Fumaça tóxica de incêndios florestais se espalha pelo Sudeste Asiático à medida que o super El Niño se intensifica

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Fumaça tóxica de incêndios florestais se espalha pelo Sudeste Asiático à medida que o super El Niño se intensifica

Uma emergência regional se desenha

Uma densa camada de fumaça de incêndios florestais se espalha da Indonésia por todo o Sudeste Asiático, expondo milhões de pessoas à perigosa poluição do ar e afetando escolas, transportes e a vida cotidiana. Incêndios queimam há semanas em Sumatra e no Bornéu indonésio, onde uma seca prolongada associada a um forte episódio de El Niño deixou florestas, plantações e turfeiras altamente vulneráveis.

Conteúdo
  1. Uma emergência regional se desenha
  2. Por que a fumaça chega aos países vizinhos
  3. El Niño agrava uma crise provocada pelo uso da terra
  4. Por que é tão difícil apagar incêndios em turfeiras
  5. Os impactos na saúde se acumulam
  6. Escolas, abastecimento de água e vida selvagem são afetados
  7. Um desastre conhecido traz um alerta maior
  8. Governos ampliam combate a incêndios e monitoramento
  9. Em resumo

A poluição do ar em algumas áreas afetadas ultrapassou em mais de 15 vezes o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde. A fumaça atravessou as fronteiras da Malásia, de Singapura e das Filipinas, e estações de monitoramento registraram condições insalubres, muito insalubres ou perigosas. A crise deve continuar grave enquanto o tempo seco persistir durante o auge da temporada de incêndios.

O Ministério da Saúde da Indonésia registrou 50.891 casos de infecção respiratória aguda relacionados a incêndios em áreas rurais e florestais em julho e agosto. Mais de 12 mil desses pacientes eram crianças menores de cinco anos. Autoridades de saúde e agências de ajuda alertaram que crianças, idosos e pessoas com asma ou outros problemas respiratórios correm os maiores riscos.

A emergência também chegou às salas de aula. Mais de 1,4 milhão de estudantes indonésios passaram a estudar remotamente, enquanto cerca de 12.800 escolas em Sumatra e Bornéu permaneceram fechadas enquanto as autoridades monitoram os níveis de poluição.

Por que a fumaça chega aos países vizinhos

Os incêndios na Indonésia se concentram principalmente em Kalimantan, a parte indonésia da ilha de Bornéu, e em Sumatra. Os ventos sazonais podem levar a fumaça pelo estreito de Malaca e pelo mar do Sul da China, fazendo com que a poluição de focos isolados de incêndio afete comunidades a centenas de quilômetros de distância.

Na Malásia, Sarawak, que divide a ilha de Bornéu com a Indonésia e Brunei, declarou emergência em um distrito depois de um forte aumento da poluição. Quase 650 escolas do estado receberam ordem de fechar. Kuching, a capital, foi classificada entre as grandes cidades mais poluídas do mundo nos dias mais críticos da névoa de fumaça.

A Agência Nacional do Meio Ambiente de Singapura alertou que a fumaça poderia afetar a cidade-Estado diante do aumento da atividade de incêndios na região e da baixa incidência de chuvas. A qualidade do ar na região central chegou a níveis insalubres. Nas Filipinas, a névoa de fumaça atingiu áreas de Luzon, das Visayas e de Mindanao, e Manila e outras regiões registraram níveis de PM2.5 muito insalubres ou extremamente insalubres.

PM2.5 se refere a partículas microscópicas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro. Elas podem chegar profundamente aos pulmões e entrar na corrente sanguínea, aumentando o risco de problemas respiratórios, doenças cardíacas e outros quadros graves. Por serem tão pequenas, máscaras de tecido comuns oferecem proteção limitada. Em períodos de poluição intensa, ficar em ambientes fechados, manter as janelas fechadas e usar filtros de partículas bem ajustados são medidas mais eficazes.

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El Niño agrava uma crise provocada pelo uso da terra

El Niño é um padrão climático recorrente caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais nas regiões central e leste do oceano Pacífico. Seus efeitos podem alterar o regime de chuvas em grande parte do mundo. Na Indonésia, um El Niño forte costuma trazer uma estação mais longa e seca, reduzindo a umidade da vegetação e secando áreas alagadas que normalmente retardariam a propagação do fogo.

Os meteorologistas descreveram o episódio atual como excepcionalmente intenso, com previsão de que as condições persistam até o início de 2027. A Agência de Meteorologia, Climatologia e Geofísica da Indonésia prevê uma estação seca de julho a setembro, mas os incêndios podem continuar até outubro se as chuvas forem escassas.

El Niño, por si só, não dá início à maioria dos incêndios. Acredita-se que muitos comecem com a limpeza de terrenos, inclusive pelo uso do fogo para preparar áreas para plantações, lavouras e estradas. David Gaveau, fundador do projeto de monitoramento Nusantara Atlas, descreveu essa relação de forma simples.

El Niño não acende os incêndios. Ele cria as condições secas que permitem que queimadas iniciadas por pessoas saiam do controle e se tornem muito grandes.

Grupos ambientalistas e pesquisadores constataram que os incêndios costumam voltar às mesmas áreas, inclusive a concessões de óleo de palma e de madeira. O monitoramento por satélite registrou mais de 210 mil focos de calor em áreas de turfeiras indonésias entre janeiro e agosto, enquanto outra plataforma de monitoramento detectou mais de 444.200 possíveis focos de incêndio no arquipélago até o início de setembro.

Por que é tão difícil apagar incêndios em turfeiras

Turfeiras são áreas alagadas formadas por camadas de plantas parcialmente decompostas. Como essas camadas se acumulam em locais onde a água retarda a decomposição, a turfa pode armazenar carbono por milhares de anos. Alguns depósitos em Kalimantan têm mais de 20 metros de profundidade e podem conter milhares de toneladas de carbono por hectare.

Quando as turfeiras são drenadas para plantações ou outros projetos, o material fica seco e inflamável. O fogo pode se espalhar sob a superfície, às vezes a vários metros de profundidade, mesmo quando as chamas já não são visíveis. Um local que parece ter sido apagado pode voltar a soltar fumaça dias depois.

A dra. Nisa Novita, pesquisadora de turfeiras da Yayasan Konservasi Alam Nusantara, explicou por que essas áreas alagadas são tão valiosas e perigosas quando degradadas.

As turfeiras são reservatórios de carbono extremamente eficientes porque o encharcamento retarda a decomposição, permitindo que o carbono se acumule no subsolo por milhares de anos. Isso também significa que elas podem se tornar uma bomba de carbono quando são drenadas ou queimadas, pois esse carbono pode ser liberado rapidamente na atmosfera.

As equipes de combate a incêndios precisam bombear água para o solo, patrulhar as áreas queimadas e ficar atentas a novos focos. A redução dos níveis dos rios e reservatórios tornou esse trabalho mais difícil. Andri Susanto, bombeiro do serviço indonésio Manggala Agni, disse que, em algumas áreas, as equipes passaram mais de 60 dias sem chuva significativa. Ele também alertou que brasas subterrâneas podem reacender o fogo depois que as chamas na superfície são controladas.

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Os impactos na saúde se acumulam

Moradores da Indonésia descreveram uma fumaça densa que entra nas casas mesmo com portas e janelas fechadas. Rizma Nur Fatimah, assistente de ensino de 19 anos em Kalimantan do Sul, disse que a visibilidade em sua sala de aula ficou tão ruim que as pessoas não conseguiam enxergar os próprios pés. Ela afirmou que os moradores se acostumaram à névoa de fumaça anual, mas que a desta temporada parecia pior.

Na vizinha aldeia de Pengayuan, uma mãe disse que sua filha de três anos teve tosse, dor de garganta e coriza. Em uma clínica de Pontianak, o médico Muhammad Arief Tri Hapsoro relatou que os pacientes chegavam com tosse, falta de ar, dor de garganta, febre, diarreia e vômitos. Segundo ele, o número de pacientes era aproximadamente o dobro do registrado no ano anterior.

A Malásia registrou aumento de casos de asma e conjuntivite. O Ministério da Saúde do país informou que os casos de asma aumentaram 259% na última semana de agosto, enquanto as infecções das vias respiratórias superiores subiram 124% em uma semana. Nas Filipinas, moradores relataram coceira nos olhos, dor de garganta e dores de cabeça até em locais a mais de 800 quilômetros das principais áreas de incêndio.

As crianças são particularmente vulneráveis porque seus pulmões e sistemas imunológicos ainda estão em desenvolvimento e elas respiram mais ar em relação ao tamanho do corpo do que os adultos. A exposição repetida pode prejudicar o desenvolvimento pulmonar e agravar a asma. O fechamento das escolas reduz a exposição, mas o ensino remoto pode ser difícil para famílias sem acesso confiável à internet, eletricidade ou um local tranquilo para estudar.

A organização Save the Children distribuiu 8.500 máscaras para crianças e famílias em três distritos de Kalimantan. O diretor regional Arshad Malik disse que a crise da fumaça também é uma questão de direitos da criança, pois afeta a saúde, a educação e o bem-estar emocional.

Escolas, abastecimento de água e vida selvagem são afetados

A névoa de fumaça trouxe problemas além das dificuldades respiratórias. Em Palembang, no sul de Sumatra, foi determinado que mais de 250 mil estudantes de 1.030 escolas tivessem aulas on-line. Autoridades disseram que a decisão seria reavaliada conforme a qualidade do ar mudasse e pediram aos professores que não exigissem demais das crianças durante o ensino remoto.

Em Pontianak, famílias fizeram fila para obter água tratada depois que o abastecimento doméstico secou. Alguns moradores coletam água da chuva, mas a poeira da fumaça se depositou nos telhados e deixou a água preta. Meses sem chuva também pressionaram agricultores, bombeiros e comunidades que vivem perto das áreas queimadas.

A vida selvagem sofreu com o avanço dos incêndios por florestas tropicais e áreas de plantações. Bombeiros encontraram cobras e pangolins mortos, enquanto um orangotango resgatado de uma plantação de óleo de palma em Kalimantan Ocidental morreu mais tarde, supostamente após inalar fumaça. Bornéu abriga muitas espécies raras, incluindo orangotangos cujo habitat já foi reduzido pela extração de madeira, pelas plantações e pela construção de estradas.

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Um desastre conhecido traz um alerta maior

A Indonésia enfrenta temporadas graves de incêndios e névoa de fumaça há décadas. Grande parte do padrão atual de uso da terra se consolidou durante a era Suharto, quando extensas áreas de floresta tropical e turfeiras foram abertas para exploração madeireira, plantações e projetos de desenvolvimento. Usar fogo para limpar terrenos pode ser barato, mas se torna extremamente perigoso quando as turfeiras são drenadas e o tempo fica seco.

A temporada de incêndios de 2015 continua sendo a referência mais recente. Segundo dados do governo, cerca de 2,6 milhões de hectares queimaram entre junho e outubro daquele ano, 24 pessoas morreram e milhões de pessoas em todo o Sudeste Asiático foram expostas à fumaça durante semanas. Também houve incêndios em anos de El Niño, em 2019 e 2023, embora os danos tenham sido menores do que em 2015.

O professor Bambang Hero Saharjo, especialista em perícia de incêndios florestais da Universidade Institut Pertanian Bogor, disse que os incêndios do ano passado queimaram cerca de 359 mil hectares, mesmo sem a influência do El Niño. Ele alertou que a área queimada nesta temporada pode chegar a 10 milhões ou 11 milhões de hectares se o tempo seco e os incêndios se intensificarem, um número comparável ao das piores temporadas do fim da década de 1990.

Outras estimativas indicam que a área queimada neste ano já varia de mais de 200 mil a quase 300 mil hectares, conforme o período e o método utilizados. As diferenças refletem a dificuldade de medir incêndios em turfeiras e plantações remotas, além do fato de que a temporada ainda não terminou.

Governos ampliam combate a incêndios e monitoramento

A Indonésia ampliou as operações de combate a incêndios e recebeu aeronaves e outras formas de assistência de países como Japão, Estados Unidos, Rússia, Austrália, Canadá e Ucrânia. As autoridades também investigam casos suspeitos de incêndios provocados intencionalmente. Segundo relatos regionais, 72 pessoas foram presas em agosto sob suspeita de iniciar incêndios florestais.

O ministro das Florestas, Raja Juli Antoni, disse que o país estava entrando no período mais difícil da temporada, com setembro marcando o auge das condições secas.

Nossos problemas não acabaram. Setembro é o auge do El Niño. Setembro é o principal desafio para nós.

A Malásia avalia a possibilidade de semeadura de nuvens em Sarawak, embora o método dependa da presença de nuvens adequadas e umidade suficiente. Não é possível produzir chuva em um céu limpo e excepcionalmente seco. O Centro Meteorológico Especializado da ASEAN acionou seu nível máximo de alerta para a névoa de fumaça transfronteiriça no sul do Sudeste Asiático, enquanto as agências acompanham focos de calor, direção dos ventos, chuvas e níveis de PM2.5.

A fiscalização do governo continuará sendo essencial, pois o clima, por si só, não explica onde os incêndios começam. Proteger as turfeiras, restaurar os níveis de água, monitorar concessões de plantações e processar quem provoca queimadas ilegais pode reduzir o risco de pequenos incêndios se transformarem em um desastre regional. Também é necessária a coordenação entre países, porque a fumaça não para nas fronteiras nacionais.

Em resumo

  • Incêndios florestais em Sumatra e no Bornéu indonésio estão levando uma névoa de fumaça perigosa à Malásia, a Singapura e às Filipinas.
  • Um El Niño intenso está provocando condições excepcionalmente secas, enquanto a limpeza de terrenos e as turfeiras drenadas contribuem para a propagação dos incêndios.
  • A Indonésia registrou mais de 50 mil casos de infecções respiratórias relacionadas a incêndios em julho e agosto.
  • Mais de 1,4 milhão de estudantes passaram ao ensino remoto, e cerca de 12.800 escolas fecharam nas áreas afetadas.
  • Incêndios em turfeiras podem queimar no subsolo e liberar na atmosfera grandes reservas de carbono antigo.
  • As operações de combate a incêndios, a proteção da saúde e a cooperação regional estão sendo ampliadas enquanto persistirem as condições secas.
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