Ucrânia afirma que crianças sequestradas foram enviadas à Coreia do Norte para reeducação

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Ucrânia afirma que crianças sequestradas foram enviadas à Coreia do Norte para reeducação

Uma nova frente na luta pelos direitos das crianças ucranianas sequestradas

Autoridades ucranianas disseram a parlamentares em Washington que crianças sequestradas em áreas ocupadas da Ucrânia foram transportadas por milhares de quilômetros até a Coreia do Norte para receber treinamento ideológico. O relato envolve dois menores: um menino de 12 anos chamado Misha, de Donetsk, sob ocupação, e uma menina de 16 anos chamada Liza, de Simferopol, na Crimeia. Eles foram levados ao Acampamento Internacional Infantil de Songdowon, na costa leste da Coreia do Norte, a cerca de 9 mil quilômetros de suas casas, onde foram expostos a instruções de temática militar e a narrativas da era soviética adaptadas à ideologia norte-coreana. O depoimento descreve aulas que exortavam as crianças a derrotar militaristas japoneses e encontros com veteranos que participaram do ataque de 1968 ao navio da Marinha dos Estados Unidos Pueblo.

Conteúdo
  1. Uma nova frente na luta pelos direitos das crianças ucranianas sequestradas
  2. Por que isso importa para além da Rússia
  3. O que os investigadores dizem que aconteceu com Misha e Liza
  4. Dentro de Songdowon
  5. Como funciona o sistema de deportações e por que especialistas o consideram ilegal
  6. Coreia do Norte e Rússia estreitam laços
  7. O que a Ucrânia, a ONU e os tribunais estão fazendo
  8. Por que as deportações importam para qualquer paz futura
  9. Vozes da Ucrânia e de especialistas em direitos humanos
  10. O que pode ajudar a trazer as crianças para casa
  11. Em resumo

Os casos fazem parte do que a Ucrânia e pesquisadores independentes descrevem como um sistema mais amplo e organizado de deportações ilegais, reeducação e assimilação forçada. Kiev verificou informações sobre mais de 19.500 crianças deportadas desde 2022. Pesquisadores do Laboratório de Pesquisa Humanitária da Universidade Yale estimam que pelo menos 35 mil crianças ucranianas, de bebês a adolescentes de 17 anos, estiveram temporária ou permanentemente sob custódia russa. O trabalho deles documentou mais de 210 instalações na Rússia e em territórios ucranianos ocupados que abrigaram ou treinaram crianças deportadas, incluindo colônias de férias, sanatórios, locais religiosos e até uma base militar.

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que exige o retorno imediato de todas as crianças ucranianas transferidas à força ou deportadas ilegalmente desde 2014 e o fim de novas deportações, separações familiares, mudanças de cidadania, adoções e doutrinação ideológica. A Rússia rejeita as acusações, afirma que retirou menores da região para protegê-los e informa que centenas de milhares de crianças ucranianas entraram no país. Moscou diz que há procedimentos para reunir famílias quando isso é possível.

Por que isso importa para além da Rússia

O envio de crianças ucranianas a um terceiro país, a Coreia do Norte, indicaria uma coordenação mais estreita entre Moscou e Pyongyang. Isso aumenta o custo e a dificuldade do repatriamento, pois qualquer retorno exigiria a cooperação de dois governos, não apenas de um. Transferências para fora da Rússia também complicam o rastreamento, o acesso consular e a supervisão por organizações neutras, além de ampliar o alcance geográfico de um esforço já complexo para reunir crianças e suas famílias.

O que os investigadores dizem que aconteceu com Misha e Liza

Em depoimento juramentado a uma subcomissão do Senado dos Estados Unidos, uma advogada ucraniana de direitos humanos afirmou que sua organização registrou dois casos confirmados de crianças levadas à Coreia do Norte. Misha, de 12 anos, de Donetsk sob ocupação russa, e Liza, de 16 anos, de Simferopol, foram transferidos para o acampamento de Songdowon. O acampamento, um complexo costeiro perto de Wonsan, há muito promove programas juvenis em massa com conteúdo patriótico para grupos locais e estrangeiros convidados. Segundo o depoimento, as duas crianças assistiram a uma versão heroica da história militar norte-coreana e foram instruídas a destruir os militaristas japoneses. Também se encontraram com veteranos coreanos ligados ao incidente do Pueblo, em 1968.

Investigadores ucranianos afirmam que essas crianças foram isoladas de suas famílias, proibidas de usar o idioma ucraniano e imersas em uma narrativa que nega a existência da Ucrânia como nação. O padrão corresponde ao que pesquisadores encontraram em outros locais onde menores ucranianos são mantidos, incluindo restrições ao contato com parentes, uso obrigatório do russo e uma “educação patriótica” que apaga a identidade ucraniana.

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Dentro de Songdowon

Songdowon funciona há décadas como um complexo juvenil de destaque que a mídia norte-coreana apresenta como um refúgio à beira-mar para crianças. Relatos externos descrevem horários rígidos, atividades em grandes grupos, rotinas uniformizadas e instrução política frequente. Para as crianças ucranianas levadas para lá, a experiência no acampamento se insere em um programa mais amplo de doutrinação ideológica que, segundo a Ucrânia, busca romper a identidade nacional e substituí-la pela lealdade à Rússia e a países aliados. Ao contrário de colônias de férias de curta duração, essas estadias podem ser prolongadas, com isolamento rigoroso e contato controlado com autoridades e veteranos que reforçam narrativas de guerra.

Como funciona o sistema de deportações e por que especialistas o consideram ilegal

O Laboratório de Pesquisa Humanitária de Yale mapeou uma rede de pelo menos 210 locais onde crianças ucranianas foram mantidas desde 2022. Foram documentados oito tipos de instalações, incluindo colônias de férias, sanatórios, centros educacionais, instituições religiosas, uma unidade militar e abrigos temporários. Algumas crianças são transferidas por semanas; outras, por meses ou mais. O grupo inclui crianças de instituições estatais, separadas dos pais em áreas de conflito, menores com deficiência e crianças retiradas diretamente de suas famílias por autoridades de ocupação. Parte delas é colocada sob a guarda de responsáveis russos ou em famílias adotivas, às vezes após passar por uma série de transferências entre diferentes acampamentos.

As autoridades russas simplificaram o processo de obtenção da cidadania russa para menores ucranianos e aceleraram os procedimentos de adoção. Advogados de direitos humanos argumentam que essas práticas violam as Convenções de Genebra, que exigem registro rigoroso, monitoramento e reunificação familiar de crianças retiradas de zonas de conflito. A transferência de crianças de um grupo nacional para outro também pode se enquadrar na definição de genocídio prevista na Convenção sobre Genocídio quando tem o objetivo de destruir a identidade e a continuidade do grupo protegido. Em março de 2023, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o presidente Vladimir Putin e a autoridade russa responsável pelos direitos das crianças, Maria Lvova Belova, alegando que ambos tiveram participação na deportação ilegal de crianças ucranianas. A decisão do tribunal foi um marco jurídico, mas sua aplicação depende da cooperação dos países para onde os acusados poderiam viajar.

Especialistas jurídicos ucranianos dizem que as deportações são frequentemente classificadas erroneamente como evacuações, sem as salvaguardas exigidas pelo direito internacional. Eles apontam a ausência de registros compartilhados com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a falta de documentação padronizada e a recusa do retorno voluntário. Ao apresentar seu depoimento, uma advogada ucraniana de direitos humanos descreveu essas falhas em termos diretos.

“Nenhuma lista foi fornecida à Cruz Vermelha. Nenhuma avaliação foi realizada. Não houve repatriamento voluntário”, disse ela, pedindo mais pressão para garantir o retorno das crianças.
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Coreia do Norte e Rússia estreitam laços

Desde a invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022, Moscou e Pyongyang estreitaram os laços. Seus líderes assinaram um acordo de parceria abrangente em meados de 2024, com amplas disposições sobre segurança. Governos ocidentais afirmam que a Coreia do Norte forneceu munição de artilharia e mísseis balísticos à Rússia, enquanto as duas capitais dizem que a cooperação não viola as normas internacionais. Há pouca visibilidade sobre a relação porque a Coreia do Norte permite pouca fiscalização independente, mas a parceria claramente se fortaleceu nos âmbitos político e militar.

Nesse contexto, colocar crianças ucranianas em um acampamento norte-coreano estaria de acordo com métodos de propaganda e controle comuns em Pyongyang. Os programas de Songdowon destacam a lealdade, a disciplina e a história do Estado, e as visitas costumam incluir espetáculos patrióticos. Se menores ucranianos estiverem lá sob os auspícios da Rússia, seus casos combinarão as dificuldades de custódia já observadas dentro da Rússia com o ambiente fechado da Coreia do Norte, tornando o repatriamento ainda mais difícil.

Líderes russos também disseram que a Coreia do Norte deveria participar de futuras negociações sobre o conflito. Qualquer papel de Pyongyang nas negociações lhe daria voz em acordos humanitários, inclusive sobre o retorno das crianças. Essa possibilidade aumenta a urgência de documentar onde elas estão e de obter compromissos firmes sobre acesso, comunicação e retorno futuro.

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O que a Ucrânia, a ONU e os tribunais estão fazendo

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que pede o retorno imediato e incondicional de todas as crianças ucranianas transferidas à força ou deportadas desde 2014. Noventa e um países votaram a favor, enquanto cerca de uma dúzia, entre eles Rússia, Belarus e Irã, votou contra. O texto exige o fim imediato de novas deportações, separações familiares, mudanças de status ou cidadania, adoções ou acolhimentos em famílias temporárias e doutrinação ideológica. Embora as resoluções da Assembleia Geral não sejam vinculantes, elas estabelecem parâmetros políticos e registram a posição internacional.

A vice-ministra das Relações Exteriores da Ucrânia, Mariana Betsa, destacou o que está em jogo durante o debate. Ela argumentou que a questão vai além da política e não deve ser usada como moeda de troca.

“Não haverá uma paz justa na Ucrânia sem o retorno incondicional das crianças ucranianas. Esta resolução não é sobre política. É uma questão de humanidade”, disse Betsa.

Os mandados do Tribunal Penal Internacional contra o chefe de Estado russo e a comissária para os direitos das crianças foram um sinal jurídico claro de que as deportações podem ser julgadas como crimes graves. Os mandados restringem as viagens diplomáticas dos acusados e elevam os custos de longo prazo da continuidade do programa. Separadamente, governos impuseram sanções a autoridades, órgãos e instituições russos ligados às transferências.

A Ucrânia conseguiu trazer de volta cerca de 1.800 crianças desde 2022, muitas vezes com a mediação de terceiros. Catar, África do Sul e Vaticano ajudaram em casos individuais. Cada retorno exige meses de verificações, negociações e organização logística de viagens, o que evidencia a dimensão do desafio enquanto milhares de crianças continuam desaparecidas ou sob custódia estrangeira.

Por que as deportações importam para qualquer paz futura

Em depoimento a parlamentares dos Estados Unidos, Nathaniel Raymond, diretor do Laboratório de Pesquisa Humanitária de Yale, afirmou que o retorno das crianças sequestradas deveria ser uma condição para qualquer acordo negociado. Ele apresentou essa exigência como um requisito mínimo de credibilidade moral e uma garantia prática contra a normalização de transferências de crianças em tempos de guerra.

“O retorno de todas as crianças ucranianas sequestradas deve ser um pré-requisito para qualquer solução negociada para esta guerra”, disse Raymond.

Sem um mecanismo vinculante para identificar e trazer de volta cada criança, as famílias das regiões ocupadas não podem reconstruir suas vidas. A questão influencia o apoio público dentro e fora da Ucrânia e tem peso em quaisquer negociações sobre cessar-fogos, trocas de prisioneiros ou corredores humanitários. Avanços concretos no retorno das crianças indicariam que os acordos podem ser cumpridos e que ambos os lados estão dispostos a respeitar as proteções fundamentais dos civis.

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Vozes da Ucrânia e de especialistas em direitos humanos

O ombudsman de direitos humanos da Ucrânia, Dmytro Lubinets, pediu uma busca coordenada por cada criança desaparecida e um sistema abrangente para protegê-las de danos ideológicos e físicos. Ele argumenta que qualquer programa que transfira crianças entre fronteiras sem consentimento e lhes tire a identidade é uma forma de transformá-las em armas.

“Toda criança precisa ser encontrada, protegida e levada para casa. Crianças ucranianas não podem ser usadas como armas pelo agressor”, disse Lubinets.

A primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska, falou sobre o impacto emocional dessas deportações nas famílias e na nação. Em um discurso recente, descreveu as transferências forçadas como uma das realidades mais dolorosas da guerra e pediu uma ação internacional mais rápida.

“Talvez o reconhecimento mais doloroso desta guerra seja a deportação sistemática de crianças ucranianas”, disse Zelenska, acrescentando que adiar decisões tem um custo humano medido em vidas e infâncias perdidas.

O que pode ajudar a trazer as crianças para casa

Defensores humanitários dizem que quatro frentes de trabalho são essenciais. Primeiro, mapear, verificar e rastrear cada criança. Isso exige registros abertos, compartilhados com entidades neutras, e documentação detalhada das transferências, dos responsáveis e dos locais. Segundo, ampliar canais seguros de retorno por meio de terceiros países que possam mediar discretamente e fornecer documentos de viagem, dando prioridade às crianças cujos pais foram identificados e podem ser contatados. Terceiro, pressionar diretamente as autoridades e instituições que conduzem o programa. Sanções direcionadas, congelamento de ativos e proibições de viagem elevam o custo para quem organiza, financia e divulga deportações e adoções. Quarto, preparar a responsabilização. As provas reunidas agora orientarão futuros processos e reforçarão ações civis por reparação e assistência.

No terreno, organizações não governamentais e órgãos ucranianos usam métodos de investigação de fontes abertas, registros escolares e cruzamento de DNA para localizar crianças. A Ucrânia também entregou listas oficiais de menores deportados durante negociações com a Rússia, exigindo respostas diretas sobre a localização e a situação deles. Cada caso confirmado, como o das duas crianças que teriam sido levadas a Songdowon, ajuda a estabelecer uma cadeia jurídica e pode abrir um caminho estreito para o repatriamento. A dimensão do problema continua assustadora, mas a combinação de documentação, diplomacia e pressão jurídica já trouxe centenas de crianças de volta para suas famílias.

Em resumo

  • Autoridades ucranianas dizem que pelo menos duas crianças sequestradas foram enviadas ao acampamento de Songdowon, na Coreia do Norte, a cerca de 9 mil quilômetros de casa, para receber treinamento ideológico.
  • Kiev verificou a deportação de mais de 19.500 crianças, enquanto pesquisadores estimam que pelo menos 35 mil estiveram sob custódia russa desde 2022.
  • Investigadores documentaram mais de 210 instalações na Rússia e na Ucrânia ocupada que abrigam ou treinam menores deportados.
  • A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que exige o retorno de todas as crianças ucranianas deportadas desde 2014 e o fim das transferências forçadas e das adoções.
  • O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados contra o presidente russo e a comissária para os direitos das crianças por supostas deportações ilegais.
  • A Rússia nega ter cometido irregularidades, afirma que as crianças foram retiradas da região por segurança e cita os grandes números de menores que entraram no país durante a guerra.
  • A Ucrânia já trouxe de volta cerca de 1.800 crianças, muitas vezes com a mediação de terceiros países.
  • Especialistas defendem que o retorno de cada criança sequestrada seja uma condição para qualquer acordo negociado para encerrar a guerra.
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