De volta para casa, diante de novas realidades: os desafios dos trabalhadores migrantes que retornam

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Migrant workers gather for book launch in Pasig | The Manila Times

A complexa jornada de volta para casa: por que a reintegração é tão desafiadora para trabalhadores migrantes que retornam

Para milhões de trabalhadores migrantes em toda a Ásia e em outras partes do mundo, a decisão de deixar o lar em busca de melhores oportunidades costuma ser motivada pela necessidade. No entanto, a jornada não termina quando eles voltam. Em vez disso, muitos enfrentam novos desafios — emocionais, sociais e econômicos — que podem ser tão intimidantes quanto a própria migração. As histórias de Ayu Rosita, da Indonésia, e Faye Miranda, das Filipinas, entre tantas outras, destacam as profundas dificuldades de se reintegrar às comunidades de origem após anos no exterior.

Conteúdo
  1. A complexa jornada de volta para casa: por que a reintegração é tão desafiadora para trabalhadores migrantes que retornam
  2. O que espera os trabalhadores migrantes quando voltam?
  3. Desafios psicossociais e emocionais: muito além da saudade de casa
  4. Obstáculos econômicos: de provedoras da família a pessoas em busca de emprego
  5. Respostas de governos e comunidades: elas são suficientes?
  6. Barreiras estruturais e políticas: a necessidade de uma abordagem abrangente
  7. Grupos vulneráveis e questões de gênero: quem enfrenta os maiores riscos?
  8. Lições de outras partes do mundo: perspectivas comparativas
  9. O panorama mais amplo: migração, desenvolvimento e futuro
  10. Em resumo

Com a mudança dos padrões globais de migração e a recuperação do mundo após a pandemia de COVID-19, a questão da reintegração dos trabalhadores migrantes que retornam tornou-se mais urgente do que nunca. Governos, organizações internacionais e grupos de base discutem como apoiar essas pessoas, cujas remessas há muito são uma tábua de salvação para as economias de seus países de origem, mas que agora têm dificuldade para reconstruir a própria vida.

O que espera os trabalhadores migrantes quando voltam?

O retorno para casa costuma ser imaginado como um reencontro alegre e uma volta ao que é familiar. No entanto, para muitos trabalhadores migrantes, a realidade é muito mais complexa. Após anos ou até décadas no exterior, eles podem encontrar suas cidades transformadas, suas redes de contatos reduzidas e suas habilidades desvalorizadas no mercado de trabalho local.

Ayu Rosita, que trabalhou por 15 anos como empregada doméstica na Arábia Saudita, voltou para sua aldeia em Java Ocidental, na Indonésia, e a encontrou irreconhecível. Novos negócios haviam surgido, as estradas estavam mais movimentadas e a maioria de seus amigos tinha se mudado ou falecido. "Eu me sentia uma estranha na minha própria aldeia. Ficava inquieta porque estava acostumada a trabalhar duro todos os dias e agora passo o dia inteiro em casa, sem muito o que fazer", contou. Sua experiência se repete entre muitas pessoas que retornam e enfrentam sentimentos de isolamento, perda e falta de propósito.

Da mesma forma, Faye Miranda, das Filipinas, voltou do Kuwait para cuidar do filho gravemente doente, mas o perdeu poucos dias após sua chegada. O luto, somado à culpa e ao fim abrupto de seu emprego no exterior, levou à depressão e a uma sensação de distanciamento de sua comunidade.

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Desafios psicossociais e emocionais: muito além da saudade de casa

O impacto emocional da reintegração é significativo. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), migrantes que retornam frequentemente sentem uma ruptura entre quem se tornaram durante o período no exterior e quem as pessoas que os conheciam antes esperam que sejam. Essa mudança de identidade pode provocar frustração, vergonha e ansiedade, sobretudo quando essas pessoas são recebidas com desconfiança ou estigma.

A exclusão social é um risco importante. Quem retorna pode ser visto como um fracasso se voltar sem ter acumulado um patrimônio significativo, ou como alguém de fora se tiver adotado novos sotaques, hábitos ou visões de mundo. Em alguns casos, como relatado na Indonésia e nas Filipinas, essas pessoas chegam a ser ridicularizadas por seus novos modos de agir ou têm dificuldade para se reconectar com os filhos e cônjuges após anos de separação. A falta de uma rede de apoio sólida pode intensificar esses sentimentos, levando à depressão e, em casos graves, a crises de saúde mental.

As mulheres, em particular, enfrentam desafios maiores. Um estudo da OIM constatou que mulheres que retornam frequentemente têm mais dificuldade do que os homens para acessar emprego, capacitação e serviços de saúde, sobretudo se sofreram abuso ou exploração no exterior. O trauma dessas experiências pode persistir muito depois do retorno, afetando sua capacidade de se reintegrar e reconstruir a vida.

Obstáculos econômicos: de provedoras da família a pessoas em busca de emprego

Um dos desafios mais urgentes para os trabalhadores migrantes que retornam é encontrar um emprego sustentável. Muitos deixaram seus países por falta de oportunidades de trabalho e, ao voltar, frequentemente encontram uma situação igual — ou ainda pior. Idade, falta de escolaridade formal e a percepção de que a experiência no exterior não se traduz em habilidades valorizadas no país de origem podem ser obstáculos para conseguir emprego.

Por exemplo, Ayu Rosita tentou abrir um negócio de criação de peixes e, mais tarde, uma pequena loja, mas enfrentou forte concorrência e margens de lucro reduzidas. Faye Miranda, apesar dos anos de trabalho duro no exterior, teve dificuldade para conseguir emprego em sua cidade, onde os empregadores preferiam candidatos mais jovens e com qualificações formais. Essas histórias não são casos isolados. Um estudo da OIM de 2019 constatou que 31% dos trabalhadores migrantes do Sudeste Asiático não tiveram nenhuma mudança em suas economias ao voltar, enquanto 21% viram suas economias diminuir e 17% contraíram dívidas.

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No Timor-Leste, uma pesquisa da Universidade Flinders revelou que menos da metade dos trabalhadores que retornaram conseguiu manter uma sensação de bem-estar, e muitos não encontraram empregos compatíveis com as habilidades adquiridas no exterior. Essa incompatibilidade frequentemente desperta o desejo de migrar novamente, perpetuando um ciclo de migração laboral e retorno.

Respostas de governos e comunidades: elas são suficientes?

Reconhecendo a dimensão do problema, governos de países que enviam muitos trabalhadores migrantes, como Indonésia e Filipinas, introduziram diversos programas de reintegração. Eles incluem assistência financeira, empréstimos com juros baixos, capacitação em empreendedorismo e cursos para aprimorar habilidades. A Indonésia, por exemplo, oferece empréstimos empresariais com juros baixos e faz parcerias com instituições de ensino para oferecer capacitação, enquanto a Administração de Bem-Estar dos Trabalhadores Filipinos no Exterior (OWWA) oferece subsídios e seminários de desenvolvimento de capacidades.

No entanto, o alcance e a eficácia desses programas continuam limitados. Em 2023, apenas uma pequena parcela das centenas de milhares de trabalhadores filipinos que retornaram foi beneficiada pela assistência financeira ou pelos programas de capacitação da OWWA. Muitas dessas pessoas, especialmente as que migraram por vias informais ou não têm documentação adequada, não conseguem acessar o apoio. O mesmo ocorre no Nepal e no Egito, onde os programas governamentais frequentemente excluem trabalhadores sem documentação, deixando-os dependentes de redes familiares ou obrigados a considerar uma nova migração.

Iniciativas de base e comunitárias surgiram para preencher algumas dessas lacunas. Na Indonésia, grupos informais de apoio e oficinas de empoderamento ajudaram pessoas que retornaram a reconstruir vínculos sociais e explorar novas oportunidades de sustento. Nas Filipinas, organizações como a Sandigan oferecem apoio psicossocial e um espaço para que essas pessoas compartilhem suas experiências e enfrentem traumas. Embora valiosos, esses esforços costumam ter poucos recursos e não alcançam a escala necessária para enfrentar os desafios sistêmicos mais amplos.

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Barreiras estruturais e políticas: a necessidade de uma abordagem abrangente

Especialistas concordam que uma reintegração bem-sucedida exige mais do que resiliência individual ou apoio pontual. A OIM e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) destacam a necessidade de estratégias coordenadas e articuladas em vários níveis, que abordem as dimensões econômica, social e psicossocial. Isso inclui:

  • Reconhecer e certificar as habilidades adquiridas no exterior para ampliar as perspectivas de emprego no país de origem
  • Oferecer serviços acessíveis de saúde mental e aconselhamento
  • Garantir que a educação financeira e a capacitação em empreendedorismo sejam adequadas à realidade dos mercados locais
  • Envolver as comunidades para reduzir o estigma e promover a aceitação de quem retorna
  • Desenvolver sistemas de dados robustos para relacionar as habilidades de quem retorna às oportunidades disponíveis

Iniciativas legislativas, como o projeto de lei 11130 da Câmara dos Representantes das Filipinas, buscam institucionalizar programas abrangentes de reintegração, com feiras de emprego, apoio a meios de subsistência, aconselhamento psicossocial e engajamento comunitário. Ainda assim, a implementação continua sendo um desafio, muitas vezes prejudicada por recursos limitados, entraves burocráticos e falta de coordenação entre órgãos.

Grupos vulneráveis e questões de gênero: quem enfrenta os maiores riscos?

Embora todas as pessoas que retornam enfrentem desafios de reintegração, alguns grupos são particularmente vulneráveis. Trabalhadoras migrantes, especialmente as que sofreram abuso ou exploração, frequentemente lidam com traumas, problemas de saúde e estigma social. Trabalhadoras domésticas, cujas habilidades são desvalorizadas nos mercados formais de trabalho, podem achar quase impossível conseguir um emprego estável ao voltar.

Crianças e adolescentes que retornam após anos no exterior podem enfrentar barreiras linguísticas, deslocamento cultural e dificuldades na escola. Famílias separadas pela migração frequentemente têm dificuldade para reconstruir seus relacionamentos, e as crianças às vezes apresentam problemas comportamentais ou baixo desempenho escolar. Longas ausências podem desgastar os casamentos, e casos de infidelidade não são incomuns, complicando ainda mais o processo de reintegração.

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Lições de outras partes do mundo: perspectivas comparativas

Os desafios enfrentados pelos trabalhadores migrantes que retornam não são exclusivos do Sudeste Asiático. No Nepal, a pandemia de COVID-19 obrigou centenas de milhares de trabalhadores a voltar para casa, e muitos foram excluídos do apoio governamental por falta de documentação. No Egito, a reintegração malsucedida levou a padrões de migração circular, em que trabalhadores partem e retornam repetidamente como estratégia de sustento. No Timor-Leste, a falta de reconhecimento formal das habilidades adquiridas no exterior deixou muitas pessoas que retornaram subempregadas e com vontade de migrar novamente.

Esses exemplos internacionais ressaltam a importância de políticas abrangentes e inclusivas, que atendam a todo o conjunto de necessidades de quem retorna. Sem esse apoio, o ciclo de migração e retorno provavelmente continuará, com todos os custos sociais e econômicos associados.

O panorama mais amplo: migração, desenvolvimento e futuro

As remessas dos trabalhadores migrantes são uma importante fonte de renda para muitos países. Em 2023, filipinos no exterior enviaram mais de US$ 40 bilhões para casa, o equivalente a quase 10% do PIB das Filipinas. Trabalhadores indonésios no exterior contribuíram com US$ 11 bilhões, o equivalente a 0,8% do PIB do país. Esses recursos sustentam famílias, impulsionam as economias locais e, em alguns casos, ajudam comunidades inteiras a sair da pobreza.

No entanto, depender da migração laboral como estratégia de desenvolvimento tem desvantagens. Como observa Angelo Jimenez, presidente da Universidade das Filipinas e defensor dos direitos trabalhistas:

As remessas dos trabalhadores migrantes contribuíram muito para as economias desses países, a ponto de alguns governos dedicarem mais tempo a promover e incentivar o trabalho no exterior do que a desenvolver suas próprias indústrias. O mais importante para um país é oferecer empregos, para que migrar seja apenas uma escolha, e não uma necessidade.

Enquanto países como Filipinas e Indonésia buscam equilibrar os benefícios da migração com a necessidade de um desenvolvimento sustentável em seus territórios, as experiências dos trabalhadores migrantes que retornam oferecem lições valiosas. Garantir que migrar seja uma escolha, e não uma necessidade, exige investimentos na criação de empregos no país, na educação e em sistemas de proteção social capazes de apoiar tanto quem parte quanto quem volta.

Em resumo

  • Trabalhadores migrantes enfrentam desafios emocionais, sociais e econômicos significativos ao voltar para casa, incluindo isolamento, estigma e poucas oportunidades de emprego.
  • Mulheres e grupos vulneráveis, como trabalhadores domésticos e migrantes sem documentação, frequentemente encontram mais barreiras à reintegração.
  • Existem programas governamentais de reintegração, mas eles costumam alcançar apenas uma pequena parcela de quem retorna e podem não atender às suas necessidades reais.
  • Grupos de apoio comunitários e iniciativas de base têm um papel crucial no apoio psicossocial e na criação de vínculos sociais.
  • Políticas abrangentes e coordenadas, que reconheçam habilidades, ofereçam apoio à saúde mental e promovam oportunidades econômicas, são essenciais para uma reintegração sustentável.
  • A dependência excessiva da migração laboral para o desenvolvimento econômico pode prejudicar a criação de empregos no país e perpetuar ciclos de migração e retorno.
  • Garantir que migrar seja uma escolha, e não uma necessidade, exige investimentos de longo prazo nas economias locais, na educação e em sistemas de proteção social.
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