COP25, a declaração conta com a adesão de 78 países. Segundo o UNICEF, a adesão do Nepal se baseia no reconhecimento de que seu planejamento climático responde de forma particularmente adequada às necessidades das crianças.
As Contribuições Nacionalmente Determinadas do Nepal (NDC 3.0) são consideradas um dos planos climáticos mais favoráveis às crianças do mundo. Em seu relato, Bam saudou essa prioridade, mas afirmou que os compromissos precisam levar a mudanças concretas nas escolas e comunidades, em vez de permanecer no papel.
A sequência reúne as novas conclusões, o compromisso do governo e uma próxima etapa internacional:
- COP25: Lançamento da Declaração sobre Crianças, Jovens e Ação Climática.
- 29 de outubro de 2026: O Nepal aderiu à declaração durante sua Cúpula Nacional do Clima.
- 5 de novembro de 2026: O UNICEF divulgou seu informe de advocacy sobre os riscos enfrentados pelas crianças do Nepal.
- COP31 na Türkiye: A declaração assinada pelo Nepal deverá ser formalmente entregue a representantes do UNICEF.
O UNICEF pede que os direitos e as necessidades das crianças sejam incorporados às políticas climáticas, aos planos de adaptação, às estratégias de redução de riscos de desastres e ao financiamento climático. Isso vincularia os compromissos da declaração às decisões sobre gastos públicos e prestação de serviços.
Para onde o UNICEF quer direcionar o financiamento climático
O UNICEF pede aos governos, parceiros de desenvolvimento e instituições de financiamento climático que ampliem os investimentos em adaptação voltada às crianças e em medidas para lidar com perdas e danos. A adaptação reduz os danos causados pelas pressões climáticas; perdas e danos dizem respeito aos prejuízos que ocorrem apesar dos esforços para evitá-los ou para se preparar para eles.
O UNICEF aponta como prioridades saúde, nutrição, água, saneamento e higiene, educação, proteção infantil e proteção social. A proteção social inclui apoio que ajuda as famílias a atender às necessidades básicas e enfrentar choques.
O pedido articula diferentes aspectos da recuperação. Uma escola em funcionamento, água potável confiável, apoio nutricional e ajuda a uma família em dificuldade podem ser importantes para a mesma criança. O UNICEF quer que o financiamento climático leve em conta essas necessidades interligadas.
Pede-se ao setor privado que apoie infraestruturas capazes de resistir às pressões climáticas, energia limpa e inovações que protejam o bem-estar das crianças. O anúncio não informa um valor total específico nem um cronograma para a realização desses investimentos.
Jovens querem participar das decisões
As crianças e os jovens já lideram iniciativas climáticas locais e defendem ações mais fortes, afirma o informe. O UNICEF quer ampliar sua participação para incluir decisões climáticas nos níveis local, nacional e global.
Bam afirmou que lidera iniciativas em sua escola e comunidade voltadas ao plantio de árvores, à gestão de resíduos, à conservação da água e à conscientização sobre o clima. Ela argumentou que as crianças trazem experiência direta e soluções, e que uma participação significativa exige que suas opiniões sejam ouvidas, valorizadas e consideradas nas decisões, e não apenas que tenham um lugar em uma reunião.
O apelo de Bam relaciona a participação a prioridades concretas: escolas mais seguras, serviços confiáveis e oportunidades de influenciar decisões que afetam a vida dos jovens. Da mesma forma, o UNICEF pede aos governos que coloquem as crianças no centro de políticas, orçamentos e programas.
O próximo passo internacional do Nepal é a planejada entrega da declaração na COP31. A tarefa interna descrita pelo UNICEF é mais ampla: direcionar investimentos às crianças mais expostas, fortalecer os serviços dos quais dependem e incluí-las nas decisões sobre como esses serviços devem mudar.
Principais pontos
- O UNICEF estima que 9,9 milhões de crianças no Nepal estão expostas à poluição do ar prejudicial à saúde.
- A seca afeta 7,3 milhões de crianças, os dias de calor extremo afetam 5,7 milhões e os deslizamentos de terra provocados pelas chuvas ameaçam 2,9 milhões.
- Cerca de 2,4 milhões de crianças enfrentam múltiplos riscos climáticos de alta intensidade.
- Apenas 47,5% da população tem acesso a água potável gerida de forma segura, enquanto uma em cada quatro crianças menores de cinco anos tem baixa estatura para a idade.
- O Nepal aderiu à Declaração sobre Crianças, Jovens e Ação Climática em 29 de outubro, antes da planejada entrega na COP31, na Türkiye.
- O UNICEF defende mais investimentos em serviços essenciais, dados detalhados sobre riscos e participação significativa de crianças e jovens.






