Um alerta sobre moradias, lavouras e a possibilidade de permanecer
Até 40,5 milhões de pessoas no Sul da Ásia podem se deslocar dentro de seus próprios países até 2050, à medida que as pressões climáticas comprometem o abastecimento de água, a agricultura e as comunidades costeiras. Amy Pope, diretora-geral da Organização Internacional para as Migrações (OIM), destacou essa estimativa mais alta durante uma visita a Nova Délhi em 16 de outubro de 2026 e pediu que os governos ajam com antecedência para proteger os meios de subsistência.
Conteúdo
- Um alerta sobre moradias, lavouras e a possibilidade de permanecer
- O que mede a estimativa de 40,5 milhões
- Um alerta regional em meio a um desafio global
- Por que outras estimativas chegam a quase 63 milhões
- Das enchentes no Himalaia às colheitas perdidas
- As cidades oferecem trabalho, mas também enfrentam pressões climáticas
- Prever os riscos antes que as pessoas precisem fugir
- Financiar a preparação, em vez de repetir as respostas a emergências
- Trabalho no exterior mais seguro e capacitação para profissões em transformação
- Principais pontos
O número tem uma base específica: a modelagem de 2018 do Banco Mundial sobre migração interna relacionada ao clima. Seu cenário mais pessimista apontou um intervalo de 30,9 milhões a 40,5 milhões de pessoas, com uma média de 35,7 milhões. As projeções dizem respeito a deslocamentos dentro das fronteiras nacionais à medida que as condições ambientais se deterioram gradualmente.
Pope descreveu uma emergência mais ampla, envolvendo a elevação do nível do mar, secas, calor e enchentes devastadoras. No Nepal, ela mencionou um colapso de montanha e geleira em 26 de agosto, que provocou enchentes mortais e levou a OIM a enviar ajuda humanitária.
Para famílias que vivem da agricultura, a pressão para partir pode começar antes de a casa ser destruída. Uma colheita perdida ou a falta de forragem podem eliminar a renda e os alimentos que tornam possível permanecer. Pope explicou como essa perda dos meios de subsistência transforma o estresse ambiental em migração:
Quando não conseguem produzir alimentos, quando não conseguem alimentar o gado, aumenta a probabilidade de deslocamento. Muitas vezes, a primeira forma de adaptação é as pessoas se mudarem.
As decisões dos governos podem alterar a dimensão desses deslocamentos. Os cenários do Banco Mundial mostram totais muito menores quando o desenvolvimento se torna mais inclusivo ou as emissões globais caem. A mensagem de Pope foi que previsões melhores, apoio prático e rotas seguras de emprego podem dar às pessoas mais controle sobre se mudar, quando e para onde.
O que mede a estimativa de 40,5 milhões
A nota do Banco Mundial de 2018 sobre o Sul da Ásia, parte de sua pesquisa Groundswell, analisa a migração impulsionada por mudanças graduais na disponibilidade de água, na produtividade das lavouras, no nível do mar e nas marés de tempestade. São pressões que podem tornar, pouco a pouco, um lugar mais difícil para viver ou obter renda.
O cenário pessimista combina altas emissões de gases de efeito estufa com desenvolvimento desigual. Sua estimativa mais alta, de 40,5 milhões, representa cerca de 1,8% da população projetada para a região em 2050. Nesse cenário, a migração interna relacionada ao clima pode aumentar seis vezes entre 2020 e 2050.
A mesma modelagem aponta uma média de 21,1 milhões de migrantes climáticos internos com um desenvolvimento mais inclusivo, em comparação com 35,7 milhões no cenário pessimista. Um cenário de emissões mais baixas aponta uma média de 16,9 milhões. Comparadas à média do cenário pessimista, essas reduções são de cerca de 41% e 53%, respectivamente.
O Banco Mundial descreve esses números como um conjunto de resultados plausíveis para fins de planejamento. O total final dependerá das emissões, das políticas de desenvolvimento e de como as mudanças ambientais afetarem lugares específicos. A pesquisa também identifica pessoas que podem ficar presas em áreas perigosas por não terem recursos para se mudar.
O Sul da Ásia inclui Afeganistão, Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão e Sri Lanka. A região enfrenta várias pressões simultâneas, dos riscos no Himalaia às enchentes costeiras e à dependência das chuvas para a agricultura.
Um alerta regional em meio a um desafio global
A atualização do estudo Groundswell, de 2021, do Banco Mundial estimou que a migração interna relacionada ao clima poderia chegar a 216 milhões de pessoas em seis regiões do mundo até 2050. O relatório indicou cerca de 40 milhões para o Sul da Ásia, dando continuidade à pesquisa regional anterior e acrescentando análises de outras regiões.
A África Subsaariana teve o maior total projetado, com 86 milhões, seguida pelo Leste Asiático e Pacífico, com 49 milhões. Os 40 milhões do Sul da Ásia correspondem a cerca de 19% da projeção global. A atualização afirmou que medidas decisivas em relação às emissões e ao desenvolvimento poderiam reduzir o total global em até 80%.
A pesquisa apontou 2030 como um momento inicial em que poderiam surgir áreas com concentração de migração climática. Isso dá aos governos um horizonte de planejamento mais próximo que 2050: as comunidades que receberem novos moradores poderão precisar de mais moradias, água, escolas e empregos em poucos anos.
As datas principais abrangem pesquisas, desastres e decisões que moldarão os deslocamentos futuros:
- 2018: O primeiro estudo Groundswell do Banco Mundial modelou a migração climática interna no Sul da Ásia, na África Subsaariana e na América Latina.
- 13 de setembro de 2021: Os resultados ampliados do estudo Groundswell projetaram até 216 milhões de migrantes climáticos internos em seis regiões até 2050.
- 26 de agosto de 2026: Um colapso de montanha e geleira no Nepal provocou enchentes mortais, segundo o relato de Pope.
- 16 de outubro de 2026: Pope pediu intervenção antecipada, mais financiamento e rotas de migração mais seguras em Nova Délhi.
- 2030: Áreas com concentração de migração climática interna podem começar a surgir, segundo o Banco Mundial.
- 2050: O principal horizonte temporal das projeções regionais de migração.
Por que outras estimativas chegam a quase 63 milhões
A ActionAid International e a Climate Action Network South Asia estimaram que a migração associada aos impactos climáticos graduais poderia chegar a 62,9 milhões até 2050 nas condições que analisaram. A pesquisa abrangeu Bangladesh, Índia, Sri Lanka, Nepal e Paquistão e considerou estresse hídrico, queda na produtividade das lavouras, elevação do nível do mar, perda de ecossistemas e secas.
Esse trabalho projetou 37,4 milhões de deslocamentos até 2030 e 62,9 milhões até 2050 em uma trajetória associada a um aquecimento de cerca de 3,2 graus Celsius. Com o aquecimento limitado a 2,2 graus, as estimativas caíram para 22,5 milhões até 2030 e 34,4 milhões até 2050. Essas temperaturas descrevem os cenários do estudo e os compromissos avaliados na época.
Os números da ActionAid e da CANSA usam pressupostos e abrangência diferentes dos da modelagem do Banco Mundial. A análise também excluiu deslocamentos causados por desastres repentinos, como enchentes e ciclones. Cada conjunto de números descreve os resultados das escolhas de modelagem adotadas em seu próprio estudo.
Desastres repentinos já provocam grandes deslocamentos. O Relatório Global sobre Deslocamento Interno de 2020 registrou 9,5 milhões de novos deslocamentos por desastres no Sul da Ásia em 2019, incluindo os associados às enchentes de monção e aos ciclones. A contagem de novos deslocamentos registra os movimentos ocorridos em determinado período; uma pessoa obrigada a fugir mais de uma vez pode aparecer mais de uma vez no total.
Das enchentes no Himalaia às colheitas perdidas
A avaliação da OIM sobre o Sul da Ásia lista enchentes, inundações por rompimento de lagos glaciais, marés de tempestade, secas, ciclones e precipitações intensas entre os riscos da região. O estudo se baseia em pesquisas de campo em Bangladesh, Maldivas e Nepal, além de análises de tendências migratórias, políticas e instituições.
Uma inundação por rompimento de lago glacial ocorre quando a água armazenada perto de uma geleira escapa rapidamente, provocando uma onda que desce rio abaixo. Outras pressões se desenvolvem mais devagar: a redução do abastecimento de água ou a repetição de colheitas ruins podem comprometer gradualmente a capacidade de uma família de permanecer. A avaliação da OIM cita o alerta do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas de que tanto os riscos graduais quanto os repentinos aumentarão em intensidade e frequência.
O Afeganistão mostra como as famílias podem enfrentar choques repetidos. Uma seca em 2018 deslocou mais de 370 mil pessoas depois que comunidades dependentes da agricultura perderam colheitas e rebanhos. Enchentes repentinas cerca de um ano depois deslocaram aproximadamente 42 mil pessoas e danificaram casas em áreas rurais, além de acampamentos onde viviam famílias deslocadas, segundo dados citados da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.
As comunidades ribeirinhas de Bangladesh enfrentam outro tipo de perda. Em setembro de 2018, enchentes e o desmoronamento das margens do rio Padma engoliam até 100 casas por dia no distrito de Shariatpur. Para uma família que perde tanto a terra quanto o abrigo, mudar significa encontrar uma nova fonte de renda e também um lugar para dormir.
A avaliação da OIM inclui planos nacionais de ação modelo elaborados por meio de consultas. Sua abordagem relaciona os riscos ambientais à política migratória, oferecendo aos governos uma estrutura para tratar dos meios de subsistência e dos deslocamentos em conjunto, em vez de lidar com cada desastre isoladamente.
As cidades oferecem trabalho, mas também enfrentam pressões climáticas
As cidades da Índia já estão recebendo pessoas que reagem ao estresse climático, disse Pope. Ela descreveu o calor como uma das forças que aceleram a urbanização:
Ao buscar abrigo do calor, as pessoas estão indo para os centros urbanos.
A pesquisa do Banco Mundial mapeia uma geografia de deslocamentos mais diversificada. Entre as áreas com piora no abastecimento de água e na produtividade das lavouras estão partes da Planície Indo-Gangética e o corredor entre Délhi e Lahore. O nordeste rizícola de Bangladesh é outra área de onde as pressões climáticas podem incentivar as pessoas a partir.
Hyderabad e partes de Karachi podem atrair migrantes em busca de renda fora da agricultura. Algumas regiões do sul da Índia e do oeste de Bangladesh também podem receber pessoas, à medida que a disponibilidade local de água e as condições das lavouras se tornam mais favoráveis nos cenários modelados.
As cidades costeiras enfrentam suas próprias pressões. Partes de Mumbai, Daca, Chittagong e Chennai estão entre as áreas em que a elevação do nível do mar e as marés de tempestade podem incentivar a partida de moradores, mesmo que suas populações continuem crescendo por outros motivos. O planejamento urbano, portanto, precisa levar em conta tanto os recém-chegados quanto os riscos enfrentados pelos moradores atuais.
Bangladesh poderia concentrar até 13,3 milhões de migrantes climáticos internos no cenário pessimista do Banco Mundial. Harjeet Singh, identificado em relatos anteriores como responsável global pelo clima na ActionAid, descreveu como pessoas que chegam às cidades podem acabar em áreas expostas a enchentes e sem serviços básicos. Moradia segura, abastecimento confiável de água e acesso ao trabalho são fundamentais para que a mudança melhore a vida de uma família.
Prever os riscos antes que as pessoas precisem fugir
A inteligência artificial poderia ajudar os governos a identificar mais cedo as comunidades em risco, disse Pope. A combinação de previsões meteorológicas com informações sobre agricultura e outros meios de subsistência locais pode mostrar onde uma seca, um episódio de calor ou uma enchente provavelmente deixará as pessoas sem condições de se sustentar.
Pope defendeu que a ajuda comece enquanto as famílias ainda têm opções:
Se sabemos que uma comunidade está em risco, não precisamos esperar que seus moradores sejam deslocados para agir.
As respostas práticas podem incluir o aprimoramento dos métodos agrícolas, a capacitação para outras profissões ou a realocação de comunidades atingidas repetidamente por enchentes ou secas. Adaptação climática significa fazer mudanças que ajudem as pessoas a conviver com as condições climáticas, como proteger a renda quando as chuvas se tornam menos previsíveis.
O Banco Mundial recomenda preparar-se para cada etapa da migração: ajudar as pessoas a permanecer onde a adaptação local for viável, apoiar deslocamentos seguros quando necessário e preparar as comunidades que recebem novos moradores. Entre as propostas estão capacitação profissional, apoio jurídico, infraestrutura e sistemas de registro que ajudem os migrantes a acessar serviços e empregos.
Dados melhores também fazem parte desse trabalho. O Banco Mundial recomenda incluir perguntas sobre clima e migração nos censos e nas pesquisas existentes, além de aprimorar os estudos locais. Prever um risco se torna mais útil quando as autoridades também entendem quem vive em sua trajetória, como essas pessoas ganham dinheiro e a que tipo de apoio podem ter acesso.
Financiar a preparação, em vez de repetir as respostas a emergências
O financiamento continua sendo um grande obstáculo, disse Pope. Os governos podem ter dificuldade tanto para conseguir recursos quanto para navegar pelos sistemas usados para financiar programas de adaptação climática. Ela alertou que, no cenário internacional, falta urgência diante dos riscos enfrentados pelas comunidades vulneráveis.
Pope comparou o custo de responder a um desastre depois que ele ocorre com o investimento em medidas que ajudam as pessoas a resistir aos choques:
O custo de um desastre humanitário chega a bilhões. O custo de investir em algumas medidas de resiliência pode ser muito menor.
Os investimentos da Índia em sistemas de alerta, resposta a desastres e tecnologia lhe deram motivos para otimismo. Ela também disse que a dimensão do desafio supera a capacidade de qualquer governo agindo sozinho. Suas declarações não apresentaram um novo valor de financiamento nem um prazo para um programa regional.
As recomendações do Banco Mundial relacionam o planejamento migratório à redução das emissões e ao desenvolvimento mais amplo. Menos emissões reduzem as pressões futuras sobre a água, as lavouras e as zonas costeiras. Melhor acesso à educação, à saúde, ao emprego e à proteção social ajuda as famílias a lidar com as pressões que já enfrentam.
Trabalho no exterior mais seguro e capacitação para profissões em transformação
O emprego internacional oferece outra forma de as famílias do Sul da Ásia obterem renda, ao mesmo tempo que atende à escassez de mão de obra no exterior, disse Pope. As rotas migratórias existentes oferecem uma base para ampliar essas oportunidades, desde que os trabalhadores tenham meios seguros e legais de conseguir emprego.
Ofertas fraudulentas de trabalho no exterior podem expor migrantes a traficantes de pessoas, contrabandistas e outras formas de exploração. Pope alertou que o aumento da procura por trabalhadores precisa ser acompanhado por vias legais de emprego. Para quem parte de uma fonte de renda instável, uma vaga prometida pode acabar levando a outra situação perigosa.
A inteligência artificial cria um segundo desafio, além de seu possível uso na previsão de desastres. Pope disse que empregos que envolvem análise rotineira de documentos e relatórios podem estar ameaçados, enquanto outros setores continuarão precisando de mão de obra humana. A capacitação, portanto, precisa acompanhar os empregos que os empregadores estão de fato criando.
Pope afirmou que a capacidade tecnológica da Índia poderia ajudar os trabalhadores a se preparar para essas mudanças, se estiver conectada a oportunidades de trabalho no exterior:
Se conseguirmos combinar essa capacidade com a mobilidade laboral, capacitando os trabalhadores para os empregos que estão surgindo, eles sairão na frente.
Suas propostas relacionam o apoio a quem pode permanecer em casa à preparação daqueles que se mudam. Apoio à agricultura, alertas oportunos, capacitação profissional e rotas seguras de emprego tratam de diferentes aspectos do mesmo problema: preservar meios de subsistência confiáveis à medida que as condições ambientais mudam.
Principais pontos
- Amy Pope alertou em Nova Délhi, em 16 de outubro de 2026, que as pressões climáticas ameaçam moradias e meios de subsistência em todo o Sul da Ásia.
- O número de 40,5 milhões corresponde ao limite superior da projeção pessimista de 2018 do Banco Mundial para a migração climática interna até 2050.
- A média do modelo cai de 35,7 milhões para 21,1 milhões com um desenvolvimento mais inclusivo, ou para 16,9 milhões em um cenário de emissões mais baixas.
- O Banco Mundial afirma que áreas com concentração de migração climática podem surgir já em 2030.
- Bangladesh poderia concentrar até 13,3 milhões de migrantes climáticos internos no cenário pessimista.
- Pope pediu apoio antecipado, melhores previsões, financiamento para adaptação e rotas seguras e legais para trabalhar no exterior.






