Enxames de moscas-do-amor invadem a Coreia do Sul: uma crise se desenrola
No verão de 2025, a Coreia do Sul se viu às voltas com um surto sem precedentes de moscas-do-amor, conhecidas oficialmente como Plecia nearctica ou Plecia longiforceps. Esses pequenos insetos de asas pretas, frequentemente vistos voando aos pares durante o acasalamento, cobriram áreas urbanas e suburbanas, especialmente os arredores do monte Gyeyang, em Incheon, e a região metropolitana de Seul. A explosão repentina de sua população transformou trilhas, ruas e espaços públicos em corredores tomados por enxames, provocando desconforto e preocupação generalizados entre moradores e visitantes.
Conteúdo
- Enxames de moscas-do-amor invadem a Coreia do Sul: uma crise se desenrola
- O que são as moscas-do-amor e por que estão se espalhando?
- Resposta do governo: operações de emergência e novas estratégias
- Reação do público: frustração, adaptação e controvérsia
- Contexto científico e ecológico: as moscas-do-amor e a transformação do ambiente
- Mudanças nas políticas e o futuro do controle de pragas na Coreia do Sul
- Implicações mais amplas: mudanças climáticas e a disseminação de espécies invasoras
- Em resumo
As redes sociais foram inundadas por vídeos e imagens de pessoas caminhando entre nuvens de moscas-do-amor, vitrines cobertas de insetos mortos e funcionários municipais retirando com pás montes de insetos das calçadas. O surto levou milhares de pessoas a reclamar às autoridades locais, e muitos moradores exigiram medidas urgentes para que a vida cotidiana voltasse ao normal.
O que são as moscas-do-amor e por que estão se espalhando?
As moscas-do-amor são pequenas moscas nativas de regiões subtropicais, incluindo áreas do sudeste dos Estados Unidos, do sul da China, de Taiwan e das ilhas Ryukyu, no Japão. Elas receberam esse nome por seu comportamento característico durante o acasalamento: os pares permanecem unidos enquanto voam. Detectadas pela primeira vez na Coreia do Sul em 2015, acredita-se que tenham chegado por rotas comerciais vindas do sul da China, provavelmente pelo porto de Incheon.
Ao contrário dos mosquitos e das moscas que picam, as moscas-do-amor não ferroam, não picam nem transmitem doenças. Na verdade, suas larvas têm um papel benéfico no ecossistema: alimentam-se de matéria orgânica em decomposição e enriquecem o solo. No entanto, a enorme quantidade de insetos durante os surtos pode prejudicar a biodiversidade local, causar mau cheiro à medida que as carcaças se decompõem e gerar grandes transtornos para moradores e empresas.
Especialistas apontam vários fatores por trás do recente aumento da população de moscas-do-amor:
- Mudanças climáticas: O aumento das temperaturas e verões mais longos e quentes permitiram que espécies subtropicais, como as moscas-do-amor, expandissem sua distribuição para o norte. Seul, em particular, está esquentando rapidamente, um processo agravado pelo efeito de ilha de calor urbana: concreto e asfalto retêm calor e criam microclimas ideais para a sobrevivência dos insetos.
- Urbanização: Ambientes urbanos densos oferecem abundantes fontes de luz artificial, que atraem grandes quantidades de moscas-do-amor, além de locais úmidos e protegidos para a reprodução.
- Comércio global: O aumento da circulação de mercadorias e pessoas facilitou a introdução de espécies não nativas, como as moscas-do-amor, em novos ambientes onde elas podem não ter predadores naturais.
Park Sun-jae, pesquisador ambiental do Instituto Nacional de Recursos Biológicos, explica:
Cerca de uma semana a dez dias após o surgimento explosivo, a população tende a diminuir. Esperamos que a situação se estabilize em meados de julho.
No entanto, com a intensificação das mudanças climáticas, pesquisadores alertam que os surtos de moscas-do-amor podem se tornar um incômodo anual e que sua distribuição pode se estender por toda a península coreana até 2070, caso as tendências atuais continuem.
Resposta do governo: operações de emergência e novas estratégias
Diante da crescente pressão pública e do rápido agravamento da situação, o Ministério do Meio Ambiente da Coreia do Sul iniciou uma operação urgente de controle de pragas em 4 de julho de 2025, concentrada no epicentro do surto, no monte Gyeyang, em Incheon. A operação mobilizou 37 funcionários do ministério, com o apoio de 10 autoridades locais, equipados com sopradores, redes para insetos e pulverizadores de água. As principais tarefas incluíam:
- Remover fisicamente os enxames de moscas-do-amor de áreas públicas
- Recolher e descartar as carcaças dos insetos para reduzir o mau cheiro
- Instalar armadilhas luminosas desenvolvidas pelo Instituto Nacional de Recursos Biológicos, que se mostraram eficazes para atrair e capturar os insetos
Além das medidas imediatas de contenção, o governo ativou uma equipe de resposta a emergências disponível 24 horas por dia e reuniu um painel consultivo de entomologistas e ecologistas para garantir que as descobertas científicas mais recentes sejam aplicadas rapidamente em campo. O ministério também está ampliando o sistema de resposta conjunta, criado em 2023, para incluir Incheon, a província de Gyeonggi e outros municípios próximos, com o objetivo de agilizar a coordenação e a distribuição de recursos em futuros surtos.
Kim Tae-oh, diretor-geral do Departamento de Conservação da Natureza do Ministério do Meio Ambiente, ressalta a gravidade da situação:
A situação neste ano é particularmente grave, e as mudanças climáticas estão intensificando a instabilidade dos ecossistemas. Vamos acompanhar de perto os surtos e agir rapidamente em coordenação com os governos locais, oferecendo todo o apoio necessário em pessoal, equipamentos e orçamentos emergenciais.
Reação do público: frustração, adaptação e controvérsia
Apesar dos esforços do governo, muitos moradores continuam frustrados com os enxames persistentes e com o que consideram uma falta de medidas mais enérgicas. Alguns defendem o uso de pesticidas químicos para exterminar os insetos, enquanto outros manifestam preocupação com os impactos ambientais dessas medidas. As autoridades municipais de Seul têm, em geral, desaconselhado o uso de pesticidas, citando os possíveis danos a insetos benéficos e ao ecossistema como um todo. Em vez disso, recomendaram que os moradores borrifem água nas moscas-do-amor, usem placas adesivas e evitem roupas de cores vivas ou ficar perto de luzes à noite, que atraem os insetos.
Baek Eun-sil, diretora da equipe de prevenção de doenças infecciosas do distrito de Gyeyang, observa a dificuldade de conciliar as demandas do público com a responsabilidade ambiental:
Não conseguíamos dar conta do volume de reclamações. As pessoas diziam que, se não matássemos os insetos, eles eram repugnantes e assustadores demais, e que era insuportável conviver com eles.
Algumas autoridades locais provocaram controvérsia com suas declarações. Yoon Hwan, chefe do Escritório Distrital de Gyeyang, afirmou durante uma entrevista coletiva:
Se fossem pragas nocivas, faríamos a desinfestação, mas são insetos benéficos que melhoram a qualidade do solo, então não podíamos agir de forma agressiva. Em situações como essa, acho que o público precisa aprender a ter um pouco de paciência.
Comentários como esses aumentaram a frustração do público, pois muitos moradores sentem que suas preocupações estão sendo ignoradas em favor de considerações ecológicas.
Contexto científico e ecológico: as moscas-do-amor e a transformação do ambiente
As moscas-do-amor são um exemplo marcante de como o aquecimento global e a urbanização estão remodelando os ecossistemas e criando desafios para o controle de pragas em todo o mundo. Sua capacidade de prosperar em condições mais quentes e úmidas, somada à atração pela luz artificial, torna esses insetos particularmente adaptados às cidades modernas que enfrentam mudanças climáticas rápidas.
Shin Seung-kwan, professor de ciências biológicas da Universidade Nacional de Seul, explica a dinâmica ecológica:
Elas são atraídas pela luz e, por isso, costumam entrar nas cidades. Além disso, por causa do efeito de ilha de calor urbana, as larvas podem sobreviver ao inverno com mais facilidade.
Análises genéticas sugerem que as moscas-do-amor migraram do sul da China para a península de Shandong e chegaram à Coreia por meio do comércio. Desde que apareceram pela primeira vez em Incheon, em 2015, estabeleceram-se na região metropolitana de Seul, onde grandes surtos ocorrem todos os anos desde 2022.
Embora não representem riscos diretos à saúde humana, a presença em massa das moscas-do-amor pode prejudicar a biodiversidade local, afetar os ecossistemas urbanos e provocar desequilíbrios ecológicos. Pesquisadores da Universidade Nacional de Pusan e do Instituto de Seul alertam que a infestação é um sinal de mudanças ambientais mais amplas e de perturbações ecológicas, o que reforça a necessidade de ampliar a conscientização e as pesquisas para lidar com o problema de forma eficaz.
Mudanças nas políticas e o futuro do controle de pragas na Coreia do Sul
O surto atual expôs lacunas no marco jurídico e institucional da Coreia do Sul para o controle de espécies de insetos não nativas e incômodas. Atualmente, as moscas-do-amor não são oficialmente classificadas como pragas pelas normas nacionais, o que limita o financiamento, a coordenação e a capacidade de implementar medidas rápidas de resposta. O Ministério do Meio Ambiente está analisando reformas legais para classificar esses insetos como "espécies sob manejo", uma medida que simplificaria o apoio aos governos locais e permitiria intervenções mais rápidas e eficazes.
As autoridades também estão investindo em soluções de longo prazo, entre elas:
- Desenvolver ferramentas de previsão com inteligência artificial para prever e monitorar surtos de insetos
- Ampliar a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias de controle ecológicas e específicas para cada espécie
- Elaborar um manual nacional de controle de pragas e protocolos de resposta a ameaças emergentes
- Intensificar campanhas de educação e conscientização pública para promover práticas ambientalmente responsáveis de controle de pragas
O controle natural da população também pode ajudar: aves como pardais e pegas estão começando a se alimentar das moscas-do-amor, o que pode contribuir para regular sua população no futuro.
Implicações mais amplas: mudanças climáticas e a disseminação de espécies invasoras
A crise das moscas-do-amor na Coreia do Sul faz parte de uma tendência global mais ampla, na qual o aumento das temperaturas e as mudanças nos padrões climáticos permitem que espécies invasoras se estabeleçam em novas regiões. Fenômenos semelhantes foram observados em outros lugares, como a expansão para o norte do mosquito-tigre na Europa e do besouro-do-pinheiro-do-sul nos Estados Unidos. Essas mudanças podem ter impactos profundos nos ecossistemas locais, na agricultura, na saúde pública e na infraestrutura urbana.
Especialistas alertam que, à medida que o clima continua esquentando, a Coreia do Sul e outros países precisarão adaptar suas estratégias de controle de pragas, investir em pesquisa e monitoramento e fortalecer a cooperação internacional para enfrentar os desafios trazidos pelas espécies invasoras e pela instabilidade ecológica.
Em resumo
- A Coreia do Sul enfrenta um surto sem precedentes de moscas-do-amor, especialmente em Incheon e na região metropolitana de Seul, causando desconforto generalizado e desafios operacionais.
- As moscas-do-amor são insetos subtropicais não nativos que não representam riscos diretos à saúde, mas podem perturbar a vida urbana e os ecossistemas locais quando aparecem em grandes quantidades.
- As mudanças climáticas, as ilhas de calor urbanas e o comércio global contribuíram para a expansão das moscas-do-amor para o norte e para a explosão de sua população na Coreia do Sul.
- O governo lançou operações emergenciais de controle de pragas, com foco na remoção física dos insetos, em armadilhas luminosas e na coordenação entre órgãos, evitando o uso generalizado de pesticidas para proteger o meio ambiente.
- A frustração do público continua alta, com pedidos por medidas mais enérgicas e debates sobre o equilíbrio entre os benefícios ecológicos e o bem-estar humano.
- Estão em andamento reformas legais e investimentos de longo prazo em pesquisa, previsão de surtos e métodos ecológicos de controle para lidar melhor com futuros episódios.
- A crise das moscas-do-amor evidencia os desafios mais amplos impostos pelas mudanças climáticas e pelas espécies invasoras, ressaltando a necessidade de estratégias de controle de pragas adaptáveis e baseadas na ciência em um mundo cada vez mais quente.






