Milhares protestam em Bangkok: o maior ato contra o governo desde 2023
Em 28 de junho de 2025, Bangkok foi palco do maior protesto contra o governo desde que o partido Pheu Thai chegou ao poder, em 2023. Desafiando as fortes chuvas de monção, milhares de manifestantes se reuniram nos arredores do icônico Monumento da Vitória e exigiram a renúncia da primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra. Organizado pela coalizão nacionalista United Force of the Land, o protesto marca um momento decisivo na turbulência política que a Tailândia atravessa, com consequências para a frágil democracia do país, sua economia e suas relações regionais.
Conteúdo
- Milhares protestam em Bangkok: o maior ato contra o governo desde 2023
- O que provocou os protestos? A disputa de fronteira e a ligação vazada
- Quem são os manifestantes? Movimentos nacionalistas e facções políticas
- Repercussões políticas: racha na coalizão e ameaças judiciais
- Contexto histórico: a família Shinawatra e a divisão política da Tailândia
- Tensões regionais: o fator Camboja
- Impacto econômico e social: uma nação em alerta
- O que acontece agora? Cenários e consequências
- Resumo
O estopim imediato da agitação foi o vazamento de uma ligação telefônica entre Paetongtarn e o ex-primeiro-ministro cambojano Hun Sen. Somado a um confronto mortal na fronteira em maio, o episódio inflamou o sentimento nacionalista e expôs profundas divisões no governo e na sociedade tailandeses.
O que provocou os protestos? A disputa de fronteira e a ligação vazada
As raízes da crise atual estão em uma antiga disputa territorial entre Tailândia e Camboja, especialmente pela área ao redor do histórico templo de Preah Vihear. As tensões aumentaram em 28 de maio de 2025, quando um confronto na fronteira resultou na morte de um soldado cambojano. O incidente reavivou lembranças de conflitos anteriores, incluindo confrontos violentos em 2011 e as decisões da Corte Internacional de Justiça de 1962 e 2013, que concederam a área do templo ao Camboja — uma decisão que continua profundamente impopular entre muitos tailandeses.
Em meio aos esforços para reduzir a tensão, uma conversa telefônica entre a primeira-ministra Paetongtarn e Hun Sen vazou para o público. Na gravação, Paetongtarn chamou Hun Sen de “tio” e pareceu criticar um comandante do Exército tailandês, prometendo “cuidar” de quaisquer pedidos do líder cambojano. Para muitos nacionalistas tailandeses e apoiadores dos militares, esses comentários ultrapassaram um limite, sugerindo deferência a um líder estrangeiro e desrespeito às poderosas Forças Armadas da Tailândia.
Manifestantes e figuras da oposição rapidamente usaram o vazamento para acusar Paetongtarn de trair os interesses nacionais e enfraquecer a soberania tailandesa. A indignação aumentou ainda mais depois que o próprio Hun Sen condenou publicamente as ações dos militares tailandeses, em um discurso televisionado para milhares de pessoas em Phnom Penh, no qual pediu uma mudança no governo da Tailândia.
Quem são os manifestantes? Movimentos nacionalistas e facções políticas
O ato de 28 de junho foi liderado pela United Force of the Land, uma coalizão de ativistas nacionalistas com um longo histórico de oposição a governos apoiados pelos Shinawatra. Muitos participantes eram ligados aos chamados “Camisas Amarelas”, um grupo conservador e monarquista que teve papel central na deposição de Thaksin Shinawatra, pai de Paetongtarn, no golpe militar de 2006, e de Yingluck Shinawatra, sua tia, em 2014.
Os manifestantes agitaram bandeiras tailandesas, gritaram “Ung Ing, saia” (usando o apelido de Paetongtarn) e exibiram cartazes chamando-a de “primeira-ministra traidora”. A manifestação reuniu um público diverso, incluindo idosos, estudantes e ativistas, unidos pela preocupação com a soberania nacional e pela insatisfação com a forma como o governo conduziu a crise na fronteira.
Jade Donavanik, especialista em direito que discursou para a multidão, expressou a motivação dos manifestantes:
Estamos unidos aqui pela força da natureza para proteger nossa integridade nacional e territorial, defender nossa soberania e colocar o país no rumo certo. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger este país e trazer paz e prosperidade ao Reino da Tailândia.
Embora o protesto tenha sido em grande parte pacífico e terminado sem violência, os organizadores prometeram voltar caso suas exigências fossem ignoradas.
Repercussões políticas: racha na coalizão e ameaças judiciais
As repercussões políticas do escândalo foram rápidas e graves. O maior parceiro de coalizão do partido Pheu Thai, o partido Bhumjaithai, retirou seu apoio, citando preocupações com a ligação vazada e o risco à soberania tailandesa. Com a saída do partido, o governo de Paetongtarn ficou com uma maioria apertada — apenas 255 das 500 cadeiras da Câmara dos Representantes —, o que aumenta o risco de uma moção de desconfiança quando o Parlamento voltar a se reunir.
Além dos desafios parlamentares, Paetongtarn enfrenta um escrutínio jurídico crescente. Foram apresentadas petições à Corte Constitucional e à Comissão Nacional Anticorrupção (NACC), que alegam graves violações éticas e constitucionais relacionadas à ligação. A NACC já aceitou investigar o caso, e a Corte Constitucional pode decidir já na próxima semana se suspende Paetongtarn do cargo enquanto conduz uma investigação completa.
Paetongtarn pediu desculpas publicamente por seus comentários e afirma que agiu no interesse nacional. Ela disse a jornalistas:
Ficou claro pela ligação que eu não tinha nada a ganhar com ela e que também não causei nenhum prejuízo ao país.
Apesar das garantias, as ameaças jurídicas e políticas ao seu governo continuam graves.
Contexto histórico: a família Shinawatra e a divisão política da Tailândia
Não é possível compreender a crise atual sem considerar o papel central da família Shinawatra na política tailandesa nas últimas duas décadas. Thaksin Shinawatra, pai de Paetongtarn, foi eleito primeiro-ministro em 2001 e rapidamente se tornou uma figura polarizadora: era querido pelos eleitores rurais por suas políticas populistas, mas detestado pela elite urbana, pelos monarquistas e pelos militares. Sua deposição em um golpe militar, em 2006, abriu caminho para anos de instabilidade política. Seus aliados e familiares — entre eles sua irmã Yingluck — venceram eleições repetidamente, mas acabaram afastados por intervenções judiciais ou militares.
Os “Camisas Amarelas” e seus rivais, os “Camisas Vermelhas” (populistas que apoiam Thaksin), organizaram enormes protestos de rua, por vezes marcados pela violência e seguidos de novos golpes. Os tribunais e as agências independentes, frequentemente vistos como alinhados ao establishment monarquista, tiveram papel decisivo na desqualificação ou destituição de líderes apoiados pelos Shinawatra.
A chegada de Paetongtarn ao cargo de primeira-ministra, em 2023, foi vista por muitos como a continuação do legado político da família. No entanto, a percepção de que seu governo não cumpriu as promessas de campanha, a controvérsia em torno do retorno de seu pai do exílio e, agora, a disputa de fronteira enfraqueceram sua base de apoio e deram força a seus adversários.
Tensões regionais: o fator Camboja
A disputa de fronteira com o Camboja não é nova, mas continua sendo uma poderosa fonte de sentimento nacionalista nos dois países. O templo de Preah Vihear, situado em um penhasco ao longo da fronteira, é um foco de tensão há décadas. As decisões da Corte Internacional de Justiça favoráveis ao Camboja nunca foram plenamente aceitas por muitos tailandeses, e confrontos esporádicos mantiveram a questão em evidência.
Hun Sen, líder cambojano por muitos anos, deixou o cargo de primeiro-ministro em 2023, mas continua sendo uma figura poderosa como presidente do Senado. Ele mantém uma relação complexa com a família Shinawatra. Embora já tenha sido considerado um aliado, seus recentes ataques públicos a Paetongtarn e à família dela — nos quais pediu uma mudança no governo da Tailândia — aumentaram ainda mais as tensões.
Em seu discurso pelo 74º aniversário do Partido Popular do Camboja, Hun Sen declarou:
Este pobre Camboja sofreu invasões estrangeiras, guerras e genocídio, foi cercado, isolado e insultado no passado, mas agora se ergue em pé de igualdade com outros países.
Esse tipo de retórica encontrou eco entre os nacionalistas cambojanos e tornou mais complexos os esforços diplomáticos para resolver a disputa pacificamente.
Impacto econômico e social: uma nação em alerta
A turbulência política ocorre em um momento delicado para a economia da Tailândia. Já afetado pelo crescimento lento, pela queda do turismo e por ameaças externas, como possíveis tarifas dos Estados Unidos, o país agora enfrenta uma nova onda de incerteza entre investidores. A bolsa tailandesa está entre as que tiveram pior desempenho no mundo em 2025, enquanto bilhões de dólares em capital estrangeiro deixam o país em meio a temores de instabilidade e paralisia política.
Analistas alertam que a maioria apertada do governo pode dificultar a aprovação de projetos importantes, como o orçamento nacional e propostas controversas, a exemplo da legalização de cassinos. A possibilidade de novos protestos, disputas judiciais ou até mesmo uma eleição antecipada aumenta a sensação de imprevisibilidade.
Pesquisas de opinião indicam insatisfação generalizada com a liderança de Paetongtarn e o desempenho do governo. Muitos tailandeses, especialmente nas áreas urbanas, demonstram frustração com a falta de avanços em questões econômicas e sociais, além da percepção de impunidade das elites — reforçada pelo retorno de Thaksin do exílio e pelo tratamento leniente que recebeu do sistema de Justiça.
O que acontece agora? Cenários e consequências
À medida que a Tailândia entra em um período decisivo, vários cenários são possíveis:
- Moção de desconfiança: Com uma maioria apertada, o governo de Paetongtarn pode cair se um número suficiente de aliados da coalizão abandonar o governo ou se abster. Se a moção for aprovada, será escolhido um novo primeiro-ministro ou poderão ser convocadas novas eleições.
- Intervenção judicial: A Corte Constitucional ou a NACC pode suspender ou destituir Paetongtarn, como já ocorreu com outros líderes apoiados pelos Shinawatra. Isso provavelmente aprofundaria as divisões políticas e poderia provocar novos protestos.
- Intervenção militar: Embora analistas considerem improvável um golpe neste momento, o histórico de intervenções militares na Tailândia impede que essa possibilidade seja totalmente descartada, sobretudo se a agitação aumentar ou o governo cair.
- Acordo negociado: Paetongtarn pode tentar recompor sua coalizão, fazer concessões aos críticos ou até renunciar voluntariamente para evitar uma crise prolongada.
Seja qual for o desfecho, os acontecimentos de 28 de junho evidenciaram a persistente instabilidade da política tailandesa e os desafios de governar uma sociedade profundamente dividida.
Resumo
- Milhares de manifestantes em Bangkok exigiram a renúncia da primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra, citando uma ligação telefônica vazada com Hun Sen, do Camboja, e a insatisfação com uma disputa de fronteira.
- O protesto, o maior desde 2023, foi organizado por grupos nacionalistas com histórico de oposição a governos apoiados pelos Shinawatra.
- O escândalo rachou a coalizão de Paetongtarn, levou à abertura de investigações jurídicas e aumentou o risco de uma moção de desconfiança ou de sua destituição pela Justiça.
- A crise tem raízes em antigas divisões políticas, no controverso legado da família Shinawatra e em disputas territoriais não resolvidas com o Camboja.
- A economia e a reputação internacional da Tailândia estão sob pressão à medida que a incerteza política aumenta.
- As próximas semanas serão decisivas para determinar se Paetongtarn conseguirá permanecer como primeira-ministra ou se a Tailândia voltará a passar por uma mudança de liderança em meio a protestos em massa e disputas entre as elites.






