A “Sanamania” impulsiona a primeira premiê do Japão rumo a uma vitória esmagadora nas eleições

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A “Sanamania” impulsiona a primeira premiê do Japão rumo a uma vitória esmagadora nas eleições

O fenômeno político que está remodelando o mapa eleitoral do Japão

Bolsas pretas de couro esgotadas em poucas horas, vídeos virais nas redes sociais acumulando mais de 100 milhões de visualizações e lanches de lojas de conveniência virando objetos de fascínio nacional. Esses não são sinais típicos de uma campanha política no Japão, país onde as eleições historicamente têm sido disputas discretas, dominadas por estruturas partidárias consolidadas e eleitores mais velhos. Ainda assim, esses fenômenos definem o cenário atual, enquanto a primeira-ministra Sanae Takaichi, primeira mulher a liderar o país, surfa uma onda de entusiasmo entre os jovens rumo ao que as pesquisas de opinião indicam que será uma vitória decisiva nas eleições de domingo para a Câmara Baixa.

Conteúdo
  1. O fenômeno político que está remodelando o mapa eleitoral do Japão
  2. A aposta na popularidade pessoal
  3. Promessas econômicas e apreensão nos mercados
  4. Gastos com defesa e objetivos constitucionais
  5. Relações internacionais: Trump e as tensões com a China
  6. O colapso da articulação da oposição
  7. Controle legislativo e mudança constitucional
  8. Pontos principais

A febre, apelidada de Sanamania ou Sanakatsu pelos apoiadores, transformou a conservadora de 64 anos em um improvável ícone cultural. Sua bolsa preta de couro, que custa US$ 900, esgotou em todo o país. A caneta rosa que ela usa para fazer anotações no Parlamento virou sensação nas redes sociais. Jovens eleitores analisam os lanches que ela come nas viagens de trem e suas escolhas de roupas com o fervor geralmente reservado a figuras do entretenimento, não a líderes políticos. Esse impulso movido pela personalidade elevou a aprovação pessoal de Takaichi a 57%, segundo pesquisa do Asahi Shimbun divulgada nesta semana, muito acima do apoio ao Partido Liberal Democrático (PLD), que continua perto dos 30%.

O contraste entre a líder e o partido é marcante. O PLD parecia estar à beira do colapso eleitoral apenas oito meses atrás, depois de perder a maioria parlamentar pela segunda vez em 15 meses, em meio a um escândalo de fundos não declarados e disputas internas entre facções. Takaichi, porém, conseguiu uma reviravolta notável. Quando assumiu o cargo, em outubro de 2025, substituindo o fragilizado Shigeru Ishiba, muitos observadores previam que seu mandato seria breve. Em vez disso, ela revitalizou uma máquina política moribunda graças à força de seu apelo pessoal.

Mana Suzuki, moradora de Tóquio de 20 anos, descreveu o alcance algorítmico do fenômeno.

Embora eu não me interesse tanto por política, o YouTube me recomenda muitos vídeos pró-Takaichi. E quase não há críticas a ela na seção de comentários.

Ao contrário de seus antecessores, Takaichi evita encontros regados a bebida até tarde da noite e restaurantes caros, preferindo o conforto de casa e reuniões estratégicas logo cedo. Ela cita Margaret Thatcher, filha de um comerciante, como sua inspiração e traça paralelos com sua própria origem humilde: filha de uma policial e de um funcionário de uma montadora. Essa narrativa de alguém do povo, combinada com seu estilo de fala assertivo e sua presença enérgica na campanha, parece ter cativado uma geração que antes se mantinha distante da política.

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A aposta na popularidade pessoal

Ao dissolver o Parlamento no mês passado e convocar eleições antecipadas para 8 de fevereiro, Takaichi apresentou a votação como um referendo pessoal. “Estou colocando meu futuro como primeira-ministra em jogo nesta eleição”, declarou em 19 de janeiro, pedindo explicitamente aos eleitores que decidissem se confiavam a ela a condução do país. A iniciativa representou um risco calculado: converter sua alta aprovação pessoal em cadeiras parlamentares para um partido ainda marcado por escândalos e preocupações econômicas.

Pesquisas recentes indicam que a aposta está dando muito certo. Levantamentos do Asahi Shimbun e do Nikkei apontam que o PLD e seu parceiro de coalizão, o Partido da Inovação do Japão (Ishin), provavelmente conquistarão mais de 300 das 465 cadeiras da Câmara Baixa. Isso representaria um aumento expressivo em relação às atuais 232 cadeiras que os dois partidos somam e lhes garantiria uma supermaioria de dois terços. Essa margem permitiria à coalizão governista derrubar decisões da Câmara Alta, onde atualmente não tem maioria, reaprovando projetos rejeitados por aquela Casa.

Conquistar 300 cadeiras representaria uma recuperação impressionante após a derrota nas eleições para a Câmara Alta em julho de 2025 e o revés na votação para a Câmara Baixa em outubro de 2024, que forçou o então primeiro-ministro Ishiba a renunciar. Analistas atribuem a reviravolta quase inteiramente ao apelo pessoal de Takaichi, e não a uma mudança fundamental na posição do PLD ou nas condições econômicas do Japão.

Kristi Govella, titular da Cátedra Japão no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, atribuiu a possível vitória exclusivamente ao apelo pessoal de Takaichi.

Se o PLD conseguir uma maioria clara nesta eleição, isso será inteiramente atribuível à popularidade pessoal de Takaichi. Pouca coisa mudou desde julho, quando o PLD sofreu uma derrota contundente nas urnas.

A Aliança Centrista pela Reforma, oposição formada pela fusão do Partido Democrático Constitucional com o Komeito, parece caminhar para perdas catastróficas. A pesquisa do Asahi sugere que a aliança pode perder metade de suas atuais 167 cadeiras, um colapso que a deixaria sem condições de oferecer resistência efetiva à agenda legislativa de Takaichi.

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Promessas econômicas e apreensão nos mercados

A campanha de Takaichi se concentrou em uma agenda fiscal expansionista destinada a aliviar o custo de vida que pesa sobre as famílias japonesas. Ela prometeu suspender por dois anos o imposto sobre o consumo de 8% incidente sobre a venda de alimentos, proposta que provocou uma ampla onda de vendas nos mercados no mês passado, em meio à preocupação dos investidores com a disciplina fiscal. A dívida pública do Japão já supera o dobro do tamanho de sua economia, a maior proporção entre as nações desenvolvidas.

A primeira-ministra também defendeu um iene mais fraco, ao menos em parte, argumentando que a desvalorização da moeda beneficia os setores exportadores e aumenta o valor das reservas cambiais do Japão. “As pessoas dizem que o iene fraco é ruim neste momento, mas, para os setores exportadores, é uma grande oportunidade”, afirmou Takaichi durante a campanha, acrescentando que a queda da moeda elevaria o valor dos consideráveis ativos japoneses no exterior.

As declarações fizeram o iene oscilar e levaram porta-vozes do governo a esclarecer que ela estava ressaltando a necessidade de resiliência econômica, e não buscando ativamente a desvalorização. Ainda assim, os rendimentos dos títulos públicos japoneses de prazo ultralongo atingiram recordes, enquanto operadores avaliam a possibilidade de estímulos fiscais agressivos.

Ryutaro Kono, economista-chefe para o Japão no BNP Paribas, alertou para os efeitos da interação entre o estímulo fiscal e as condições econômicas atuais.

A adoção de uma política fiscal expansionista em um momento em que a economia está próxima do pleno emprego aumentaria as pressões inflacionárias e enfraqueceria o iene. O Banco do Japão pode ser forçado a acelerar o ritmo de alta dos juros para combater a desvalorização do iene e as pressões inflacionárias decorrentes da política fiscal expansionista.

Outros analistas sugerem que uma vitória decisiva do PLD poderia, na verdade, evitar medidas fiscais extremas, ao reduzir a necessidade de competir com partidos de oposição que propõem cortes de impostos ainda mais ambiciosos. A promessa de campanha do PLD se compromete explicitamente a reduzir a relação entre dívida e PIB do Japão por meio de reformas nas despesas e nas receitas, segundo Takeshi Yamaguchi, economista-chefe para o Japão na Morgan Stanley MUFG Securities.

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Gastos com defesa e objetivos constitucionais

Além da gestão econômica, Takaichi apresentou uma ambiciosa agenda de segurança. O PLD pretende acelerar o fortalecimento das defesas do Japão e promover uma revisão constitucional pela primeira vez desde a entrada em vigor da Constituição pacifista do pós-guerra, em 1947. As promessas de campanha do partido incluem reforçar as operações de inteligência e revisar o Artigo 9, que renuncia à guerra como direito soberano.

O Japão já atingiu a meta de destinar 2% do PIB à defesa no ano fiscal de 2025, dois anos antes do previsto. Com uma supermaioria, Takaichi poderia elevar os gastos para 3,5% ou mais, em resposta à pressão dos Estados Unidos para que seus aliados aumentem os gastos militares. A recém-divulgada Estratégia de Defesa Nacional dos EUA instou os parceiros a mirar 5% do PIB, embora analistas japoneses afirmem que seria fiscalmente impossível alcançar esse nível de imediato.

Masahiro Iwasaki, professor de ciência política da Universidade Nihon, descreveu a possível mudança na política de segurança.

Se o PLD vencer a eleição por ampla margem, a primeira-ministra Takaichi poderá endurecer sua postura já linha-dura em questões de segurança. O que Takaichi tenta alcançar é claramente diferente do que buscavam seus antecessores e ainda mais agressivo do que a política externa proativa do falecido primeiro-ministro Shinzo Abe.

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Relações internacionais: Trump e as tensões com a China

A eleição atraiu atenção internacional incomum, sobretudo dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump manifestou “apoio total e irrestrito” a Takaichi em 6 de fevereiro e anunciou planos para recebê-la na Casa Branca em 19 de março. Esse apoio explícito a uma candidata estrangeira é raro entre presidentes americanos, embora Trump já tenha apoiado líderes como Javier Milei, da Argentina, e Viktor Orbán, da Hungria.

“A primeira-ministra Takaichi merece um forte reconhecimento pelo trabalho que ela e sua coalizão estão realizando”, escreveu Trump na Truth Social, elogiando-a como uma líder forte, poderosa e sábia, que realmente ama seu país. O apoio vem após iniciativas diplomáticas de Takaichi, entre elas a indicação de Trump ao Prêmio Nobel da Paz e a entrega de lembranças de golfe durante a visita dele ao Japão.

No entanto, a postura linha-dura de Takaichi em questões de segurança tensionou as relações com Pequim. Em novembro, ela sugeriu que o Japão poderia intervir militarmente caso a China tentasse tomar Taiwan à força, declaração que desencadeou uma disputa diplomática ainda sem solução. A China reivindica Taiwan como parte de seu território e não descarta a anexação pela força. Embora observadores esperem que Takaichi mantenha uma postura firme em relação à China sem agravar ainda mais as tensões, é improvável que Pequim receba seu governo de forma amistosa no curto prazo.

As declarações sobre Taiwan refletem a rejeição mais ampla de Takaichi às restrições do pós-guerra à ação militar japonesa. Ela se opõe a permitir que mulheres da família imperial reinem como imperatrizes e insiste que casais tenham o mesmo sobrenome, posições alinhadas a suas visões sociais ultraconservadoras. Apesar dessas posições, que podem parecer incompatíveis com os valores progressistas dos jovens, seu carisma pessoal parece ter superado as divisões ideológicas tradicionais.

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O colapso da articulação da oposição

Embora a popularidade de Takaichi explique boa parte da recuperação do PLD, a desorganização das forças de oposição ampliou suas vantagens. A Aliança Centrista pela Reforma, formada pela fusão do Partido Democrático Constitucional com o Komeito depois que este encerrou sua parceria de 26 anos com o PLD, não conseguiu ganhar impulso. As pesquisas indicam que a aliança pode perder mais da metade de suas 167 cadeiras.

A saída do Komeito foi inicialmente vista como um golpe para o PLD, dado o papel histórico do partido menor na mobilização de eleitores, especialmente em comunidades religiosas ligadas à organização budista leiga Soka Gakkai. No entanto, a fusão parece ter confundido as bases tradicionais de apoio, em vez de criar uma alternativa coesa. Enquanto isso, partidos menores, como o Sanseito e o Team Mirai, devem avançar, fragmentando ainda mais os votos contrários ao PLD.

As dificuldades da oposição também refletem a habilidade de Takaichi em apresentar a eleição como uma escolha entre sua liderança e o caos. Ao dissolver o Parlamento e convocar uma votação antecipada em pleno inverno, ela impediu que os partidos de oposição consolidassem plenamente suas estruturas organizacionais. Muitos eleitores continuam indecisos, e analistas observam que os jovens apoiadores de Takaichi, embora entusiasmados, historicamente comparecem pouco às urnas. Mesmo levando essas incertezas em conta, a dimensão da vitória projetada para o PLD aponta para uma reconfiguração fundamental da política japonesa.

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Controle legislativo e mudança constitucional

Se as pesquisas estiverem corretas e a coalizão governista conquistar 300 ou mais cadeiras, Takaichi terá uma influência legislativa sem precedentes. Uma maioria de dois terços na Câmara Baixa permite ao governo derrubar vetos da Câmara Alta, controlando efetivamente o processo legislativo mesmo sem maioria nas duas Casas. Esse poder também se aplica a emendas constitucionais, que exigem aprovação por dois terços de ambas as Casas, seguida de um referendo nacional.

Esse mandato permitiria a Takaichi levar adiante suas políticas fiscais proativas sem obstrução parlamentar, acelerando potencialmente o aumento dos gastos com defesa e as reformas tributárias. Também a colocaria em uma posição de força para se reunir com Trump em março e negociar acordos comerciais e de segurança respaldada por um mandato eleitoral decisivo.

Norio Toyoshima, analista político, explicou a importância estratégica de obter um mandato forte antes do encontro com os Estados Unidos.

Trump quer ter certeza de que receberá o que foi prometido, por isso prefere fazer acordos com governos fortes e estáveis.

Durante seu primeiro mandato, Trump desenvolveu uma relação próxima com Shinzo Abe, mentor de Takaichi e primeiro-ministro que permaneceu por mais tempo no cargo na história do Japão. Takaichi espera reproduzir essa relação enquanto administra o complexo triângulo das relações entre Estados Unidos, Japão e China.

Mas ainda há riscos. A suspensão do imposto sobre o consumo, embora popular, pode pressionar ainda mais as já frágeis finanças públicas do Japão. O Banco do Japão enfrenta a difícil tarefa de administrar as pressões inflacionárias e, ao mesmo tempo, apoiar o crescimento econômico. E as políticas de segurança linha-dura de Takaichi, sobretudo em relação a Taiwan, podem provocar instabilidade regional, mesmo que atendam às expectativas de Washington por uma contribuição militar maior do Japão.

Enquanto se preparam para enfrentar temperaturas congelantes por todo o arquipélago neste domingo, os eleitores se deparam com uma escolha que vai além do alívio econômico imediato. A eleição é um referendo sobre a disposição do Japão de abraçar a visão de Takaichi de um país mais assertivo, com estímulos fiscais mais fortes e maior capacidade militar, rompendo com as restrições do pós-guerra que definiram sua política por sete décadas.

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Pontos principais

  • A primeira-ministra Sanae Takaichi gerou um fenômeno cultural entre os jovens chamado Sanamania, elevando sua aprovação pessoal a 57%, apesar do desempenho mais fraco de seu partido.
  • Pesquisas de opinião projetam que o PLD e seu parceiro de coalizão, o Partido da Inovação do Japão, conquistarão mais de 300 cadeiras na eleição de domingo, garantindo uma supermaioria de dois terços na Câmara Baixa, que tem 465 cadeiras.
  • Uma supermaioria permitiria à coalizão governista derrubar vetos da Câmara Alta e possivelmente promover revisões constitucionais, incluindo mudanças nas disposições pacifistas do Artigo 9.
  • Takaichi faz campanha por uma política fiscal expansionista, incluindo a suspensão por dois anos do imposto de 8% sobre o consumo de alimentos, mas a proposta gerou preocupação com a relação entre a dívida japonesa e o PIB, que supera 200%.
  • O presidente Donald Trump declarou publicamente apoio a Takaichi e a convidou para a Casa Branca em 19 de março, uma intervenção incomum em uma eleição estrangeira.
  • A Aliança Centrista pela Reforma, formada pela fusão do Partido Democrático Constitucional com o Komeito, parece caminhar para grandes perdas e pode perder metade de suas atuais 167 cadeiras.
  • A postura linha-dura de Takaichi em questões de segurança inclui a sugestão de que o Japão poderia intervir caso a China atacasse Taiwan, o que tensiona as relações com Pequim e se alinha à pressão dos Estados Unidos por maiores gastos com defesa.
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